segunda-feira, 1 de maio de 2017

Pensamento de Gurdjieff sobre o Livre-Arbítrio, por Ouspenski

Falando sobre o livre-arbítrio, Gurdieff disse numa conferência compilada por Ouspenski no livro "Psicologia da Evolução Possível ao Homem":

Devemos partir da ideia de que sem esforços a evolução é impossível e de que, sem ajuda, é igualmente impossível.

Depois disso, devemos compreender que, no caminho do desenvolvimento, o homem deve tornar-se um ser diferente e devemos estudar e conceber de que modo e em que direção deve o homem converter-se num ser diferente, isto é, o que significa um ser diferente.

Depois, devemos compreender que nem todos os homens podem desenvolver-se e tornar-se seres diferentes. A evolução é questão de esforços pessoais e, em relação à massa da humanidade, continua a ser exceção rara. Isso talvez possa parecer estranho, mas devemos dar-nos conta não só de que a evolução é rara, mas também que se torna cada vez mais rara.

O homem não se conhece.

Não conhece nem os próprios limites, nem suas possibilidades. Não conhece sequer até que ponto não se conhece.

O homem inventou numerosas máquinas e sabe que, às vezes, são necessários anos de sérios estudos para poder servir-se de uma máquina complicada ou para controlá-la. Mas, quando se trata de si mesmo, ele esquece esse fato, ainda que ele próprio seja uma máquina muito mais complicada do que todas aquelas que inventou.

Está cheio de idéias falsas sobre si mesmo.

Antes de tudo, não se dá conta de que ele é realmente uma máquina.

O que quer dizer: “O homem é uma máquina”?

Quer dizer que não tem movimentos independentes, seja interior, seja exteriormente. É uma máquina posta em movimento por influências exteriores e choques exteriores. Todos os seus movimentos, ações, palavras, idéias, emoções, humores e pensamentos são provocados por influências exteriores. Por si mesmo, é tão-somente um autômato com certa provisão de lembranças de experiências anteriores e certo potencial de energia em reserva.

Devemos compreender que o homem não pode fazer nada.

O homem, porém não se apercebe disso e se atribui a capacidade de fazer. É o primeiro dos falsos poderes que se arroga.

Isso deve ser compreendido com toda a clareza. O homem não pode fazer nada. Tudo o que crê fazer, na realidade, acontece. Isso acontece exatamente como “chove”, “neva” ou “venta”.

Infelizmente, não há em nosso idioma verbos impessoais que possam ser aplicados aos atos humanos. Devemos, pois, continuar a dizer que o homem pensa, lê, escreve, ama, detesta, empreende guerras, combate, etc. Na realidade, tudo isso acontece.

O homem não pode pensar, falar nem mover-se como quer. É uma marionete, puxada para cá e para lá por fios invisíveis. Se compreender isso, poderá aprender mais coisas sobre si mesmo e talvez, então, tudo comece a mudar para ele.

Mas, se não puder admitir nem compreender sua profunda mecanicidade, ou não quiser aceitá-la como um fato, não poderá aprender mais nada e as coisas não poderão mudar para ele.

O homem é uma máquina, mas uma máquina muito singular. Pois, se as circunstâncias se prestarem a isso, e se bem dirigida, essa máquina poderá saber que é uma máquina. E se der-se conta disso plenamente, ela poderá encontrar os meios para deixar de ser máquina.

domingo, 30 de abril de 2017

Sobre o livre-arbítrio, por Marcos Monteiro

(...) O terceiro risco é negar o livre-arbítrio. A ênfase não é no poder do astro, é na falta de capacidade da pessoa de resistir. O interessante é que, embora negar o livre-arbítrio seja um pecado grave (porque aí a salvação e a condenação não seriam frutos das nossas ações, mas do destino inescapável), negar o livre-arbítrio por causa da astrologia é, antes disso, burrice grave. Se, como vimos antes, os astros não têm influência nenhuma (são apenas símbolos), a discussão não cabe aqui. Se não há livre-arbítrio, a culpa não é do céu; eles são, no máximo, escravos junto conosco.

