Vale a pena examinar o que dizem dois outros escritores sobre esses temas. Um deles é Johann Jakob Bachofen, jurista e filósofo social suíço do século passado, cuja abordagem poética do mito faz um agradável contraponto à admiravelmente sutil definição do mito registrada no Concise Oxford Dictionary, como "uma história inverídica".
Assim, a atividade da natureza, sua criação e formação engenhosas eram simbolizadas na fiação, no trançado e na tecelagem; todavia, essas tarefas relacionavam-se, ainda de outras maneiras, com a obra de criação telúrica. Na tecedura de dois fios, podia-se perceber o poder duplo da natureza, a interpenetração dos dois princípios sexuais, requisito indispensável para toda geração. O sexual estava ainda mais manifesto na ação do tear. Essa relação psico-erótica também compreende a idéia de fatum e de destino. O fio da morte é tecido na teia de que todo organismo telúrico consiste. A morte é a suprema lei natural, o fatum da vida material, diante da qual os próprios deuses se curvam e sobre a qual não podem pretender ter domínio. Assim, a trama da criação telúrica torna-se a trama do destino; o fio torna-se o mensageiro do destino humano e Eileitéia, a parteira, a boa fiandeira, torna-se a grande Mova que é ainda mais velha do que o próprio Crono. O tear, veículo da suprema lei da criação escrita nos astros, era atribuído às divindades celestes na sua celestial natureza. E, finalmente, essa vida humana e o cosmo inteiro eram vistos como uma grande trama do destino.
Excetuando-se sua obsessão pela palavra "telúrico", Bachofen realmente não precisa ser parafraseado, de forma que o citei literalmente. Aqui, em sua intricada rede de relações, podemos começar a ver o ponto a partir do qual a própria astrologia — Heimarmenê, a "compulsão planetária" ou a lei natural do céu e da terra — é fragmento e parte do corpo celestial da Grande Mãe. Esse é um mito da criação que antecipa Javé do Velho Testamento, pois aqui o original poder criativo no cosmo é a grande deusa Moira. Essa organização harmoniosa das esferas celestiais é o seu desígnio, e o deslumbramento que causa essa extraordinária imagem zomba delicadamente de nosso conceito ordinário de um destino que pode ser lido na borra do café deixado no fundo da xícara. É essa imagem que acho que tocamos e invocamos quando ponderamos sobre a roda do horóscopo, pois essa imagem antiga jaz em nós mesmos. Talvez seja assim que o corpo tenha uma experiência de si mesmo como possuindo uma duração determinada. A imagem de Moira não se apaga quando o intelecto racional sobe a alturas impressionantes. Posto que arcaica, ela simplesmente retorna ao mundo subterrâneo de onde surgiu há muito tempo atrás e onde a fiação e a tecelagem continuam despercebidas e sem interrupção, apenas para emergir à luz do dia como uma experiência de "meu destino".
Vou citar uma outra passagem de Bachofen, pois iremos ver, mais adiante, sua relevância.
Nas escuras profundezas de ogygianas da terra, elas tecem toda a vida e enviam-na para cima, para a luz do sol; e na morte tudo retorna a elas. Toda a vida salda seu débito para com a natureza, isto é, para com a matéria. Desse modo, as Erínias, assim como a terra à qual pertencem, regem tanto a morte quanto a vida, pois ambas são abarcadas pelo ser material, telúrico. . . No seu outro aspecto, as amáveis Eumênides são as terríveis e cruéis deusas, hostis a toda vida terrestre. Nesse aspecto, elas se comprazem na catástrofe, no sangue e na morte; nesse aspecto, são monstros detestáveis, sanguinários e horrendos, a quem Zeus "declarou proscritos". Nesse aspecto, elas distribuem ao homem sua merecida recompensa.
Quando as Erínias entram em cena em Orestéia a última peça de Ésquilo, é essa face mais sombria que mostram:
Nossa missão é justa e sanguinária, não somos jamais enviadas para ferir os inocentes. Mostre-nos suas mãos. Se estiverem vermelhas, você dormirá profundamente no seu leito. Mostre-nos suas mãos. Esquerda. Direita.
Você será poupado se elas estiverem brancas. Mostre-nos suas mãos. Sabemos que há alguém cujas mãos estão vermelhas e não ousa mostrá-las.
Para homens iguais a este cujas mãos estão vermelhas, trazemos o rancor sanguinário dos mortos.
A deusa da vida nos deu estes poderes,
que são nossos, para todo o sempre nossos. Quando surgimos, os confins estavam demarcados. Nós e os Olímpicos não temos relações íntimas.
O alimento é oferecido a um dos dois, mas não a ambos. Não usamos vestes brancas, nem eles usam vestes negras.
Não tenho nenhuma dúvida de que nós também, neste século, a exemplo de Zeus, os proscrevemos. Desde o início da era cristã nossos deuses têm usado apenas trajes brancos. Contudo, essas coisas permanecem como imagens eternas nas profundezas. Veio-as com tanta freqüência nos sonhos de virtualmente todos os pacientes que tenho analisado, que não acho que seja diferente. Na tragédia de Esquilo, elas atormentam Orestes até a loucura pelo assassínio da mãe, apesar de o próprio Apoio exigir essa chacina; e Ésquilo oferece-nos visão muito interessante sobre o modo pelo qual este aspecto retaliativo do destino, que pune o transgressor da lei natural, poderia ser observado no homem moderno.
Mesmo um século após Ésquilo, os homens Já não mais acreditavam naquelas temíveis damas com garras em vez de pés e serpentes em vez de cabelos, asas de abutre e vozes de mocho. Há muito que o mundo ocidental já as deixou para trás. Todavia, uma visita ao hospital psiquiátrico mais perto pode, efetivamente, nos reintroduzir à sua atual manifestação desincorporada. Gostaria de sugerir que a pessoa homem ou mulher, que transgride com demasiada brutalidade a lei natural de seu próprio ser talvez corra o risco de pagar o preço naquilo que agora conviemos chamar de "doença mental". Não existe nenhuma justiça nisto, pois essas transgressões em geral são feitas inconscientemente, e não se pode culpar a pessoa por aquilo de que ela é ignorante. No entanto, as Erínias não são justas sequer no modo como tratam Orestes; ele não tem escolha alguma e é coagido a cometer seu assassinato pelo deus Apoio, ainda que, não obstante, tenha de pagar o preço. Pessoalmente, às vezes, acho mais criativo considerar as Erínias como guardiãs da lei natural, em vez de recorrer a termos que não compreendo cabalmente, tais como esquizofrenia, mas, sem dúvida, qualquer pessoa que clã atenção às Erínias hoje em dia é um esquizofrênico. Seja como for, acho imensamente valioso saber, quando se trabalha como astrólogo, de que forma as leis naturais são representadas pelo horóscopo e em que esfera uma "transgressão" está sendo perpetrada, intencionalmente ou não; e se e de que modo essa transgressão poderia ser corrigida, a fim de que as Erínias não persigam aquela pessoa interna ou externamente, na qualidade de um "destino desfavorável".
O terceiro escritor que contribuiu com interpretações decisivas para o misterioso complexo de imagens psicológicas sobre o destino, o inconsciente, a mãe e o mundo, é Erich Neumann. No seu livro A Grande Mãe, ele escreve:
A sensação vital de toda consciência do eu que se percebe diminuído com relação às potestades é dominada pela preponderância do Grande Círculo que contém toda mudança. Este arquétipo pode ser vivenciado exteriormente enquanto mundo ou natureza, ou interiormente enquanto destino e inconsciente. . . Assim, o aspecto terrível do Feminino inclui sempre a urobórica mulher-cobra, a mulher provida de falo, a união entre a gravidez e a procriação, entre a vida e a morte. . . Na Grécia, a Górgona na figura de Ártemis -Hécate é também a regente dos caminhos noturnos, do destino e do mundo dos mortos.
A essa altura, poder-se-iam lembrar as feiticeiras barbadas de Macbeth, que são mulheres fálicas: o feminino que contém sua própria força procriadora ou geradora. Essas mulheres criam e destroem a vida de acordo com suas próprias leis, e não com as de um esposo, consorte ou rei. A Noite-Mãe ou a deusa Necessidade dá origem às Moiras e às Erínias por partenogênese, ou seja, sem o auxilio do esperma masculino. O trecho acima citado contém algo que acho extremamente importante que o astrólogo leve em conta: a pessoa mais aterrorizada pelo destino e mais intimidada pelo que ela vivencia como suas inclinações mais sombrias e mais destrutivas da alma e da vida, é a pessoa na qual o sentimento do ego, o sentimento de "eu mesmo", é o mais fraco. Isso traz consigo certa implicação para o próprio estudioso de astrologia, pois que muitos de nós aprendemos nossa arte por essa simples razão e compartilhamos esse problema com nossa clientes. Uma consciência desse problema comum pode ser imensamente criativa, mas uma inconsciência dele favorece exatamente as Erínias e reforça o temor ao destino.
