sábado, 16 de julho de 2016

Planetas Relacionados com o Inconsciente, por Dane Rudhyar




A. O inconsciente pessoal

O modo através do qual os planetas Netuno e Plutão foram descobertos serve como ilustração simbólica da relação entre consciente e inconsciente. Descobriu-se que certas anomalias no comportamento de Urano somente poderiam ser explicadas buscando-se a influência de outro planeta além de sua órbita. Essa influência foi cuidadosamente medida e o lugar de Netuno determinado aproximadamente, após o que os astrônomos foram capazes de encontrar esse planeta no lugar apontado analiticamente.

A existência de muitas analogias psicológicas, neuroses e estados supranormais de um modo parecido levou alguns psicólogos a tentarem demarcar um domínio psicológico desconhecido, cuja existência até agora temos percebido em grande parte pelo modo como perturba o comportamento consciente. É evidente que nosso ego consciente nem sempre é o mestre de sua casa, que às vezes poderes que parecem surgir do nada ou de alguma bruma ancestral sobrepujam nossa consciência. Foram-se nossas pequenas categorias e barreiras, estão esquecidos o nosso senso de autopreservação e nosso treinamento social — e nos movemos perplexos, levados por comandos profundos, expressos por forças não reconhecidas.

C. G. Jung talvez tenha sido o primeiro dos psicólogos modernos a reconhecer que o domínio dessas forças desconhecidas na realidade era duplo. Nisto ele apenas seguia (talvez inconscientemente) a antiga tradição cabalística que fala de uma "memória da Natureza", de uma "luz astral" que também é dupla, inferior e superior, enganosa e falsa em suas partes interiores, celestial e pura nas superiores. A interpretação de Jung do inconsciente pessoal e do coletivo naturalmente é muito diferente externamente do ensinamento oculto referente à luz astral, mas este pode um dia provar ser necessário para sustentar e aprofundar o primeiro.

Como já vimos, o inconsciente pessoal é a soma total de conteúdos reprimidos ou submersos da psique de um homem. Freud iniciou um estudo desse domínio, em que se escondem as sementes de neuroses e para o qual relegamos todos os sentimentos, pensamentos, impressões que recusamos admitir no santuário de nosso ser consciente, e dos quais fugimos com medo, repulsa ou ódio reprimido. A vida nos trouxe esses fatos psíquicos e os preencheu de energia vital, mas, em vez de permitir que esta energia vital se esgote em correlação com nosso ego, na esfera de nosso pensar, sentir e comportamento consciente, mandamos de volta, por assim dizer, o fluxo dessa energia e empurramos os pensamentos ou sentimentos, as impressões ou intuições perturbadoras para dentro de cavernas escuras de onde a memória não possa mais trazê-los à luz do consciente. Pode haver feridas e decadência enviando emanações venenosas para o consciente, ou a pressão subterrânea que exercem pode levar-nos inconscientemente a feitos e pensamentos assustadores para nosso ego consciente.

A astrologia provavelmente não tem nenhum meio de verificar esses conteúdos escondidos e reprimidos do inconsciente pessoal, mas ela contém em seu simbolismo certos fatores que nos permitem discernir e analisar a ação das tendências repressivas que distorcem e barram o fluxo normal das funções psicológicas. Em outras palavras, ela pode detectar o refluxo de energia psíquica do consciente para o inconsciente à medida que ocorre na psique. Pode determinar a polaridade de funções psicológicas, algumas das quais atuam numa direção repressiva e voltada para dentro, outras que operam do modo normal, do centro para fora.

