domingo, 21 de agosto de 2016

O Uso da Astrologia nos Processos de Individuação e de Civilização, por Dane Rudhyar



Esperamos que ao longo do todo de nossa discussão e reformulação da filosofia, do simbolismo e da técnica da astrologia, uma coisa se tenha destacado claramente: o fato de que a validade e o poder da astrologia dependem principalmente da maneira pela qual ela é levada a servir a meta universal de "mais totalidade" — a meta de individuação para o ser humano particular, a meta de Civilização Viva para a humanidade como um todo. Como um sistema de simbolismo coerente, a astrologia é um estudo intelectual dos mais fascinantes; como um sistema de adivinhação, é uma ferramenta notável para sondar a orla dos futuros eventos; como um fenômeno histórico, é única em nos permitir observar a mentalidade de culturas mais ou menos distantes — em espaço, bem como em tempo. Mas, mesmo assim, a não ser que a astrologia seja posta em uso como um revelador de significado vital e de padrões de relacionamentos orgânicos (ou, em termos gerais, holísticos), como meio de sondar as fórmulas secretas de todos os começos, tendo em vista levar-nos a um resultado melhor — em outras palavras, como técnica de integração da personalidade —, ela continua a ser mera especulação intelectual (como o seria uma álgebra que não pudesse ser aplicada a nenhum grupo de dados empíricos) — ou então um jogo perigoso de predição de futuro.

Expressamos esta visão de muitas maneiras e em vários lugares. Com base nela, demos ênfase à conexão entre astrologia e psicologia — e, se tivéssemos tido espaço para isto, poderíamos ter discutido as relações entre astrologia e todas as artes de cura física, ou então teríamos estudado o lugar que a astrologia poderia ocupar em outras artes, que todas juntas constituem o fundamento da "cultura" — da agricultura às belas-artes. Dizemos propositadamente "artes" e não "ciências". Pois a astrologia aplicada, sendo uma arte de interpretação baseada em: 1) dados científicos; 2) uma lógica de simbolismo —, lida essencialmente com a abordagem artística da vida, e não com a científica. Não existe uma real "ciência" de viver. Medicina, por exemplo, não é propriamente uma ciência, mas uma arte baseada na interpretação de dados cientificamente determinados. Psicologia analítica não é uma ciência, mas uma arte de interpretação de fatos empíricos cientificamente coletados e analisados. O termo ciência deveria ser reservado para as assim chamadas ciências exatas, tais como física, mecânica e astronomia, por um lado, e por outro para as ciências abstratas como a lógica e a matemática. Toda ciência aplicada se transforma numa arte sempre que é introduzido o elemento de interpretação individual. Quanto mais predominante ele é, mais verdadeiramente é uma arte — uma arte interpretativa.

Seja como for, o fato é que a astrologia, como a estudamos na segunda parte deste livro, está essencialmente relacionada com a psicologia, e seu principal propósito é contribuir para a completação bem-sucedida do Grande Trabalho do homem — aquele através do qual o homem alcança plenitude e totalidade operativa e, como resultado, se torna uma função orgânica ou célula dentro do Todo maior — o "Indivíduo Maior" ou o "Indivíduo Planetário" ou o Manu-Semente, ou o Logos, ou Deus — seja qual for o nome dado a este Todo maior seguinte, do qual a personalidade humana aperfeiçoada espiritualmente se torna uma parte. Nesta parte final, devemos definir, mais completamente que antes, a relação entre astrologia e psicologia, especialmente em termos do modo complementar através do qual ambas podem servir à meta acima definida. Devemos então delinear mais especificamente a contribuição da astrologia para a realização daquela meta: 1) para a personalidade humana no caminho da individuação; 2) com referência à nova civilização em formação e ao processo de formação de grupos que nela terá um papel tão importante.

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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.