Quando as Erínias cantam que "o alimento é oferecido a um dos dois, mas não a ambos", elas estão enunciando um dilema comum: ou vivemos aterrorizados pelo destino, pelo fato de que ainda não encontramos nenhum sentido de genuína individualidade, ou repudiamos a própria idéia de destino exatamente pela mesma razão. Assim, o astrólogo não só é conivente com seu cliente, como também com o exacerbado cético, que tem medo da mesma coisa. Assim como o psiquiatra se identifica secretamente com seu louco paciente, o problema do destino nos compromete não só com os que temem o aspecto retaliador da vida, senão também com os que rejeitam qualquer outra coisa que não a autonomia da consciência racional. Embora não esteja certa sobre as ramificações disso, desconfio que ela se deve parcialmente ao fato de que tão amiúde a astrologia se lança sobre o inconsciente, de outra parte à razão pela qual a apaixonada acumulação de estatísticas tornou-se necessária e parte ainda ao fato de que o astrólogo individual se sente quase sempre perseguido pelas pessoas "normais". Ora, não estou insinuando que um forte sentimento de identidade pessoal faça com que o destino desapareça. Não seria tão estúpida a ponto de sugerir tal coisa, nem Newmann o seria, a meu ver. No. entanto, o ato de entrar em acordo com o "meu destino" de uma maneira criativa, e não afetada pelo medo, talvez resida, em grande parte, no sentimento que cada um possui de ser um indivíduo.
Neumann prossegue dizendo:
O macho permanece inferior e à mercê do Feminino que o afronte como um poder do destino... O símbolo de Odin dependurado na árvore do destino é típico deste estágio em que o herói-rei era caracterizado meramente pela aceitação da sorte. . . Essa sorte pode aparecer na forma de uma velha e maternal mulher, que preside o passado e o futuro; ou na forma de uma jovem e fascinante figura, como a alma.
O autor esforça-se para assinalar que, quando ele está se referindo ao "ego masculino", não está com isso falando de homens, mas, ao contrário, aludindo ao centro de consciência tanto nos homens como nas mulheres, que é "masculino" no sentido de que é dinâmico, motivado para a diferenciação. Em resumo, ele se assemelha ao Sol em contraste com as difusas e nubladas profundidades lunares do Inconsciente. Tenho absoluta certeza de que o Sol, astrologicamente considerado, constitui um ponto no horóscopo que talvez seja mais acessível aos homens em geral, porque representa uma motivação masculina, orientada para uma meta; o Sol, todavia, significa a mesma coisa no horóscopo de uma mulher, sendo, além disso, o símbolo da consciência diferenciada do ego em ambos os sexos. Nesse sentido, Neumann não está nem um pouco preocupado com questões "sexológicas", e seria absurdo interpretá-lo assim. Ele está falando sobre um dilema com que se defrontam tanto os homens como as mulheres: o sentimento de impotência e de inutilidade que todos nós experimentamos diante dessas constrangedoras erupções da psique que se abatem sobre nós como o destino, por um lado. Não se pode deixar de ver, por outro lado, implícita nessa passagem uma das raízes arquetípicas daquele terror que com tanta freqüência se insinua nos relacionamentos entre macho e fêmea, nos quais a mulher afigura ser, por projeção ou talvez na realidade, a mensageira do destino para o homem. E este, irado e ameaçado pelas "forças" sobre as quais não tem nenhum controle, tenta, assim como Zeus, declarar proscrito o valor da mulher.
O mistério primordial da tecedura e da fiação tem sido também vivenciado na projeção sobre a Grande Mãe que tece a trama da vida e fia o fio do destino, sem importar se ela aparece como uma Grande Fiandeira ou, como ocorre tão freqüentemente, numa tríade lunar. Não é por acaso que falamos em tecidos do corpo, pois o tecido composto pelo Feminino no cosmo e no útero da mulher é a vida e o destino. E a astrologia, o estudo de um destino governado pelos astros, ensina que ambos começam ao mesmo tempo, no momento temporal do nascimento.
O problema do poder ameaçador que o ego experimenta como uma propriedade do inconsciente não é, conforme tenho dito, uma questão sexológica. E uma questão humana, ao que me parece, e tenho encontrado tanto mulheres que correm de medo de suas próprias profundezas, quanto homens dominados pelo mesmo temor. Não obstante, o medo talvez seja o começo de sabedoria, segundo nos ensina o Velho Testamento, pois esse medo do poder do destino é, no mínimo, um reconhecimento. Estou, portanto, inclinada a questionar se é válido dizer a um cliente que veio em busca de uma leitura de horóscopo, que um mapa astral "apenas" sugere potencialidades que ele poderá superar ou dominar como preferir. Não estou sugerindo que devamos regredir a um nível arcaico, onde o ego retroceda ao terror primitivo e à aceitação passiva do destino que caracteriza tanto as culturas antigas como a criança moderna. Empenhamo-nos durante vários milênios em sermos capazes de fazer algo mais do que isso. Mas a hubris, em compensação, não erradica a imagem arquetípica do destino que reside nas profundezas da psique do cliente e do astrólogo. Tampouco essa atitude poupará o cliente de seu destino.
O destino feminino que estamos investigando constitui, em certo sentido, o paralelo psíquico dos padrões genéticos herdados da linhagem familiar. Ou, num sentido mais amplo, é a imagem arquetípica para os instintos mais primitivos que se contorcem dentro de nós. Esse é o destino de partilha, de fronteiras ou de limites que não podem ser cruzados. É o circulo além do qual a pessoa não pode passar durante a sua existência, sejam quais forem as potencialidades ilimitadas que possa perceber em si mesma, visto que gerações construíram esse círculo pedra sobre pedra. O destino e a hereditariedade, por conseguinte, estão intrinsecamente ligados, e a família representa um dos grandes instrumentos do destino. Mais tarde, vamos examinar melhor essa questão.
Quando vista sob essa luz, Moira é um dos impulsos inatos na psique individual e coletiva e sua função é manter a justiça e a ordem no reino natural dos instintos. Visto que nossos impulsos básicos estão representados, no simbolismo astrológico, pelos planetas, é razoável supor que o antigo princípio retaliador de Moira esteja configurado no horóscopo por um dos planetas, assim como por quaisquer outros signos e casas relacionados com esse planeta. Ademais, é razoável supor que, visto termos proscrito o destino e fingirmos, nos dias de hoje, que ele não existe, sejamos igualmente ignorantes dessa dimensão de seu significado dentro da astrologia. Em certa medida, poderíamos ainda considerar que a imagem que preside o destino retaliador é a imagem de um instinto para fixar fronteiras proscritas dentro de uma pessoa. Moira é a guardiã do direito natural dentro do indivíduo, e ela é tão necessária para o equilíbrio do corpo e da mente quanto outros e mais extrovertidos e transcendentais impulsos.
Acho muito produtivo, na interpretação de símbolos astrológicos, ser por vezes descaradamente não-racional e trabalhar com imagens que esses símbolos evocam, em vez de fazer conceituações ou reduzir a palavras-chave essas antigas e sagradas figuras que por tantos séculos foram percebidas e vivenciadas como deuses. Ainda não sabemos, realmente, o que elas são. É mais aceitável agora, para os propósitos de avaliação e de compreensão coletiva, chamá-las de impulsos, motivações ou desejos arquetípicos. Mas acho que o astrólogo, e também o analista, podem tirar proveito do método de ampliação, de Jung, a fim de se acerarem mais da essência da linguagem astrológica. Poderíamos, inclusive, ir além e visionar a experiência astrológica como o encontro com uma divindade, um numen, em vez de raciocinar em termos de motivações ou desejos. Pois essas coisas não são as mesmas? Talvez nem sempre seja sensato apropriar-se de tudo o que existe dentro de nós como se fosse "meu", quer dizer, propriedade do ego. Nossos impulsos inatos, no final das contas, não estão mais sujeitos à dissecação e ao controle racional, do que os daimones de Platão, que são dados a cada pessoa no nascimento e moldam seu caráter durante toda a existência. Poderia ser importante admitir, particularmente quando estamos lidando com coisas semelhantes ao destino, que existem aspectos de nossas "motivações" que nos ultrapassam, que são transpessoais, independentes, até mesmo infernais ou divinos.
Encontrar determinado planeta em um signo e em uma casa zodiacal é como entrar num templo e encontrar a manifestação de um deus desconhecido. Podemos encontrar essa divindade como uma experiência concreta "exterior" ou por intermédio de uma outra pessoa que é a máscara através da qual o rosto do deus se mostra; através do corpo; através de uma ideologia ou visão intelectual; através de uma atividade criativa; como uma emoção motivadora. Muitas vezes, vá-rias dessas manifestações são vivenciadas juntas, tornando-se difícil ver a unidade entre o que está acontecendo na vida exterior e o que está acontecendo na vida interior. Todavia, o planeta constrói uma ponte sobre o abismo entre o "exterior" e o "interior" e nos fornece uma ligação significativa, pois os deuses vivem nos dois mundos simultaneamente.
Encontrar a personificação de tudo o que até agora investigamos, destilado na imagem de Moira, é encontrar o que é compulsivo e primordial. É um confronto com a morte e o desmembramento, pois Moira quebra o orgulho e a vontade do ego em pedacinhos. Por ser ela imutável, nós é que somos transformados. Ela é mais forte do que os desejos e a determinação do ego, mais forte do que as razões do intelecto, mais forte do que o dever, os princípios e as boas intenções mais forte ainda do que a fé individual. Platão imaginou-a entronizada no centro do universo, com a roca cósmica assentada entre os seus joelhos, enquanto suas filhas, reflexos diferenciados de seu próprio rosto, guardam os limites da lei natural e punem os transgressores com intenso sofrimento. A sabedoria de Moira deve ser encontrada no desespero e na depressão, na inutilidade e na morte. Seu segredo é o que guia e fortalece a pessoa quando ela própria já não consegue mais se sustentar, e aquilo que a mantém atrelada ao seu próprio e único esquema de desenvolvimento.
