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sábado, 29 de julho de 2017

A Recepção - Uma dinâmica útil, por Steven Birchfield

A recepção é uma importante circunstância que ocorre entre Planetas. Mas a recepção é um tema muito discutido entre os astrólogos modernos. Eu acredito que não é devido a contradições, mas mais exactamente devido a um conflito de termos e aplicações.

Como forma de evitar algum conflito eu vou citar Abu Ma’shar. E isto porque todos os outros astrólogos citam as suas definições nos seus trabalhos. Se eu começasse a citar todas as fontes, elas tornar-se-iam muito repetitivas e desnecessárias.

Eu devo também enfatizar, que é precisamente todas as ‘circunstâncias dos planetas’ que são provavelmente a grande diferença entre a abordagem puramente Helénica à astrologia, e a abordagem posterior dos astrólogos Árabes. Eu digo de uma forma diferente, mas não contraditória! A ‘pura’ perspectiva Grega dos planetas era bastante estática e encontrar-se-á poucas menções às consequências derivadas das aplicações dos planetas entre si. Somente a Lua era considerada quando era examinado o planeta do qual ela se separava e para o qual ela se estava a aplicar. Os astrólogos da Era Árabe eram mais fiéis à abordagem Helénica do que se julga. Mas talvez a sua maior contribuição para a ciência foi a introdução de um maior dinamismo de circunstâncias dos planetas entre si. Isto não quer dizer que eles foram ‘inovadores’, mas os seus julgamentos foram as conclusões naturais para o profundo entendimento dos princípios originais.

Os princípios originais de disposição que encontramos na tradição Grega, dizem que um planeta posicionado num signo dá a sua disposição para o regente desse signo. Os Gregos afirmavam que enquanto esse regente não “fall amiss” [estivesse inconjunto] então ele tinha a autoridade para dispositar os assuntos do seu domicílio (e qualquer planeta posicionado no seu domicílio). O termo “falling amiss” foi mais tarde de alguma maneira, talvez incorrectamente, traduzido do Grego para o Latim como “Cadente”. O que os Gregos queriam dizer era que um planeta que cai (literalmente) inconjunto no seu próprio domicílio, “fell amiss”. O que todos os astrólogos Árabes fizeram foi comentar este princípio, trazendo o princípio à sua última conclusão. Masha’allah declara isto no seu trabalho, “On Reception”. Nós podemos resumi-lo nesta citação de Masha’allah:

Assim como, com os outros sete planetas, qualquer um destes esteve conjunto para o seu associado desde o domicilio ou exaltação desse associado em [um dos] aspectos reconhecidos ou em um signo, e projeta ou dá a sua disposição, e se esse planeta com o qual está comprometido recebe a disposição, esse planeta levará à perfeição o seu assunto de acordo com o desígnio de Deus.

O que os autores Árabes fizeram com a doutrina da recepção não foi mais do que voltar a expressar a intenção original, de forma a ser aplicável às muitas facetas da astrologia! Estava inerente à astrologia Grega e foi trazida à sua conclusão ‘racional’ pelos Árabes. Na sua forma mais pura, a recepção é o compromisso da disposição dos planetas para com o seu regente, desde que esse regente não esteja inconjunto, ou por outras palavras, mantenha um aspecto com o planeta no seu domicílio. E aqui é extremamente importante perceber exatamente o que é significado pelo aspecto. Como eu escrevi numa publicação anterior, os planetas tinham aspectos porque os signos tinham aspectos. Assim um “aspecto reconhecido” era uma posição em qualquer signo, que não caísse inconjunto (ou, fall amiss) para o signo em questão.

Para uma melhor compreensão da recepção, vejamos a definição dada por Abu Ma’shar:

Recepção é quando o planeta [A] se aplica ao planeta [B] da casa do planeta ao qual ele se aplica [B] ou da sua exaltação, termo, triplicidade ou face [qualquer das dignidades de B onde A está posicionado]: então ele [B] recebe-o [A]. Ou o receptor da aplicação [B] está na casa do planeta que lhe confere a sua natureza e dignidade [A] ou em uma das suas outras dignidades, as quais foram mencionadas antes, então ele [A] recebe-o [B]. O mais forte deles é o Senhor da Casa ou da exaltação. O Senhor do termo ou <o da> triplicidade ou face são fracos, a menos que dois ou mais deles estejam conjuntos. Um deles pode receber o outro também por aspecto sem aplicação, embora a recepção por aplicação seja mais forte.