Chegamos aqui ao fator de retrogradação planetária. Devido ao fato de que da Terra vemos o sistema solar de um ponto um tanto periférico e não a partir do centro, os outros planetas do sistema aparentemente se movem de maneira irregular. Às vezes, parecem estar parados, outras em que se movem para trás na direção oposta à de seu curso normal ao redor do Sol. No primeiro caso, falamos de uni planeta estacionário; no segundo caso, de um planeta retrógrado. Não sendo esses os casos, o movimento do planeta é direto. Estas características geocêntricas dos planetas (Sol e Lua não são incluídos, pois seus movimentos são sempre diretos) psicologicamente são de grande importância. Direto, retrógrado, estacionário: esta trindade de modos de movimento planetário corresponde a alguns elementos básicos do que podemos chamar de dinâmica psicológica. Por trás desses tipos de movimento encontramos o fator ainda mais geral da velocidade planetária (neste caso, velocidade aparente). À luz do observador terrestre, a velocidade em que os planetas se movem através do céu muda constantemente. Estas variações de velocidade correspondem a variações de intensidade funcional dos fatores psicológicos simbolizados pelos planetas. A intensidade funcional varia como resultado de muitas causas, mas as variações de velocidade são ao menos uma das causas, em termos simbólicos. Isto pode ser demonstrado especialmente quando consideramos as variações de velocidade de Mercúrio e da Lua, mas se aplica a todos os planetas.

Quanto mais rápida a velocidade, mais rápido é o fluxo de energia psíquica na e através da função considerada. Quando o planeta fica estacionário, a velocidade obviamente é igual a zero. A função simbolizada demonstra ter estabilidade extrema. Um tipo peculiar de rabugice pode muito bem descrever essa condição. Aquele fator particular na maquiagem consciente da pessoa não sairá. Resistirá a mudanças. Oferecerá um tremendo poder de inércia. Como era no início, assim será para sempre; Pessoas nascidas com planetas estacionários sempre apresentarão uma característica dessa natureza. É claro que isto será enfatizado se o planeta estacionário também for o re- gente da carta ou estiver fortemente colocado. O fator psicológico correspondente ficará quieta mas teimosamente preso a si mesmo na consciência, aconteça o que acontecer.

Poderiam ser dados muitos exemplos, mas a dificuldade é que em geral as características psicológicas representadas por um planeta estacionário não são óbvias, exceto do ponto de vista da análise psicológica. O Saturno estacionário no mapa de Richard Strauss é uma boa ilustração de forte egocentrismo e de um senso de forma igualmente forte. Sua posição em Libra adiciona um significado artístico.

Diz-se que um planeta estacionário é "estacionário direto" ou "estacionário retrógrado' de acordo com a direção de seu movimento subsequente. Em análise psicoastrológica, um planeta pode ser considerado estacionário no espaço de alguns minutos do ponto exato em que ele muda a direção de seu curso. O fator velocidade aqui envolvido é puramente relativo, e praticamente tudo o que é necessário ou útil a ser considerado é se a velocidade do planeta está acima da média (caso em que ele está em movimento rápido) ou abaixo da média (movimento lento).

Os planetas retrógrados simbolizam o retorno da libido (energia psíquica ou força vital) do consciente para o inconsciente. Se um planeta está retrógrado, a função que ele representa não é ativada para operação consciente. Os conteúdos psíquicos relativos a essa função, em vez de emergirem diretamente no consciente e assim influenciarem nosso comportamento diretamente, são temporariamente devolvidos ao inconsciente. Isto não significa necessariamente que sejam despojados de sua energia. Eles se fundem com outros conteúdos inconscientes, depois reaparecem mais tarde na consciência através da atuação de uma dessas funções do inconsciente que agora estudaremos. Estas correspondem às dos planetas Urano, Netuno e Plutão.

Podemos considerar, de início, o planeta Saturno, construtor do complexo-ego. Através de diferenciação e isolamento, Saturno separa certa quantidade de energia vital e a coloca numa forma. Constrói paredes para proteger e diferenciar a entidade particular assim condicionada e isolada de seus arredores. Em outras palavras, Saturno monta um sistema de defesa contra o mundo exterior enfatizando as características separadas do ego. "Eu sou esse certo atributo, e ninguém mais o é ou pode tocá-lo."