A necessidade inata de descer do mundo das aparências para a "ligação invisível" e para a personalidade oculta leva ao mundo interior do que quer que seja dado. A necessidade autóctone da psique, seu desejo natural de compreender psicologicamente, assemelhar-se-ia àquilo que Freud chama de instinto de morte e àquilo que Platão introduziu como o desejo pelo Hades... Ele age através da destruição, dissolução, decomposição, separação e dos processos de desintegração necessários tanto à psicologia alquímica quanto à moderna psicanálise
Essa descrição feita por James Hillman sugere que a coisa que guarda as fronteiras circunscritas da natureza também procura conhecer a sua própria fiação: é o meu destino que busca a explicação de si mesmo. Essa deusa do destino, enquanto "serva da Justiça", é, a meu ver, representada com mais ênfase no panteão planetário da astrologia. Dentro do horóscopo, eu diria que aquilo que os gregos conheciam como as Erínias, a face retaliativa de Moira, nós costumamos chamar Plutão.
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domingo, 5 de junho de 2011
O Destino e o Feminino, por Liz Greene (2)
Talvez uma das razões por que existe uma inevitável associação entre o destino e o feminino seja a inexorável experiência de nossos corpos mortais. O ventre que nos gera, e a mãe a quem abrimos nossos olhos pela primeira vez, é, no princípio, o Inundo inteiro e o único árbitro da vida e da morte. Enquanto experiência psíquica direta, o pai é, na melhor das hipóteses, uma conjetura, mas a mie é o fato da vida primário e mais real. Nossos corpos estão em harmonia com os corpos de nossas mães durante a gestação que precede qualquer individualidade independente. Se não temos memória do estado intra-uterino e das contorções do parto, nossos corpos tem, e também a psique inconsciente. Tudo que se relaciona com o corpo pertence, pois, ao mundo da mãe — nossa hereditariedade, nossas experiências de dor e prazer físicos e até mesmo nossa morte. Assim como não conseguimos nos lembrar do tempo em que ainda não existíamos, simples ovo no ovário materno, também não conseguimos imaginar o tempo em que deixaremos de existir, como se o lugar de saída e o lugar de regresso fossem o mesmo. O mito sempre ligou o feminino com a terra, com a carne e com os processos de nascimento e de morte. O corpo em que uma pessoa vive seu período de tempo devido provém do corpo da mãe, e essas características e limitações inerentes a nossa herança física são experienciadas como destino: o que está escrito nos hieróglifos do código genético que se estende até eras atrás. O legado físico dos antepassados constitui o destino do corpo e, embora a cirurgia plástica possa modificar o formato de um nariz ou corrigir uma arcada dentária, mesmo assim nos contam que vamos herdar as doenças de nossos pais, suas predisposições à longevidade ou à ausência dela, suas alergias, seus apetites, seus rostos e suas estruturas ósseas.
Assim, o destino é imaginado como feminino porquanto é experienciado no corpo, e as predisposições inerentes ao corpo não podem ser alteradas malgrado a consciência que habita a carne — assim como Zeus não pode, em última análise, alterar Moira. Os impulsos instintivos de uma espécie constituem também o domínio de Moira, pois estes são também inerentes à matéria e, ainda que não sejam exclusivos de uma ou de outra família, são universais no que diz respeito ao género humano. É como se não pudéssemos infringir aquilo que em nós representa a natureza e que pertence à espécie — por mais que o reprimamos ou o alimentemos com cultura. Nesse sentido Freud, malgrado ele próprio, aparece como um dos grandes animadores do destino enquanto instinto, porque foi compelido a reconhecer a força dos instintos como modeladora do destino humano. O instinto de procriar, diferenciado daquilo a que chamamos de amor, existe em todas as espécies vivas e o fato de que opera como uma força do destino pode ser observado nos encontros sexuais compulsivos e nas suas conseqüências que virtualmente pontuam toda vida humana. Não é de se estranhar que os povos nórdicos igualassem o destino aos órgãos genitais. Da mesma forma, o instinto de agressão existe em todos nós e a história da guerra, que eclode, não obstante nossas melhores intenções, é testemunha da "fatalidade" desse instinto.
A alma também é representada como feminina, e a grande obra poética de Dante em louvor à sua Beatriz morta ergue-se como um dos nossos mais impressionantes testemunhos do poder do feminino em afastar o homem da vida mundana e alçá-lo às alturas e profundezas de seu ser interior. Jung tem muita coisa a dizer sobre a alma como anima, a parte feminina subjetiva que pode levar um homem tanto aos tormentos do inferno como aos êxtases do céu, acendendo o fogo de sua vida criativa e individual. Aqui, o destino parece provir de dentro, através das paixões, da imaginação e da incurável aspiração mística. Não importa se é uma mulher de verdade que desempenha esta função na vida de um homem ou não, apesar disso a alma irá empurrá-la na direção do destino dele. Essa alma estabelece limites, também; ela não haverá de permitir que ele voe alto demais e das maldições das histórias de fadas são tarefas altamente ritualizadas. Somente a vontade não pode fazer nada. Até mesmo onde a inteligência serve como um meio de abordagem, ela deve estar associada ao ritmo do tempo e ao auxílio de fatores estranhos e muitas vezes mágicos. Freqüentemente, o socorro vem dessas mesmas ignóbeis fadas, ou de seus lacaios, que lançaram o feitiço antes. Ora é o coração que opera a transformação, assim como o amor da Bela transforma a sua Fera; ora é a passagem do tempo, como é o caso da Bela Adormecida. Outras vezes, o herói deve fazer, desesperadamente, uma longa e cansativa viagem até o fim do mundo, cercado pelas trevas e pelo desespero, a fim de encontrar o objeto milagroso que irá salvar o reino. No entanto, a solução do feitiço ou maldição depende de outras faculdades que não as racionais, e nenhuma solução pode dar certo sem o secreto conluio das fadas ou das próprias parcas. Isso sugere um outro mistério sobre nossa face feminina do destino; embora ela possa se contrapor à omissão ou punir e transgressão da lei natural, ainda assim age nas trevas ocultas para entrar em contato com a vontade alienada do homem, antes que o rompimento aumente demais e se torne premente um desfecho trágico. Os temas dos contos de fadas são mais modestos e aparentemente mais mundanos do que as gloriosas representações teatrais das grandes sagas míticas populares. Todavia, em alguns aspectos, eles têm mais importância para nós por serem mais acessíveis, exuberantes, imaturos e mais próximos da vida comum. E eles sugerem, no ponto onde o mito falha, que seria possível construir uma ponte entre o homem e Moira, se respeito, esforço e ritos propiciatórios adequados forem oferecidos.
Inúmeros exploradores de caminhos inexplorados da psique tentaram entender o fato curioso de que o ser humano, esbarrando de leve nos profundos impulsos subjetivos que representam a sua necessidade, dá ao seu destino um nome e um rosto de mulher. O mais importante desses investigadores é Jung, que escreveu longamente, em vários volumes de suas Obras reunidas, sobre o destino tal como ele o sentiu na sua própria vida e nas vidas de seus pacientes. As vezes, ele se refere ao instinto como uma força compulsiva e dá a impressão de equipará-lo a uma espécie de destino biológico ou natural: o vôo do ganso selvagem é o seu destino, da mesma forma que a erupção da semente em muda, rebento, folha, flor e fruto. Assim também é o "instinto" de individuação, que leva um homem a tornar-se ele mesmo. Destino, natureza e finalidade são aqui uma só e mesma coisa. Meu destino é o que sou, e o que sou é também a razão por que sou e aquilo que me acontece.
Jung também escreveu sobre o espectro do instinto e do arquétipo, o primeiro como o determinante do comportamento físico ou natural, o último como o determinante da percepção e da experiência psíquicas. Ou, expressando de outra forma, a imagem arquetípica — tal como a imagem das três Parcas — representa a experiência ou percepção psíquica do esquema instintivo, encarnado em figuras que são numinosas ou divinas.
Os instintos são equivalentes muito próximos dos arquétipos — tão próximos, na verdade, que existe uma boa razão para supor que os arquétipos sejam as imagens inconscientes dos próprios instintos; noutras palavras, eles são padrões do comportamento instintivo.
Instinto e arquétipo são, portanto, dois pólos do mesmo dinamismo. O instinto acha-se incluído em, ou é a força ativa que se expressa através de todo movimento de cada célula de nossos organismos físicos: a vontade da natureza que governa o desenvolvimento ordenado e inteligente e a perpetuação da vida. Mas o arquétipo, revestido em sua imagem arquetípica, é a experiência psíquica desse instinto, a força ativa que se expressa através de todo movimento esboçado por cada fantasia, por cada sentimento e por cada vôo da alma. Essa imagem que é mais antiga que o mais antigo dos deuses, a face primordial de Moira, é a percepção psíquica da lei imutável, inerente à vida. Somos aquinhoados com nossa sorte, e nada mais. Jung chegou perto de um mistério que o intelecto tem grande dificuldade em compreender: a união do subjetivo com o objetivo, do corpo e da psique, do indivíduo com o mundo, do fato exterior com a imagem subjetiva. Ele fala do arquétipo, por um lado, como uma modalidade herdada de funcionamento, um padrão inato de comportamento semelhante àquele que podemos observar em todos os reinos da natureza. Mas, por outro lado, ele é alguma coisa mais também.
Este aspecto do arquétipo é o aspecto biológico. . . No entanto, o quadro muda imediatamente quando olhado de dentro, isto é, de dentro do domínio da psique subjetiva. Aqui, o arquétipo se apresenta como numinoso, ou seja, aparece como uma experiência de importância fundamental. Sempre que se reveste com os símbolos apropriados, o que nem sempre é o caso, ele coloca a pessoa num estado de possessão, cujas conseqüências podem ser imprevisíveis.