Abu Ma’shar está outra vez a reiterar a definição de Masha’allah, excepto que ele está a tornar muito claro que há graus de força específicos relacionados com a recepção.

A demonstração de recepção mais simples é como dizer que, a Lua está em Leão e está a aplicar-se a Júpiter em Touro. O planeta [A], a Lua ou o planeta que confere a sua natureza e dignidade está a aplicar-se a Júpiter [B] ou o receptor da aplicação está na exaltação da Lua. A Lua recebe Júpiter. Se a Lua estivesse a 4º de Leão e Júpiter a 14º de Touro, então não só a Lua recebia Júpiter, mas também Júpiter recebia a Lua, uma vez que ela está no seu termo e triplicidade. E uma vez que Júpiter está em seu termo ao 14º de Touro, ele não só executa a sua disposição para ela, mas confere-lhe a sua virtude.

Agora este comprometimento e recepção da disposição dos planetas é muito importante no qual um planeta que não seja necessariamente forte por si só, pode ser elevado e fortalecido pelo planeta que lhe envia a sua disposição. Bonatti escreve,

Por exemplo, Júpiter estava no 9º de Carneiro, e Marte estava no 5º do mesmo Carneiro; agora Marte está conjunto a Júpiter e Marte recebe Júpiter no seu domicílio, por conseguinte Marte confere a Júpiter a sua própria força ou disposição e natureza; e Júpiter tem nesse lugar a dignidade de triplicidade, logo Júpiter agora tem a dignidade de ambos, nomeadamente, o que Júpiter tem de acordo com a triplicidade e o que Marte lhe deu de acordo com o domicílio, a essa mistura que Marte faz com ele é chamada a recepção a que os filósofos chamam Alcobal.

Uma vez que Marte se está a aplicar a Júpiter, ele não só recebe Júpiter mas também confere virtude para Júpiter e o objectivo de Bonatti aqui é dizer que Júpiter já não tem três virtudes [sistema de pontuação] de triplicidade, mas agora tem oito, com as cinco virtudes de Marte por domicílio. Rapidamente se pode ver a utilidade da recepção. No meu exemplo, se a Lua estivesse a 4º de Caranguejo e Mercúrio estivesse a 14º de Touro, a Lua estaria a aplicar-se a Mercúrio e a receber Mercúrio. Contudo, Mercúrio está peregrino mas a Lua está em domicílio e triplicidade e confere a Mercúrio a sua virtude porque Mercúrio também lhe confere a sua disposição. Assim ele beneficia disto e agora tem esta virtude que ela lhe concede, que o eleva da sua peregrinação.

Tendo em mente o acima referido, podemos olhar de perto a definição de recepção de Lilly.

Recepção é quando dois planetas que são significadores em qualquer questão ou assunto estão na dignidade um do outro; como o Sol em Carneiro, e Marte em Leão; aqui a recepção destes dois planetas dá-se por casas; e certamente esta é a mais forte e a melhor de todas as recepções. Pode ser por triplicidade, termo ou face, ou qualquer dignidade essencial; como Vénus em Carneiro e Sol em Touro; aqui a recepção dá-se por triplicidade, se a questão ou a natividade for diurna; então Vénus a 24º de Carneiro e Marte a 16º de Gémeos; aqui a recepção dá-se por termo, estando Marte nos termos de Vénus e ela nos termos dele.

O uso disto é muito útil; muitas vezes quando a resolução do assunto é negado pelos aspectos, ou quando os significadores não se aspectam, ou quando parece muito duvidoso o que é prometido por quadratura ou oposição dos significadores, apesar disso se ocorrer uma recepção mútua entre os principais significadores, o assunto é levado à perfeição, e isto sem grande problema e rapidamente, para o contentamento de ambas as partes.

Segundo a instrução de Lilly, “Aqui há recepção destes dois planetas por casas e certamente esta é a mais forte e a melhor das recepções”, convém esclarecer que esta não é a única forma de recepção, mas é a recepção que tem o maior grau de força, levando à perfeição da coisa inquirida sem obstáculos. Mas convém esclarecer também que não é exclusivamente a única recepção que funciona para levar um assunto à perfeição. Ele não diz a única recepção, mas é a mais forte e a melhor. Tenho a certeza que o interesse de Lilly era transmitir essa forma de recepção aos seus estudantes, a qual sempre deveriam efectuar. Dos exemplos de recepção de horária dados por Bonatti e Masha’allah, é claro que a recepção mútua não é a única recepção que leva à perfeição. Uma simples recepção onde o receptor também confere virtude funciona bastante bem.

