segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Os Pontos de Vista Astrológico e Psicológico Correlacionados, por Dane Rudhyar



Primeiramente remetemos o leitor ao capítulo: "Individual, coletivo,. criativo" etc., no qual se estabelece a base para uma correlação entre astrologia e psicologia analítica, e também ao capitulo precedente, no qual os elementos básicos da psicologia de Jung estão sucintamente descritos. Naquele produzimos uma fórmula que define as várias fases de qualquer ciclo e de todos os ciclos de vida e isolamos os três termos básicos do ciclo: começo, meio e fim, correspondendo ao Um-que-é-no-começo — o processo do vir-a-ser —, a síntese-seminal. Sem tentar repetir nossas afirmações, podemos agora dizer que a principal diferença entre as abordagens astrológica e psicológica é que, enquanto esta não vê nada além do "processo de vir-a-ser-inteiro" enquanto se desdobra em duração bergsoniana através de miríades de transformações, a primeira afirma que a totalidade última alcançada no final do processo já está lá no próprio início do processo, mas apenas como um ideal abstrato e uma mera potencialidade.

Se nos remetemos à trindade de elementos que então definimos — qualidade, estrutura e substância —, podemos perceber que qualidade ou mônada inicial se relaciona com, ou é projetada em, elementos substanciais que lentamente se organizam como corpos orgânicos através de um processo evolutivo. Este processo perdura ao longo do ciclo e termina, se bem-sucedido, no aperfeiçoamento de um corpo (no nível fisiológico) e de uma Alma (no nível psicomental), que são a própria exteriorização e manifestação da mônada inicial, agora operando como o self. Assim, o começo e o fim são idênticos no que se refere à qualidade, mas no fim esta qualidade está plenamente manifestada num corpo substancial, enquanto no começo é apenas uma potencialidade abstrata.

Do ponto de vista do espírito (unidade), o propósito do processo é dar à mônada uma nova experiência criativa e completar relacionamentos incompletados no ciclo ou ciclos passados. Do ponto de vista da substância (multiplicidade), o propósito do processo é organizar os muitos elementos que constituíam os resíduos de ciclos passados num corpo perfeito construído à semelhança de Deus, a mônada. Do ponto de vista da estrutura, ou forma, ou mente, o processo é uma experiência estética de beleza e ritmo.

A psicologia analítica assume o ponto de vista da substância, como o fazem todas as ciências empíricas. Ela lida com o processo permanentemente mutante da relação entre o individual e o coletivo. Todos os conflitos psicológicos, repressões, sublimações e assimilações são resultados da elaboração deste processo, assim como toda evolução. Mas a qualidade inicial, anterior ao processo, não muda fundamentalmente. A estrutura individual que exterioriza esta qualidade não muda ao longo da duração do ciclo. A totalidade do fim está latente na mônada do começo. Não está apenas latente. Está de fato trabalhando no próprio coração do processo como poder central de individuação. A energia do Um opera no núcleo de cada um dos Muitos gerados por este Um — mesmo que os Muitos não o saibam. Portanto, num sentido definido, a totalidade do futuro todo está atuando na construção progressiva desse todo. Passado e futuro como um operam dentro do presente. O final do processo está latente no começo, mas apenas se o processo for bem-sucedido. E ninguém pode dizer se ele será ou não bem-sucedido num determinado ciclo.

Estas últimas sentenças contêm uma orientação fundamental quanto à natureza e ao valor da astrologia. Mais que isto, elas são a chave para uma reconciliação entre dois antigos inimigos: livre-arbítrio e determinismo. Eles estão implícitos na filosofia do Tempo que esboçamos na primeira parte deste trabalho.