São justamente essas "conseqüências imprevisíveis" que parecem se introduzir na vida como acontecimentos predestinados de fora. Eis então a doença da paralisia, o acidente estranhamente acontecido na hora marcada, o sucesso inesperado, a relação amorosa compulsiva, o ínfimo erro que resulta na subversão de todo um sistema de vida. Todavia, tem-se a impressão de que a fonte desse poder não vem de fora, ou melhor, não unicamente de fora; Moira também se encontra no lado de dentro.
Pode-se ler, na obra de Jung, uma relação cada vez mais amplamente formulada entre o destino e o inconsciente.
"Meu destino" significa uma vontade demoníaca com relação precisamente a esse destino — uma vontade que não coincide necessariamente com a minha própria (a vontade do ego). Quando ela é oposta ao ego, é difícil não sentir um certo "poder" nela, seja ele divino ou diabólico. O homem que se submete ao seu destino chama-o de a vontade de Deus; o homem que trava um desesperado e extenuante combate está mais apto a ver o diabo nele.
Traça-se também uma relação ampliada entre essa "vontade não necessariamente coincidente com a minha própria" e a Individualidade, o arquétipo central da "ordem" que se situa no âmago do desenvolvimento individual. Destino, natureza, matéria, mundo, corpo e inconsciente — são esses os fios entrelaçados que se tecem no tear de Moira, que rege o reino da matéria, da essência e dos impulsos instintivos da psique inconsciente, da qual o ego é um produto da nossa época.
A raiz indo-européia mer, mor, significa "morrer". Dela também provém os termos mors, em latim, e moros ("sorte"), em grego e, possivelmente, Moira, a deusa do destino. As Nornas que se reúnem sob o pó do mundo são personificações familiares do destino, haja vista Cloto, Láquesis e Átropos. Com os celtas, a concepção das Parcas talvez tenha se deslocado para a de matres e matronae, que eram consideradas divinas pelos teutos... Não será possível que ela retroceda à grande imagem da mãe primordial, que era outrora nosso único mundo e que depois se tornou o símbolo do mundo todo?
Sobre as representações simbólicas do arquétipo da Mãe, Jung escreve o seguinte:
Todos estes símbolos podem ter um significado positivo e favorável ou um significado negativo e desfavorável... Vemos um aspecto ambivalente nas deusas do destino. . . Símbolos do mal são a bruxa, o dragão (ou qualquer animal voraz ou rastejante, tal como um grande peixe ou uma serpente), o túmulo, o sarcófago, a água profunda, a morte, os pesadelos e os duendes. . . O lugar da transformação mágica e de renascimento, juntamente com o mundo subterrâneo e seus habitantes, são presididos pela Mãe. No aspecto negativo, o arquétipo da Mãe pode conotar algo secreto, oculto, sombrio; o abismo, o mundo dos mortos, qualquer coisa que devore, seduza ou envenene, isso tudo é terrificante e inevitável como o destino.
Cito Jung literalmente, pois creio que essas passagens são fundamentais para uma compreensão do sentimento de fatalidade ou de compulsividade irracional que tantas vezes acompanha dificuldades emocionais e os acontecimentos que essas erupções ou abalos precipitam. Depressão, apatia e enfermidade talvez sejam máscaras que as Erínias utilizam. desnecessário dizer que a relação de uma pessoa com a própria mãe está, sem dúvida, significativamente associada ao seu próprio sentimento de escolha e de liberdade subjetiva na vida adulta, pois quanto mais magnânima e sinistra é a mãe, mais tememos o destino. A mãe, porém, é também a Mãe, que aqui parece, em parte, encarnar o inconsciente em seu disfarce de "origens", "útero" ou "profundidades desconhecidas". Não há resposta para a discussão sobre se é o homem que formula suas imagens psíquicas de deusa, serpente, oceano e sarcófago, devido à sua vaga memória corporal do mar de águas uterinas, do serpeante cordão umbilical que dá a vida e, no entanto, pode estrangular, da escuridão tumular e das contrações do parto, do bem-estar vital que propicia a amamentação no peito da mãe; ou se experimenta prazer ou terror, alívio ou compulsão, desejo ou repulsa, e exagera uma "mera" experiência biológica com imagens divinas devido à figura arquetípica ou numinosa, da qual a experiência biológica é apenas uma manifestação concreta. Este, é claro, o velho dilema espírito-matéria: o que vem primeiro, o ovo ou a galinha? Será que inventamos os deuses porque temos necessidade de investir significado nos caprichos e nas vicissitudes da vida física, ou será que a vida física é vivenciada como intrinsecamente significativa porque os deuses existem? É evidente que não sei responder a essa questão. Jung, certamente, em seus esforços para se expressar com clareza e exatidão, do ponto de vista psicológico, a respeito dessas águas não navegadas, procurou ficar no meio-termo: ambos são aspectos de uma realidade e não podem ser separados. Se o instinto é uma extremidade do espectro que abrange também um nível arquetípico ou "espiritual", então o destino não é somente o destino do corpo, mas da alma também. A experiência do poder e da natureza relacionada com a vida e a morte da mãe individual acha-se associada na psique com a numinosidade de Moira, divina criadora de vida e de morte. Talvez tudo o que podemos dizer é que existe um elo.
Assim, o destino é imaginado como feminino porquanto é experienciado no corpo, e as predisposições inerentes ao corpo não podem ser alteradas malgrado a consciência que habita a carne — assim como Zeus não pode, em última análise, alterar Moira. Os impulsos instintivos de uma espécie constituem também o domínio de Moira, pois estes são também inerentes à matéria e, ainda que não sejam exclusivos de uma ou de outra família, são universais no que diz respeito ao género humano. É como se não pudéssemos infringir aquilo que em nós representa a natureza e que pertence à espécie — por mais que o reprimamos ou o alimentemos com cultura. Nesse sentido Freud, malgrado ele próprio, aparece como um dos grandes animadores do destino enquanto instinto, porque foi compelido a reconhecer a força dos instintos como modeladora do destino humano. O instinto de procriar, diferenciado daquilo a que chamamos de amor, existe em todas as espécies vivas e o fato de que opera como uma força do destino pode ser observado nos encontros sexuais compulsivos e nas suas conseqüências que virtualmente pontuam toda vida humana. Não é de se estranhar que os povos nórdicos igualassem o destino aos órgãos genitais. Da mesma forma, o instinto de agressão existe em todos nós e a história da guerra, que eclode, não obstante nossas melhores intenções, é testemunha da "fatalidade" desse instinto.
A alma também é representada como feminina, e a grande obra poética de Dante em louvor à sua Beatriz morta ergue-se como um dos nossos mais impressionantes testemunhos do poder do feminino em afastar o homem da vida mundana e alçá-lo às alturas e profundezas de seu ser interior. Jung tem muita coisa a dizer sobre a alma como anima, a parte feminina subjetiva que pode levar um homem tanto aos tormentos do inferno como aos êxtases do céu, acendendo o fogo de sua vida criativa e individual. Aqui, o destino parece provir de dentro, através das paixões, da imaginação e da incurável aspiração mística. Não importa se é uma mulher de verdade que desempenha esta função na vida de um homem ou não, apesar disso a alma irá empurrá-la na direção do destino dele. Essa alma estabelece limites, também; ela não haverá de permitir que ele voe alto demais e das maldições das histórias de fadas são tarefas altamente ritualizadas. Somente a vontade não pode fazer nada. Até mesmo onde a inteligência serve como um meio de abordagem, ela deve estar associada ao ritmo do tempo e ao auxílio de fatores estranhos e muitas vezes mágicos. Freqüentemente, o socorro vem dessas mesmas ignóbeis fadas, ou de seus lacaios, que lançaram o feitiço antes. Ora é o coração que opera a transformação, assim como o amor da Bela transforma a sua Fera; ora é a passagem do tempo, como é o caso da Bela Adormecida. Outras vezes, o herói deve fazer, desesperadamente, uma longa e cansativa viagem até o fim do mundo, cercado pelas trevas e pelo desespero, a fim de encontrar o objeto milagroso que irá salvar o reino. No entanto, a solução do feitiço ou maldição depende de outras faculdades que não as racionais, e nenhuma solução pode dar certo sem o secreto conluio das fadas ou das próprias parcas. Isso sugere um outro mistério sobre nossa face feminina do destino; embora ela possa se contrapor à omissão ou punir e transgressão da lei natural, ainda assim age nas trevas ocultas para entrar em contato com a vontade alienada do homem, antes que o rompimento aumente demais e se torne premente um desfecho trágico. Os temas dos contos de fadas são mais modestos e aparentemente mais mundanos do que as gloriosas representações teatrais das grandes sagas míticas populares. Todavia, em alguns aspectos, eles têm mais importância para nós por serem mais acessíveis, exuberantes, imaturos e mais próximos da vida comum. E eles sugerem, no ponto onde o mito falha, que seria possível construir uma ponte entre o homem e Moira, se respeito, esforço e ritos propiciatórios adequados forem oferecidos.
Inúmeros exploradores de caminhos inexplorados da psique tentaram entender o fato curioso de que o ser humano, esbarrando de leve nos profundos impulsos subjetivos que representam a sua necessidade, dá ao seu destino um nome e um rosto de mulher. O mais importante desses investigadores é Jung, que escreveu longamente, em vários volumes de suas Obras reunidas, sobre o destino tal como ele o sentiu na sua própria vida e nas vidas de seus pacientes. As vezes, ele se refere ao instinto como uma força compulsiva e dá a impressão de equipará-lo a uma espécie de destino biológico ou natural: o vôo do ganso selvagem é o seu destino, da mesma forma que a erupção da semente em muda, rebento, folha, flor e fruto. Assim também é o "instinto" de individuação, que leva um homem a tornar-se ele mesmo. Destino, natureza e finalidade são aqui uma só e mesma coisa. Meu destino é o que sou, e o que sou é também a razão por que sou e aquilo que me acontece.