Na sua forma mais fraca, a recepção é como Abu declara, quando um planeta recebe outro “sem aplicação”. Quer dizer, se no meu exemplo acima a lua estiver no 3º de Leão e Júpiter no 25º de Touro, a Lua ainda recebe Júpiter, sem aplicação, mas é fraca.

A questão apresentou-se várias vezes na lista, podem dois planetas receberem-se um ao outro não havendo aspecto entre eles. Por exemplo, Marte em Touro e Vénus em Carneiro. A resposta creio eu é sim e não. No coração da recepção está o princípio que os signos devem estar em aspecto. Houve contudo situações e condições que permitiram aos signos ter um relacionamento que não o aspecto, apesar de estarem inconjuntos. Se Marte estiver em Peixes e Vénus em Carneiro, então eu acredito fortemente que ocorra uma recepção, porque Carneiro e Peixes têm uma relação que não aspectual, isto é, são signos de igual ascensão e poder. Se Mercúrio estiver em Caranguejo e a Lua em Gémeos o mesmo acontece porque Gémeos e Caranguejo são signos de poder igual (Antiscia). Se Marte estiver a 8º de Virgem (a triplicidade e termo de Vénus) e Vénus estiver a 8º de Carneiro então a recepção acontece porque embora Virgem e Carneiro não tenham nenhum aspecto reconhecido eles são signos de igual poder (Antiscia). Al Biruni argumenta de forma convincente as condições que aliviam a inconjunção e a sua utilidade.

A este tipo de recepção foi chamado “generosidade” e Ibn Ezra explica isto à sua maneira,

Generosidade é quando dois planetas estão no domicílio um do outro, ou exaltação ou outro tipo de regência; mesmo que não estejam em conjunção ou aspecto um ao outro, ainda existe recepção entre eles.

Abu Ma’shar na sua Grande Introdução, de facto entra em maiores pormenores.

Em generosidade (i.e. recepção) alguns são considerados mais fortes, alguns mais fracos, alguns de fortaleza média. A grande generosidade está entre o Sol e a Lua. Por, a Lua a receber do Sol em qualquer signo, excepto quando em oposição, na qual está debilitada. Assim quando a Lua entra em um signo em que o Sol goza de alguma dignidade, os seus benefícios são a dobrar: um benefício é dado pelo signo [a dignidade do Sol] o outro da natureza [a natureza benéfica do Sol]. Quando outro planeta está em Virgem, Mercúrio concede-lhe dois benefícios por isso. Mas um benefício médio é o que cada estrela recebe de outra, seja da sua casa ou da sua exaltação ou da sua face ou da sua triplicidade ou do seu termo. Se duas destas são concedidas será muito bom. Seja o que for, excepto o mencionado anteriormente, será fraco.

Espero que esta informação não seja excessiva. A recepção é uma dinâmica muito útil em horária, natal, mundana e electiva. Onde as diferenças de opinião ocorrem mais frequentemente é habitualmente devido a diferenças de aplicação. Uma pergunta horária, geralmente lida com o imediato, comparado a toda uma vida em uma natividade. As regras de recepção são idênticas, mas é a expectativa que é muito diferente.



Tradução de Paulo Alexandre Silva.
Extraído de: http://www.astrologiamedieval.com/Recepcao.htm

sábado, 1 de julho de 2017

Outras Dinâmicas entre Planetas, por Clélia Romano

Ainda dentro das relações entre planetas, dado o movimento constante deles nos céus, podem ocorrer inúmeras variáveis de encontros, desencontros e impedimentos para sua colaboração efetiva.

Chamarei atenção agora para um fato semelhante à recepção. mas que funciona simplesmente pelo contato: trata-se da comissão de disposição e transferência de virtude "pelo corpo".

Quando um planeta faz aspecto com outro, desde que nenhum se interponha primeiro entre eles, o planeta A passa sua virtude (se a tiver) para o planeta B. O segundo planeta fica portador da virtude que possuir mais aquela que lhe foi transmitida pelo primeiro planeta.

Então vejamos: a Lua está a 6° de Câncer, Vênus está 8° de Câncer e Saturno a 9° de Libra. A Lua passa sua virtude a Vênus (note que ela possui virtude, pois está em seu domicílio) "através de seu corpo" e a transmite a Vênus.