Escrevemos que toda mônada é a projeção criativa de um momento, o momento inicial do ciclo da mônada. A potência do momento se exterioriza em mônadas, que naquele exato momento iniciam seus ciclos individuais de vir-a-ser. É como se o Tempo tivesse um saco de sementes, do qual caíssem, a cada momento, sementes que se formariam à semelhança da natureza daquele momento. Cada semente é uma potencialidade dinâmica e estrutural de existência. Cada uma delas cai, como unidade individual (mônada), no solo do coletivo, assim como momentos caem no passado. Todas estas sementes recebem a atuação de uma multiplicidade de influências, que ou ajudam ou dificultam o processo de seu desenvolvimento, de potencialidade para a realidade, de semente para planta completada e florescente.

Miríades de sementes nunca se desenvolvem. Miríades de sementes começam a desenvolver-se, mas o crescimento é atrofiado, frustrado ou interrompido pelo insucesso na elaboração da relação entre sua existência como self individual e o coletivo. Isto equivale a dizer: as personalidades são atrofiadas, frustradas ou destruídas. Na personalidade existe uma certa quantidade de livre-arbítrio, desde que a mônada (que 6 atividade criativa pura, livre e espontânea) seja ativa — isto é, à medida que o fator individual domine o coletivo.

Se a semente se desenvolve até ser uma planta completa, então não há como a planta ser em realidade outra coisa que não aquilo que a semente era em potencialidade — mesmo assim a planta pode ser mais ou menos perfeita e forte em suas proporções. Não há nenhum agente externo ou Deus que determine de' antemão: 1) se existirá na realidade uma planta plenamente crescida; 2) quão perfeita esta planta crescida será, se o for. Mas a semente determina a estrutura orgânica e as características da planta terminada.

A bolota não é livre para tornar-se uma macieira, e a semente do carvalho tem certeza absoluta de ser uma bolota. Mas ninguém pode dizer se uma determinada bolota virá a ser um carvalho. Isto pode nem mesmo ter importância. O que parece importar é que um certo número de bolotas manterá a espécie do carvalho em manifestação, talvez numa força numérica definida. De modo semelhante, livros proféticos, por exemplo, costumam dizer que um terço dos homens será salvo, dois terços, perdidos. Não parece importar muito quem em particular será salvo ou perdido — ao menos não para o todo da espécie. Importa muito, é claro, para o indivíduo que é livre para escolher — livre para escolher se virá a ser aquilo que ele potencialmente é, ou não. Ninguém nunca é Ivre para tornar-se com êxito aquilo que não é. Tornar-se aquilo que não se é significa não ser nada. Tanto a realização de potencialidades quanto o fracasso são inerentes à mônada (portanto ao momento de nascimento). Estas potencialidades inerentes à mônada e ao momento de nascimento podem ser encontradas simbolizadas na carta de nascimento.

A maioria das pessoas tem uma concepção "individualizada", mas não "individuada" de "liberdade". Liberdade é a capacidade inerente de completar as características potenciais de nossa existência como self individual. Não é o poder de fazer o que nos agrada. Pois "agradar", aqui, refere-se meramente ao ego em seu estágio de rebelião contra quaisquer conteúdos de vida. Essa rebelião muitas vezes significa o desejo de fazer as coisas mais estúpidas e sem significado. Isto não é liberdade, mas o resultado daquela fase de "individualização" puramente negativa e separativa. "Eu não tenho nada que ver com os valores coletivos", diz o indivíduo que está para desabrochar. Mas o indivíduo maduro, por outro lado, diz: "Devo trazer o coletivo à focalização de meu próprio ser, e dar-lhe meu próprio significado".

A carta de nascimento de um indivíduo é o símbolo de sua liberdade, porque é o símbolo daquilo que ele é. Quanto mais livre um indivíduo, mais perfeita e nitidamente (nítido quanto aos contornos) ele é aquilo que é, mais clara é a forma de seu self individual, e portanto de seu comportamento. O coletivo sempre tende a embaçar os contornos de qualquer ser individual. Portanto, trabalha contra a liberdade do indivíduo, a não ser que o indivíduo possa "assimilar" os conteúdos coletivos do seu meio ambiente e de sua ancestralidade — isto é, a não ser que possa fazê-los "similares" àquilo que ele é essencial e arquetipicamente. Esta é uma tarefa enorme em nossa Era da Escuridão, ou, como dizem os hindus, Kali Yuga, uma tarefa cuja natureza e magnitude dificilmente são reconhecidas, mas que mesmo assim condiciona todo o desenvolvimento espiritual da personalidade e o sucesso do indivíduo em ser ao mesmo tempo fiel a seu padrão estrutural de identidade e rico de conteúdos de vida — tudo o que teve de ser assimilado.