Jung também escreveu sobre o espectro do instinto e do arquétipo, o primeiro como o determinante do comportamento físico ou natural, o último como o determinante da percepção e da experiência psíquicas. Ou, expressando de outra forma, a imagem arquetípica — tal como a imagem das três Parcas — representa a experiência ou percepção psíquica do esquema instintivo, encarnado em figuras que são numinosas ou divinas.
Os instintos são equivalentes muito próximos dos arquétipos — tão próximos, na verdade, que existe uma boa razão para supor que os arquétipos sejam as imagens inconscientes dos próprios instintos; noutras palavras, eles são padrões do comportamento instintivo.
Instinto e arquétipo são, portanto, dois pólos do mesmo dinamismo. O instinto acha-se incluído em, ou é a força ativa que se expressa através de todo movimento de cada célula de nossos organismos físicos: a vontade da natureza que governa o desenvolvimento ordenado e inteligente e a perpetuação da vida. Mas o arquétipo, revestido em sua imagem arquetípica, é a experiência psíquica desse instinto, a força ativa que se expressa através de todo movimento esboçado por cada fantasia, por cada sentimento e por cada vôo da alma. Essa imagem que é mais antiga que o mais antigo dos deuses, a face primordial de Moira, é a percepção psíquica da lei imutável, inerente à vida. Somos aquinhoados com nossa sorte, e nada mais. Jung chegou perto de um mistério que o intelecto tem grande dificuldade em compreender: a união do subjetivo com o objetivo, do corpo e da psique, do indivíduo com o mundo, do fato exterior com a imagem subjetiva. Ele fala do arquétipo, por um lado, como uma modalidade herdada de funcionamento, um padrão inato de comportamento semelhante àquele que podemos observar em todos os reinos da natureza. Mas, por outro lado, ele é alguma coisa mais também.
Este aspecto do arquétipo é o aspecto biológico. . . No entanto, o quadro muda imediatamente quando olhado de dentro, isto é, de dentro do domínio da psique subjetiva. Aqui, o arquétipo se apresenta como numinoso, ou seja, aparece como uma experiência de importância fundamental. Sempre que se reveste com os símbolos apropriados, o que nem sempre é o caso, ele coloca a pessoa num estado de possessão, cujas conseqüências podem ser imprevisíveis.
São justamente essas "conseqüências imprevisíveis" que parecem se introduzir na vida como acontecimentos predestinados de fora. Eis então a doença da paralisia, o acidente estranhamente acontecido na hora marcada, o sucesso inesperado, a relação amorosa compulsiva, o ínfimo erro que resulta na subversão de todo um sistema de vida. Todavia, tem-se a impressão de que a fonte desse poder não vem de fora, ou melhor, não unicamente de fora; Moira também se encontra no lado de dentro.
Pode-se ler, na obra de Jung, uma relação cada vez mais amplamente formulada entre o destino e o inconsciente.
"Meu destino" significa uma vontade demoníaca com relação precisamente a esse destino — uma vontade que não coincide necessariamente com a minha própria (a vontade do ego). Quando ela é oposta ao ego, é difícil não sentir um certo "poder" nela, seja ele divino ou diabólico. O homem que se submete ao seu destino chama-o de a vontade de Deus; o homem que trava um desesperado e extenuante combate está mais apto a ver o diabo nele.
Traça-se também uma relação ampliada entre essa "vontade não necessariamente coincidente com a minha própria" e a Individualidade, o arquétipo central da "ordem" que se situa no âmago do desenvolvimento individual. Destino, natureza, matéria, mundo, corpo e inconsciente — são esses os fios entrelaçados que se tecem no tear de Moira, que rege o reino da matéria, da essência e dos impulsos instintivos da psique inconsciente, da qual o ego é um produto da nossa época.
A raiz indo-européia mer, mor, significa "morrer". Dela também provém os termos mors, em latim, e moros ("sorte"), em grego e, possivelmente, Moira, a deusa do destino. As Nornas que se reúnem sob o pó do mundo são personificações familiares do destino, haja vista Cloto, Láquesis e Átropos. Com os celtas, a concepção das Parcas talvez tenha se deslocado para a de matres e matronae, que eram consideradas divinas pelos teutos... Não será possível que ela retroceda à grande imagem da mãe primordial, que era outrora nosso único mundo e que depois se tornou o símbolo do mundo todo?
Sobre as representações simbólicas do arquétipo da Mãe, Jung escreve o seguinte:
Todos estes símbolos podem ter um significado positivo e favorável ou um significado negativo e desfavorável... Vemos um aspecto ambivalente nas deusas do destino. . . Símbolos do mal são a bruxa, o dragão (ou qualquer animal voraz ou rastejante, tal como um grande peixe ou uma serpente), o túmulo, o sarcófago, a água profunda, a morte, os pesadelos e os duendes. . . O lugar da transformação mágica e de renascimento, juntamente com o mundo subterrâneo e seus habitantes, são presididos pela Mãe. No aspecto negativo, o arquétipo da Mãe pode conotar algo secreto, oculto, sombrio; o abismo, o mundo dos mortos, qualquer coisa que devore, seduza ou envenene, isso tudo é terrificante e inevitável como o destino.
Cito Jung literalmente, pois creio que essas passagens são fundamentais para uma compreensão do sentimento de fatalidade ou de compulsividade irracional que tantas vezes acompanha dificuldades emocionais e os acontecimentos que essas erupções ou abalos precipitam. Depressão, apatia e enfermidade talvez sejam máscaras que as Erínias utilizam. desnecessário dizer que a relação de uma pessoa com a própria mãe está, sem dúvida, significativamente associada ao seu próprio sentimento de escolha e de liberdade subjetiva na vida adulta, pois quanto mais magnânima e sinistra é a mãe, mais tememos o destino. A mãe, porém, é também a Mãe, que aqui parece, em parte, encarnar o inconsciente em seu disfarce de "origens", "útero" ou "profundidades desconhecidas". Não há resposta para a discussão sobre se é o homem que formula suas imagens psíquicas de deusa, serpente, oceano e sarcófago, devido à sua vaga memória corporal do mar de águas uterinas, do serpeante cordão umbilical que dá a vida e, no entanto, pode estrangular, da escuridão tumular e das contrações do parto, do bem-estar vital que propicia a amamentação no peito da mãe; ou se experimenta prazer ou terror, alívio ou compulsão, desejo ou repulsa, e exagera uma "mera" experiência biológica com imagens divinas devido à figura arquetípica ou numinosa, da qual a experiência biológica é apenas uma manifestação concreta. Este, é claro, o velho dilema espírito-matéria: o que vem primeiro, o ovo ou a galinha? Será que inventamos os deuses porque temos necessidade de investir significado nos caprichos e nas vicissitudes da vida física, ou será que a vida física é vivenciada como intrinsecamente significativa porque os deuses existem? É evidente que não sei responder a essa questão. Jung, certamente, em seus esforços para se expressar com clareza e exatidão, do ponto de vista psicológico, a respeito dessas águas não navegadas, procurou ficar no meio-termo: ambos são aspectos de uma realidade e não podem ser separados. Se o instinto é uma extremidade do espectro que abrange também um nível arquetípico ou "espiritual", então o destino não é somente o destino do corpo, mas da alma também. A experiência do poder e da natureza relacionada com a vida e a morte da mãe individual acha-se associada na psique com a numinosidade de Moira, divina criadora de vida e de morte. Talvez tudo o que podemos dizer é que existe um elo.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Plutão (mitologia) [Josilene Sousa]
Plutão, em Roma, era o nome do deus grego Hades, deus do submundo e também das riquezas (v. plutocracia). Irmão de Júpiter, Netuno, Ceres, Vesta e Juno, faz parte da primeira geração dos deuses olímpicos.
De acordo com a mitologia, quando os três filhos de Cibele e Saturno fizeram a partilha do universo, Netuno ficou com os mares, Júpiter tomou posse do Olímpo, e Plutão ficou conseqüentemente com os Infernos (também chamado Hades). O deus governou o reino da morte sozinho até se apaixonar pela bela deusa Proserpina.
Embora o relacionamento entre os dois parecesse ter começado mal pois Plutão sequestrou a deusa, separando-a de sua família, deixando-a inconsolável, sua união era calma e amorosa, ao contrário do casamento de seus irmãos Jupíter e Juno.
Embora identificado com Hades, o deus grego do mundo dos mortos, representa o seu aspecto benfazejo, e presidia as riquezas agrícolas. Hades era tão temido que ninguém ousava pronunciar seu nome, e quando era para se referir a ele, usavam outras definições. Dentre muitas, a mais conhecida é Plutão.
Por bastante tempo, o apelido substituiu o verdadeiro nome de Hades, dando origem ao deus romano.
Netuno [Josilene Sousa]
Júpiter deu uma droga ao seu pai Saturno que lhe convulsionou as entranhas, fazendo-o vomitar os filhos que havia devorado.
Júpiter, Netuno e Plutão, resolveram destronar o pai. Cada filho pegou a sua arma, Júpiter o raio e o trovão, Netuno o tridente e Plutão o capacete que o tornava invisível. Depois de uma luta difícil subjugaram o pai e
encerraram-no na região dos Infernos.
Repartiram o universo entre, eles, Júpiter ficou com os céus, Plutão com o mundo dos mortos e Netuno com os mares. Dizem os poetas: "Salve Poseidon, deus da negra cabeleira! Que os que estão no mar experimentem a tua benevolência e o teu socorro." Poseidon é o nome grego de Netuno.