Se Saturno está retrógrado no nascimento, o nativo não sentirá isso de um modo natural e espontâneo. Não sentirá que isso seja verdade, especialmente quanto ao mundo exterior. Seu mecanismo de defesa saturnino não estará dirigido contra as invasões do mundo exterior — ao menos não imediata e espontaneamente. Ele não se sentirá fortificado contra o mundo externo — porque o padrão de seu ser consciente não é muito rígido. Ele, facilmente, se curvará a influências externas, que constantemente tenderão a tirar de foco seu padrão de consciência. Será um tanto indefeso em relação a contatos externos, e parecerá tímido, introvertido, deslocado, sem autoafirmação — ou então assumirá uma atitude arrogante, para escudar sua posição frágil. Então, seus modos poderão ser abruptos e explosivos.

Saturno retrógrado dirigirá esse poder de cristalização de padrões e construção de paredes para dentro. Haverá autoafirmação contra influências internas. A pessoa cederá externamente, mas mostrará um grande poder de resistência contra sugestões internas, inconscientes. Ela se fortificará espontaneamente contra impactos vindos do inconsciente coletivo, da tradição racial e padrões coletivos. Desenvolverá um senso de destino, separando-a internamente de seus iguais, enquanto muitas vezes será incapaz de resistir à pressão das exigências feitas por amigos e igualmente inimigos. Será obstinadamente autocentrada em seu mais profundo self, enquanto poderá ser incapaz de resistir a qualquer pedido de favores ou presentes.

Também pode ser que um homem com Saturno retrógrado se veja muito preocupado com a construção ou o fortalecimento de sua individualidade em crescimento. A função diferenciadora então funciona para dentro, fortalecendo o campo magnético do self e cristalizando seus conteúdos numa forma ainda inconsciente. Ele cederá fora apenas para ser mais capaz de resistir dentro. Esse fator astrológico é encontrado em pessoas que precisam resguardar sua individualidade contra influências psíquicas, religiosas ou raciais particularmente fortes em seu ambiente familiar imediato. O inimigo está no inconsciente, pressionando a partir de dentro. O passado está ameaçando o presente. Portanto a primeira tarefa psicológica é de autoproteção e autoafirmação interior. Assim a função Saturno opera para dentro, e seu efeito em geral será sentido apenas indiretamente na consciência e no comportamento, misturado com outros elementos inconscientes. Nicolau II, o último czar da Rússia, tinha Saturno retrógrado. Ramakrishna, o grande místico hindu, e o vidente Swedenborg nos dão outros exemplos.

Nestes casos, a Lua (oposto polar de Saturno) se vê, por assim dizer, desprotegida. A Lua nunca pode estar retrógrada, mas, por causa do seu movimento ao redor da Terra, está sempre ou dentro ou fora da órbita terrestre. Quando dentro (mais perto de uma conjunção solar), ela opera mais em conexão com a energia solar do self. Quando fora (mais perto de uma oposição solar), os sentimentos são mais "extrovertidos" ou dominados pela mente objetiva. Poder-se-ia dizer também que, fora da órbita da Terra, a Lua segue o influxo centrífugo de Marte, o planeta de todos os começos; quando dentro, ela cede às atrações centrípetas de Vênus, o planeta da consumação e realização. Se a Lua está dentro da órbita da Terra e Saturno está retrógrado, os sentimentos são dirigidos para dentro; temos um caso claro de introversão. O amor dirige-se mais para uma imagem interna que para pessoas reais e verdadeiras. Em qualquer caso, os sentimentos são um tanto desprotegidos quando Saturno está retrógrado. Eles não estão firmemente ancorados no ego consciente e/ou podem causar-lhe muitos problemas.

