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segunda-feira, 26 de junho de 2017

O Zodíaco na Astronomia e na História, por Helena Avelar e Luis Ribeiro

O Zodíaco é uma estrutura celeste muito antiga. Terá sido definida pelas civilizações mesopotâmicas há 7.000 anos. A sua representação pode ser encontrada em quase todas as civilizações clássicas.

As doze divisões foram provavelmente originadas pelas estações do ano e pelo movimento lunar, pois num ano o Sol e a Lua encontram-se (Lua Nova) 12 vezes. Este facto deu origem aos 12 meses do calendário e, por consequência, a 12 divisões no caminho do Sol do Céu.

Numa fase inicial, estas divisões eram marcadas por estrelas e os signos do Zodíaco corresponderiam a conjuntos de estrelas: as constelações zodiacais. Este Zodíaco, baseado em constelações, é denominado por Zodíaco sideral.

Com o passar do tempo, os astrólogos/astrônomos notaram que o início das estações e os signos estavam desfasados e que este desfasamento aumentava com o tempo. Descobriu-se, assim, o fenômeno da precessão dos equinócios. Este movimento provoca uma deslocação do ponto vernal (o ponto onde o Sol está posicionado no Equinócio da Primavera) em relação ao pano-de-fundo de estrelas. Assim, o ponto vernal percorre todas as constelações do Zodíaco num período de 25.920 anos (mudando de signo a cada 2.160 anos).

Zodíaco Sideral, Zodíaco Tropical e a Precessão
Este movimento dá-se na ordem inversa das constelações (ou seja, o equinócio desloca-se da constelação de Carneiro para a de Peixes, depois para Aquário, etc.) e deve-se a uma oscilação cíclica do eixo da Terra.

A Precessão dos Equinócios e o Eixo da Terra
Para evitar o desfasamento e associar definitivamente o Zodíaco com as estações, o Zodíaco sideral foi substituído pelo Zodíaco tropical, no qual os signos são divisões das quatro estações do ano. Este é o Zodíaco utilizado pela tradição ocidental.

Desconhece-se quando esta mudança ocorreu. O seu grande divulgador foi, sem dúvida, Ptolomeu (c.100-c.178), mas o conceito pode ser bastante anterior a este autor. Como na época de Ptolomeu (início da era cristã) os dois zodíacos eram quase coincidentes, torna-se muito difícil determinar qual dos dois era utilizado pelos astrólogos de então.

No entanto, quase todos os autores ocidentais pós-ptolemaicos utilizam o Zodíaco tropical.

A grande excepção é a Astrologia Hindu, que evoluiu separadamente da tradição ocidental a partir do período grego e que ainda hoje utiliza o Zodíaco sideral.


Constelação versus signo

Desta forma, na tradição astrológica ocidental, quando falamos de signos não estamos a referir constelações. Os nomes coincidem porque o simbolismo dos signos foi extraído, em grande parte, das constelações.

Quando alguém diz que nasceu no "signo" do Capricórnio (referindo-se, portanto, ao signo solar) ficará talvez surpreso ao descobrir que, do ponto de vista astronômico, nessa época do ano o Sol está afinal na "constelação" do Sagitário.

O desfasamento atual entre os dois zodíacos é de 24° e é denominado Ayanamsa (termo Hindu).

Este fato não invalida a Astrologia, como por vezes se afirma, apenas indica o uso de um referencial diferente do da Astronomia. Estações e signos são o referencial do Zodíaco tropical, e os grupos de estrelas (constelações) o do Zodíaco sideral.

Nota: Apesar desta diferença ser reconhecida pelos Astrólogos há pelo menos dois milênios, muitos estudantes e (mais grave) alguns profissionais da Astrologia, desconhecendo este facto (ou ignorando-o propositadamente por facilitismo), teimam em chamar aos signos "constelações", perpetuando assim a confusão.


As eras astrológicas

Outro fenômeno associado à precessão dos equinócios é a sequência das eras astrológicas. Como o ponto vernal demora 2.160 anos a percorrer uma constelação, diz-se que nesse período essa constelação rege e determina os assuntos mundiais. É este o caso da famosa era de Aquário, para a qual caminhamos, segundo uns, ou que já estamos a viver, segundo outros.

Com base nas computações mais comuns, o ponto vernal encontra-se neste momento a cerca de 6° da constelação de Peixes e caminha lentamente (1° a cada 72 anos) para a constelação de Aquário. Estando correto este cálculo, deveremos chegar à era de Aquário daqui a cerca de 432 anos. Como as fronteiras das constelações são muito discutíveis, estes cálculos são deixados à imaginação e inventividade dos diversos autores.

As eras são muito utilizadas pelas correntes místicas/esotéricas modernas para explicar a "evolução" da Humanidade ao longo da História e justificar aparentes "alterações" no comportamento do ser humano.

Embora interessante, esta teoria não é mencionada de forma significativa nas fontes tradicionais, nem lhe é atribuída pela Tradição (tanto quanto sabemos) qualquer aplicação prática. Não há evidências da interpretação astrológica da precessão dos equinócios anteriores a 1870. Trata-se, portanto, de um conceito relativamente recente. Em contrapartida, o sistema tradicional aplica frequentemente e de forma mais pragmática outro tipo de ciclos, sobretudo na área da Astrologia Mundana.



Extraído de: Helena Avelar e Luis Ribeiro, in Tratado das Esferas. Editora Pergaminho. Cascais, Portugal, 2007.

Pode ser adquirido em nova edição aqui: https://www.facebook.com/prismaedicoes/


domingo, 18 de junho de 2017

Curso de Iniciação à Astrologia Tradicional (Parte 1)


Apresentação dos slides do Curso de Iniciação à Astrologia Tradicional - Parte 1.

Conteúdo:
  • Histórico
  • Definições
  • Qualidades Primitivas
  • Elementos
  • Temperamentos

Para assistir a apresentação em Power Point, siga o link abaixo:

https://drive.google.com/file/d/0BwHlJGrC7JnqR0dJaGRrZlRpTHc/view?usp=sharing

sábado, 17 de junho de 2017

A Carta é a Nossa Mente? Por Benjamin Dykes

Uma das coisas mais importantes que me ajudaram a aprender a astrologia tradicional foi entender a diferença entre objetividade e subjetividade em um mapa. Em certo sentido, a astrologia tradicional é mais objetiva, enquanto a astrologia moderna é mais subjetiva. Esses termos podem significar uma série de coisas diferentes, então deixe-me explicar um pouco mais de onde eu venho. A principal distinção é esta: na astrologia moderna, a carta natal é geralmente tomada como uma imagem de sua mente. Na astrologia tradicional, o mapa é uma imagem do seu lugar no mundo como um todo, apenas parte do que é sua mente.

Vamos tirar dois exemplos. Na astrologia moderna, a segunda casa é levada a indicar "valores". Agora, os valores são algo experimentado através da mente: eles pertencem a julgamentos que fazemos sobre as coisas. Mas pense em todas as coisas do mapa que têm valor pessoal ou moral, ou são pessoas reais ou coisas que valorizamos: dinheiro, parentes, pais, filhos, prazeres, relacionamentos, espiritualidade, educação, honra e prestígio, amigos. Há também coisas sobre as quais valoramos negativamente: escravidão e doença, morte, depressão e inimigos. Nós colocamos valores positivos ou negativos em todas essas coisas, e não há nenhuma maneira de podemos incorporar tudo isso para a simbologia da segunda casa. Em vez disso, eles refletem pessoas separadas e experiências na vida, e muitos deles estão fora do nosso controle geral e não se reduzem a opiniões de nossas mentes: são realidades objetivas.

Da mesma forma, tome a décima primeira casa. Tradicionalmente, esta é a casa dos amigos e das amizades - não a nossa atitude em relação aos amigos, mas os amigos e a amizade que se experimenta. Todos valorizamos a amizade de uma maneira geral, mas como as pessoas realmente experimentam amizades, e como são os amigos, não se limitam apenas às suas próprias mentes. Algumas pessoas têm muitos e duradouros amigos com suas próprias personalidades; outros têm amizades difíceis e instáveis, independentemente dos seus sentimentos. E, portanto, esta é uma diferença fundamental entre a astrologia moderna e tradicional: ao interpretar um mapa, não podemos assumir que essas coisas estão meramente na mente do nativo, mesmo que o nativo tenha que pensar sobre elas e tomar decisões sobre elas.

Quando eu aprendi pela primeira vez a astrologia horária, eu tinha apenas um visão moderna. Eu lia nos livros que um mapa horário geralmente refletirá os bons ou maus sentimentos e expectativas do cliente, e isso correspondia ao meu pressuposto geral de que o objetivo de um mapa era refletir a mente. Mas quando eu fiz minhas próprias perguntas a cartas horárias, como "Ele me ama?" ou "Vou ficar com este emprego?" eu descobri que não conseguiria dizer a diferença entre uma resposta sim ou nenhuma, entre um resultado bom e ruim na minha própria mente. Olhei para Saturno e me perguntei: "isso indica minhas preocupações, ou isso significa que ele não me ama antes de tudo?"

Você pode ver algo com a mesma diferença na astrologia natal. Lembro-me de interpretar os gráficos dos parentes e escrever todas as delimitações possíveis: Plutão, a Lua, Vênus em Gêmeos, Urano na décimo primeira, e assim por diante. Muitas vezes, muitas delimitações se contradisseram. Mas por quê? Porque eu pensei que tudo no gráfico tinha que indicar, da mesma forma, o que estava na personalidade. E então, senti-me completamente perdido. Eu me preocupei que talvez eu simplesmente não entendesse a astrologia bem o suficiente, e que, depois de muitos estudos, entendi. Mas isso também não funcionou.

A abordagem tradicional diz que a maioria das coisas que aparecem em seu mapa não está em sua mente. São parte de sua vida, e você os experimenta, mas eles não são você. A sétima casa é sua parceira e esposa, e não seus sentimentos sobre elas; a décima primeira é seus amigos e amizades, e não seus sentimentos sobre eles; a segunda casa é suas posses pessoais (e às vezes, aliados), e não seus sentimentos sobre eles; e assim por diante. Em vez disso, todas essas interpretações que eu pensava fazerem parte das mentes subjetivas dos meus parentes, eram realmente descrições de assuntos objetivos de suas vidas. É verdade que todos os planetas do seu mapa são parte de suas experiências: mas as experiências ocorrem quando se interage com o mundo objetivo. Em um mapa natal, então, nem todas as colocações planetárias indicam a mente do nativo, mas os diferentes planetas são interpretados ​​para diferentes áreas da vida, minimizando as aparentes contradições e confrontos. Então, o Sol não pode ter nada a ver com você em particular na sua natividade, porque o Sol não é você: se ele está na nona, ele pode ter algo a ver com viagens, estrangeiros ou espiritualidade, mas não sua mente interior e personalidade. Vênus também não é você, mas porque ela significa amor e relacionamentos de uma maneira geral, será relevante para seu sentido de romance e relacionamentos ao fazer sua delineação particular. Caso contrário, por sua localização e regência, ela simplesmente pode indicar sua irmã ou pais, ou uma doença, e assim por diante.

Isso leva a ser algo bastante tradicional, mas realmente sensato: podemos ser objetivos sobre a vida subjetiva das pessoas. Você já pediu o conselho de um amigo? Muitas vezes confiamos em nossos amigos para nos dizer se estamos indo bem ou nos estamos desviando: precisamos de um conselho, uma opinião externa. O mesmo acontece com a astrologia: quando se fala com um cliente ou olhando um mapa, podemos ser honestos sobre se as coisas estão indo bem ou não, e muitas vezes se alguém (nosso amigo, um cliente) é uma vítima de desejos. Na verdade, seria irresponsável dizer a um amigo ou cliente que ele pode criar sua própria realidade, que não há nada de bom ou ruim, e que todas as coisas aparentemente negativas são apenas uma oportunidade positiva ou uma experiência de aprendizado. É verdade que podemos tratar todas as coisas ruins como uma experiência de aprendizado, mas, a menos que reconheçamos coisas convencionalmente ruins, não podemos estabelecer contato realista com um cliente ou dar conselhos.