Este erro (que eu chamo de antropológico) merece uma explicação um pouco maior. Algumas coisas mostradas pelo céu são, sim, irreversíveis (o astrólogo pode errar, mas, se não houver erro de interpretação, a coisa mostrada vai acontecer). Isso não acontece porque os astros determinaram, mas porque a natureza da realidade é assim. Se a previsão for de um terremoto, ou de um temporal, não há muito o que se possa fazer para impedir o evento.

Outras coisas podem ser revertidas, mas com muita dificuldade. Previsões de morte de pessoas ou animais doentes; derrota em eleições, ações em tribunais, resultados de jogos de futebol. Estamos lidando com coisas que admitem intervenção, mas limitada.

Por último, algumas podem ser evitadas, até com facilidade, mas não são. O exemplo mais comum são previsões amorosas. O ser humano tem o livre-arbítrio que, por definição, pode ser abandonado. Ele sempre envolve a frustração de um desejo: escolher entre carne e peixe pelo sabor não é usar o livre-arbítrio, mas consultar o estômago. Esses desejos podem (por serem disposições psicológicas, influenciáveis pelo exterior, por mudanças biológicas) ser identificados pela astrologia e mostrar um desfecho provável que, em grande parte das vezes, é o que acontece, mesmo quando a pessoa consulta um astrólogo e é avisada dos detalhes da situação.

Uma característica importante do ser humano é que ele tem livre-arbítrio, mas que não o usa com freqüência. Uma característica importante da astrologia é que ela pode descrever o estado de coisas, inclusive as disposições internas da pessoa; e que este estado vai se comportar de forma previsível, de acordo com a sua natureza, se a pessoa não resolver ativamente resistir.

Marcos Monteiro, in Introdução à Astrologia Ocidental, Edição do Autor, 2013, pp. 27-8.
Há a idolatria direta aos astros (rezar para Júpiter, dar oferendas a Vênus, pedir aos planetas que resolvam seus problemas, etc.) e há a idolatria indireta: culpar as influências dos astros pelos nossos erros ("Mercúrio me fez chegar atrasado"; "Eu queria ser fiel, mas a Vênus peregrina do meu mapa não me deixa"; ou "Como é que posso ser calmo tendo esse Marte?"). O erro aqui é dar poder, autonomia, aos planetas, como se fossem deuses. Pode parecer que pouca gente os idolatra diretamente, mas a astrolatria indireta é comum, até mesmo hoje em dia: por exemplo, muita gente procura consultas natais ou horárias com uma vaga esperança de que "os astros" possam melhorar a sua vida; ou tentam fazer algo para aplacar a influência nefasta de um planeta sobre alguma coisa. Os planetas são símbolos, as limitações e vantagens mostradas no mapa estão na situação que ele representa. É mais fácil, em alguns casos, dizer "o planeta X influencia a aparência", ou "esse aspecto garante que o evento vá acontecer", mas isso tudo são figuras de linguagem. Eles só simbolizam, não influenciam.

Marcos Monteiro, in Introdução à Astrologia Ocidental, Edição do Autor, 2013, pp. 26-7.

Uma nota sobre as outras astrologias, por Marcos Monteiro

Eu recomendo, no meu curso, que os alunos se afastem, pelo menos no início dos estudos, das outras astrologias.

Pelo que escrevi até agora, é fácil entender porque não aconselho o estudo da astrologia moderna; só que também não aconselho que se estude a astrologia indiana, ou chinesa.

Aqui, o problema não é que elas não funcionem, ou façam mal; é o contrário. Elas funcionam muito bem... dentro do conjunto cultural, filosófico e religioso no qual nasceram.

É possível estudar astrologia indiana e aprendê-la.

É mais fácil se você tiver sido educado na Índia, seguir o dharma e estiver familiarizado com a cultura, com os textos religiosos e com o pensamento hindu.

É mais difícil se você for um ocidental que se interesse bastante por tudo o que mencionei acima, mas é possível.

É muito mais difícil se você só quiser aprender a astrologia indiana, sem vontade de se inteirar na cultura e na visão de mundo hindu, mas ainda é, imagino, possível.