O tridente tem o poder de abalar a terra e o oceano, formando terremotos e maremotos, mas também fazer a água brotar das rochas e do solo. Traz as grandes secas e as grandes inundações.
Netuno mora num belo palácio no fundo do mar Egeu e percorre os oceanos numa carruagem de cavalo de cabeça de bronze e crina de ouro. Sua carruagem é seguida de urna comitiva de milhares de nereidas, hipocampos, delfins, ninfas, etc. E quando ela passa, as ondas se abrem tranquilamente.
Para os gregos Poseidon simbolizava também os tremores de terra e, em consequência, os epiléticos, com seus tremores, também deviam estar possuídos pelo deus.
Os cavalos eram patrocinados por ele e como eram animais luxo, Netuno passou a ser também uma divindade aristocrata. Entretanto, enquanto Júpiter foi pai de diversos heróis, Netuno foi pai de uma maioria de seres monstruosos como a Medusa, que tinha várias cabeças. Mais tarde Netuno cedeu a sua terra também a Júpiter e contentou-se com os mares. A sua terra era a Atlântida, que teve esse nome em honra do filho de Netuno, Atlas, que carregou o mundo nas costas.
Netuno era o esposo de Ceres, a Terra-Mãe, fecundando-a com sua água. Mas teve outras mulheres também, com as quais teve milhares de filhos: o mar é
prolífico.
Netuno é o sonho, a fantasia e o vício, não tem limites, ninguém consegue detê-lo. Assim como o mar, pode trazer prazer, mas também... destruição.
Não se brinca com Netuno, o deus dos mares, assim como não se brincam com as coisas 'netunianas' (que trazem uma sensação de relaxamento e prazer), pois assim como não é possível dominar o mar, pode perder-se nelas também...
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Liz Greene: Tétis e Aquiles
Tétis era a grande deusa do mar e dominava tudo o que se movia em suas profundezas. Mas chegou o momento de ela se casar e Zeus, o rei dos deuses, tinha ouvido uma profecia prevendo que, se Tétis desposasse um deus, teria um filho maior do que o próprio Zeus. Preocupado com a possibilidade de perder sua posição, Zeus casou a deusa do mar com um mortal chamado Peleu. Esse casamento misto não foi mal, e os dois se acomodaram com relativa harmonia - embora Peleu às vezes se ressentisse dos poderes sobrenaturais da mulher e, vez por outra, Tétis julgasse haver-se casado com um homem abaixo de sua posição.
Com o tempo, Tétis teve um filho, a quem deu o nome de Aquiles. Como o pai dele era mortal, Aquiles era um menino mortal, que teria seu tempo na terra ditado pelas Parcas, como todos os seres mortais. Mas Tétis não estava satisfeita com essa perspectiva; sendo imortal, não queria permanecer eternamente jovem, vendo seu filho envelhecer e morrer. Assim, em segredo, levou o recém-nascido até o rio Estige, em cujas águas residia o dom da imortalidade. Segurou o menino por um dos calcanhares e o mergulhou na água, acreditando que com isso tinha tornado-o imortal. Mas o calcanhar pelo qual ela o segurou não foi tocado pelas águas do Estige, e Aquiles ficou vulnerável nesse ponto.
Ao chegar à idade adulta e combater na Guerra de Tróia, Aquiles foi mortalmente ferido ao ser atingido por uma flecha no calcanhar. Embora ele tenha conquistado grande glória e viesse a ser lembrado para sempre, Tétis não conseguiu enganar as Parcas nem transformar o que era humano na matéria de que são feitos os deuses.
COMENTÁRIO
Inconscientemente, muitos pais desejam que seus filhos sejam divinos – ainda que, em gerai, não tão literalmente quanto Tétis. Não temos a expectativa de que nossos filhos vivam eternamente, mas podemos querer que sejam melhores do que as outras crianças, mais bonitos, mais talentosos, mais brilhantes, únicos e especiais, e livres das limitações corriqueiras da vida. Nenhuma criança consegue ficar à altura dessas expectativas inconscientes, e qualquer uma pode sofrer por ter sua humanidade comum relegada a segundo plano nos enormes esforços dos pais para produzir algo sobre-humano. Também podemos ter a esperança de que nossos filhos nos redimam de algum modo -que consertem o que estragamos, ou vivam aquilo que nos foi negado. E possível que façamos sacrifícios, na esperança de que os filhos dêem sentido à nossa vida, em vez de permitirmos que vivam a deles. E quando eles tropeçam e caem, como acontece com todos os seres humanos, ou quando demonstram uma gratidão insuficiente por nossos esforços, talvez nos sintamos ofendidos e decepcionados. Pode-se ver tudo isso na história de Tétis e Aquiles.
Tétis, a deusa-mãe que quer que o filho tenha a divindade dela, em vez de ser mortal como o pai, é também a imagem de uma certa atitude perante a maternidade. Quando uma mãe deseja possuir seu filho por inteiro e não se dispõe ou não consegue partilhar o amor da criança, muitos problemas podem surgir. O casamento de Tétis e Peleu, cuja prole foi Aquiles, retrata um casamento em que há um desequilíbrio entre os pais. Tétis sente-se superior a Peleu e espera que o filho se pareça com ela. Esse é um dilema bastante comum: às vezes fantasiamos secretamente a identidade de um filho, em vez de reconhecer que duas pessoas contribuíram para sua existência. Isso pode acontecer quando 0 casamento é infeliz ou não traz realização. O pai também pode idealizar as filhas, como Tétis fez com o filho, e esforçar-se inconscientemente para separar mãe e filha, para que nenhuma pessoa de fora venha prejudicar a união do laço pai-filha.
Todos esses dilemas da função de pai e mãe, em vez de patológicos, são meramente humanos. Mas os mitos são sobre seres humanos, mesmo quando seus personagens principais são deuses. De que maneira lidamos com essas questões da expectativa e da possessividade exageradas? Quando trazemos filhos ao mundo, devemos a eles imparcialidade e justiça na maneira como os tratamos afetivamente. Se tivermos consciência de que estamos esperando demais de nossos filhos, poderemos demonstrar-lhes amor mesmo quando eles não conseguirem o que esperamos, e poderemos também incentivá-los a seguir o caminho ditado por seu coração e sua alma, e não o que nós gostaríamos de ter seguido. Os sentimentos conhecidos e refreados não provocam destruição. Os inconscientes, que resultam em comportamentos inconscientes, podem causar grandes danosa um filho. A vida dos pais nunca é perfeita e todos acalentamos esperanças pouco realistas a respeito de nossos filhos. Isso é humano e natural. Mas eles não são divinos, nem tampouco estão na terra para nossa glorificação ou para a redenção de nossa própria vida. No casamento de Tétis e Peleu, criado pela sabedoria de Zeus, há uma imagem profunda da mescla de humano e divino que está por trás da origem de todo ser humano. Toda criança partilha de ambos. Se pudermos lembrar-nos disso e permitir que nossos filhos sejam os seres humanos que são, esse antigo mito poderá ajudar-nos a sermos pais mais sensatos e mais generosos.
Extraído de: Uma Viagem através dos Mitos, de Liz Greene & Juliet Sharman-Burke
Com o tempo, Tétis teve um filho, a quem deu o nome de Aquiles. Como o pai dele era mortal, Aquiles era um menino mortal, que teria seu tempo na terra ditado pelas Parcas, como todos os seres mortais. Mas Tétis não estava satisfeita com essa perspectiva; sendo imortal, não queria permanecer eternamente jovem, vendo seu filho envelhecer e morrer. Assim, em segredo, levou o recém-nascido até o rio Estige, em cujas águas residia o dom da imortalidade. Segurou o menino por um dos calcanhares e o mergulhou na água, acreditando que com isso tinha tornado-o imortal. Mas o calcanhar pelo qual ela o segurou não foi tocado pelas águas do Estige, e Aquiles ficou vulnerável nesse ponto.
Ao chegar à idade adulta e combater na Guerra de Tróia, Aquiles foi mortalmente ferido ao ser atingido por uma flecha no calcanhar. Embora ele tenha conquistado grande glória e viesse a ser lembrado para sempre, Tétis não conseguiu enganar as Parcas nem transformar o que era humano na matéria de que são feitos os deuses.
COMENTÁRIO
Inconscientemente, muitos pais desejam que seus filhos sejam divinos – ainda que, em gerai, não tão literalmente quanto Tétis. Não temos a expectativa de que nossos filhos vivam eternamente, mas podemos querer que sejam melhores do que as outras crianças, mais bonitos, mais talentosos, mais brilhantes, únicos e especiais, e livres das limitações corriqueiras da vida. Nenhuma criança consegue ficar à altura dessas expectativas inconscientes, e qualquer uma pode sofrer por ter sua humanidade comum relegada a segundo plano nos enormes esforços dos pais para produzir algo sobre-humano. Também podemos ter a esperança de que nossos filhos nos redimam de algum modo -que consertem o que estragamos, ou vivam aquilo que nos foi negado. E possível que façamos sacrifícios, na esperança de que os filhos dêem sentido à nossa vida, em vez de permitirmos que vivam a deles. E quando eles tropeçam e caem, como acontece com todos os seres humanos, ou quando demonstram uma gratidão insuficiente por nossos esforços, talvez nos sintamos ofendidos e decepcionados. Pode-se ver tudo isso na história de Tétis e Aquiles.