Estas considerações determinam o escopo da astrologia. A carta de nascimento revela a estrutura potencial da mônada, isto é, o elemento puramente individual no nativo; portanto o elemento de liberdade e significado, que é o dote espiritual de todo ser humano. Mas a carta de nascimento não revelará se esta potencialidade virá a ser um fato, se esse processo de individuação será ou não bem-sucedido. Mesmo assim, conforme já escrevemos nos capítulos sobre "Progressões", a carta de nascimento revelará qual será a forma e a qualidade da Alma, se vier a ser; revelará também quais os ciclos gerais de desdobramento da personalidade e suas crises de crescimento. Mas nunca poderá dizer, a partir de fatores puramente astrológicos, e excetuando faculdades proféticas, se as crises serão enfrentadas com sucesso e, caso o sejam, quais serão os resíduos psíquicos acumulados no inconsciente pessoal como consequência do desgaste e da tensão.

Aquilo que a astrologia não pode revelar com bases puramente astrológicas, a psicologia analítica muitas vezes pode inferir dos dados que investiga. O analista lida diretamente com a personalidade, à medida que ela se transforma e se transformou. E se a personalidade chegou a uma certa idade e caso seu ser individual tiver sido pouco ativo, o analista pode deduzir com bastante precisão como será o restante da vida. O astrólogo poderia dizer ao analista quando virão as próximas crises, mas não poderá informar, a partir apenas da carta de nascimento e das progressões, como a personalidade enfrentará essas crises. O analista não pode dizer quando as crises virão, mas pode suspeitar como a personalidade enfrentará certas crises inevitáveis. Em outras palavras, o astrólogo e o analista olham dois aspectos diferentes do ser humano total. Seus pontos de vista são complementares. E complementam-se da mesma maneira que a ciência empírica e a religião (ou ocultismo) se complementam.

Essa afirmação não invalida as conclusões de capítulos anteriores quanto à analogia existente entre a relação da matemática com a física e a relação da astrologia com a psicologia analítica. Tanto a matemática (ou lógica) quanto a astrologia lidam com "forma pura", que existe apenas "no começo', como estrutura abstrata do futuro processo de vida. Por outro lado, física e psicologia analítica lidam com o domínio de fenômenos e do vir-a-ser, com as estruturas constantemente mutantes do processo de vida. "Forma" abstrata não evolui, mas "formações" evolutivas e corpos mudam constantemente — e assim, à luz do espírito (filosofia hindu), elas são o resultado da deterioração do ser e verdade primordiais — e, desse modo, são falsas e ilusórias. Mas, do ponto de vista da substância, "forma abstrata" é meramente uma ideia intelectual, um produto da vontade de estabilidade e de preservação inerente ao homem e que tantas vezes leva a uma fuga da realidade. Realidade, para a substancia, é o processo de um mundo em mutação. Mas, para o espírito, é a estrutura monádica imutável (imutável no que se refere ao ciclo inteiro).

Esta dualidade de ponto de vista é uma expressão do eterno dualismo inextirpável de todo o viver. Em Psychological Types, C. G. Jung estuda criticamente muitos aspectos deste dualismo básico — como, por exemplo, realismo e nominalismo na filosofia medieval. Ele ressalta que há duas atitudes basicamente irreconciliáveis, que são o resultado de dois tipos psicológicos fundamentais: introvertido e extrovertido.