Uma consequência aparentemente estranha disso é que as técnicas tradicionais não funcionam a menos que você adote essa mentalidade. Quando meu próprio professor, Robert Zoller, expressou essa visão, não fazia sentido para mim. Se uma técnica funciona, não deveria funcionar? Mas o fato é que, se você não tratar as coisas de forma objetiva, e especialmente se você tratar tudo intuitivamente, ou como algo unicamente na mente de alguém, você não perceberá todos os tipos de eventos importantes na vida das pessoas, e você não poderá descrevê-los ou dar as respostas às perguntas subjetivas das pessoas com precisão. Agora, a maioria dos astrólogos modernos realmente fazem isso na prática: quando os astrólogos examinam os trânsitos e as direções, eles olham eventos e temas objetivos nas vidas das pessoas, dos quais eles devem enfrentar e lidar. Mas grande parte da concepção dos astrólogos modernos não lhes permite ver oficialmente essas coisas como objetivas ou como coisas que não estão diretamente no nosso controle. Isso pode criar problemas com delineação. Pois, se assumimos que o mapa é uma imagem da nossa mente, então, como sempre levamos nossa mente conosco, podemos assumir que todos os tipos de delineamentos tradicionais são errados: se uma interpretação tradicional diz que haverá dificuldade com a décima primeira Casa, você pode estar tentado a pensar que haverá problemas sempre e todos os dias com a décima primeira, porque é uma característica da sua mente. Mas, tradicionalmente, esse tema da décima primeira casa só pode ser muito ativo quando aplicamos certas técnicas preditivas - porque não é um conteúdo permanente em sua mente.

Para lhe dar um exemplo, uma vez tive um cliente com um mapa algo incomum. À primeira vista, as coisas não pareciam muito boas do ponto de vista convencional: praticamente todo planeta estava em detrimento. Por outro lado, praticamente todos os planetas também estavam vislumbrando os outros de maneira a promover a recepção. Então eu disse ao cliente que parecia que sua vida estava cheia de eventos e assuntos onde, embora ele geralmente fosse bem sucedido (por causa das recepções), as coisas não duraram muito ou encontraram muitas mudanças (por causa dos detrimentos) . "Sim", ele disse, "eu sempre percebi isso. Eu trabalho freelance e sou bem sucedido no que eu faço, mas muitas coisas na vida parecem durar pouco tempo. Sempre me perguntei se era algum problema comigo." De um ponto de vista tradicional, eu poderia então aconselhar alguns caminhos: trabalhar duro para superar essa tendência à mudança e desintegração, ou abraçá-lo e vê-lo como uma oportunidade para fazer muitas coisas diferentes e ter uma experiência mais variada e rica - mas ele não deveria considerar era uma questão de seu caráter e algo que era sua culpa.

Essas idéias afetam diretamente nossa leitura do mapa, na forma de distância crítica: a capacidade de questionar nossos pressupostos e nos remover emocionalmente do mapa. A distância crítica está relacionada ao uso de regras de interpretação, mas também ao uso dos valores convencionais. Quanto mais assumimos uma visão subjetiva do mapa, mais nos convidamos a unir nossos próprios valores e visões e associações que fazemos com ele (o mapa): tentamos unir nossa própria mente com a mente do mapa, porque tudo está na mente. Essa tentação convida pensamentos ilusórios, como quando há uma situação difícil no mapa, mas queremos dar boas notícias às pessoas, ou falar sobre seu potencial evolutivo, em vez de apontar algo objetivamente incomum ou difícil.

Outro exemplo é quando olhamos para o nosso próprio mapa, o que muitas vezes é difícil mesmo nas melhores circunstâncias. Quando as coisas no mapa não são apenas coisas em nossas próprias mentes, podemos estar atentos às coisas boas e más, não valorizando o bem ou o mal demais, porque ambos são temporários e não têm uma capacidade absoluta de afetar nossa busca de ser feliz.

O mesmo acontece quando olhamos para mapas mundanos ou mapas de eventos. É muito fácil deixar nossos próprios julgamentos de valor influírem no julgamento de algum evento político. Mas e se esse evento não estiver em conformidade com nossos próprios valores políticos? Quando os astrólogos interpretam o significado de um evento mundano, suas opiniões geralmente refletem seus próprios valores pessoais. A astrologia tradicional nos permite uma distância crítica - não apenas nessa ou aquela situação, mas em princípio para todas as situações.


Benjamin Dykes, in Traditional Astrology for Today - An Introduction, Cazimi Press, Minneapolis, Minessota, EUA, 2011. Capítulo 3. Tradução de Claudio Fagundes.

O livro está à venda aqui:
https://www.amazon.com/Traditional-Astrology-Today-Benjamin-Dykes/dp/1934586226/ref=sr_1_4?ie=UTF8&qid=1497110339&sr=8-4&keywords=benjamin+dykes

Algumas Escolas de Pensamento, por Benjamin Dykes

No último capítulo, mencionei que muitos astrólogos contemporâneos estão tentando ressuscitar o pensamento tradicional. Agora, nem todas as pessoas tradicionais ou os astrólogos concordavam em suas filosofias de vida ou com a astrologia. Aqui vou descrever cinco escolas básicas de pensamento (e discutirei algumas delas ainda mais tarde), mas tenha em mente que muitas pessoas tiveram pontos de vista que se sobrepuseram a diferentes categorias - nem todos se encaixam em uma única caixa, então ou agora.

Aristotélico-Ptolemaico. Eu uso esse nome porque essa abordagem se baseia na física de Aristóteles, bem como na justificativa científica de Ptolomeu para a astrologia em seu Tetrabiblos. De acordo com essa visão, os planetas fazem com que as coisas aconteçam, são agentes causais. Por exemplo, Marte causa eventos marciais porque ele produz calor e secura excessivos, e os eventos do tipo marcial têm essas qualidades. Portanto, a astrologia é praticamente um ramo da física, e é, de certo modo, parte das ciências naturais. Os astrólogos modernos que adotam termos da física, como ondas, campos de força e assim por diante, ou que acreditam que os conceitos físicos modernos podem ser adotados para justificar a astrologia, pertencem a este campo. Para a maior parte, essa visão também permite a liberdade e a escolha humanas, tal como as compreendemos convencionalmente (embora não seja a liberdade indeterminada da vontade). Por exemplo, talvez os planetas só causem certas tendências amplas, mas estas podem ser substituídas ou gerenciadas através do nosso poder de escolha. Nossa capacidade de escolher com sabedoria dependerá de como os planetas nos fizeram ter um certo temperamento ou atitude, de modo que nossas escolhas estão, de certa forma, condicionadas pelo poder causal dos planetas.

Estoico. Embora nem todos os que expressaram essa visão possam ter se identificados como estoicos, podem ser facilmente vinculados à filosofia estoica. De acordo com este ponto de vista, o universo é governado e determinado - talvez até os seus melhores detalhes - por uma inteligência ou mente cósmica permeável. Aqui, os eventos ao nosso redor são causados ​​de todas as maneiras normais (por meio de fenômenos naturais, escolha e assim por diante), mas não são os planetas que os causam. Em vez disso, a Mente Cósmica estabeleceu os planetas como seres ou objetos que significam coisas. Isto é semelhante aos medicamentos, onde os sintomas são causados ​​por processos naturais, mas um médico interpreta esses sintomas como sinais, a fim de fazer diagnósticos e prognósticos adequados. Então, nesta visão, a astrologia é uma ciência de interpretação e é divinacional, não faz parte das ciências físicas. Esta escola também argumentou que, embora tenhamos o poder de escolha, de uma perspectiva cósmica, tudo é causalmente determinado, mesmo as escolhas. Esta é a abordagem mais determinista das abordagens, mas astrologicamente há alguma margem de manobra. Por exemplo, mesmo que um planeta signifique algo, isso só pode significar um tipo de coisa - os detalhes do que é, pode ser um pouco para ganhar.

Platônico. Esta categoria se sobrepõe um pouco com outras visualizações. Platão não era realmente um astrólogo, mas seus interesses levaram nessa direção, e ele acreditava que a vida ética e social humana deveria se basear em certa medida no universo astrológico. As partes inferiores de nossa alma (emoções, instintos e corpo) são, em grande medida, governadas por forças físicas ditadas por deuses planetários e movimentos celestiais que estão entre nós e o mundo superior divino. Nosso poder de razão, que pode gerenciar essas forças inferiores um pouco, não é tão constrangido, e é adequado para estudar e compartilhar com as realidades eternas que estão acima da esfera dos planetas. No seu melhor e mais alto nível, a astrologia pode ser uma ferramenta para que as pessoas iluminadas tenham acesso à mente de Deus e à realidade eterna, porque os movimentos planetários mapeiam essencialmente, de forma temporal, os pensamentos eternos de Deus. (Isso está perto da visão estoica). Mas a astrologia e suas idéias também podem ser usadas para ajudar as pessoas menos iluminadas, que poderiam usar as idéias organizacionais dos mundos superiores para entender e gerenciar suas vidas neste mundo inferior. Platão parece sugerir que os astrólogos devem ajudar as autoridades políticas a governar justamente os cidadãos. Além disso, porque Platão acreditava na reencarnação e na ideia de que certos poderes planetários guiam nossa alma, algumas características de seu pensamento são próximas de certos pontos de vista astrológicos modernos.

Cristão. Esta quarta visão baseou-se em noções anteriores, bem como em um novo desenvolvimento teológico do 1º e 2º Séculos AD: isto é, a introdução de um "livre arbítrio" indeterminado que é libertado das forças de necessidade na Terra e que pode radicalmente criar e mudar a direção da vida. De acordo com esta escola, o livre arbítrio humano é uma imagem espelhada fraca da vontade radicalmente livre de Deus. No entanto, a maioria das pessoas normalmente não exercem seu livre arbítrio, mesmo quando pensam que estão exercendo. A maioria de nós está atolada no pecado e no mundo sensual (como em Platão). Mas, às vezes, recebemos ajuda de Deus no exercício do livre arbítrio e, na sua forma mais forte, isso permite a existência de santos e esclarecidos: ao contrário das pessoas normais que estão sujeitas ao mundo natural (e cujas vidas podem ser amplamente descritas pela astrologia). As pessoas, realmente, não podem ser capturadas e descritas por qualquer carta astrológica, já que escolhas e ações derivam do livre arbítrio. Assim, a astrologia pertence propriamente a questões como o clima, a saúde e as ações normais de pessoas pouco consideradas. Essa visão também está próxima de uma visão genérica gnóstica, que diz que a maioria das pessoas é ignorante da realidade final e está sujeita a governadores planetários maléficos - mas os gnósticos esclarecidos são libertados moralmente e espiritualmente porque têm acesso a reinos acima dos planetas. Pode-se ver ecos de Platão aqui.

Mágico. Esta visão tem tantas fontes que é difícil definir com precisão: ela se baseia em magias populares, presságios, platonismo, hermetismo e muito mais. Em sua forma "inferior", usa horários planetários auspiciosos, talismãs, plantas análogas, gemas, música e discursos apropriados, para interagir com os poderes planetários e criar circunstâncias mundiais favoráveis ​​para o praticante. Em suas formas "superiores", pode incluir todas essas práticas, mas para o fim de tornar-se sábio, espiritualmente avançado e viver uma vida virtuosa. Na Renascença, Marsilio Ficino defendeu o uso da magia astrológica para reengenharia e equilíbrio da alma, então sua magia astrológica levou a missão de transformação psicológica e espiritual através do uso de rituais astrológicos. (Isso me surpreende que os astrólogos mais modernos não defendam isso.) Este é o "outro mundo" das escolas, e não está realmente incluído ou aludido nos livros de texto astrológicos padrão: é preciso consultar grimórios e outros textos mágicos para aprender as técnicas.

Estas são as cinco abordagens tradicionais básicas da astrologia, e acho que você provavelmente poderá ver muitos ecos nas atitudes modernas. Para terminar, gostaria de descrever uma certa visão da astrologia da Idade Média, que ainda é relevante hoje. Até o século 13, os pensadores cristãos desenvolveram uma mistura de compromisso de vontade livre radical e tendências ptolemaicas e aristotélicas. A grosso modo ele fez as seguintes reivindicações. (1) A astrologia cumpre a definição de uma ciência, porque usa experiência e razão, com deduções de axiomas, regras e assim por diante, para explicar as coisas. (2) Porque seus objetos de estudo (ou seja, os planetas) estão entre as melhores e melhores coisas, é uma das mais altas hierarquias. (3) Os planetas são agentes causais, e suas influências afetam combinações de forma e matéria na terra. (4) A astrologia é compatível com a liberdade, provê a liberdade total. De acordo com este ponto de vista, algumas de nossas ações e escolhas são causalmente afetadas por nossa fisiologia, caráter e assim por diante, e estas podem ser entendidas como astrológicas. Mas o livre arbítrio e a salvação não estão sujeitos a causas físicas e, portanto, a astrologia não pode fazer coisas como descrever nossa natureza espiritual. Portanto, a astrologia pertence ao clima, ao corpo e a outros eventos mundanos que não estão sob nosso controle direto, e até mesmo algumas questões de personalidade e caráter; mas não pertence ao nosso livre arbítrio e nossa capacidade de ser salvo.