Quando Júpiter está retrógrado, a função de compensação da alma está voltada para dentro, afetando a consciência quase exclusivamente através do inconsciente, isto é, por meio de sonhos e projeções semelhantes. Se ao mesmo tempo Urano for forte, essas projeções do inconsciente podem ser extremamente vívidas. Se Júpiter for fraco por posição em signo, isto pode significar que a compensação está dotada de pouca energia, mas se ao mesmo tempo ele estiver forte por posição em casa, a compensação, mesmo fraca, é trazida constantemente à consciência pelo poder das circunstâncias. Esta observação se aplica mais ou menos a todos os planetas. Aspectos com outros planetas podem introduzir outros fatores e fatores contrários. Júpiter numa casa angular (primeira, quarta, sétima e décima) é típico da força por posição de casa. Se direto, o nativo é conscientemente dirigido por seu Destino, em geral para um propósito de grupo. Ele pode experimentar esse poder interior sob forma de alguma grande personalidade levando-o a finalidades dirigidas. Isto pode ser assim, especialmente se Júpiter for retrógrado. Se estacionário, o nativo fica quase totalmente sujeito a esse poder que o rege. O imperador da Áustria, Francisco José, cujo governo parece ter sido o verdadeiro centro da precipitação do carena da Europa, tinha, de acordo com Alan Leo, Júpiter retrógrado na quarta casa em quadratura com Marte no Descendente. Sua carta como um todo era extraordinária. Bismarck também tinha Júpiter retrógrado. Aristide Briand, o famoso Premier francês, tinha Júpiter e Saturno retrógrados em conjunção na sua quarta casa.

Mercúrio retrógrado simboliza uma mente voltada para dentro, seja por causa de uma tendência mística ou por causa de uma lentidão de percepção congênita e uma inabilidade de projetar pensamentos para fora. De acordo com Marc Jones, a posição de Mercúrio antes e depois do Sol representa respectivamente avidez e deliberação mental. "Química mental" pode ser mostrada pela ligação dessas posições de Mercúrio às velocidades do movimento da Lua. Paul Clancy traçou um paralelo entre a agilidade mental e a velocidade do movimento de Mercúrio. Externamente, um Mercúrio retrógrado pode causar uma mente lenta, mas de nenhum modo isto é necessariamente assim. Pode igualmente representar uma mente preocupada em grande parte com o inconsciente coletivo, a mente de um vidente. Abdul Baha, que os bahai consideram personagem divino, tinha Mercúrio e Saturno retrógrados em trígono. Mercúrio estava em Gêmeos seis graus à frente do Sol; a Lua, em conjunção com a grande estrela da Pérsia, Régulo, também em trígono com Netuno em Aquário. Em outros casos, temos a base para complexos mentais peculiares. Um exemplo de uma mente vacilante é dado por Luís XVI, o rei da França executado pelos revolucionários. Ele tinha Mercúrio retrógrado em conjunção exata com o Sol, e também Saturno e Urano retrógrados.

Marte retrógrado indica que os impulsos para ação não fluem do ego para fora em expressão espontânea, mas se movem de volta para o inconsciente, onde se unem com alguns conteúdos inconscientes (muitas vezes imagens coletivas). É o poder inerente a esses que realmente impele o nativo à ação. Ação não vem de impulsos espontâneos, claramente conscientes, mas de uma motivação mais ou menos inconsciente. Dentre os muitos planetas retrógrados da carta de Annie Besant, última líder da Sociedade Teosófica, encontramos Marte. Seus atos frequentemente surgiam de motivos ocultos em seu inconsciente, pessoal ou coletivo.

Uma condição como essa pode afetar as forças sexuais. Elas podem ser devolvidas para o inconsciente, formando complexos e neuroses. Por outro lado, podemos lidar com uma tentativa definida de sublimar a natureza-desejo, como nas várias disciplinas da yoga. No caso de Annie Besant, notamos também que ela se tornou conhecida primeiro como um apóstolo do controle da natalidade.

Com Vênus retrógrado temos uma condição na qual os frutos da experiência não são trazidos ao ego consciente e normalmente assimilados ou liberados através de vários tipos de emoção. Existe frequentemente uma forte falta de ajustamento às condições do viver exterior. A vida emocional é insatisfeita e conteúdos inconscientes perturbam o fluxo natural de consciência e amor. Existe, às vezes, uma ênfase forte na criação artística e geralmente, colorida por sentimentos anormais. Uma ansiedade por tóxicos pode vir associada com isso. O poeta romântico Alfred de Musset tinha Vênus estacionário retrógrado.

