quinta-feira, 14 de julho de 2016

O Sol como Integrador, por Dane Rudhyar



A astrologia, sendo um sistema de interpretação simbólica de fatos astronômicos significativos, obviamente precisa diferenciar firmemente entre o Sol — uma estrela que dá vida e luz, que é o centro do sistema astronômico ao qual pertencemos — e planetas que são meros refletores ou transmissores de luz, sendo a própria Terra um deles. Se nos referimos ao ego como um "complexo de representações que constitui o centro de meu campo de consciência e parece possuir um grau muito alto de continuidade e identidade", é claro que seu símbolo astrológico é a própria Terra como vista a partir do local de nascimento do nativo. O campo contínuo de consciência de qualquer homem é o que está contido dentro dos limites de seu horizonte e, por implicação, aquilo que, apesar de abaixo do horizonte, emergirá em seu campo de consciência.

Em outras palavras, o quadrãngulo da carta astrológica (horizonte e meridiano — e especialmente Ascendente e Meio-do-Céu) representa a forma do campo de consciência. O ego pode ser considerado o momento de nascimento em si, o centro da carta — ou, numa simbolização ainda mais precisa, o ápice da pirâmide construída sobre os quatro ângulos da carta. O ego não é o integrador, pois é apenas um ponto abstrato. Nem o Ascendente ou o Meio-do-Céu são fatores integradores, pois eles também só têm implicações estruturais. Eles determinam a forma que deverá ser adotada pelo processo de integração. Eles não simbolizam a qualidade de energia, pela liberação da qual esse processo será, ou poderá ser, finalmente concluído.

Construir o campo de consciência como una estrutura claramente formada centrada corretamente no ego é como construir um olho perfeito com a capacidade de focalização precisa através da lente e dos músculos oculares, de forma que a imagem refletida sobre a retina caia exatamente sobre o "ponto amarelo" da retina, o único provido de sensitividade total à luz. É o que o grande especialista ocular e filósofo, Dr. Bates, chamava fixação central, e esta operação requer prática muscular e prática de visualização ou imaginação, incluindo relaxamento.

Num sentido psicológico, "fixação central" refere-se ao uso do intelecto — o mecanismo de focalização consciente — de acordo com as leis da lógica e do pensamento formal. Muito, se não a totalidade, da filosofia grega clássica e pós-clássica (especialmente desde Aristóteles), toda a ciência ocidental (especialmente desde a Renascença) e a filosofia científica moderna (por exemplo, Bertrand Russell) constituíram e ainda constituem um vasto treinamento coletivo de "fixação central" mental. No domínio psíquico-espiritual, alguns tipos de práticas esotéricas, algumas derivadas da visão de mundo budista no Oriente, outras da filosofia de Pitágoras, visavam uma semelhante "fixação central" das energias da alma numa estrutura formada de "Eu Sou-ismo". Como já foi dito, foi por volta do século VI a.C. que este problema de focalização mental começou a dominar a visão da elite da humanidade. Este processo de "fixação central" no campo de consciência vem continuando pelo ciclo europeu (especialmente desde Abelardo), e produziu o homem ocidental, com aquilo que Jung chamou de maneira tão pitoresca "câimbra do consciente".

Tal como o Dr. W. H. Bates pedia a seus pacientes que relaxassem seus olhos imaginando um ponto totalmente negro, o Dr. Jung pede aos seus que relaxem seu intelectualismo consciente para "deixarem as coisas acontecerem" e com práticas de relaxamento psíquico, tal como o uso da "fantasia" criativa espontânea.

Se então os eixos da carta representam a estrutura do campo de consciência — a estrutura do "olho", simbolicamente —, o Sol representa a "luz" liberando a energia (os fótons), por meio da qual a visão se torna possível. Num sentido real, o olho como um órgão de visão é moldado estruturalmente pela natureza da luz. De modo semelhante, o ego — o "eu" consciente — é moldado pelo poder emanado do self. Portanto apropriadamente se diz que o ascendente e os outros "ângulos" da carta distribuem o poder do Sol, como veremos em nosso capítulo seguinte. O Sol é a energia vital. Os ângulos da carta são os canais para a distribuição e "transformação" dessa energia solar no campo de consciência.