Essa última parte é muito importante, porque ainda convivemos com ela. Nesta visão de compromisso, quanto mais santo e abençoado você é, menos astrologia se aplica a você: para aqueles que têm o mais alto grau de autodeterminação e vontade livre e conexão espiritual, não estão sujeitos a causas astrológicas, além de coisas físicas como doenças e tempo. Mas quanto menos iluminado e menos livre e menos espiritual você é, mais astrologia se aplica a você. Esta mesma atitude agora aparece entre alguns astrólogos modernos, mas em vez de ser "abençoada" ou "santa", dizemos que somos "conscientes" ou "evoluímos". Em outras palavras, a astrologia moderna é essencialmente uma astrologia secular para os não salvos. Longe de ser uma descoberta moderna especial baseada em Jung ou nos teósofos, ela vem diretamente das universidades católicas medievais e escritores anteriores também. Com base em uma vontade indeterminada e radicalmente livre, provavelmente permanecerá conosco, desde que as pessoas acreditem nesse tipo de livre arbítrio.


Benjamin Dykes, in Traditional Astrology for Today - An Introduction, Cazimi Press, Minneapolis, Minessota, EUA, 2011. Capítulo 2. Tradução de Claudio Fagundes.

domingo, 11 de junho de 2017

A História da Astrologia Tradicional em Poucas Páginas (Final), por Benjamin Dykes

O Renascimento da Astrologia Tradicional (séculos XX- XXI)

A astrologia prática foi mais ou menos reinventada e popularizada em torno da virada do século 20 por pessoas como Alan Leo, Marc Edmund Jones e outros. Mas aqui eu gostaria de dizer algumas coisas sobre o ressurgimento da astrologia tradicional. Na minha opinião, houve quatro grandes tendências.

Primeiro, no início do século XX, os estudiosos europeus do grego trabalhavam em um novo projeto ambicioso, que era a catalogação e publicação de textos astrológicos gregos: o resultado era um grande trabalho multi-volume chamado CCAG (o "Catálogo de Códices Astrológicos em Grego"). Esses estudiosos eram historiadores e filólogos, e não astrólogos; mas suas publicações permitiram que os astrólogos tenham tido maior acesso a muitos textos antigos pela primeira vez. Um dos resultados mais importantes foi a publicação dos chamados "edições críticas". Uma edição crítica é um livro criado a partir de todos os manuscritos conhecidos e edições impressas de algum trabalho, de modo a formar o que assumimos como versão original (ou próxima do original). Algumas edições críticas de autores helenísticos que resultaram deste amplo esforço incluem a Antologia de Valens, os Tetrabiblos de Ptolomeu e os Apotelesáticos de Hephaistio. Mais tarde, no século, o historiador David Pingree publicou uma edição sobrevivente do Carmen de Dorotheus do árabe, com muitos fragmentos e passagens relacionados em grego. Outros criaram uma edição latina crítica de Firmicus Maternus.

Em segundo lugar, os astrólogos foram reintroduzidos a William Lilly através da reimpressão de 1985 de Christian Astrology, promovida por Olivia Barclay no Reino Unido.

Isso não só colocou a astrologia tradicional (tardia) no mapa, mas fez a astrologia horária uma peça central definidora da prática tradicional no mundo moderno.

Em terceiro lugar, o ímpeto de Barclay e outros desenvolvimentos produziu número de professores influentes (muitos deles estudantes de Barclay), tais como
como Deborah Houlding, John Frawley, Sue Ward e Barbara Dunn. Por outro lado, Robert Zoller trabalhou de forma independente desde o início da década de 1980 para promover a astrologia natal medieval (especialmente o trabalho de Bonatti). Muitas pessoas que trabalham profissionalmente como astrólogos tradicionais hoje são alunos desses importantes professores (eu era estudante de Zoller).

Em quarto lugar, vários tradutores tornaram os trabalhos mais antigos disponíveis em linguagens modernas. Estes incluem David Pingree, Charles Burnett, Robert Schmidt, James Holden, Meira Epstein, Robert Hand e eu. O número de obras tradicionais agora disponíveis em tradução explodiu nos últimos anos. Uma característica importante de alguns desses tradutores é que eles não estão simplesmente interessados ​​em publicar textos, mas em ressuscitar uma maneira tradicional de pensar, que ainda está logo abaixo da superfície, mesmo nas mentes modernas.

Agora que olhamos a astrologia tradicional em termos de períodos históricos, vejamos algumas de suas perspectivas típicas sobre a vida e o que elas acreditavam que o papel da astrologia era.



Benjamin Dykes, in Tradicional Astrology for Today, The Cazimi Press, Minneapolis, Minnesota, 2011. Tradução de Claudio Fagundes. 

O livro está à venda aqui: https://www.amazon.com/Traditional-Astrology-Today-Benjamin-Dykes/dp/1934586226/ref=sr_1_4?ie=UTF8&qid=1497110339&sr=8-4&keywords=benjamin+dykes

sábado, 10 de junho de 2017

A História da Astrologia Tradicional em Poucas Páginas (5), por Benjamin Dykes

O declínio da astrologia (século 17 dC - século XVIII)

Havia muitas razões para o declínio da astrologia perto do final do século XVII. Mas mas essas razões não são os motivos reais pelos quais normalmente somos informados. A visão usual é que a astrologia fazia previsões ruins e acabou sendo superada pela chegada gloriosa da ciência moderna (especialmente na astronomia e nas disciplinas associadas à medicina). É fácil mostrar que essa não é a verdade, através de dois fatos bem simples de se entender. Em primeiro lugar, as pessoas nos círculos religiosos e econômicos rotineiramente faziam predições falsas e tinham disputas entre si, e ainda assim essas áreas se desenvolveram muito bem. Segundo, muitos astrólogos eram cientistas, e alguns esperavam usar a física newtoniana (com sua "ação à distância") para apoiar a astrologia. Não havia unanimidade sobre astrologia entre cientistas.

Gostaria de propor as seguintes razões para o declínio da astrologia, todas essas estavam em jogo naquele tempo.


  1. O vocabulário astrológico combinava cada vez menos com as opiniões das pessoas educadas sobre o mundo: por exemplo, não existe uma categoria científica ou acadêmica que possa dar sentido a uma "casa" astrológica ou a uma "regência". A natureza simbólica da astrologia dificultou a compreensão das pessoas, e os astrólogos em si mesmos muitas vezes jogavam o velho vocabulário em uma tentativa de ser moderno.
  2. Embora os almanaques astrológicos fossem muito populares, eram muito genéricos e não eram muito úteis (bem como colunas modernas do signo do Sol), ao contrário de ir a um astrólogo profissional.
  3. Os astrólogos reformadores estavam mais interessados ​​em se livrar do que eles consideravam antigo ou "não naturais", ou como invenção por árabes, do que fazer suas próprias contribuições - o que levou a uma astrologia empobrecida. Enquanto isso, eles estavam muitas vezes em competição uns com os outros como personalidades, em vez de promover cooperativamente a astrologia como uma arte. Isto foi especialmente verdadeiro na Inglaterra, onde os astrólogos se atacaram em panfletos viciosos, muitas vezes políticos.
  4. Os mitos modernos do progresso e do Iluminismo encorajavam as pessoas a rejeitar qualquer coisa que parecesse "antiga" - que incluiu a astrologia.
  5. As pessoas religiosas muitas vezes continuavam insistindo que a astrologia não se aplicava à alma, mas apenas a coisas como clima e remédios. Essa atitude geral também teria desencorajado a magia astrológica e a espiritualidade.
  6. As pessoas não religiosas (simpáticas com a astrologia ou não) freqüentemente tendiam a teorias materialistas e mecanicistas do mundo, o que na verdade não correspondia à visão astrológica do mundo.
  7. Finalmente, há o que eu chamaria de teologias e ideologias ruins, não-astrológicas. Muitos astrólogos protestantes, em particular, publicaram panfletos assustadores, proferindo a chegada do anticristo. Agora, embora houvesse algumas vistas antigas sobre como o mundo seria destruído quando os planetas chegassem a determinadas posições, não era uma informação muito prática. A astrologia funciona com ciclos e a visão persa da astrologia mundana admitiu transtornos periódicos que levariam a novos ciclos. Os astrólogos anteriores não especularam sobre o Dia do Juízo Final, nem assumiram que estava perto! Portanto, sua visão astrológica da história combinou bastante a noção astrológica de ciclos. Mas as figuras Reformistas e Iluministas (como muitos modernos) acreditavam que estavam entrando em um período fundamentalmente novo da história, que tinha versões seculares e religiosas. Em termos seculares, significava que estávamos entrando em um momento de luz e razão, mas religiosamente significava que estávamos entrando em um momento de escuridão e conflito finais. E assim, esses astrólogos enxertaram o que era realmente uma visão cristã dos tempos finais em uma astrologia que nunca era adequada para isso. Além disso, ambos esses pontos de vista de entrar em uma era totalmente nova são basicamente incompatíveis com a astrologia prática: se materialismo racional e razão são tudo o que precisamos, então não precisamos de astrologia; mas se pregamos erroneamente a vinda do Anticristo todos os anos, então os astrólogos ficam enfraquecidos. Devo enfatizar que essas duas atitudes são hipóteses de diferentes ideologias, não são fatos comprovados. Mas, como a astrologia era mais ou menos prejudicada por ambos, parecia menos relevante e útil.

Benjamin Dykes, in Tradicional Astrology for Today, The Cazimi Press, Minneapolis, Minnesota, 2011. Tradução de Claudio Fagundes.  

O livro está à venda aqui: https://www.amazon.com/Traditional-Astrology-Today-Benjamin-Dykes/dp/1934586226/ref=sr_1_4?ie=UTF8&qid=1497110339&sr=8-4&keywords=benjamin+dykes

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A História da Astrologia Tradicional em Poucas Páginas (4), por Benjamin Dykes

Astrologia Renascentista e precursores da Astrologia Moderna (1400 AD - 1600 AD)

Este período tem várias características importantes. Além de prosseguir as práticas mais antigas, os adivinhos do Renascimento e do início da Astrologia Moderna (quero dizer isso no sentido histórico padrão do período durante e após a Reforma, e a revolução científica inicial) também tiveram de enfrentar a popularidade da magia e terapia astro-psicológica, numa atitude de reforma (especialmente contra técnicas que se pensava serem invenções de árabes ou como não sendo "natural") e do novo vocabulário científico e perspectivas (NT: o Iluminismo).

Por um lado, Marsilio Ficino (século 15) publicou obras de Platão e escritos herméticos e desenvolveu uma prática de magia astrológica, enfatizando a relação dos planetas com a alma: a alma não escapa à astrologia (como alguns argumentaram na época). Os deuses desempenham um papel importante como aspectos da própria psique. Para Ficino, esse tipo de cura é especialmente necessário porque a alma encarnada tende a depressão e doenças psicológicas. Essa atitude abordou as perspectivas platônicas e mágicas descritas no Capítulo 2, deste livro.

Mais tarde, a astrologia tomou aproximadamente três caminhos sobrepostos. Os astrólogos tradicionais, como William Lilly, tiveram pouco interesse nas últimas teorias da física e continuaram a usar técnicas tradicionais, como se nada tivesse mudado. Por outro lado, havia reformadores astrológicos. Essas pessoas foram incomodadas por predições ruins em almanaques populares e em outros lugares, e preocuparam-se com a astrologia ter sido poluída por várias superstições. Eles queriam fazer uma astrologia mais precisa que se harmonizasse com novas idéias em astronomia e rejeitaram o que acreditavam ser adições ilegítimas dos árabes, ou qualquer coisa que não pudessem entender, ou o que não parecesse "real" ou "natural". Infelizmente, esses reformadores muitas vezes não entendiam a verdadeira história da astrologia: como mencionei anteriormente, os escritores persas e árabes estavam totalmente envolvidos com a astrologia da era helenística e não estavam muito interessados ​​em adicionar novos conceitos técnicos. No entanto, os reformadores sentiram-se livres para rejeitar o que fosse necessário para agilizar sua prática. Esta tendência de reforma tem sido uma parte central da reinvenção da astrologia no século 20, incluindo a destituição casual de qualquer coisa que pareça antiga ou estranha.