Vênus que já tinha triplicidade e face neste signo e grau agora tem também a força de regência.

A ideia de transmissão de virtude vem desde Paulus de Alexandria, autor Helenístico. Ele dizia que se um planeta cadente e sem forças, recebesse um aspecto de Júpiter, por exemplo, ele poderia ser ativado e tornado útil, funcionando como se estivesse num ângulo ele mesmo.

A seguir abordarei uma série de fatores dinâmicos que ocorrem entre planetas, além da transmissão de virtude.

Entre as dinâmicas temos:

1 - A translação de luz ocorre quando um planeta mais leve se aplicou a um planeta e em seguida vai aplicar-se a outro: neste caso a luz do segundo será transferida para o terceiro. Isso só pode  ocorrer se houver recepção. Digamos que a Lua está a 6° de Câncer, Vênus está 8° de Câncer e Saturno a 20° de Libra. A Lua faz um aspecto com Vênus e a seguir com Saturno. Como Vênus recebe Saturno por domicílio, a qualidade de Vênus, é transferida para Saturno: os dois significadores ficam unidos, mesmo que não estivessem unidos em aspecto.

2 - A coleção de luz ocorre quando dois planetas que estão inconjuntos faz
em aspecto a um terceiro mais lento que coleta, reúne a luz dos dois promovendo sua união.

3 - O retorno de virtude. Suponha que Saturno esteja retrógrado a 25° de Libra no Ascendente e Júpiter esteja no Meio Céu em Câncer a 25°.

Júpiter é o mais leve, portanto ele se aplica a Saturno. Saturno está retrógrado e por isso não pode obter a virtude de exaltação que Júpiter tem em Câncer. Ele a devolve então, fazendo o retorno da virtude a Júpiter que sai aprimorado com as qualidades de exaltação de Saturno em Libra. Júpiter que já era forte fica duplamente forte.

Os desencontros e perdas entre planetas são em maior número:

1 - Impedimento ou proibição: por vezes um planeta mais ligeiro vai se aplicar a outro mais lento e um terceiro planeta se interpõe entre os dois.

2 - Refranação: O planeta A que buscava aspecto com o planeta B desiste e entra em retrogradação,

3 - Contrariedade: o planeta A que ia aspectar o planeta B é impedido de fazê-lo porque outro, o planeta C, entrou em retrogradação e aspectou B primeiro.

4 - Frustração: o planeta A tenta o aspecto com B, mas B muda de signo e completa o aspecto com o planeta C (o planeta A fica "frustrado").

5 - Corte da luz: o planeta A ia fazer aspecto com B e a seguir com C, eventualmente fazendo urna translação de luz entre eles, mas C se torna retrógrado e atinge B primeiro. Este aspecto não impede o aspecto do significador A para os outros dois, mas impede a translação de luz de A para C por isso o aspecto é denominado corte da luz.

Concluindo, o importante não é gravar os nomes corretos, mas ter em mente o significado e as potenciais possibilidades de encontro ou empecilho ao encontro entre planetas.

Além disso, ter a tabela de efemérides à mão é imprescindível. sem a qual as vezes não conseguiremos saber o que ocorrerá proximamente aos planetas, o que significa que não conheceremos os sinais do futuro.

O leitor deve estar atento a esses aspectos e relações.

Em astrologia horária tais vicissitudes entre os planetas nos ajudam a prever um desenvolvimento favorável ou não, e na astrologia natal esses aspectos podem auxiliar ou prejudicar um planeta.

Em astrologia natal deveriam ser mais utilizadas, visto que tais dinâmicas nos dirão sobre o que ocorrerá ao nativo conforme o mapa natal progrida em suas direções.

Por exemplo, digamos que em um mapa natal a Lua esteja em Câncer a aplicar-se por um trígono a Vênus em Peixes. Imaginemos que a Lua esteja a 10° de Câncer e Vênus a 16° de Peixes. Haverá urna recepção mútua por triplicidade e um aspecto de trígono. Mas, vamos supor que Saturno esteja a 11° de Capricórnio.

Como a Lua é mais rápida que Vênus ela é quem vai se aplicar a Saturno primeiro, pois é sempre o planeta mais rápido que se aplica ao mais lento. Ocorre que Saturno não recebe a Lua e nem a Lua recebe Saturno. A Lua tem seu detrimento em Capricórnio e Saturno tem seu detrimento em Câncer.