Tétis, a deusa-mãe que quer que o filho tenha a divindade dela, em vez de ser mortal como o pai, é também a imagem de uma certa atitude perante a maternidade. Quando uma mãe deseja possuir seu filho por inteiro e não se dispõe ou não consegue partilhar o amor da criança, muitos problemas podem surgir. O casamento de Tétis e Peleu, cuja prole foi Aquiles, retrata um casamento em que há um desequilíbrio entre os pais. Tétis sente-se superior a Peleu e espera que o filho se pareça com ela. Esse é um dilema bastante comum: às vezes fantasiamos secretamente a identidade de um filho, em vez de reconhecer que duas pessoas contribuíram para sua existência. Isso pode acontecer quando 0 casamento é infeliz ou não traz realização. O pai também pode idealizar as filhas, como Tétis fez com o filho, e esforçar-se inconscientemente para separar mãe e filha, para que nenhuma pessoa de fora venha prejudicar a união do laço pai-filha.
Todos esses dilemas da função de pai e mãe, em vez de patológicos, são meramente humanos. Mas os mitos são sobre seres humanos, mesmo quando seus personagens principais são deuses. De que maneira lidamos com essas questões da expectativa e da possessividade exageradas? Quando trazemos filhos ao mundo, devemos a eles imparcialidade e justiça na maneira como os tratamos afetivamente. Se tivermos consciência de que estamos esperando demais de nossos filhos, poderemos demonstrar-lhes amor mesmo quando eles não conseguirem o que esperamos, e poderemos também incentivá-los a seguir o caminho ditado por seu coração e sua alma, e não o que nós gostaríamos de ter seguido. Os sentimentos conhecidos e refreados não provocam destruição. Os inconscientes, que resultam em comportamentos inconscientes, podem causar grandes danosa um filho. A vida dos pais nunca é perfeita e todos acalentamos esperanças pouco realistas a respeito de nossos filhos. Isso é humano e natural. Mas eles não são divinos, nem tampouco estão na terra para nossa glorificação ou para a redenção de nossa própria vida. No casamento de Tétis e Peleu, criado pela sabedoria de Zeus, há uma imagem profunda da mescla de humano e divino que está por trás da origem de todo ser humano. Toda criança partilha de ambos. Se pudermos lembrar-nos disso e permitir que nossos filhos sejam os seres humanos que são, esse antigo mito poderá ajudar-nos a sermos pais mais sensatos e mais generosos.
Extraído de: Uma Viagem através dos Mitos, de Liz Greene & Juliet Sharman-Burke
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Do mito de Plutão, Ceres e Prosérpina, por Puiggros
Pelo que se sabe, o significado original dos planetas não difere do caráter dos deuses dos quais tomam o nome. Dessa forma, portanto, a mitologia pode oferecer indicações úteis para a compreensão da astrologia, ainda que somente a prática contínua do estudo refine a intuição para discernir a correta interpretação do mito aplicável a cada situação.
A Plutão (Hades) , filho de Saturno (Cronos) , deus do tempo, e de Ops (Réia), deusa da Terra, coube a pior parte na repartição do mundo efetuada com os irmãos quando seu pai foi destronado. Júpiter (Zeus) , o mais poderoso, ficou com o reino dos céus, Netuno (Poseidon), com as águas - e especialmente o mar - e a Plutão, por ser o mais jovem dos três, foi concedido o reino dos infernos.
Esse vasto império é rodeado por dois rios, o Aqueronte e o Estige, que as almas dos mortos devem atravessar para chegar à morada de Plutão.
O velho Caronte, o barqueiro, rechaça os mortos insepultos (é relativamente recente o hábito de enterrar os cadáveres, já que antes eram deixados sobre a terra para alimento dos animais; daí deriva a regência de Plutão /Escorpião sobre as sepulturas) e todos aqueles que não podem pagar o preço da passagem (daí decorre o antigo. costume de colocar uma moeda na boca do defunto) . Em sua barca, transporta os demais para o outro lado e os entrega a Mercúrio (Hermes) , o mensageiro dos deuses, que os conduz para o tribunal, composto por três juízes, Minos, Eaco e Radamanto, que, em nome de Plutão, ministram a justiça. "Pagar um preço" antes de passar pela "justiça de Plutão" são dois conceitos bem-conhecidos por todos aqueles que estudam o planeta ou que experimentaram seus trânsitos.
Uma vez julgados, alguns vão para os Campos Elíseos, o céu, enquanto outros são dirigidos para o Tártaro, o inferno, uma cidade fortificada, guardada por um tríplice muro de ferro e rodeada por um rio de fogo chamado Flégeton; este último é custodiado pelas três fúrias infernais, Alecto, Megera e Tisífone, que não dormem nem de dia nem de noite.
Como se isso não bastasse, Plutão tem como guardião de seu reino o cão Cérbero, um cachorro de três cabeças que não deixa sair nenhuma pessoa que ali entra.
De modo geral, Plutão é representado com sobrancelhas espessas, olhos avermelhados e expressão ameaçadora, com uma forquilha de duas pontas em sua mão direita e uma chave que fecha mas não abre na esquerda. Sua coroa é de ébano, simbolizando provavelmente a obscuridade de seu reino; outras vezes, no entanto, cobre-se com um manto que o torna invisível, outra de suas características, sentado em um trono de enxofre, com o cão Cérbero a seus pés e com as três fúrias a seu lado. É também representado num carro -de três rodas puxado por três cavalos negros (quatro, segundo Ovídio), chamados Meteo, Abastro e Nuvio. As vezes, a seu lado está Prosérpina (Perséfone), segurando um narciso. Em outras, ela se encontra sobre um carro, semelhante ao de Plutão, simbolizando, neste caso, Hecate, que preside à magia e aos encantamentos.,
Plutão, denominado Júpiter das regiões inferiores ou das profundezas da Terra, significa rico e é o deus ativo no interior da Terra. Entende-se por isso a força vital da Terra, a fecundação ou o elemento terra em si mesmo. É também chamado, em latim, Dis, rico, ou Dispater, pai rico. Orcus, outro de seus nomes, significa tragador ou recebedor, uma qualidade da Terra. Foi denominado Februo, que, em grego, significa purgar, purificar que é também uma qualidade da Terra.
Em função da dureza de seu caráter, de sua feiúra e da obscuridade de seu reino, todas as deusas fugiam de Plutão e o recusavam como marido. Cansado dessa situação, ele subiu no carro de três cavalos e foi visitar a ilha da Sicília, dirigindo-se ao monte Érix. Vênus (Afrodite), a deusa do amor, percebeu sua presença e pediu a Cupido (Eros) que, com suas flechas, ferisse o coração de Plutão. Prosérpina, filha de Ceres.(Deméter) e Júpiter - e que, segundo Ovídio, significa as sementes ou messes, a lua e a rainha dos infernos -, encontrava-se no lago Pergusa, próximo do Etna, com margens cobertas de flores e primavera eterna. Entretinha-se colhendo flores e misturando os lilases com as violetas. Quando Plutão a viu, enamorou-se dela e a raptou, apesar de seus protestos e dos gritos de socorro que dirigia a suas companheiras e a sua mãe. Dirigindo a todo galope seus cavalos negros - aos quais, para animar, chamava pelos nomes -, Plutão e Prosérpina atravessaram grandes lagos, dentre os quais os Pálicos, que exalavam um intenso odor de enxofre. Ao chegarem à fonte Aretusa, uma das mais belas ninfas, chamada Cianes, que vivia numa fonte, deteve Plutão, estendendo seus braços por todas as partes. Este último, ao ver que não podia passar, encheu-se de ira e deu um terrível golpe com seu cetro, abrindo a terra e entrando com seu carro até os infernos. Cianes, despeitada com o desprezo que Plutão manifestara por suas águas sagradas, condoeu-se tanto que não cessou de derramar lágrimas até transformar-se completamente em água. Quando Ceres tomou conhecimento dessa desventura, procurou incessantemente sua filha Prosérpina, percorrendo mares e terra. Vasculhou montanhas, cavernas e bosques e, depois de visitar toda a Terra sem encontrar qualquer vestígio, retornou à Sicília. Em sua peregrinação, encontrou a ninfa Cianes transformada em água e, embora não pudesse falar, esta última lhe mostrou o véu de Prosérpina que flutuava sobre as águas da fonte. Ceres compreendeu que o raptor de sua filha havia passado por aquele lugar. Pouco depois, soube pela ninfa Aretusa, que corria por cima e por baixo da Terra, que Prosérpina estava no inferno e era a mulher de Plutão. Ao ouvir tal coisa, Ceres sentiu a morte penetra-Ia, vestiu-se de luto e se fechou por algum tempo numa caverna. Subiu depois num carro puxado por dois dragões e, atravessando a imensidão do espaço, apresentou-se diante de Júpiter com o rosto banhado em lágrimas e os cabelos revoltos, e lhe pediu justiça. Júpiter procurou acalma-la dizendo-lhe que Plutão tinha as mesmas brilhantes qualidades dos demais deuses e que não era nenhuma afronta tê-lo por genro. Diante da insistência de Ceres, consentiu que Prosérpina fosse devolvida à sua mãe, desde que não houvesse comido nada a partir do momento em que entrara no inferno, pois "tal era a decisão do destino". Mas Prosérpina, certa feita em que passeava pelos jardins do palácio, havia visto uma formosa romã, da qual comera sete sementes. Seu retorno à Terra era impossível. Contudo, à força de rogos, Ceres conseguiu que' Júpiter ordenasse que sua filha morasse seis meses com o marido e seis meses com a mãe. Essa decisão devolveu a calma a Ceres.
Está clara a analogia do mito com o ritual agrícola da semeadura, o período no qual a semente está sob a Terra, "até que, seis meses mais tarde, retorna para sua mãe". Estudando detalhadamente o mito, é possível deduzir todas e cada uma das fases desse processo de semeadura e de colheita. Entretanto, não é o céu que copia a Terra; é esta que copia aquele.