Em outras palavras, ele tenta efetuar um tipo de reconciliação entre opostos de pensamento relacionando-os com as diferenças em tipos psicológicos. Tenta então mostrar como os impulsos básicos que motivam cada tipo podem ser integrados dentro da personalidade através da operação de urna "função transcendente", através da "fantasia criativa". Isto combina bem com nossa trindade de individual, coletivo, criativo. O introvertido é urna personalidade em que o equilíbrio de forças mostra uma ênfase no processo de individuação. O extrovertido é uma personalidade em que a coletivização é o processo dominante. Mas no verdadeiro "ato criativo", individual e coletivo se dão as mãos. As idéias coletivas do passado são focalizadas e individuadas no útero psicomental do criador e são liberadas ao mesmo tempo criativamente como novos elementos coletivos, como a "matéria da civilização", tornando-se assim, no foral, a própria substância da síntese última do Homem-total. No introvertido, a vida opera para dentro; no extrovertido, para fora. Mas no criador ela opera "em e através de". O criador, em seu nível mais elevado, é o que a sabedoria hindu chama de avatar. O avatar não é apenas a "hipótese" de um "Indivíduo maior". E a resposta a uma necessidade coletiva; é a resposta, por meio de um indivíduo, a uma necessidade coletiva que o indivíduo focalizou dentro de si mesmo — uma necessidade que ele superou, realizando-a.

Falando, agora, estritamente em termos de método prático, afirmamos que a astrologia poderia ser de máxima utilidade para o psicanalista, para o psiquiatra e também, é claro, para o educador que, se bem-sucedido, precisa ser antes de tudo — intuitivamente, se não intelectualmente — um psicólogo. Ela lhes daria alguma coisa objetiva na qual se apoiar e com a qual conferir dados subjetivos, tais como sonhos e os detalhes da história da vida de uma pessoa. Ela coordenaria todos estes dados subjetivos em termos de tendências estruturais da psique, tendências cujo ciclo de manifestação se tomaria objetivamente evidente com seus movimentos crescente e decrescente e seus momentos críticos. E verdade que o conhecimento prévio de crises psicológicas ou fisiológicas pode ser muito perigoso e desintegrador para a pessoa em que virão a ocorrer — perigosa à proporção que ela não é um indivíduo e, portanto, não é nem livre e nem criador de significados, mas seria de grande significado para o analista ou "conselheiro de vida", que neste século está tomando o lugar do padre confessor ou guru. Mesmo se tais "guias" forem dotados a priori de uma intuição aguçada — se forem "guias" verdadeiros! —, a carta de nascimento e as progressões daqueles que eles procuram guiar em direção à completação ainda assim seriam um acessório inestimável e um meio para conferir suas percepções intuitivas.

Isto pode ser ainda mais óbvio no caso do "psicólogo infantil.", pois aqui praticamente não há dados subjetivos para consultar, exceto os fornecidos pelos pais. As cartas de nascimento dos pais, quando correlacionadas à da criança, revelaria questões que só uma "análise" completa dos pais descobriria. Deveremos voltar a discutir este assunto de correlações entre duas ou mais cartas individuais, mas podemos ver de imediato como problemas conjugais seriam resolvidos muito mais facilmente se o psicólogo comparasse as cartas do marido e da esposa. Em muitos casos, o conhecimento obtido pelo psicólogo através de meios astrológicos — e, em termos gerais, por qualquer tipo de "curador" — não seria discutido como tal com o paciente, mas acrescentaria uma nova dimensão, por assim dizer, à compreensão do paciente que o analista obtém. Em outros casos, com pacientes convencidos da validade da astrologia, a referência a fatores astrológicos definidos provavelmente "marcaria ponto" de um modo mais impressionante que as sugestões usuais.