Se o leitor estivesse interpretando uma carta horária essa situação seria desastrosa caso a Lua e Vênus fossem os significadores da matéria, que seria sumariamente negada.

Mas na astrologia natal essa dinâmica também é importante: corno a carta progride, podemos imaginar que a Lua vá se defrontar logo de início com Saturno.

As coisas seriam mais fáceis para o nativo se a Lua fosse se aplicar a Vênus e tal situação planetária pode representar a diferença entre uma infância feliz ou difícil.


Clélia Romano, in Fundamentos da Astrologia Tradicional, Edição do Autor, 2011.

O livro pode ser adquirido aqui: http://www.astrologiahumana.com/

terça-feira, 27 de junho de 2017

A Recepção, por Clélia Romano

Chamamos recepção o que ocorre quando um planeta se aplica a outro planeta que rege o signo ou uma das dignidades essenciais onde o primeiro se encontra, isto é quando o planeta mais rápido que se aplica ao mais lento está na casa onde o mais lento tem sua regência ou exaltação ou duas de suas dignidades menores.

Por exemplo, digamos que a Lua em Câncer faz um sextil a Júpiter em Touro. Júpiter está no signo onde a Lua tem sua exaltação e a Lua está no signo onde Júpiter tem sua exaltação: neste caso há mútua recepção por exaltação.

A recepção fortalece os aspectos e os torna efetivos.

Quanto à quadratura e oposição a recepção tem a capacidade de afastar totalmente a malícia do aspecto, embora que especialmente na oposição o traço de contrariedade sempre permaneça.

Suponhamos que Marte esteja a 9° de Capricórnio e Saturno a 9° de Aries. Trata-se de urna quadratura e a mesma trará certa fricção, mas Saturno é o dono do signo em que Marte está. Em outras palavras Marte está na casa de Saturno. E o oposto também acontece.

Simbolicamente, o que ocorre nas relações sociais ocorre também entre os planetas: o dono da casa quando recebe um convidado dá o melhor a ele, e o convidado procura não abusar e portar-se com certa cerimônia.

No caso do exemplo, Saturno está na casa de Marte e Marte o recebe. Logo Marte dá o melhor de si a Saturno e este corresponde a Marte na mesma quantidade.

Esta recepção mútua é uma dinâmica muito importante, pois a quadratura transforma-se praticamente em uma amizade.

Os planetas podem se receber por domicílio, exaltação, triplicidade, termo e face.

Quando estão ocupando o lugar de queda ou detrimento de outro planeta dizemos que não há recepção alguma, mesmo que haja aspecto: um trígono e um sextil, embora aspectos de amizade não são de grande valia sem recepção.

Basta um só planeta receber o outro que algum tipo de acordo se estabelece, desde que o seja por domicílio ou exaltação ou então por duas dignidades menores. Por exemplo, se o Sol estivesse em Áries, Marte receberia o Sol, mas o Sol não receberia Marte em Capricórnio, pois Capricórnio não é um signo onde o Sol tenha alguma dignidade. Neste caso dizemos que há uma recepção simples.


Veremos novamente o mapa de exemplo:


Observem que o Sol e a Lua não fazem aspecto, mas há entre eles uma relação cordial, chamada pelos Árabes de generosidade, visto que a Lua está na casa do Sol e vice-versa. Ocorre que se um planeta não vê o outro (não faz aspecto), essa recepção não tem como ser operativa a menos que um terceiro planeta interferira e seja um elemento de ligação entre os dois ou que os primeiros planetas estejam conjuntos por antiscio.

Nesta carta, por signos completos, Júpiter faz aspecto com o Sol e a Lua, nomeadamente uma quadratura com o Sol e um sextil com a Lua. Júpiter está coletando a luz de ambos segundo o que será explicado mais adiante.

Continuando, Saturno e Júpiter fazem aspecto: há uma quadratura com forte recepção mútua por exaltação.

Observe o esquema a seguir:


Júpiter é o regente do Ascendente e está razoavelmente forte: em nossa tabela de almuten ele é o planeta mais forte da carta com 9 pontos.

Aprofundando a relação entre Júpiter e Saturno na presente figura vemos que Júpiter em Libra não faz aspecto com o Ascendente em Peixes, mas Saturno faz um trígono com o ASC e se encarrega de servir de intermediário entre ambos.