Em outras palavras, o mito é um esquema arquetípico de determinadas forças que operam analogamente nos diversos níveis de realidade e que são, portanto, aplicáveis ao homem.
Plutão é a força da vida, a seiva que nutre. Essa seiva está sujeita aos ciclos da Lua (Prosérpina) e, em tal história, estão envolvidos Ceres, a Terra, e Júpiter, o Céu; ela é, de certa forma, uma explicação de como funciona o processo de geração da vida, da alternância vida-morte e da impossibilidade de existir uma sem a outra.
É significativo o fato de que, em 1930, quando é descoberto, Plutão se encontre situado entre duas estrelas, Castor e Pólux. A mitologia diz que Castor, sujeito à mortalidade, morreu numa batalha nas proximidades do monte Taigeto. Pólux, que o amava muito, pediu a Júpiter que devolvesse a vida a Castor ou que o privasse - a ele, Pólux - de sua imortalidade. Júpiter não pôde atendê-lo de modo completo, mas consentiu que, durante todo o tempo que Castor vivesse sobre a Terra, pudesse Pólux habitar nas moradas dos mortos. Assim, viviam e morriam alternadamente.
Extraído do livro:
Plutão. Autor: Puiggros. Editora Pensamento. Esgotado.
A Plutão (Hades) , filho de Saturno (Cronos) , deus do tempo, e de Ops (Réia), deusa da Terra, coube a pior parte na repartição do mundo efetuada com os irmãos quando seu pai foi destronado. Júpiter (Zeus) , o mais poderoso, ficou com o reino dos céus, Netuno (Poseidon), com as águas - e especialmente o mar - e a Plutão, por ser o mais jovem dos três, foi concedido o reino dos infernos.
Esse vasto império é rodeado por dois rios, o Aqueronte e o Estige, que as almas dos mortos devem atravessar para chegar à morada de Plutão.
O velho Caronte, o barqueiro, rechaça os mortos insepultos (é relativamente recente o hábito de enterrar os cadáveres, já que antes eram deixados sobre a terra para alimento dos animais; daí deriva a regência de Plutão /Escorpião sobre as sepulturas) e todos aqueles que não podem pagar o preço da passagem (daí decorre o antigo. costume de colocar uma moeda na boca do defunto) . Em sua barca, transporta os demais para o outro lado e os entrega a Mercúrio (Hermes) , o mensageiro dos deuses, que os conduz para o tribunal, composto por três juízes, Minos, Eaco e Radamanto, que, em nome de Plutão, ministram a justiça. "Pagar um preço" antes de passar pela "justiça de Plutão" são dois conceitos bem-conhecidos por todos aqueles que estudam o planeta ou que experimentaram seus trânsitos.
Uma vez julgados, alguns vão para os Campos Elíseos, o céu, enquanto outros são dirigidos para o Tártaro, o inferno, uma cidade fortificada, guardada por um tríplice muro de ferro e rodeada por um rio de fogo chamado Flégeton; este último é custodiado pelas três fúrias infernais, Alecto, Megera e Tisífone, que não dormem nem de dia nem de noite.
Como se isso não bastasse, Plutão tem como guardião de seu reino o cão Cérbero, um cachorro de três cabeças que não deixa sair nenhuma pessoa que ali entra.
De modo geral, Plutão é representado com sobrancelhas espessas, olhos avermelhados e expressão ameaçadora, com uma forquilha de duas pontas em sua mão direita e uma chave que fecha mas não abre na esquerda. Sua coroa é de ébano, simbolizando provavelmente a obscuridade de seu reino; outras vezes, no entanto, cobre-se com um manto que o torna invisível, outra de suas características, sentado em um trono de enxofre, com o cão Cérbero a seus pés e com as três fúrias a seu lado. É também representado num carro -de três rodas puxado por três cavalos negros (quatro, segundo Ovídio), chamados Meteo, Abastro e Nuvio. As vezes, a seu lado está Prosérpina (Perséfone), segurando um narciso. Em outras, ela se encontra sobre um carro, semelhante ao de Plutão, simbolizando, neste caso, Hecate, que preside à magia e aos encantamentos.,
Plutão, denominado Júpiter das regiões inferiores ou das profundezas da Terra, significa rico e é o deus ativo no interior da Terra. Entende-se por isso a força vital da Terra, a fecundação ou o elemento terra em si mesmo. É também chamado, em latim, Dis, rico, ou Dispater, pai rico. Orcus, outro de seus nomes, significa tragador ou recebedor, uma qualidade da Terra. Foi denominado Februo, que, em grego, significa purgar, purificar que é também uma qualidade da Terra.
Em função da dureza de seu caráter, de sua feiúra e da obscuridade de seu reino, todas as deusas fugiam de Plutão e o recusavam como marido. Cansado dessa situação, ele subiu no carro de três cavalos e foi visitar a ilha da Sicília, dirigindo-se ao monte Érix. Vênus (Afrodite), a deusa do amor, percebeu sua presença e pediu a Cupido (Eros) que, com suas flechas, ferisse o coração de Plutão. Prosérpina, filha de Ceres.(Deméter) e Júpiter - e que, segundo Ovídio, significa as sementes ou messes, a lua e a rainha dos infernos -, encontrava-se no lago Pergusa, próximo do Etna, com margens cobertas de flores e primavera eterna. Entretinha-se colhendo flores e misturando os lilases com as violetas. Quando Plutão a viu, enamorou-se dela e a raptou, apesar de seus protestos e dos gritos de socorro que dirigia a suas companheiras e a sua mãe. Dirigindo a todo galope seus cavalos negros - aos quais, para animar, chamava pelos nomes -, Plutão e Prosérpina atravessaram grandes lagos, dentre os quais os Pálicos, que exalavam um intenso odor de enxofre. Ao chegarem à fonte Aretusa, uma das mais belas ninfas, chamada Cianes, que vivia numa fonte, deteve Plutão, estendendo seus braços por todas as partes. Este último, ao ver que não podia passar, encheu-se de ira e deu um terrível golpe com seu cetro, abrindo a terra e entrando com seu carro até os infernos. Cianes, despeitada com o desprezo que Plutão manifestara por suas águas sagradas, condoeu-se tanto que não cessou de derramar lágrimas até transformar-se completamente em água. Quando Ceres tomou conhecimento dessa desventura, procurou incessantemente sua filha Prosérpina, percorrendo mares e terra. Vasculhou montanhas, cavernas e bosques e, depois de visitar toda a Terra sem encontrar qualquer vestígio, retornou à Sicília. Em sua peregrinação, encontrou a ninfa Cianes transformada em água e, embora não pudesse falar, esta última lhe mostrou o véu de Prosérpina que flutuava sobre as águas da fonte. Ceres compreendeu que o raptor de sua filha havia passado por aquele lugar. Pouco depois, soube pela ninfa Aretusa, que corria por cima e por baixo da Terra, que Prosérpina estava no inferno e era a mulher de Plutão. Ao ouvir tal coisa, Ceres sentiu a morte penetra-Ia, vestiu-se de luto e se fechou por algum tempo numa caverna. Subiu depois num carro puxado por dois dragões e, atravessando a imensidão do espaço, apresentou-se diante de Júpiter com o rosto banhado em lágrimas e os cabelos revoltos, e lhe pediu justiça. Júpiter procurou acalma-la dizendo-lhe que Plutão tinha as mesmas brilhantes qualidades dos demais deuses e que não era nenhuma afronta tê-lo por genro. Diante da insistência de Ceres, consentiu que Prosérpina fosse devolvida à sua mãe, desde que não houvesse comido nada a partir do momento em que entrara no inferno, pois "tal era a decisão do destino". Mas Prosérpina, certa feita em que passeava pelos jardins do palácio, havia visto uma formosa romã, da qual comera sete sementes. Seu retorno à Terra era impossível. Contudo, à força de rogos, Ceres conseguiu que' Júpiter ordenasse que sua filha morasse seis meses com o marido e seis meses com a mãe. Essa decisão devolveu a calma a Ceres.
Está clara a analogia do mito com o ritual agrícola da semeadura, o período no qual a semente está sob a Terra, "até que, seis meses mais tarde, retorna para sua mãe". Estudando detalhadamente o mito, é possível deduzir todas e cada uma das fases desse processo de semeadura e de colheita. Entretanto, não é o céu que copia a Terra; é esta que copia aquele.
Em outras palavras, o mito é um esquema arquetípico de determinadas forças que operam analogamente nos diversos níveis de realidade e que são, portanto, aplicáveis ao homem.
Plutão é a força da vida, a seiva que nutre. Essa seiva está sujeita aos ciclos da Lua (Prosérpina) e, em tal história, estão envolvidos Ceres, a Terra, e Júpiter, o Céu; ela é, de certa forma, uma explicação de como funciona o processo de geração da vida, da alternância vida-morte e da impossibilidade de existir uma sem a outra.
É significativo o fato de que, em 1930, quando é descoberto, Plutão se encontre situado entre duas estrelas, Castor e Pólux. A mitologia diz que Castor, sujeito à mortalidade, morreu numa batalha nas proximidades do monte Taigeto. Pólux, que o amava muito, pediu a Júpiter que devolvesse a vida a Castor ou que o privasse - a ele, Pólux - de sua imortalidade. Júpiter não pôde atendê-lo de modo completo, mas consentiu que, durante todo o tempo que Castor vivesse sobre a Terra, pudesse Pólux habitar nas moradas dos mortos. Assim, viviam e morriam alternadamente.
Extraído do livro:
Plutão. Autor: Puiggros. Editora Pensamento. Esgotado.
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