No entanto, nesses casos deveria estar claro que sempre que uma pessoa sente que planetas são entidades que a influenciam e fazem coisas, boas ou más, acontecerem, essa pessoa está psicologicamente machucada por essa convicção. Em termos psicológicos, o mesmo ferimento seria causado se a pessoa acreditasse estar sendo perseguida por um "mago negro" ou que um "irmão branco" lhe estivesse dando a salvação da alma ou outras dádivas de um ou de outro tipo. Todas essas crenças em poderes exteriores influenciando ou (como em geral é o caso) compelindo a personalidade desta ou daquela maneira constituem deteriorações da individualidade; levam à escravidão psicológica ou através da transferência do poder de iniciativa, ou, em termos coloquiais, por se "passar a bola" para alguma entidade fora de si.

Se Marte, enquanto planeta tangível, está influenciando você ou o está compelindo a ficar zangado, o que você pode fazer a respeito? Você pode lutar contra um planeta? Pode esconder-se dele? Talvez você faça como o brâmane que pensou em escapar de um aspecto planetário mortal ficando submerso em água durante o momento exato de maturação do aspecto — porque presume-se que a água seja um isolante de certas influências magnéticas planetárias — e que se afogou no processo. Talvez você tente "comprar" proteção de algum agente espiritual, igreja ou qualquer coisa. E o tempo todo o medo estará ali, trabalhando subconscientemente em você, ou mesmo de forma consciente — provocando exatamente as coisas temidas. Quanto mais um fator astrológico pernicioso for transformado numa entidade astrológica definida, maior o medo que se tem dele. Porque poderá parecer não existir nenhum recurso contra uma entidade assim — mesmo que se repita cem vezes: "O homem sábio rege suas estrelas!" Você pode "reger" um tornado ou um terremoto? Pode proibir um eclipse de ocorrer no dia de seu nascimento? Pode "reger" emanações cósmicas, ondas e coisas semelhantes, que fluem do Sol e "atingem" este ou aquele centro sensível de suas cartas — se forem forças reais, concretas, mensuráveis?

Realmente, não há nenhuma lógica no conceito — a não ser que este seja entendido como significando aquilo que Paracelso disse significai numa citação feita em nosso primeiro capítulo: "Os astros não nos forçam a nada que não estejamos dispostos a aceitar ... Eles são livres por si e nós somos livres por nós ... Nesse sentido, aquilo que é estabelecido pela astrologia simplesmente é uma correspondência holística e uma relação sincrônica de processo entre macrocosmo e microcosmo, entre a Pessoa universal, que alguns chamam de Deus, e a personalidade particular, que é o homem. Em outras palavras, o processo de vida atravessa o universal ao mesmo tempo que atravessa as miríades de particulares. Ambos estão como que encaixados no momento criativo, do qual o espírito no homem é a própria expressão. O momento opera através da mônada do homem e através da estrutura arquetípica essencial do homem (que é seu carmes). Aquele momento contém potencialmente o todo do padrão celeste de relacionamentos planetários e espaciais. Quando lemos a "carta dos céus", meramente lemos a estrutura simbólica do momento — e portanto de nosso próprio espírito, se o momento considerado for nosso primeiro momento de existência independente, isto é, o começo do ciclo de nosso self individual como um organismo integrando materiais terrenos.

Em outras palavras, o que nos "influencia" é apenas o momento, e acima de tudo nosso primeiro momento de existência como self. Podemos ler as características deste momento interpretando o padrão constituído pelos corpos celestes circundando o lugar de nosso nascimento; este padrão representa a projeção estrutural visível do Todo universal, à medida que este Todo — do qual somos uma parte — nos concerne. Mas nenhum corpo celeste material nos afeta como um indivíduo. O que atua sobre nossa personalidade — corpo e psique — é o poder criativo do momento. E esse poder criativo de nosso momento de nascimento é nossa própria mônada.

É claro que para nós há miríades de momentos que se seguem a este primeiro momento de existência como self. Tais momentos são partes de nosso "processo de vida" de desenvolvimento e precisam ser diferenciados do momento de nascimento, que é nossa mônada individual, e também do momento de morte, que é uma recapitulação e uma síntese. Eles acrescentam conteúdos a nossa personalidade, mas não alteram basicamente a estrutura arquetfpica de nossa existência individual como self.