Não se deve esperar de planetas retrógrados muita informação, pela razão de eles apenas indicarem a direção de funcionamento de algumas funções psicológicas, mas não o que acontece como resultado desse movimento em fluxo para trás, coisa que deve ser avaliada com base na carta como um todo. Um menino e uma menina, em vez de irem trabalhar na fábrica, tomam um trem e vão para a cidade. Podemos saber que eles foram para a cidade, mas isso não nos dirá como se comportarão e o que encontrarão nessa cidade. Do mesmo modo, sabemos que, quando um planeta está retrógrado, a função que simboliza não opera do modo assim chamado normal. A energia psíquica usada por essa função vai na direção do inconsciente. O que lhe acontecerá lá depende de todos os outros fatores da carta.


B. O inconsciente coletivo

Nos planetas estudados até agora encontramos um meio de analisar a formação e constituição do ser humano individual tal como ele funciona no meio da coletividade da qual é parte. A família, a nação, a raça, o grupo religioso, o clube, o sindicato e a fábrica são vários tipos de coletividade. O indivíduo age no meio deles e pode ajudar a criá-los ou transformá-los. Mas eles também atuam sobre o indivíduo. Se ele se esquiva de contatos e experiências na coletividade, torna-se inibido e adquire complexos ou atitudes especiais, que os planetas retrógrados, junto com outros elementos astrológicos, nos ajudam a analisar.

Se o indivíduo enfrenta normalmente seu grupo e a sociedade em geral, então a sociedade o influencia. O coletivo nele, aquilo que é idêntico em todos os homens de seu grupo, impõe sobre o indivíduo seus padrões atemporais. A sociedade segura o indivíduo através de seus instintos e tradições. Imagens primordiais batem nas paredes internas de sua consciência pedindo licença. Essas imagens podem ser divinas ou diabólicas. São a voz da totalidade compelindo as partes individuais do todo a ouvir. Os subtons são vibrações de luz, canções de almas liberadas que puxam para cima, em direção à meta final do Homem.

Esta voz do coletivo, à medida que age sobre indivíduos, é simbolizada pela trindade dos planetas remotos: Urano, Netuno e Plutão. E significativo que estes se tornaram publicamente conhecidos numa época em que a humanidade está atravessando as barreiras de isolamento de credos e dogmas e, materialmente, se não espiritualmente, todos os homens fluem para o oceano de uma humanidade comum. Urano tornou-se conhecido quando as revoluções francesa e americana quebraram o peso do feudalismo e medievalismo; Netuno, quando o humanitarismo e um renascimento do espírito religioso (ou de seu polo oposto, materialismo) varreram o mundo; Plutão, quando a humanidade está entrando em seu caminho em direção a novas estruturas de relacionamento social.

Na vida do indivíduo, esses planetas atuam de várias maneiras e em graus muito variados de intensidade. Quanto mais universal e "voltada para o todo" a consciência, mais construtiva e efetiva a ação desses agentes planetários da totalidade. No não-regenerado, eles podem ou ficar individualmente inefetivos ou então tornar-se símbolos da destruição do ego encapsulado. De qualquer modo, eles chegam ao ego individual como forças do além da consciência, guardando mensagens, choques inesperados ou causando, àquele que os deuses condenaram, cegueira espiritual e insanidade. Eles podem simbolizar o ápice espiritual da humanidade coletiva — seja ele chamado de Igreja Triunfante, Assembleia dos Abençoados, ou a Morada Branca dos Adeptos Iniciados. Eles também podem representar aquilo que os jornais chamam sociedade, ou ainda o poder da massa. Podem ser os agentes daquelas forças coletivas que os homens aprendem a conhecer sob o nome de religião. Eles até mesmo falam de eventos cósmicos além de nosso sistema solar e trazem ao iniciado contos de nossa galáxia e prognósticos dos espaços além. Em qualquer caso, eles são a totalidade falando às partículas individuais.