Finalmente, os astrônomos e os novos céticos científicos ignoraram cada vez mais a astrologia, embora estivessem abertos à ideia de influências planetárias sobre coisas como o clima. Em parte, a nova física materialista e mecanicista era simplesmente incompatível com as perspectivas aristotélicas e neoplatônicas mais antigas (e mágicas). Mas muitas dessas pessoas ainda pensavam que talvez a ciência moderna pudesse melhorar a astrologia, em vez de rejeitá-la. Também não devemos pensar que essas pessoas também eram ateias, também, muitas delas também acreditavam no livre-arbítrio (que era originalmente um conceito teológico) e em Deus e, de certa forma, continuavam a ocupar uma posição dominante na astrologia: a astrologia diria respeito à física e aos corpos naturais (por exemplo, clima, saúde) e não a alma. Voltarei a isso no Capítulo 2.

Em termos de contribuições técnicas e desenvolvimentos, este período teve vários:

Em primeiro lugar, surgiram inúmeros sistemas de casas baseados em quadrantes usando cúspides intermediárias (por exemplo, Regiomontanus e Placidus) em vez do sistema de casa mais antigo de Signos Inteiros (ver Capítulo 9). Embora muitos astrólogos da era árabe usassem casas de quadrantes, é difícil encontrar escritores astrológicos descrevendo-os explicitamente (e muitos ainda fizeram referência a casas de Signos Inteiros). Mas o uso de novos sistemas de casas foi explícito neste período posterior.

Os astrólogos também expandiram muito o uso da astrologia médica e técnicas para determinar o temperamento e a forma corporal. Alguns desses métodos podem ser encontrados na Astrologia Cristã de William Lilly (século XVII). De fato, as escolas médicas geralmente incluíam técnicas astrológicas em seus currículos.

Claro, os avanços em matemática levaram a efemérides mais precisas. Outro resultado da matemática moderna e das atitudes reformadoras foi a invenção de novos aspectos, como o quintil (promovido por astrônomos-astrólogos como Kepler).


Pessoas que você precisa conhecer:


  • Regiomontanus (1436-1476). Sob este pseudônimo, Johann Muller é mais conhecido por sua tabela de casas e método de direções primárias, que foram amplamente adotadas e favorecidas por astrólogos como William Lilly e Jean-Baptiste Morin.
  • Jean-Baptiste Morin (1583-1656). Um astrônomo e matemático realizado, sua Astrologia Gallica ("Astrologia Francesa") foi publicada postumamente em 1661. Morin é especialmente valioso para seu estilo de ensino cuidadoso e preciso. Ele envolve muitos debates com outros astrólogos e descarta várias técnicas tradicionais como invenções não artificiais ou árabes.
  • William Lilly (1602-1681). Um astrólogo inglês e um dos primeiros a escrever em inglês, Lilly era um mestre famoso da astrologia horária. Sua astrologia cristã continua sendo um clássico valioso.
  • Placidus de Tito (1603-1668). Placidus é mais conhecido por seu desenvolvimento do sistema de casas de Placidus, que estava intimamente relacionado com seu método de direções primárias.

Benjamin Dykes, in Tradicional Astrology for Today, The Cazimi Press, Minneapolis, Minnesota, 2011. Tradução de Claudio Fagundes. 

O livro está à venda aqui.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A História da Astrologia Tradicional em Poucas Páginas (3), por Benjamin Dykes

O Ocidente Latino Medieval (aproximadamente 1100 AD - 1400 AD)

Os europeus medievais de língua latina obtiveram conhecimento de grande parte da astrologia quando os tradutores da Espanha do século 12 começaram a trabalhar em trabalhos astrológicos, mágicos, herméticos, matemáticos e filosóficos em árabe. Uma linha de tradução vem de João de Espanha (ou João de Sevilha), que trabalhou em Toledo. Outra linha importante vem de um grupo de três tradutores: Hermann da Caríntia, Robert de Kelton e Hugo de Santalla. (Aliás, Hugo foi o primeiro a traduzir a Tábua de Esmeralda de Hermes do árabe para o latim - o famoso "como acima, então abaixo" do texto que ainda citamos hoje).

É importante saber que João e esses outros tradutores tinham atitudes muito diferentes em relação à tradução, que afetam a nossa astrologia hoje. João preferiu escrever em latim simples e direto, tentando traduzir o árabe palavra por palavra. Seu latim é mesmo fácil para um aluno começar a ler. Mas Hugo e os outros não gostavam do fluxo de árabe e queriam escrever em um latim mais estilizado (e, portanto, complicado). Consequentemente, as traduções de João se tornaram mais populares e seu vocabulário foi adotado pela maioria dos astrólogos, enquanto as obras de Hugo e outras foram largamente negligenciadas. Por exemplo, nossa palavra "exaltação" vem diretamente do vocabulário de João: exaltatio. Mas Hugo usou o termo regnum um pouco mais preciso, "supremacia, reino". Pense em como podemos ver Aries de forma diferente, se considerarmos o lugar da "supremacia" do Sol ao invés de sua "exaltação". Esta negligência de Hugo e os outros também significava que suas traduções de importantes autores árabes na astrologia natal e horária nunca foram amplamente conhecidas, o que novamente afetou a compreensão futura da astrologia. Recentemente eu comecei a traduzir obras de Hugo e seu círculo, para que suas contribuições estejam disponíveis para o público contemporâneo (ver Apêndices A e B).

No século 13, a astrologia foi amplamente apoiada por elites militares e políticas, e foi comentada e teorizada por acadêmicos como São Tomás de Aquino e seu professor, São Alberto, o Grande. Nos próximos séculos, a astrologia tornou-se um pilar dos cursos universitários, especialmente nas faculdades de medicina. Algumas figuras notáveis ​​neste período são o astrólogo italiano Guido Bonatti (13º século), um conselheiro do imperador Frederico II chamado Michael Scot (séculos XII e XIII) e Campanus (século 13), que criou um sistema de casas ainda usado por alguns hoje.


Pessoas que você precisa conhecer:

  • João da Espanha (início do século 12). Também conhecido como João de Sevilha, ele era um prolífico tradutor de árabe, com um estilo latino muito amigável. Muitos astrólogos mais recentes usaram suas traduções como textos de origem.
  • Hugo de Santalla, Hermann da Caríntia, Robert de Ketton (início do início do século 12). Esses três tradutores trabalharam juntos de várias maneiras ao redor do norte da Espanha e do sul da França, especialmente em trabalhos astrológicos que João da Espanha não traduziu. Seu latim foi mais estilizado e difícil, o que levou a que suas traduções fossem negligenciadas ou criticadas. Eu traduzi vários dos seus trabalhos disponíveis em inglês.
  • Abraham ibn Ezra (século XII). Um erudito e poeta judeu que viveu em grande parte na Espanha, ibn Ezra escreveu uma série de trabalhos curtos em todas as áreas da astrologia, em grande parte desenvolvidos sobre predecessores de língua árabe.
  • Guido Bonatti (século XIII). Este astrólogo italiano era famoso em seus tempos, especialmente como um conselheiro militar astrológico. Seu enorme Livro de Astronomia foi um trabalho de enciclopédias baseado em predecessores árabes, gregos e latinos, e tornou-se um padrão medieval.


Benjamin Dykes, in Tradicional Astrology for Today, The Cazimi Press, Minneapolis, Minnesota, 2011. Tradução de Claudio Fagundes.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A História da Astrologia Tradicional em Poucas Páginas (1), por Benjamin Dykes

Nós astrólogos gostamos de falar sobre a antiguidade do que fazemos, mas muitas pessoas não sabem muito sobre as práticas e as pessoas que realmente fizeram a nossa história ao longo dos últimos 2.000 anos. Não se preocupe, eu não estou querendo oprimi-lo com nomes e datas! O Apêndice A direciona para livros sobre esse tipo de coisa. neste capítulo eu, simplesmente, quero dar um esboço dos períodos básicos e citar algumas "necessárias" figuras desses tempos. Isto lhe dará uma orientação geral sobre a nossa herança.

Na minha maneira de ver, o período de astrologia tradicional durou de cerca de século 1 aC no Mediterrâneo, ao século 17 na Inglaterra e na Europa continental, começando com obras em grego e terminando em Inglês e Latim. (Há algum desacordo sobre exatamente quais datas e pessoas definem os ensinamentos deste vasto período) Mas eu devo deixar claro que estou falando sobre astrologia "horoscópica" aqui: isto é, astrologia que usa mapas com um Ascendente (em vez de astrologia baseada em presságios). Este é o tipo que praticamos, com seu uso propriamente dito de planetas, dignidades, sinais, casas, aspectos, e um número de técnicas preditivas que você já conhece. Eu não vou discutir a Babilônia antiga ou pré práticas egípcio-helenísticas (cuja exata natureza e história são controversos).

Período Helenístico (século 1 aC - século 6 dC)

Nosso primeiro período começa no mundo greco-romano, particularmente em Alexandria. Na época da conquista do Egito e do Oriente Próximo, Alexandre, o Grande, nos 330's BC, pelo menos alguns horóscopos de astrologia natal estavam sendo praticados. Mas, pelo século 1 aC, egípcios, babilônicos e práticas persas compuseram e  aprimoraram o complexo sistema de astrologia entendemos hoje: signos, casas, planetas, regências, aspectos, vários métodos preditivos, os lotes (ou "partes árabes"), as divisões dos planetas em maléficos e benéficos, planetas diurnos e noturnos, e assim por diante. Porque as conquistas de Alexandre, mais ou menos, unificaram toda a região através da cultura helenística e a língua grega, havia muitas abordagens diferentes para a astrologia e eram amplamente disponíveis em livros de língua grega.

Realmente, a energia do mundo astrológico foi centrada na cidade egípcia de Alexandria, com sua famosa biblioteca: a partir daí temos dois dos mais famosos escritores da astrologia antiga: Claudius Ptolomeu e Vettius Valens (embora parece que não se conheceram). Um dos mais famosos livros de astrologia deste período teve reivindicada a sua autoria por um Faraó egípcio (Nechepso) e um padre (Petosiris), e por muitos séculos foi usado e citado pelos astrólogos. Infelizmente, dele só restaram pequenos trechos, e foi escrito de tal forma que até mesmo os astrólogos antigos tinham alguma dificuldade para entender algumas de suas técnicas.

Há alguma controvérsia sobre como este complexo sistema de astrologia foi desenvolvido, especialmente há pouco registro de seus detalhes desde  antes do século 1 aC. Foi uma lenta acumulação de informações ao longo de milênios, ou habilmente trabalhada por um pequeno grupo de pessoas em um curto espaço de tempo, ou uma combinação destas possibilidades? Porque os astrólogos antigos tinham livros que afirmam ter sido escritos por pessoas lendárias como Hermes Trismegistus e outros, pelo 1º século AD, mesmo que eles não pudessem saber a resposta. Na verdade, perdemos tanto material original desde esse período, que podemos nunca saber a resposta em detalhe.

A Astrologia Helenística se espalhou por todo o mundo greco-romano, e foi facilmente misturada com as inúmeras religiões de mistério, filosofias e tipos de magia, que também estavam disponíveis, como o gnosticismo, platonismo, estoicismo, e assim por diante. (Vou discutir algumas dessas no capítulo 2) foi considerada uma prática científica respeitável, e na verdade formada metade da ciência astronômica: enquanto a matemática diz-nos como os céus se movem, astrologia diz-nos o que os movimentos significam e este é um bom momento para dissipar um mito importante: que o uso de casas divididas por Signos Inteiros e os aspectos do período helenístico (ver capítulos 9-10) foi resultado da matemática grega ser muito incerta e imprecisa. Nada poderia estar mais distante da verdade. Na verdade, na época medieval e renascentista as mudanças nas efemérides e na teoria astronômica foram realmente apenas refinamentos de livros anteriores, como grande Almagesto de Ptolomeu. A astronomia de Ptolomeu durou tanto tempo precisamente porque era algo tão sofisticado e deu resultados tão precisos.