É muito mais difícil ainda se você quiser aprender duas astrologias, principalmente ao mesmo tempo. São duas visões de mundo diferentes. Do conceito de alma à noção de Zodíaco, a pessoa tem que ficar mudando o sistema de coordenadas mental conforme muda de astrologia.

Por fim, não é possível fazer uma mistura das duas. Pelo menos, misturar as duas de forma produtiva.

Acontece a mesma coisa com a religião. É possível ser um bom cristão, é possível ser um bom muçulmano, é possível ser um bom budista. O sujeito que tentar ser as três coisas ao mesmo tempo vai ficar louco.

É claro que, como a astrologia está num nível diferente da religião, as coisas não são tão drásticas; não é impossível que alguém seja bom em duas, ou mesmo três, astrologias diferentes, só acho que o esforço mental aumenta demais para um ganho pequeno.

Se elas funcionam, basta aprender uma direito. Se elas não funcionam, não adianta aprender nenhuma.

Os sistemas astrológicos são orgânicos. Qualquer coisa para ser inserida neles deve se harmonizar com que já existe. Isso já aconteceu na astrologia ocidental diversas vezes; mas uma coisa é um aporte externo que se harmoniza com o sistema, outro é usar algo externo, com base num sistema diferente, e para o qual o seu próprio sistema tem algo que funciona perfeitamente bem.

Além disso, muita coisa do que se vende como "astrologia védica", ou "hindu", e "astrologia chinesa" é só uma salada moderna com alguns temperos exóticos. Não é a opção mais inteligente para quem quer fugir do ocidente.

Marcos Monteiro, in Introdução à Astrologia Ocidental, Edição do Autor, 2013, pp. 13-5.

O que é astrologia? por Marcos Monteiro

Até aqui, falei de astrologia sem defini-la. Todo mundo tem alguma idéia, mesmo que vaga ou errada, do que seja astrologia, o que torna mais fácil primeiro tirar do caminho o que ela não é; mas agora preciso dizer o que ela e.

Definir astrologia é algo relativamente simples, desde que algumas outras coisas estejam claras. Então, vamos iluminá-las.

1) Céu: uma grande esfera, azul-clara de dia e escura com diversos pontos brilhantes de noite, da qual vemos sempre no máximo metade. Ou seja, o céu visível.

"Ah, mas isso é uma ilusão, essa esfera não existe de verdade".

Claro que existe. Eu não disse que ela é um corpo físico. O que vemos (ou, no caso de quem mora em grandes cidades, intuímos) é isso; sua origem — ou existência — fisica não importa agora.

2) Corpos celestes: estrelas visíveis, planetas, o Sol e a Lua (sobre as nuvens, aviões, etc:, veja abaixo).

3) Eventos terrestres: qualquer coisa que ocorra no mundo, que não seja no céu (pássaros e morcegos, neste sentido, são terrestres; o clima não é céu, muito menos as nuvens; quem mora em locais montanhosos sabe disso, porque há lugares de onde se podem ver as nuvens abaixo de nós. Os objetos feitos pelo homem também não são celestes. Podemos entrar e sair de aviões, que foram feitos aqui e pousam na terra. Eles não estão no céu que definimos acima e pertencem aos eventos terrestres).

Ascensão e queda de impérios, dinastias, países, guerras, chuvas, terremotos, nascimento, desenvolvimento e morte de organismos, emoções, sensações, atos humanos, comportamento de máquinas, acidentes, casamentos, divórcios, etc. Tudo isso são eventos terrestres.

Com esses conceitos, é fácil dar uma definição decente de astrologia:

Astrologia é: a arte (ou técnica) de observar os corpos celestes e suas relações entre si e com o céu e relacioná-los a eventos terrestres.

Ou seja, a astrologia é a arte ou técnica de estabelecer relações entre relações.

Isso é importante, porque não é enfatizado suficientemente nos textos astrológicos em geral.