Se nos limitamos à abordagem psicológica e ao relacionamento entre o inconsciente coletivo e o ego particular, dizemos que Urano é o poder projetivo do inconsciente, Netuno seu poder dissolutivo e Plutão seu poder regenerador. Urano traz para o consciente representações e impulsos simbólicos. Isto pode ocorrer em sonhos ou em consciência de vigília. Sob Urano, vêm as inspirações do poeta, do artista, do inventor, do cientista, do homem de estado, do reformista religioso. Urano é caracterizado por seu poder de formação de imagens. Regenera o consciente trazendo-lhe visões do todo, imagens e ideias da Mente universal. Em termos estritos, ele não "regenera". Em vez disso, projeta imagens e ideias que têm o poder de transformar, sementes da nova consciência. Transformação e criação são as palavras-chave desse planeta revolucionário, que despeja constantemente novos quanta dinâmicos no coração do ego — perturbando, estimulando, misturando, rompendo a alma do descontentamento divino, a loucura do anarquista e do sem lei. Genialidade ou insanidade, inspiração ou perversão.

Netuno atua de modos mais sutis e misteriosos. Como um ácido poderoso, corrói as cristalizações do ego, sempre chamando o particular e o atado ao estado sem limites do universal. É o amor insistente, compassivo, transbordante do todo pela parte separada, que pode nem saber que é uma "parte" — um amor que pode ser o mais suave, mas que em geral é tão pleno de horizontes cósmicos e compaixão universal, que nossos sentimentos pequenos e limitados se retraem diante dele num respeito sutil. Netuno é o homem transfigurado pelo Cristo interior, mas ele também pode ser o homem perdido num "paraíso artificial", pedindo às drogas que o levem para além da jaula da percepção normal e da rotina diária, ao domínio dos sonhos e visões.

Cada força que nega limitações e tende a nos tornar inteiros, que mina a força do ponto de vista particular e injeta nele o fluido dos desejos não-terrenos; cada agente que dissolve cristalizações e põe a lente do ego fora de foco, que nos envolve com ânsias divinas através dos dias da segunda puberdade e nos arrebata para longe da família e do lar, para dentro da paz branca dos conventos ou para a fermentação viva da selva — pertencem todos ao símbolo de Netuno.

Em termos fisiológicos, a parte corpórea regida pelo signo zodiacal em que Netuno está colocado carece de diferenciação e crescimento focalizado. Parece não-desenvolvida. A energia vital não conseguiu fazer-se suficientemente concreta. Quando se trata de Urano, ao contrário, muitas vezes encontramos crescimento anormal, transbordamento de algum tipo, não tanto uma abundância de força vital quanto uma tensão de energia que cria gênios ou loucos. Netuno é o símbolo do mar, do não-diferenciado, de matéria cósmica em estado pré-natal ou de nirvana e compaixão infinita. Mostra como a sociedade atua sobre o indivíduo, como ele age sobre a sociedade, construtiva e destrutivamente. As notas fundamentais de Netuno são redenção, universalização ou desfocalização.

Plutão é o planeta do segundo nascimento, o regente dos Mistérios — de todo tipo de assembleia grupai, de organização parlamentar, em que se decidem novas políticas para a coletividade, ou de cerimoniais, através dos quais, indivíduo e sociedade se harmonizam de acordo com a elaboração de uma nova lei de vida. Júpiter também lida com organizações governamentais e com cerimônias religiosas — mas dentro dos limites impostos por Saturno. Em outras palavras, Júpiter simboliza deuses raciais e religião baseada em parentesco e consanguinidade. Representa hierarquia e autocracia — política ou religiosa —, isto porque Saturno antes de tudo determinou o ego, o Um, como regente dentro de certos limites. Júpiter atua dentro dessas fronteiras. A lei de Zeus segue a de Cronos-Saturno. Júpiter, como o guru, o mestre espiritual ou guia religioso, envolve elementos de relacionamento pessoal.