Do 3º ao 7º século, temos uma espécie de divisão em duas vias na astrologia helenística. No Império Romano (agora centrado na Constantinopla), o período criativo da astrologia parece ter se esgotado. Mas este declínio coincidiu com uma grande excitação no Império  Persa Sassânida, cujos governantes e estudiosos, encorajaram a tradução de livros de astrologia grega para pahlavi (língua persa da época), além de fazer suas próprias contribuições. Nós vamos voltar para os persas e árabes em seguida.

Pessoas que você precisa conhecer:

Dorotheus de Sidon (século 1 dC). Escreveu um livro sobre natividade e eleições em forma poética, geralmente chamado de Carmen Astrologicum ("Poema astrológico"). Dorotheus forneceu material de fonte absolutamente essencial para escritores persas e árabes medievais.

Vettius Valens (120 AD - 175 dC) Morando em Alexandria, Valens escreveu o Anthology, uma centralização de um  livro em nove partes sobre a natividade, com inúmeras técnicas preditivas não encontradas em outros lugares.

Claudius Ptolomeu (século 2 dC). Um escritor científico prolífico em Alexandria, ele é mais conhecido por seu Almagesto (em teoria astronômica e equações) e seu Tetrabiblos (no natal e astrologia mundana). Astrologia de Ptolomeu não era muito popular até a Idade Média Latina, quando ele foi reverenciado por seu material sobre natalidades. O próprio Ptolomeu alegou que ele quis simplificar e racionalizar a tradição de sua época, tanto que o material encontrado em outra parte na astrologia helenística está faltando em seu livro (por exemplo, dos lotes, ele usa apenas o Lot da Fortuna).
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Antiochus de Atenas (talvez 2º século dC). Sua identidade é um pouco discutida, mas ele é importante para um conjunto de definições de configurações astrológicas (como sitiando, aplicação, e assim por diante) raramente encontrada em outras obras deste período.

Firmicus Maternus (4º século dC). Advogado e estudioso, ele escreveu sua grande Mathesis como um trabalho sobre astrologia natal em oito livros. Ele é notável por ter escrito em latim, o que era incomum no período antigo. Firmicus também preserva muito material que de outra forma teria sido raro ou perdido.

Rhetorius do Egito (6º ou século 7). Rhetorius escreveu um importante compêndio natal baseado sobre Antíoco e muitos outros autores. Ele foi muito importante para posteriores astrólogos persas e árabes, como Masha'allah.



Benjamin Dykes, in Tradicional Astrology for Today, The Cazimi Press, Minneapolis, Minnesota, 2011. Tradução de Claudio Fagundes.


terça-feira, 23 de maio de 2017

30 Erros Comuns na Aprendizagem da Astrologia, por Suze Silva

1 - Estudar (apenas) pelo próprio mapa.

Geralmente os astrólogos não aconselham a estudar apenas pelo próprio mapa, porque isso pode atrapalhar o aprendizado, a pessoa pode se deixar levar pelo ego, além de que isso limita os estudos. Quanto mais mapas você ver é melhor, isso até ajuda a entender melhor o seu mapa depois.

2 - Não começar do início.

Não se começa uma casa pelo telhado, mas sim pela base, o que sustenta a casa e permite que você continue o processo. Muitas pessoas começam a estudar astrologia na direção errada, focando em Lilith, ou já querendo analisar uma sinastria, por exemplo, antes de aprender o básico de tudo: casas, planetas, aspectos, etc. Ter uma boa base é muito importante para o aprendizado avançar. É por isso que tantas pessoas ficam perdidas quando tentam interpretar um mapa, porque não estudaram do início, começando pelo básico primeiro. Uma casa sem uma boa base, e não estando bem estruturada, vai desabar e a obra nunca vai avançar.

3 - Achar que signos são a coisa mais importante (ou a única coisa que importa).

Tudo é signo, eles são os astros. "Fulano é assim porque é ariano", "eu sou sensível porque tenho a casa 4 em Câncer", "sou leonino, mas sou tímido, a astrologia não funciona", "sou de libra, meu namorado é de câncer, vamos nos casar?". Na verdade os planetas é que são os astros, não os signos, eles são a parte mais importante. O signo só dá uma cor, um tom, uma forma de expressão, ao significado do planeta. E pessoas não são signos, a personalidade é mostrada no mapa natal todo, é uma combinação de planetas em signos e os aspectos que eles recebem, do temperamento da pessoa, etc.

4 - Não praticar o que aprende.

Isso serve para tudo que você quiser aprender. O aprendizado vem da leitura, do estudo, mas também da prática. Não adianta ver uma regra da astrologia e não usar isso nos mapas, praticando bastante até entender como isso funciona e realmente aprender. Também não adianta ler uma informação importante e deixar pra lá, ignorar ou esquecer. É uma boa ideia anotar essas informações.

5 - Confundir significados das casas, signos e planetas.

Casa é uma coisa, planeta é outra coisa, casa e signo não é a mesma coisa. Muitas pessoas misturam isso tudo e ficam perdidas e confusas na interpretação dos mapas. É importante primeiro aprender separadamente para depois conseguir juntar, e entender, todas as informações. Primeiro veja o significado das casas, depois o significado de cada planeta, depois as características dos signos, depois os aspectos, e estude bem sobre cada uma dessas partes, se não entender bem cada parte vai ficar difícil juntar isso tudo. Se tiver muita dificuldade para entender como interpretar o mapa, veja exemplos de interpretação em livros e sites de astrólogos, e sempre pratique bastante, só com o tempo e prática que se pega o jeito para interpretar. Uma coisa que nem todos concordam é que casa e signo são a mesma coisa, por exemplo, uma pessoa ter marte na Casa 4 é a mesma coisa que ter marte em câncer, mas casas são apenas áreas da vida, o que dá alguma natureza ao planeta são os signos, não a casa em que ele está. Isso só serve para deixar as pessoas confusas. Mas estude bastante para decidir se concorda ou não com isso, ninguém é obrigado a concordar comigo. Outra confusão comum é achar que qualquer planeta no signo significa a mesma coisa, ou confundir o significado de cada planeta na personalidade, por exemplo, "você é sensível porque tem Júpiter ou Marte/ou ascendente em Câncer", mas é a Lua que fala das emoções, não esses planetas ou o ascendente.

6 - Acreditar, ou concordar, com tudo que lê, sem questionar ou refletir sobre isso.

Não é porque você viu um astrólogo falar que Mercúrio tem exaltação em Aquário, ou que existe inferno astral, que isso é verdade, tem muitos astrólogos ruins por aí que só espalham informações erradas, que são profissionais ruins, que mal estudaram astrologia por alguns meses, ou estudaram muito mal, e já dizem que são profissionais, criam cursos, lançam livros. Muito cuidado com eles. Quem você segue, ler e escuta define a qualidade do seu aprendizado, e até onde você vai chegar, que tipo de estudante ou profissional vai se tornar, por isso escolha os astrólogos de verdade, aqueles que realmente vão te ensinar o que é a astrologia. Sempre estude e se informe bastante, isso vai te ajudar a ter senso crítico para saber no que acreditar ou não, no que concordar ou não.

7 - Achar que interpretar um mapa é algo fácil e rápido de fazer.

Fazer uma interpretação realmente completa é muito difícil e leva tempo, muito tempo. Desconfie de interpretações rápidas e superficiais, elas são cheias de erros e vagas. A astrologia é complexa, o estudo longo e difícil, não acredite naqueles "livros completos de astrologia", "aprenda astrologia rápido e fácil". Até mesmo interpretar apenas um assunto é difícil, por exemplo, para saber sobre o pai tem que analisar a Casa 4, regente (e outros regentes) dela, planetas que estiverem lá e tudo que eles significam naquele mapa, o sol (e saturno em mapas noturnos), que casas e signos estão, o estado dos planetas, os aspectos que recebem, e depois chegar a uma conclusão sobre esse assunto, analisando todos os dados.

8 - Ignorar os regentes das casas (ou não saber o que fazer com eles)

Sempre vejo as pessoas analisando apenas planetas em signos e depois planetas em casas, mas sem ver o que eles significam naquele mapa, que casas regem. É importante fazer isso, se não a interpretação fica errada, os planetas significam qualquer coisa ou sempre a mesma coisa, por exemplo, "Lua é onde você é carinhosa e tem apego emocional, na casa 5 significa que você adora crianças e é carinhosa com elas", mas a lua nesse mapa rege a Casa 12, e a pessoa diz que não suporta crianças, que não quer ter filhos. Outro exemplo, você diz que a pessoa vai ser rica facilmente porque tem Júpiter na Casa 2, mas não vê que Júpiter nesse mapa rege a Casa 6 e está debilitado por signo, e o dinheiro até vem, mas com sofrimento, acaba rápido, nem é tanta coisa, só um aumento no salário. Também é importante saber analisar o estado dos planetas, aprender sobre as dignidades e debilidades essenciais e acidentais, se não vai interpretar um planeta sempre da mesma forma, achando que ele sempre vai dar o mesmo resultado, por exemplo, duas pessoas tem Saturno na Casa 4, uma em Aquário e outra em Áries, Saturno tem domicilio em Aquário, está bem, o pai dessa pessoa é rígido, mas é um bom pai e dá muito apoio a ela, já a outra pessoa com Saturno em Áries, em queda, tem um pai ruim, desagradável, que causa sofrimentos a ela, ou ela perdeu o pai cedo.

9 - Achar que apenas o signo do ascendente fala sobre a aparência.

O signo importa, mas o regente (e outros regentes de triplicidade, etc) do ascendente, planetas no Ascendente, e até algum planeta em aspecto ou conjunção com o regente do Ascendente muda tudo.

10 - Achar que casas vazias são áreas sem importância.

O mapa tem 12 casas e 7 planetas (mais os geracionais, se quiser considerar), é claro que sempre vai existir casas sem planetas, mas nesses casos é só ver o regente da casa, se estiver fraco é uma área de pouca importância, se estiver forte tem importância sim, e não é porque tem um ou dois planetas na casa que ela se torna importante, depende do regente da casa e do que esses planetas representam lá. O regente da casa mostra a força, importância e qualidade dos assuntos da casa, os planetas que estiveram na casa apenas complementam essa informação.

11 - Analisar um assunto apenas vendo um ponto.

Quando se analisa um assunto você deve juntar todos os significadores desse assunto, não apenas um deles, se não a interpretação fica errada, ou metade certa ou vaga. Por exemplo, olhando a parte da mãe, você vê que a pessoa tem lua na Casa 8, é um sinal de problemas, mas para confirmar isso ou a gravidade do problema tem que ver que signo a lua está, que aspectos faz, como está a casa 10, se tem planetas lá e o que eles significam, o regente da Casa 10, e depois juntar todos esses significadores, analisar eles e ver se estão todos bem ou mal, fracos ou fortes, e chegar a uma conclusão. Se todos estiverem bem, a mãe é importante para a pessoa, apoia ela, é uma boa mãe, se todos estiverem mal vai ser o contrário disso, e se estiverem mais ou menos, é neutro, a mãe é rígida, mas cuida bem e é presente, por exemplo, não há nada de bom ou ruim demais sobre a mãe.

12 - Achar que o ascendente não importa na personalidade, é só uma máscara, a imagem que passamos para os outros.

Na parte da personalidade o ascendente sozinho diz pouca coisa, mas em conjunto com o mapa, principalmente com a lua e o sol, ele fala do nosso temperamento. Cada pessoa tem um temperamento dominante: sanguíneo, colérico, fleumático ou melancólico. O ascendente é importante para saber o temperamento, as características mais fortes da pessoa. O estudo sobre temperamentos e qualidades primitivas é muito importante, essencial para o aprendizado e entendimento da astrologia, mas hoje em dia é muito ignorado, apesar de que o calculo de temperamento tem muito a acrescentar a astrologia de personalidade "psicológica".

13 - Achar que já sabe tudo e não estudar mais.

A astrologia é complexa, e sempre tem um livro novo sendo lançado ou um antigo, de séculos atrás, relançado com informações que você não sabia, e sempre há mais de uma forma de fazer as coisas, é importante continuar sempre aprendendo e estudando. A astrologia é mais do que apenas signos, ou planetas e casas, ela é ampla, tem muitas utilidades.