Estes momentos do processo vital estão simbolizados na astrologia pelos trânsitos. E trânsitos não afetam a estrutura de nosso self individual; eles simbolizam o poder de modificar os conteúdos de nossa personalidade que cada momento sucessivo do processo vital, após nosso nascimento, tem. Tal "poder de modificação" não é destino! Não mais que o fato de cada estação milar. De uma variedade de alimentos você pode extrair, pela digestão, os mesmos elementos químicos básicos de que seu corpo necessita para poder preservar intacta sua estrutura orgânica. E verdade, algumas comidas podem fazê-lo engordar, outras causar males fisiológicos — e neste sentido você, enquanto organismo psicofisiológico, é afetado pelos alimentos que a estação e a localização geográfica oferecem. Mas se seu organismo for originalmente saudável, terá o poder de manter-se e funcionar criativamente com quase todo tipo de comida e em quase todo tipo de clima, pois o organismo saudável pode extrair o de que necessita da comida existente e, se necessário, transformar o que consegue de modo a adaptá-lo a seu propósito orgânico. Por exemplo: exploradores do Artico viveram exclusivamente de comida animal durante mais de um ano, seu organismo transformando quimicamente a proteína animal em elementos químicos que em geral são derivados do amido.

O mesmo se aplica a qualquer trânsito astrológico — porque se aplica àquilo que qualquer momento de nossa vida por assim dizer projeta em nossa personalidade psicofisiológica. Cada momento nos fornece "alimentos psíquicos" (ou, em termos mais gerais, experiências), cuja natureza podemos determinar por meio de um estudo do padrão de corpos celestes naquele momento. Alguns deles podem "concordar" mais conosco que outros. Alguns geralmente tendem a causar indigestão; outros, parecemos incapazes de assimilar ou até mesmo de ingerir. E assim a vida se torna mais ou menos satisfatória para nossos gostos pessoais.

Todavia, isto não significa destino, pois à proporção que formos originalmente inteiros (saudáveis) também seremos capazes de extrair do alimento de cada experiência os elementos psicológicos de que necessitamos para poder atender ao processo de completação de vida e individuação. E, portanto, naquela medida não somos afetados pelo poder dos momentos e somos livres deles — e de seus símbolos, os astros. Até a medida que formos inteiros como "indivíduos menores" — nesta medida não seremos afetados, e seremos livres do condicionamento que nos é imposto pela nossa posição no organismo do "Indivíduo Maior" do qual somos uma parte.

Mas e se não formos inteiros e originalmente saudáveis? Isto então se refere à nossa mônada e seu carena, e carena não é nada mais misterioso do que a estrutura arquetípica que exterioriza a qualidade particular dessa m6- nada, qualidade que, por sua vez, é uma expressão do primeiro momento de existência como self individual — o Um-que-é-no-começo. Esta é então nossa "fatalidade": de que somos o que somos. Obviamente o termo fatalidade neste sentido não tem muito significado. Em termos espirituais, não posso me perceber como aquilo que não sou. E claro que posso fazer imagens intelectuais de minha personalidade, sendo diferente daquilo que esta personalidade é de fato. Mas eu estou fazendo estas imagens, e não estou saindo de mim mesmo ao fazê-las. Estou apenas brincando com fantasmas coloridos, construindo castelos no ar; "compensando" certas condições psicológicas que são partes integrantes daquilo que sou. Portanto a "compensação" bem como todos os meus sonhos são partes integrantes daquilo que sou. Minha sensação de ser oprimido pelo destino é parte daquilo que sou. Simplesmente é a reação de algumas partes de meu ser total a outras partes com as quais elas estão em relação discordante ou dissonante.