Plutão, por outro lado, é estritamente impessoal e não reconhece nenhum Deus ou rei pessoal; ele reconhece apenas um presidente eleito, por assim dizer. Seu rei é a lei. Ele é impiedoso e absolutamente justo — mas justo em termos de uma lei que muitas vezes transcende nossa compreensão limitada, e pode parecer cruel. Plutão relaciona o ego como um centro maior de existência, parte consciente, parte inconsciente. Leva àquilo que C. G. Jung chama self, a totalidade do ser. Simboliza o estágio final do processo de individuação, o segundo nascimento, o "tornar perfeito", iniciação, o "nascimento do Deus Vivo". Pois Plutão é Deus nas profundezas, Deus concretizado e real dentro e no centro da personalidade. Assim, a personalidade se transfigura numa Pessoa Viva. Nesse sentido Plutão é o símbolo da encarnação de Deus, da Irmandade Apostólica, reflexo da ordem cósmica zodiacal, da Morada Branca na Terra.

Plutão representa a Lei do self-total em oposição à Lei do ego particular (Saturno-Júpiter). Seu reino vem depois que este ego tenha sido impregnado de idéias-semente e arquétipos uranianos, e tenha perdido toda sua resistência e seu orgulho através do batismo netuniano. Então Plutão, tendo avaliado o ego nas balanças em que se equilibram consciente e inconsciente, concreto e abstrato, particular e universal, inicia-o na Companhia dos Perfeitos. Portanto sua nota fundamental é renascimento, também a concretização do Todo no Um universal.

De todos os aspectos astrológicos que já foram sugeridos como símbolos (ou causas) da Grande Guerra, apenas um parece válido. Plutão estava em conjunção com o solstício de verão em junho de 1914, e vinha evidentemente de sua primeira conjunção por um breve período durante setembro de 1912, quando era planejada a guerra dos Bálcãs. O solstício de verão é o ponto de fecundação cósmica. A vida se concretiza no útero. O mistério do "verter sangue" também pode acompanhar vastas fecundações cósmicas — ou iniciações.

Plutão estava entrando em Capricórnio em 1761-62. Isto foi perto da época que Swedenborg mencionou como a de descenso à Terra da "Nova Jerusalém". Dessa época em diante, tomava forma a Revolução Americana. Em 1938, Plutão entra em Leão. Isto poderia marcar o início de uma nova era. De acordo com o simbolismo numérico da Pirâmide, esta era começou em 16 de setembro de 1936.

É interessante o fato de o surgimento de Netuno e Plutão no cenário astrológico ter correspondido a uma época em que diferentes aspectos do inconsciente obtiveram reconhecimento público. Plutão foi descoberto exatamente 84 anos (o ciclo de Urano) depois de Netuno (1846). Em 1848 a Europa presenciou um grande levante revolucionário. É a data do Manifesto Comunista de Marx. Marca o início da propagação do espiritualismo. O grande movimento espiritual, o bahaísmo, começou em 1844. De qualquer forma, era um tempo de entusiasmo religioso e de ideais humanitários — verdadeiramente um tempo netuniano. De modo semelhante, Urano se tornou conhecido no meio de uma era revolucionária que acordou todo o mundo ocidental para a percepção de novos arquétipos de relacionamento social. Plutão foi visto em 21 de janeiro de 1930, quando o Sol entrou no signo de Aquário. A década anunciava promessas que rivalizavam em importância com as coisas que tornaram Urano e Netuno conhecidos. Os ideais do New Deal são tipicamente plutonianos à medida que temos nesse New Deal uma tentativa de incluir todas as classes sociais num tipo integral de organização em que os dois fatores, individualismo e coletivismo, serão harmonizados. Netuno torna inteiro, mas também leva à ausência de forma.