Por exemplo, posso dizer que "o Sol é um símbolo do rei". Mas, na verdade, o que eu estou dizendo é que, entre outras relações possíveis, o Sol está para os outros planetas assim como o rei está para os seus súditos (ou seja, o Sol não é o símbolo do rei enquanto inimigo de outro rei, ou na relação dele com sua mãe, por exemplo).

O simbolismo astrológico é, na verdade, o simbolismo natural aplicado aos corpos celestes. Em alquimia, por exemplo, a relação entre os metais (derivada das suas qualidades sensíveis) é análoga à relação entre os planetas (podemos associar cada planeta a um metal).

Na verdade, o simbolismo como um todo (seja dos planetas, dos metais, das fases da vida, dos animais, etc.) é harmônico porque traduz a estrutura do real. Uma dada coisa (ou pessoa, ou país) não se comporta de forma marcial porque Marte "influencia" seu comportamento; mas porque há uma qualidade em ambos, coisa e planeta, que se evidencia no simbolismo associado a Marte (ou ao cabrito montês, ou ao ferro).

Ou seja, as relações entre os planetas, ou entre eles e o céu, expressam relações possíveis do real, e nos ajudam a descobrir estas relações nos eventos terrestres; falo sobre isso mais à frente.

O leitor vai notar que essa definição não fala em influências gravitacionais, nem em modificações da consciência coletiva, porque essas coisas não são astrologia.

Essas explicações pseudocientíficas, que requentam conceitos fisicos mal-entendidos, não devem ser levadas a sério. Não são tentativas de entender o fenômeno astrológico, mas de fornecer conforto psicológico a quem pratica astrologia, mas foi educado para acreditar que ela é bobagem.

Resumindo: neste livro vamos estudar as bases simbólicas da técnica que relaciona eventos visíveis no céu com eventos na terra, tomando por base a cosmologia ocidental cristã.

Marcos Monteiro, in Introdução à Astrologia Ocidental, Edição do Autor, 2013, pp. 12-3.

Interpretando Dignidades e Debilidades (3), por Clélia Romano

O que é preciso ter em mente é que qualquer planeta na carta se relaciona com o signo que rege: esta é uma chave de extrema importância para obter informações práticas e fazer uma delineação.

Além disso, devemos saber que um planeta pode, dependendo de seu estado zodiacal ou essencial:

1. Realizar algo
2. Negar algo
3. Destruir algo nem bem é produzido

Algo a lembrar também é que um maléfico em bom estado zodiacal vai produzir bons efeitos para aquela casa, mas ele jamais será um benéfico. Por exemplo, Marte na sétima casa, mesmo em Escorpião, seu domicílio e onde regozija, vai produzir um casamento, mas será um tipo de casamento onde a dominação e a competitividade própria do planeta sempre existirão. Trata-se do aspecto qualitativo de cada planeta, seu "esse" próprio: Saturno representa obstáculos e restrições, Marte contendas, Vênus prazer, Mercúrio troca de idéias, etc.

Imaginemos agora Saturno em Capricórnio ou Aquário na Sétima Casa: tanto quanto Marte em Escorpião ele vai produzir um casamento ou parceria, mas a parceria terá limitações, deveres, restrições, podendo ocorrer com pessoa mais velha, etc
.
O interessante é que se Marte ou Saturno estivessem debilitados na Sétima Casa, eles ainda poderiam realizar um casamento ou parceria, pois estariam angulares'`, mas o destruiriam depois.

Recapitulando, faz parte da essência de cada planeta possuir características que, quando manifestas, constituem o aspecto formal do planeta. Tais características sofrem modificações conforme o planeta esteja num signo ou em outro.

Quando o planeta está em seu próprio signo de regência ele manifesta o melhor de si, sua natureza fortalece-se nos aspectos benéficos e atenua-se nos aspectos maléficos. Em seu próprio signo, como um homem em sua própria casa, o planeta sente-se bem.

Quando estudarmos as casas, a essa delineação da condição essencial somaremos as dignidades terrestres ou acidentais do planeta.

Clélia Romano, in Fundamentos da Astrologia Tradicional, Edição do Autor, 2011, p. 53. http://www.astrologiahumana.com/