14 - Achar que tem stellium sem ter e achar que isso é bom.

Stellium seria algo raro e forte, um monte de planetas no mesmo signo, você não tem stellium por ter sol, mercúrio e venus no mesmo signo, esses planetas sempre estão muito próximos, isso é comum, você não tem stellium por ter urano e netuno em capricórnio, geracionais não contam nisso, seria gente demais com stellium. Raramente alguém tem isso no mapa e não significa uma coisa boa, geralmente os planetas estão todos combustos, perto do sol, prejudicados, ou qualquer trânsito ruim vai prejudicar todos os assuntos do mapa, ou se isso acontecer em uma casa maléfica é terrível, a vida toda ligada a assuntos desagradáveis.

15 - Se limitar a sites e livros em português.

Existem alguns sites e livros em português sobre astrologia muito bons, mas são poucos, aqueles em inglês tem mais informações, se aprofundam mais nos assuntos, tem mais variedade de livros, e na astrologia tradicional quase todos os livros estão em inglês. Se não souberem inglês o tradutor do google pode ajudar, mas é bom saber porque isso ajuda muito a avançar no aprendizado da astrologia.

16 - Ignorar os aspectos.

Eles alteram o estado e efeito do planeta, por exemplo, alguém com Lua em Capricórnio em quadratura com marte pode ser mais emotivo do que alguém com lua em câncer oposto a saturno.

17 - Ignorar os nodos.

É um bom complemento a interpretação. Nodo sul sempre vai estar no signo e casa oposta ao nodo norte. As casas onde ficam os nodos são mais importante do que os signos deles. Nodo Norte tem natureza de Júpiter e Vênus, Nodo Sul de Marte e Saturno. Nodo Norte é benéfico, dá sorte e importância para a casa em que está, mas também obsessão e insatisfação, e qualquer planeta nele fica mais forte, no bom ou mau sentido. Nodo Sul é maléfico, destrói os assuntos da casa em que está, ou diminui a importância dela, ou prejudica esses assuntos, também enfraquece os planetas que estiveram lá.

18 - Não entender o que significa maléfico e benéfico na astrologia.

Maléfico é algo que traz problemas e dificuldades, não importando como você lida com isso, e benéfico é algo que traz coisas boas ou traz com facilidade. Há as casas maléficas, 6, 8 e 12, que falam de todas as coisas que a pessoa não tem controle, que o Ascendente (a pessoa) não enxerga, e assuntos que não ajudam ela, não trazem benefícios, e se trouxer serão indiretos ou por meio de sofrimento e dificuldade. Falam da morte, perda, doenças, fobias, medos, inimigos secretos, aborrecimentos, acidentes, prisões, limitações. Esses assuntos são essencialmente desagradáveis, maléficos, não importando se você ver isso tudo de forma positiva, vai causar sofrimento de qualquer forma. As casas 5 e 11 são benéficas, falam das coisas agradáveis da vida, o prazer, diversão, sorte, ajuda dos outros, ganhos. Marte e Saturno são essencialmente maléficos, a natureza deles sempre é desagradável, mas dependendo do signo e casa que estiverem podem se tornar um pouco benéficos, mas o bem vem de forma difícil. Vênus e Júpiter são benéficos essencialmente, mas em mau estado, ruins por signo, casas e aspectos, se tornam maléficos acidentais, mas suavizam o mal, ajudam um pouco.

19 - Achar que tudo na astrologia é sobre personalidade ou espiritualidade.

A astrologia fala sobre a vida, em todos os sentidos, e não é útil apenas para analisar personalidade ou supostamente descobrir quem você foi na vida passada. Ela também serve para ver e entender o funcionamento da vida, as coisas que acontecem, que irão acontecer, para fazer previsões, para resolver problemas do dia a dia, como achar uma chave perdida, ou saber se o seu ex-namorado vai voltar para você. Mas muitas pessoas acham que tudo é sobre personalidade, mesmo quando não é, chegam a levar isso até a mapas de previsão, "esse ano na Revolução Solar seu Ascendente é Touro, você vai ficar teimoso e comer mais", "nessa horária sobre onde está o seu sapato vejo que Urano está em quadratura com Plutão, isso mostra que você é uma pessoa excêntrica, e a Lua está em quadratura com Saturno, deve estar se sentindo mais frio ultimamente", mas o que isso tem a ver a com a pergunta? Nada.

20 - Achar que sinastria responde tudo sobre relacionamentos.

A sinastria é útil para entender relacionamentos que já existem. É o mapa de comparação de personalidade de duas pessoas diferentes. A sinastria não diz se fulano gosta de você, se vocês vão se casar, isso se vê na astrologia horária, das perguntas. E sinastria não serve apenas para relacionamento amoroso, você pode comparar o seu mapa com o do seu pai, do seu amigo, da sua avó.

21 - Achar que algo não funciona porque aprendeu errado.

"Conheço várias pessoas com Mercúrio debilitado que são inteligentes", "conheço várias pessoas com Vênus em domicilio que tem vidas amorosas ruins, dignidades não servem para nada", mas esquecem que nunca se analisa um assunto apenas por um ponto, e que não é assim que se usa as dignidades. Ou a pessoa não conseguiu aprender a fazer previsões e diz que isso não funciona, que é tudo mentira. E não é porque você aprendeu ou entendeu errado uma regra astrológica que ela deve ser mudada, estude mais.

22 - Pensar que tudo é uma questão de livre arbítrio, que o destino não existe, que temos controle sobre tudo.

Ter força de vontade é importante, mas se não está no seu destino entrar naquela faculdade, se não houve o apoio necessário, isso não vai acontecer. Se tem uma área do seu mapa que está péssima, indicando muitos problemas, isso não vai melhorar só porque você quer, isso não depende apenas de você, mas também das circunstâncias, se haverá ou não a ajuda que você precisa para usar um pouco do seu livre arbítrio. Acho que tanto o destino quanto o livre arbítrio existem, mas há pessoas que terão mais acesso ao livre arbítrio do que outras, e a maioria vai ser arrastada pelo destino. O livre arbítrio é uma liberdade a ser conquistada, e não é nada fácil usar ele, a maioria das pessoas não consegue, ou se conseguem não sabem o que fazer e voltam a ser guiadas pelo destino, como um pássaro que sempre viveu preso e quando solto volta para a gaiola porque não sabe voar.

23 - Achar que a astrologia só fala de coisas boas e romantizar tudo.

"Tudo é lindo, tudo são flores, o sofrimento não existe, são apenas para a sua evolução espiritual, a Casa 8 é das transformações que vão te tornar uma pessoa melhor, é a casa do sexo com intimidade e amor, a Casa 6 é dos cuidados da saúde e o que você faz na sua rotina, a Casa 12 é transcendental, das pessoas evoluídas espiritualmente, Marte não é mau, não existe isso de maléfico, Marte é energia, é a coragem, saturno representa os aprendizados da vida, quadraturas são os melhores aspectos, te tornam uma pessoa melhor, mais evoluída, problemas não existem, tudo é para seu aprendizado e evolução, você tem total controle da sua vida, se você não quiser nada de ruim vai acontecer". A astrologia fala da vida, de todas as partes dela, das boas e ruins.

24 - Ver tudo com otimismo exagerado ou se assustar com qualquer coisa.

"Nossa, tenho Júpiter na casa 10, vou ter muito sucesso na carreira", "Plutão está na minha Casa 8 da Revolução Solar, vou morrer esse ano?"

25 - Interpretar a Revolução Solar sem comparar com o mapa natal e outros mapas de previsão.

Fazer previsões é muito dificil, muita coisa tem que ser considerada. Primeiro tem que ver o que o mapa natal promete, depois ver nos mapas de previsão quando vai acontecer o que o natal disse. Mas para uma previsão ser verdadeira mais de uma técnica de previsão tem que afirmar aquilo, e quanto mais afirmações existirem mais certa é a previsão.

26 - Achar que é a única técnica de previsão que existe, ou que é a mais importante, é a dos trânsitos.

Os trânsitos sozinhos não dizem nada, ou pouca coisa, assim como qualquer técnica de previsão vista de forma isolada, sem considerar o mapa natal e outros mapas de previsão. Por ordem de importância de previsão os trânsitos ficariam no final, primeiro Firdária > Profecção > Revolução Solar > Retorno Lunar > Trânsitos. Os trânsitos são apenas o ponteiro do relógio dos acontecimentos já confirmados pela Revolução Solar, Firdária, etc, ele só deixa mais especifico o quando vai acontecer o prometido para aquele ano, para aquele mês. Mas as pessoas acham que apenas o trânsito já diz alguma coisa, já faz todas as previsões do ano.

27 - Ser muito novo e achar que a interpretação do seu mapa está errada porque não viveu aqueles assuntos ainda.

No seu mapa há indicios que mostram problemas de saúde, problemas graves, mas você diz que não, sua saúde é ótima, isso é mentira, mas é porque esse assunto ainda não foi ativado na sua vida, mais tarde, quando os planetas ligados a esse problema forem ativados nas previsões, vai acontecer. Ou há indicios de problemas com filhos, mas você ainda não tem filhos. E os planetas não estão sempre ativados, não é um transito qualquer que vai ativar ele toda hora, vai haver épocas da sua vida em que aquele planeta vai estar mais ativado do que em outras, e os problemas ou beneficios dele virão.

28 - Achar que quanto mais coisas colocar no mapa mais completa fica a interpretação.

"Apenas 7 planetas? Tão poucos para representar todas as partes da vida, vamos adicionar Urano, Plutão, Quiron, Lilith, centenas de asteroides, pontos médios, a lua azul, amarela, rosa, aquele planeta que descobriram ontem..." Menos é mais. Quanto mais coisas no mapa mais confusa e contraditória fica a interpretação, tudo significa tudo, ou qualquer coisa, ou tem significados repetidos, vira bagunça, se perde de vista o que realmente importa, e fica difícil ter foco, até atrapalha a interpretação. E cuidado ao adicionar qualquer coisa no mapa, essas coisas ainda estão sendo estudadas, não tem nem concordância entre os astrólogos o significado delas ou se funcionam e se são úteis a astrologia. Os sete planetas principais já são suficientes se você souber usar eles, se estudar bastante sobre todos os usos e significados que eles tem vai perceber que eles já são bem completos e conseguem sim representar tudo que existe e todas as partes da vida, porque eles representam o significado essencial de todas as coisas. Mas se achar que os geracionais ou algum asteroide tem algo a acrescentar, use isso, se para você funciona, ok, mas veja se isso realmente é importante ou não, e se já não existia outro planeta representando o assunto, por exemplo, hoje em dia falam que Plutão é o planeta que representa a morte, mas esse significado sempre foi de Saturno.

29 - Não conhecer a história da astrologia tradicional e da moderna.

Conhecer o passado das coisas é importante para entender o funcionamento delas e saber porque agora elas são como são. É importante saber as diferenças da astrologia helenista e medieval, o porque dessas diferenças, tem que entender a história delas, assim como a história da astrologia moderna. Por exemplo, sabe por que os astrólogos modernos nao gostam de previsões, e dizem que a astrologia é so para auto-conhecimento? Por que houve essa separação na astrologia, moderna e tradicional? É bom saber essas coisas, muda a forma de ver a astrologia.

30 - Achar a astrologia tradicional inútil e ultrapassada.

Há um problema no ocidente de descartar tudo que é antigo, se é velho não tem valor, vai para o lixo, deve ser esquecido, o mundo evoluiu e o passado se tornou inútil, é o que pensam. Já no oriente eles respeitam muito o passado e as pessoas mais velhas, as tradições, sabem que o passado tem muito a nos ensinar, que não devemos esquecer ele. O mundo mudou, assim como já mudou várias vezes e vai continuar mudando, mas a astrologia tradicional é tão útil hoje quanto a séculos atrás, porque ela trabalha com os significados essenciais de todas coisas que sempre existiram, existem e vão continuar existindo. Por exemplo, as qualidades primitivas e o temperamento, nada mudou nesse sentido, o mundo, os seres vivos, o universo continua sendo dividido em energias positivas e negativas, quente e fria, seco e úmido. A tecnologia mudou, as profissões mudaram, as pessoas nem tanto, mas é so fazer uma adaptação dos ensinamentos antigos para o agora. Até mesmo a astrologia psicólogica teria muito a aprender com a astrologia tradicional, que nao é focada apenas em previsões, mas que também sempre estudou os serem humanos e suas vidas e comportamentos. E qualquer aprendizado começa do inicio, pelo passado, até porque é importante entender os conceitos antigos, o porque das coisas, a origem de tudo, até mesmo para que mudanças sejam feitas é necessário entender o passado, se não se tornam mudanças inúteis ou que não acrescentam nada.

sábado, 13 de maio de 2017

Breve História da Astrologia, por Helena Avelar e Luis Ribeiro

Apresentar uma história completa da Astrologia e do seu desenvolvimento ultrapassa largamente o âmbito deste manual. O que aqui apresentamos é uma versão muito resumida, que menciona os principais momentos, mas que deixa de lado muitas referências importantes. O objectivo é dar ao estudante uma noção geral da história deste conhecimento.