No entanto o Sol não deveria ser considerado o símbolo do self. Ele representa o poder do self, mas o self não é apenas poder. É poder em relação à forma. É poder operando por meio de uma forma e regenerando substância. Em outras palavras, o self, se é que sua natureza pode ser determinada astrologicamente, é a relação entre o Sol e os eixos, horizonte e meridiano. Ainda mais precisamente, é a relação entre o significado das posições zodiacais ocupadas pelo Sol e pelos quatro ângulos — significado em termos de signos zodiacais (ou subdivisões de signos), de grau e de relação angular entre essas posições. Estas últimas se referem aos aspectos entre Sol, Ascendente e Meio-do-Céu; e, mais ainda, à posição de casa do Sol.

Esta posição de casa do Sol denota a fase de estado individual de ser e o período de vida no qual e através do qual o poder integrador do Sol estará operando mais fortemente. Referindo-nos à tabulação prévia dos significados das casas e ao esquema dos ciclos de 28 anos, estes dois elementos de personalidade e destino podem ser facilmente determinados — desde que, é claro, se conheça o momento exato de nascimento. A posição zodiacal do Sol e o grau em que está mostrarão a qualidade desse poder integrador em si mesmo.


Tomemos por exemplo a carta de Einstein. O Sol está no vigésimo quarto grau de Peixes na décima casa. Portanto a qualidade do poder integrador de seu self será: síntese, consumação, meditação e introspecção. Mas o Sol estando na décima casa, da atividade pública, da profissão e do pensamento (como uma função do self individual), esse poder atuará através dessas características de décima casa. A posição do Sol também indica que ocorreu uma intensificação do poder significativo de seu destino quando Einstein estava em seu 222 ano, isto é, em 1901. Então ele se tornou inspetor de patentes em Berna, Suíça, e foi provavelmente por aquela época, pouco depois da publicação dos estudos de Planck sobre teoria quântica, que foram desenvolvidos ao menos os rudimentos da teoria da relatividade. Ela foi levada à atenção do mundo científico em 1905, quando o "ponto de self' de Einstein entrou em conjunção com Plutão. Além disso, o grau do Sol, que, como já dissemos, "fornece urna chave para o significado criativo inerente a todas as atividades e focalizações", carrega este símbolo, dos mais apropriados: "Uma pequena ilha no meio do oceano; seus felizes habitantes criaram um mundo próprio". O que poderia ser mais significativo na carta de um homem que até mesmo escreveu sobre "universos insulares" e criou novas visões cósmicas!

Podemos dar, como outra ilustração, a carta da rainha Vitória, que simboliza não apenas uma personalidade, mas, ao menos por implicação, também a era que carrega o seu nome. O Sol acabava de se levantar, no seu nascimento, e isto ocorreu cerca de uma hora depois da lua nova em Gêmeos. Temos aqui urna personalidade de raros dons intelectuais (Gêmeos), urna era que teve toda a rigidez e concepções estreitas do intelectualismo superenfatizador, e que, além disso, presenciou o crescimento assustador dos meios de transporte e viagens e de distúrbios nervosos. O significado da décima segunda casa é mostrado no fato de, após a morte de seu marido, a rainha Vitória ter vivido praticamente reclusa pela maior parte de sua longa vida e de ela atuar melhor quando por detrás do cenário e através de algum grande primeiro-ministro, como por exemplo Disraeli. O símbolo do grau do Sol dá o significado de aristocracia e energia de individualidade ativa. Podemos dizer que toda a era vitoriana é uma manifestação típica de décima segunda casa — uma somatória, uni período de precipitação cármica, o foral de um ciclo anterior para um começo admiravelmente novo, talvez agora perto de se manifestar.


O momento mais significativo de sua vida veio quando, aos 56 anos, foram feitos planos definidos para a consagração do império britânico e quando como gesto inicial, seu filho foi enviado para a Índia. Então o seu "ponto de self' havia chegado ao seu Sol, e sua personalidade havia realmente se tornado um símbolo mundial, manifestando plenamente o poder de seu destino — e assim de seu verdadeiro self. Sua consagração como "imperadora da Índia" veio um ano mais tarde, quando o "ponto de self' estava em trígono com Júpiter e em sua primeira casa. Isto e o jubileu de Diamante de 1897 (quando o "ponto de self' entrou em conjunção com Júpiter na décima casa) foram os gestos exteriores de poder. Mas o verdadeiro estado de self da rainha não pode ser encontrado neles, mas nos movimentos mais escondidos "por detrás dos panos", tão apropriadamente simbolizados pela décima segunda casa.


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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.