Plutão leva a mensagem de forma concreta, de organização. Se muitas vezes o vemos como desorganização é porque só podemos descobrir o primeiro estágio do processo. A Grande Guerra significou desorganização, mas testou o poder de homens se organizarem numa escala jamais sonhada antes. Ensinou eficiência e precisão. Criou a maquinaria que o homem poderá usar construtivamente, se assim o desejar.

Não é de todo improvável que, sob o regime de Plutão, como Paul Clancy sugere, estejam próximas as provas concretas e científicas da imortalidade humana. Alice Bailey anuncia o mesmo, e não há dúvida de que Plutão lida com todas as manifestações concretas da nova ordem.
Urano, Netuno, Plutão simbolizam processos que levam o inconsciente e seus poderes subliminais ao limiar da consciência e do ego. São portanto intermediários entre o sistema solar em si e a galáxia. Cometas também são intermediários, mas de uma qualidade mais transitória. Podemos conceber o    inconsciente em termos de uma acumulação de conteúdos conscientes tanto pessoais quanto coletivos; na verdade precisamos fazer isso se considerarmos a consciência ligada a organismos físicos. Mas é claro que o ocultista afirmará que o inconsciente coletivo é produto mais de Seres supra-humanos e supraterrestres do que das gerações passadas da humanidade. Ele considerará, astrologicamente, as estrelas fixas como símbolos dessas entidades cósmicas, como a intuição despertada as pode perceber vagamente além dos domínios conhecidos das mentes humanas. Urano, Netuno, Plutão são, assim, elos entre as estrelas e os planetas trans-saturninos — entre os "deuses" e a humanidade.

Há ainda mais um assunto que precisa ser abordado: qual é o significado dos três planetas remotos quando retrógrados? É provável que o que esteja indicado seja urna ação de retomo do elemento coletivo à coletividade, mas com o poder acrescentado de o indivíduo torná-lo efetivo de um modo novo. Para ser mais claro: cedo ou tarde raças e grupos sempre degeneram. Os indivíduos que compõem essas coletividades se omitem de agir de acordo com os instintos mais profundos e as verdades arquetípicas que, biológica ou espiritualmente, pertencem à humanidade. Da soma de todas essas omissões particulares decorre uma perversão geral, uma decadência da coletividade. Uma raça (ou uma nação, ou um grupo religioso) envereda por maus caminhos, então se cristaliza ou se desintegra. O que indivíduos causaram, indivíduos precisarão reajustar. Surgem reformadores, que proclamam as antigas verdades esquecidas, provavelmente sob uma nova roupagem. Esses homens são guiados pelo espírito vivo da humanidade coletiva para reformar o corpo doente das coletividades das quais são partes. Essa ação reformadora da coletividade pela coletividade através do indivíduo é simbolizada pelos movimentos retrógrados de Urano, Netuno, Plutão.

Urano "direto" reforma, ou melhor, transforma o ego consciente; quando "retrógrado", o que está simbolizado é a reforma do inconsciente, das profundezas escondidas das quais emerge o ego. Em alguns casos, pode significar que todos os quartos escuros estão sendo arejados e que os esqueletos da família estão sendo despejados; em outros, significa que o homem é na verdade o agente de algum tipo de impulso reformador que deverá mudar a mente de sua raça ou grupo. As imagens uranianas que ele projeta são antes de tudo impregnadas de uma energia iconoclástica. Elas não apenas desafiarão o consciente da raça, mas gerarão tempestades no inconsciente. Netuno retrógrado muitas vezes é encontrado onde são descobertas e denunciadas imposturas religiosas, onde o orgulho interior subconsciente é sutilmente aniquilado. Místicos muitas vezes têm um fator desse tipo em evidência em suas cartas, especialmente quando positivamente se posicionam contra os credos de sua época. Quanto a Plutão retrógrado, só se pode supor que ele tenderia a liberar a destruição organizada. Isto, numa carta individual, poderia estar ligado a um protesto peculiar contra a ordem estabelecida da sociedade.


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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.