A Astrologia é uma das mais antigas formas de conhecimento. A sua origem perde-se nos tempos e remonta ao nascimento das civilizações humanas.

A observação e estudo dos movimentos dos astros surgem numa época em que a vida dos seres humanos estava intimamente ligada aos ciclos da Natureza. A percepção das estações do ano e das fases da Lua é decerto muito antiga, e a regularidade destes ciclos foi desde sempre um marco orientador para os seres humanos. A importância desta percepção é tal que desde logo lhe foi atribuído um valor simbólico e transcendente.

A vertente interpretativa, simbólica e metafísica destes conhecimentos constituiu as bases da Astrologia, enquanto o aspecto matemático veio mais tarde dar origem à Astronomia. Até ao século XVII estas duas vertentes do conhecimento foram indissociáveis.

A origem da Astrologia

Os vestígios mais antigos de observação astrológica/astronómica remontam à época pré-histórica, cerca de 15.000 a.C. No entanto, a Astrologia, tal como a entendemos hoje, só começou a desenvolver-se quando o Homem se sedentarizou, estando intimamente associada ao aparecimento da agricultura (Neolítico Médio, cerca do 6° milénio a.C.).

A necessidade de compreender os ciclos naturais tornou-se vital para as colheitas. Surgiu assim uma civilização baseada na adoração dos céus e dos astros, que construiu as estruturas megalíticas alinhadas com eixos astronómicos.

Período mesopotâmico

A Astrologia que conhecemos actualmente aparece por volta de 4.000 a.C., com o desenvolvimento das civilizações mesopotâmicas e egípcia, na zona do Crescente Fértil.

As observações mais arcaicas incluíam não apenas as estrelas e planetas mas também muitos outros factores "celestes", como os arco-íris, o voo dos pássaros ou as nuvens. Nesta altura, a Astrologia surge associada a outros métodos divinatórios e é expressa sob a forma de presságios. Os mapas astrológicos, tal como os conhecemos hoje, ainda não existiam.

Os planetas são os factores mais antigos em uso na Astrologia. As suas características e funções já estavam praticamente determinadas por esta altura, não diferindo muito das actuais. No entanto, as Casas e os aspectos não existiam, pelo que tanto os cálculos como as interpretações seguiam regras diferentes. Começam nesta altura a desenvolver-se os métodos de observação e cálculo astronómico. A sua evolução leva ao conceito de Zodíaco e com ele nasce a atribuição das regências dos signos aos planetas.

Um dos registos mais extensos desta época data do 2° milénio a.C. é denominado Enuma Anu Enlil, uma compilação de conhecimentos astrológicos e presságios.

Nesta fase, todo o panorama religioso é favorável ao desenvolvimento da Astrologia. Aliás, esta é praticada por sacerdotes, enfatizando o seu lado mágico, religioso e sagrado.

A Astrologia é sobretudo utilizada para o estudo e previsão de eventos colectivos. As previsões individuais são relativamente raras e, regra geral, feitas apenas para os reis ou outras figuras importantes.

O desenvolvimento astrológico atinge o seu auge durante a dominação persa (meados do século VI a.C.). Durante toda esta época aperfeiçoam-se os calendários e compilam-se registos sobre eclipses e outros fenómenos astronómicos. Também a arquitectura leva em conta os fenómenos celestes: os templos e palácios orientam-se por alinhamentos com as estrelas e as grandes construções só começam em momentos celestes considerados favoráveis.

Período grego ou helenístico

Por volta de 700 a.C., a expansão das rotas de comércio e o incremento do contacto entre os povos mediterrânicos leva à difusão do conhecimento filosófico e religioso.

A Astrologia capta o interesse da civilização grega, que dará grande impulso ao seu desenvolvimento, transformando-a num estudo organizado e com estatuto escolástico.

Figuras muito importantes, como Pitágoras (571 a.C. — 497 a.C.), vão trazer do Médio Oriente todo um manancial de conhecimento que será apurado ao longo de séculos. Surgem nesta altura as teorias geométricas e as grandes bases filosóficas que sustentam a Astrologia Ocidental. Grandes pensadores gregos, como Platão (428 a.C. — 347 a.C.) e Aristóteles (384 a.C. — 322 a.C.) vão desenvolver a Astronomia e a Astrologia com a criação de modelos físicos e metafísicos do Universo.

Datam de cerca de 200 a.C. os primeiros registos de cálculo do Ascendente, inovação que permite o cálculo preciso das casas astrológicas. Esta crescente precisão matemática leva à implementação de novos conceitos. Desenvolve-se nesta altura o mapa astrológico com todas as suas componentes. Em paralelo, a Astrologia Natal desenvolve-se e os horóscopos individuais tornam-se gradualmente mais frequentes.

Nos primeiros séculos da Era Cristã surgem novos pensadores e astrólogos de relevo. Escrevem-se muitos tratados e manuais. Destes estudiosos destaca-se Claudius Ptolomeu (c.100 — c.178), que compilou grande parte do conhecimento astrológico da época na sua obra Tetrabiblos. Este livro vai tornar-se mais tarde uma das grandes bases da Astrologia Medieval (árabe e europeia).

Com a lenta desagregação do Império Romano e a adopção do Cristianismo como religião oficial (em 313, por édito do imperador Constantino) a prática da Astrologia sofre um primeiro declínio. A religião cristã gera uma forte corrente de antipaganismo e a Astrologia passa a ser menos tolerada. A hostilidade por parte da religião cristã em relação à Astrologia (e a outras disciplinas como a Matemática, a Filosofia e a Medicina) reduz grandemente o seu ensino. O processo é agravado pelas convulsões sociais e políticas que varreram o Império Romano durante os 100 anos seguintes, culminando com a sua queda, em meados do século VI d.C. A Europa entra na denominada "Idade das Trevas".

Período medieval

A partir de 632 d.C. os árabes vão tornar-se uma das grandes potências do mundo, ocupando todo o Médio Oriente, Norte de Africa e Sul da Europa (Península Ibérica).

Dotados de enorme interesse pelo conhecimento, os árabes procuraram reunir o conhecimento grego, babilónico e persa, preservando e desenvolvendo a Arquitectura, a Medicina, a Filosofia e também a Astrologia/Astronomia. E graças aos autores deste período que muito do conhecimento da Astrologia Ocidental é preservado. Por volta 700 d.C. começam a surgir no mundo árabe grandes pensadores, cujas obras de Astrologia vão influenciar e modelar o pensamento astrológico ocidental. A Península Ibérica (em especial o Al-Andalus) é nesta altura um dos grandes centros escolásticos do mundo.

Os astrólogos árabes vão dar continuidade à Astrologia Grega, aprofundando a sua precisão matemática e incrementando alguns ramos, nomeadamente a Astrologia Horária.

Com a reconquista cristã e as Cruzadas, no século XI, inicia-se uma fase de troca de conhecimento que vai permitir o desenvolvimento e a renovação da Astrologia no mundo cristão. .A. medida que muitas obras árabes e gregas vão sendo traduzidas, o conhecimento da Tradição Ocidental ganha novo valor.

Nesta época, os astrólogos alcançam um papel importante na sociedade, actuando como conselheiros junto dos reis e nobres. No entanto, os atritos com a Igreja continuam, fazendo com que a prática da Astrologia seja sempre uma profissão de risco. A Astrologia é principalmente usada como método de diagnóstico para problemas médicos, se bem que também assuma um papel importante no aconselhamento político.

A Renascença

Os séculos XV e XVI trazem consigo uma importante mudança de mentalidades: o Renascimento. Há um crescimento da noção individual e começa-se a percepcionar o mundo de forma diferente. A ciência e as artes ganham um novo ânimo e a Astrologia sofre algumas transformações. Questionam-se as técnicas clássicas e ajustam-se alguns dos princípios fundamentais. O crescente descontentamento político em relação aos árabes (representados pelo Império Otomano) e o ressurgir dos ideais gregos leva à adopção da obra de Ptolomeu como a principal fonte da Tradição Ocidental. Acontece que Ptolomeu não menciona vários factores tradicionais e apresenta uma Astrologia muito divergente dos restantes autores da sua época. Assim, muitos elementos tradicionais são tidos como "invenções arábicas" e progressivamente descartados do sistema astrológico. Esta modificação vai criar uma clivagem entre os autores medievais e os renascentistas, gerando alguma instabilidade na prática astrológica.

Nesta época o antagonismo entre a Astrologia e a Igreja Cristã atinge o seu auge. A Igreja condena os juízos astrológicos (a chamada Astrologia Judiciária) devido às suas implicações políticas e ao poder que confere aos astrólogos. Não obstante, os próprios religiosos tinham muitas vezes conhecimentos de Astrologia. A prática astrológica "oficial" nos reinos cristãos fica limitada às questões menos polémicas, nomeadamente a Medicina e a previsão meteorológica. Nos países protestantes a Astrologia é mais tolerada, tornando-se notório o seu florescimento no Norte da Europa a partir do século XV.

O declínio da Astrologia

No fim do século XVI, o desenvolvimento da "Idade da Razão" e a chamada "abordagem científica" provocam uma crise irremediável na Astrologia. O "pensamento científico" da época cataloga a Astrologia como uma superstição e considera-a obsoleta.

A separação final entre a Astrologia e a Astronomia dá-se em 1650. A prática astrológica ainda atinge alguma projecção no século XVII, mas entra rapidamente em declínio, tendo praticamente desaparecido no início do século XVIII. Em 1770 deixa de ser ensinada na Universidade de Salamanca e afasta-se definitivamente do meio académico.

No contexto da época, o desaparecimento do suporte "académico" foi o desabar da única defesa que impedia a prática astrológica de cair na superstição e na mediocridade.

Na tentativa de manter viva a prática astrológica, alguns astrólogos procuraram ajustar o conhecimento simbólico e metafísico da Astrologia à visão mecanicista do racionalismo científico, mas os seus esforços trouxeram mais problemas que benefícios. Na esperança de obter aceitação da mentalidade vigente, simplificam demasiado o sistema, empobrecendo-o em qualidade e em funcionalidade. A tentativa de explicar a Astrologia "cientificamente" levou à deturpação dos seus princípios fundamentais.

A Astrologia torna-se uma brincadeira popular, beirando o passatempo fútil, e é cada vez mais ridicularizada nos almanaques do final do século XVIII. Sem suporte nem prática adequados, a milenar tradição astrológica cai no esquecimento.

O ressurgimento

Na segunda metade do século XIX ocorre um revivalismo da espiritualidade no Ocidente. Muitos conceitos e ramos de conhecimento esotérico começam a ser estudados e recuperados. Entre estes encontra-se a Astrologia.

Os autores desta época pretenderam ser não só restauradores, mas também reformadores da tradição astrológica. Não obstante as boas intenções, o seu trabalho deixou algo a desejar, pois tentou reconstruir a Astrologia a partir de um modelo incompleto e desprovido de conhecimentos profundos da Tradição. Foi sobre esta base frágil e deficitária que se desenvolveu a Astrologia contemporânea. Centra-se quase unicamente na Astrologia Natal e desvaloriza a vertente preditiva; além disso, carece de estrutura filosófica e apresenta uma simplificação empobrecedora das técnicas interpretativas.

Esta situação deficitária gerou vários problemas. Por um lado, permitiu que as opiniões pessoais (mesmo as mais fúteis e desinformadas) assumissem tons de autoridade; em consequência desta proliferação, a Astrologia desmultiplicou-se em incontáveis correntes e abordagens, muitas delas desprovidas de conteúdo. Por outro lado, levou alguns praticantes sérios a dedicar-se a outras áreas do conhecimento, na tentativa de colmatar as falhas da sua prática astrológica, gerando ainda mais confusão.