Ora, Júpiter rege a Casa 10, a profissão e está na Casa 8, o dinheiro e os recursos da parceria. Este nativo tende a trabalhar com recursos de parceiros, esposas, amantes, usando tais recursos para exercer a profissão. Como Júpiter e Saturno estão em recepção mútua, há a colaboração dos amigos para que o nativo se realize em suas motivações pessoais, visto que Júpiter rege o ASC e Saturno está conjunto ao ASC por antiscio e o aspecta por trígono. Saturno rege a Casa 11, o suporte profissional. No entanto, dada a debilidade de Saturno o que é construído não tem durabilidade.

Examinando a situação de Júpiter, vemos que ele recebe um sextil de Vênus e da Lua. Em relação à Vênus é um sextil poderoso, pois há recepção mútua, mista: Vênus recebe Júpiter por domicílio e Júpiter recebe Vênus por triplicidade e face. Já com a Lua, Júpiter a recebe por triplicidade e face, mas a Lua não recebe Júpiter.

Vênus não é mais peregrina, pois é recebida por Júpiter que lhe confere sua própria disposição. Nem a Lua o é, pois Júpiter a recebe por triplicidade e face. A recepção agrega valor a um planeta, mas tão somente se o planeta que confere a dignidade tem algo a contribuir, isto é não esteja debilitado.

Vênus e Lua estão conjuntas e representam universalmente figuras femininas: Vênus, a sensualidade e Lua, a proteção.

Vênus rege a Casa 8 e a Casa 3 : o dinheiro da parceria e as comunicações. A Lua rege a Casa 5, os filhos, o divertimento e o sexo.

Ora, a profissão (Júpiter) e o nativo (também regido por Júpiter) estão poderosamente ligados à comunicação, sexo, divertimento, dinheiro dos outros e mulheres.

Tudo isso está extraordinariamente beneficiado por causa da recepção, uma vez que Vênus e Lua estão cadentes e sem dignidade essencial por si mesmas, mas recebem qualidade e força de Júpiter, que está em sua triplicidade e em casa proveitosa, sucedente.

Efetivamente, a profissão que o nativo desempenhou durante seu "prime" e que o tornou rico por uma fase da vida relacionava-se a emprestar dinheiro de uma grande organização financeira a terceiros. Ele atuava comercialmente e era encarregado da propaganda e marketing (comunicação) e do setor de relações públicas e vendas. Havia muita mistura de divertimento e mulheres no meio em que trabalhava, mulheres essas representadas pela Casa 6, isto é secretárias pessoais e das empresas com as quais tinha contato.

Isto durou por certo tempo de sua vida, visto que Saturno em mal estado zodiacal e regente da Parte da Fortuna, entrava na configuração com Júpiter.

Resumindo, quando um planeta está em aspecto com o regente do seu signo por uma das grandes dignidades ou por duas dignidades menores tais como triplicidade, termo ou face, o governante da dignidade eleva este planeta.

Percebe-se que delinear uma carta é um trabalho de paciência e calma: é como tecer urna veste a partir de um fio.

É impossível ao astrólogo Tradicional olhar uma carta e sair com as respostas na mesma hora. A carta é o desenho de uma vida ou de um fato, conta uma história que pode ter dezenas, centenas ou milhares de anos.

Astrólogos são leitores de sinais, e precisam se devotar à esfinge que a figura representa sem pressa ou ansiedade, ler a carta, colocando um passo após o outro.

Não se impressione quem ficar inicialmente perdido e incapaz de dizer algo. Este é um bom sinal: mostra que a pessoa está se tornando um astrólogo Tradicional. Desconfie de respostas fáceis. Por vezes elas ocorrem, mas são o resultado de anos de experiência.

A linguagem dos planetas e suas relações, corno vimos, são simbólicas e os símbolos têm a característica de ser a condensação de múltiplos significados.

Precisamos verificar as recepções, os dispositores de cada planeta e em que casa e signo estão posicionados, se estão fracos ou fortes, benéficos ou maléficos, em casas proveitosas ou fracas, até que se comece a formar um padrão.

O resultado é que se estuda muito para dizer pouco. Mas o que é dito, costuma ser o essencial, significativo e por vezes até impressionante.


Quem seguir o fio verá.



Clélia Romano, in Fundamentos da Astrologia Tradicional, Edição do Autor, 2011.

O livro pode ser adquirido aqui: http://www.astrologiahumana.com/