Num outro sentido, esta é a mesma situação que Bergson discute no final de Creative Evolution, quando prova que não podemos conceber realmente o "caos". Caos para nós é sempre a ausência de uma certa ordem, e um tipo de ordem que compensa todos os tipos de ordem que normalmente esperamos. De modo semelhante, todas as coisas que "deveríamos gostar de ser" são meramente reações de certas partes de nosso ser total a outras partes dele, e essas reações em si são portanto partes de nosso ser total.

Em outras palavras, existência como self e destino são dois aspectos do mesmo todo, que, para utilizar termos modernos, é um continuum tempo-espaço dentro do continuum tempo-espaço maior que é o universo. Estes dois continuum interagem em todos os pontos, assim como todo e partes sempre interagem em cada ponto do organismo. Se uma parte é originalmente fraca, tenderá a quebrar facilmente sob pressão das demandas que lhe são feitas pelo todo. Por outro lado, por causa disto, o todo tenderá a proteger mais cuidadosamente aquela parte que é o elo fraco na corrente de seus relacionamentos orgânicos, e portanto é um ponto perigoso, um "calcanhar de Aquiles". Assim como já dissemos, uma carta de nascimento "fácil" significa pequena liberação de poder do Todo maior do qual somos partes; uma carta "difícil", uma maior liberação desse poder. O princípio de ação compensatória — básico para se considerar qualquer todo orgânico — está exemplificado aqui.

A sensação de fado, portanto, é apenas a reação de uma parte do ser todo a uma situação que a priori envolve essa própria sensação de fado. Ela é meramente uma sensação de pressão interna, tal como a sensação de liberdade é uma sensação de liberação externa. E uma sensação orgânica — em geral tanto no nível fisiológico quanto no psicológico, mas às vezes com ênfase num ou noutro. Permanece o fato: eu sou o que eu sou. Mas não nos esqueçamos de que esse ser-o-que-se-é se refere à forma do self, não aos conteúdos de personalidade. Essa forma pode ser tão universal e adaptável, que daria espaço para uma grande multiplicidade de conteúdos — de modo que a personalidade pode aparentar ser, realmente, todo-abrangente e todo-compreensiva em sua universalidade. Mas uma forma ela precisa ser, e essa forma é o condicionamento estrutural da totalidade, que é o ser self plenamente desenvolvido. Essa forma é a exteriorização da qualidade que emanou do momento que foi o ponto inicial do ciclo daquele eu-sou.

Por que então uma pessoa semelhante a Cristo e um ser humano desagradável podem nascer no mesmo momento — ou por volta do mesmo instante? Porque no primeiro caso a estrutura do self focaliza e libera energias universais do "Indivíduo Maior", enquanto no segundo caso tal estrutura é uma armadura pesada que não permite qualquer adaptação ao condicionamento universal e praticamente nenhuma assimilação de conteúdos vitais. Pode haver uma relativa identidade de estrutura (muitos patifes parecem-se a Cristo no que se refere à estrutura da cabeça), mas no primeiro caso aquela estrutura está cheia de luz gloriosa; no segundo, é vazia e carrega seu próprio peso. A astrologia pode determinar a partir de uma carta de nascimento se a personalidade que ela simboliza é brilhante de conteúdos universais ou vazia e escura? A astrologia não pode. É preciso mais que astrologia isolada e sem auxilio para poder dizer se uma carta se refere ao nascimento de uma vaca ou de um ser humano.

A astrologia não trata primeiramente de conteúdos vitais mas apenas da estrutura da entidade individual. Estritamente falando, é um sistema tão formal de conhecimento quanto a álgebra. Suas fórmulas se aplicam a quaisquer conteúdos — portanto, não incorporam o fado. Por esta razão a astrologia necessita da análise psicológica, que lida com conteúdos pessoais empiricamente determinados. A' astrologia é o elemento masculino: aquele que dá a fórmula. A psicologia é o elemento feminino: aquele que dá os conteúdos substanciais. Portanto, eles se complementam mutuamente na delimitação, e com o propósito de servir a integração do ser humano como um todo: a Pessoa Viva.


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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.