O panorama actual

Já no século XX, com o surgimento da Psicologia e o crescente interesse no desenvolvimento pessoal nascem a Astrologia Psicológica e a Astrologia Humanista, centrada exclusivamente no ser humano.

Este "casamento" da Astrologia com a Psicologia e as Ciências Sociais leva ao surgimento de movimentos ideológicos que apelam para o seu uso como "ferramenta de autoconhecimento". Adapta-se então a linguagem psicológica à Astrologia e surge o conceito de "Astrologia como auxiliar do aconselhamento psicológico", mais centrada numa espécie de psicanálise simplificada baseada em símbolos astrológicos, do que na interpretação astrológica em si.

Esta perspectiva vai influenciar todas as linhas de desenvolvimento da Astrologia no século XX. A Astrologia Natal, que estuda o horóscopo individual, torna-se a forma mais praticada, relegando os outros ramos, como a Mundana e a Horária, para uma quase inexistência.

Em paralelo, separa-se a Astrologia do embaraçoso legado da previsão, de forma que a capacidade preditiva, núcleo essencial da Astrologia, se torna um tema tabu sendo substituída por "previsões" generalistas.

Como facilmente se compreende, o aumento da popularidade da Astrologia leva ao aparecimento de versões simplificadas. O "signo solar" e os "horóscopos de revista" são tristes consequências da mediocrização a que a Astrologia está sujeita.

Nas décadas de 60 e 70 floresce uma cultura pró-espiritual, consequência da "importação" de filosofias orientais para a Europa e Américas. E nesta fase que se popularizam temas como reencarnação, karma, meditação, etc.

Na Astrologia, este influxo de novas ideias traduz-se em abordagens "kármicas", espirituais e esotéricas de qualidade muito variável — estudos mais sérios ou simples colagem de crenças pessoais ao sistema astrológico. Entretanto, as bases espirituais e metafísicas da Astrologia continuam ignoradas pela maioria dos praticantes.

Em termos técnicos, o século XX trouxe à Astrologia a facilidade de cálculo provida pelos computadores. Embora esta facilidade seja uma bênção para o praticante sério da arte, também acarreta alguns inconvenientes, pois permite que pessoas sem quaisquer conhecimentos de Astrologia calculem mapas astrais. Confunde-se assim capacidade de cálculo com capacidade de interpretação, esquecendo que o computador é um mero instrumento e que não habilita ninguém a fazer interpretações astrológicas.

Actualmente também se testemunha o aparecimento de inúmeras técnicas astrológicas, muitas delas meras derivações matemáticas com pouco (ou mesmo nenhum) uso prático. Transmite-se a ideia que "o novo é bom", sendo inventadas novas "técnicas" e "abordagens" todos os anos. Observa-se, para além da inclusão dos planetas trans-saturninos (Urano, Neptuno e Plutão), o uso indiscriminado de inúmeros asteróides e planetóides, levando a interpretações e simbolismos cada vez mais intrincados e desnecessários.

Como resposta à subjectividade com que a Astrologia moderna se depara, na década de 90 surgiu um movimento de tendência mais clássica e tradicionalista, que é estimulado pela tradução e publicação de livros antigos. A comparação entre a prática tradicional milenar e a actual traz consigo a compreensão de quão incompleta (e mesmo errada) está a Astrologia moderna. Este redescobrir da Tradição provoca um ressurgimento dos esquecidos ramos de Astrologia Horária e Mundana.

Actualmente a Astrologia inicia um lento retorno às origens, de onde se espera que volte a emergir como um corpo de conhecimento novamente coeso, sólido e funcional. Cabe aos estudantes e praticantes actuais dar continuidade a este processo de restauração e dignificação da Astrologia.


Helena Avelar e Luis Ribeiro, in Tratado das Esferas - um guia prático da tradição astrológica. Editora Pergaminho. Cascais, Portugal, 2007, pp. 22-8.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Astrologia "Tradicional" ou "Moderna", por Marcos Monteiro

A astrologia que aprendi, a que estudo, pratico e tento ensinar, é chamada por grande parte dos astrólogos de astrologia "tradicional".

O motivo para esta nomenclatura está em haver, hoje, no ocidente, outros tipos de astrologia. Vamos ver rapidamente como esses outros tipos apareceram.

O fim do Renascimento (e o início da Idade Moderna) foi uma época bastante complicada para a astrologia ocidental. O número de praticantes diminuiu muito e o público passou a vê-la com descrédito cada vez maior. A arte que já havia sido usada por imperadores e papas (e que era considerada, à mesma época, sagrada em outras partes do mundo) passou a ser considerada como algo entre a superstição e o entretenimento de salão.

O que gerou este estado de coisas?

A visão de mundo antiga, que via o universo como um cosmos; que aceitava como óbvia a interconexão das criaturas, as analogias e simpatias entre as coisas; que, enfim, via o mundo de um jeito que tornava a astrologia algo fácil de entender, foi substituída por outra, incompatível com o modo de pensar astrológico.

O modelo explicativo do organismo foi substituído pelo do relógio. Noções como forma, ato, os quatro elementos e outras foram descartadas; as técnicas (chamadas de artes ou ciências tradicionais) que se baseavam nela perderam o sentido.

Coisas como astrologia e medicina tradicional passaram a estar no mesmo balaio que a feitiçaria: ou são demônios se metendo na vida humana, ou são superstições sem valor algum. A conexão entre o senso comum e o simbolismo natural foi cortada.

Essa mudança de mentalidade foi gestada muito antes, no fim da Idade Média, mas seus efeitos começaram a ser sentidos com mais força nesta época.

Para se adaptar a esta mudança de paradigma, uma nova versão da arte foi aparecendo aos poucos. A objetividade antiga, agora sem nada que a dê respaldo, passa a ser irracional: é preciso considerar a arte como uma investigação psicológica que aponte tendências gerais e mudanças nas disposições mentais internas, sem almejar nada muito concreto, nem dizer muita coisa sobre o mundo físico, fora da mente. Os conceitos astrológicos agora são aberrantes: é preciso simplificá-los e adaptá-los à nova sensibilidade. Nasce a astrologia moderna.

Essa tendência nova nunca suplantou de vez a outra, na verdade, mas, por corresponder, de alguma forma, à visão que se tinha do que ela deveria ser, se tornou, para o público em geral, "a astrologia".

De qualquer forma, já não existia mais só uma astrologia. Existia a astrologia comum, que existia antes (a que se chama hoje em dia de "tradicional") e a moderna.

Algumas décadas atrás, tivemos uma onda de "redescoberta" e "retomada" do ramo astrológico original tradicional; desde o século passado, começaram a aparecer cursos sobre o assunto, obras antigas foram reeditadas; algumas pessoas começaram a se definir domo astrólogos tradicionais (ou clássicos). Isso não foi gratuito; a mentalidade contemporânea, se não é "tradicional", é bem menos cientificista e mecanicista do que era há dois séculos. Isso gerou uma enorme confusão de novas formas de astrologia, mas também possibilitou que a astrologia conforme à Tradição ocidental voltasse a ter lugar no imaginário, até dos próprios astrólogos.

Essa retomada teve a aparência, por assim dizer, de uma nova onda dessa astrologia antiga; novas ondas precisam de nomes, logomarcas, slogans; surgiu a astrologia tradicional.

Embora a tenha usado durante muito tempo, hoje em dia acho que essa terminologia é enganadora. A astrologia "tradicional" — ou seja, astrologia normal — é tão moderna quanto qualquer outra coisa que exista hoje. Não estamos falando de uma curiosidade de museu que foi descoberta por arqueólogos. Mesmo tendo passado por este periodo de degeneração, ela nunca chegou a desaparecer.

Além disso, o uso dessa denominação faz parecer que ela seja mais uma opção entre outras. E como se estivéssemos numa loja e nas prateleiras houvesse as opções de astrologia moderna, pós-moderna, junguiana, cármica, construtivista e tradicional. Isso não acontece, da mesma forma que não temos astrologia com menta, nem com cobertura de chocolate.

Como eu falei acima: o que se chama de "astrologia tradicional" é a astrologia ocidental normal; as vertentes modernas é que precisam de qualificação.

É difícil definir com precisão o que é a astrologia moderna, ou o que são as astrologias modernas, porque há muitas variações, dissidências e novidades. No entanto, dessa mudança inicial, consigo identificar dois ramos principais, aos quais o resto parece subordinado.

A primeira é uma limitação brutal da arte tradicional, restringindo-se de forma arbitrária a sua área de atuação (o astrólogo, que antes analisava o mundo inteiro, passa a estar restrito às emoções e aos pensamentos humanos), ignorando-se sua capacidade de previsão (o que foi revertido em parte nos últimos tempos; mas ainda há muitos astrólogos praticantes que não acreditam que se possa prever nada com astrologia) e se jogando fora todas, ou quase todas, as técnicas antigas.

A segunda cresceu da primeira e da necessidade natural das pessoas por algum tipo de espiritualidade, que foi reintroduzida pela mistura com as mais variadas tendências new age e/ou com versões diluídas e "ocidentalizadas" de astrologias e conceitos espirituais distorcidos de outras civilizações (a hindu é um dos alvos prediletos).

Não é que essa mistura (ou alguma variante dela) não tenha dado certo e, portanto, não funcione. Perguntei a um estudante de astrologia moderna , certa vez, "Você vê a astrologia moderna que você pratica funcionando?". Recebi como resposta outra pergunta: "O que é `funcionar' para você?".

Em parte, a astrologia moderna foi feita para não funcionar, para não prever, para escapar das acusações relacionadas à adivinhação e ao charlatanismo que eram bastante comuns no final do século dezoito.

Isso não quer dizer que não haja astrólogos "modernos" que sejam competentes (nem que não haja astrólogos "tradicionais" que estariam melhor fora dos consultórios e dentro de instituições psiquiátricas). Conheço vários. O que percebi, no entanto, pelo meu contato com alguns é que eles têm, como guia para a sua prática, uma boa noção dos princípios ou da cosmovisão subjacente à astrologia normal.

De qualquer modo, neste livro não vou tratar de astrologia moderna e vou mencioná-la pouco. Essa diferenciação inicial é necessária simplesmente para que o leitor saiba do que estou falando.

Outro motivo para eu evitar a palavra "tradicional" é a conotação que ela passou a ter em alguns contextos, que poderia ser mais bem descrita como "tradicionalista".

Não rejeito inovações modernas porque não constam nos "textos clássicos" dos "autores tradicionais" (ou seja, os textos astrológicos antigos que sobreviveram ao tempo). Eu as rejeito porque (e quando) estão em contradição com os princípios astrológicos, ou quando são invenções gratuitas.

Essa mentalidade de reverência a um determinado corpo de escritos do passado, algo mais próximo do fetiche do que de qualquer estudo sério, não é, propriamente, tradicional e não era defendida por nenhum dos autores antigos; muitos deles, na verdade, viam a si mesmos como reformadores e inovadores.

O problema de fundo é uma incompreensão do que seja a Tradição. Na verdade, num certo sentido, a mentalidade moderna e a tradicionalista concordam quanto à Tradição astrológica: ambas acham que ela está morta. A única diferença é que, enquanto uma delas decide enterrá-la, a outra decide venerá-la.

Tradição é transmissão, é um processo vivo. Não é a preservação de um conjunto rígido de técnicas (ou, o que é pior, de um conjunto fixo de livros), mas a transmissão de um conhecimento vivo e das ferramentas de um oficio real. O astrólogo se insere na tradição astrológica (ou, no caso de astrologias diferentes da ocidental, em uma tradição astrológica) ou não, mas não é transportado para o passado, nem faz uso de relíquias sagradas ou talismãs desencavados de periodos históricos distantes.

Quando se entende isso, também é fácil entender porque gosto ainda menos de divisões como "astrologia clássica", "astrologia medieval", "astrologia renascentista". Como divisões pedagógicas para historiadores, isso é passável; mas não se pode transformá-las em coisas reais.

Se "astrologia medieval" é um termo limitado, mas que pode ter valor pedagógico, "astrólogo medieval" (quando aplicado a alguém vivo nos dias de hoje) não faz o menor sentido. É razoavelmente seguro afirmar que nenhum astrólogo vivo hoje nasceu na Idade Média.