quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Princípios de Interpretação Astrológica, por Dane Rudhyar



Para que a interpretação seja plenamente significativa e criativa, precisa necessariamente ser individual. Portanto, nenhum homem deveria dizer a outro homem como interpretar sua experiência ou qualquer estrutura de vida ou evento com que se confronte. Tudo o que pode ser feito é estabelecer alguns princípios gerais de interpretação que são universalmente válidos, servindo de marcos no processo de interpretação, que deveria ser determinado, para cada indivíduo, pelo modo como ele conseguiu interpretar o fato básico de sua experiência: ele mesmo.

A interpretação de uma carta de nascimento não é diferente da interpretação de qualquer situação de vida, nem da interpretação de uma obra de arte ou de uma personalidade que se encontra pela primeira vez. Isto posto, para interpretar uma carta de nascimento astrológica, a pessoa deverá, primeiro, conhecer completamente o significado dos fatos astrológicos, ou melhor, os símbolos. Assegurado que um conhecimento dos conteúdos dos capítulos precedentes deste livro seja um pré-requisito para uma interpretação fiel ao menos à atitude que sustentamos diante da astrologia, permanece o fato de não haver, em interpretação astrológica, nada mais misterioso, nem menos misterioso, que em qualquer outro caso de interpretação. Foram estabelecidos princípios universais, definindo o caráter geral dos símbolos utilizados. Resta ao indivíduo permitir que esses símbolos se organizem em totalidade de significado dentro de sua própria estrutura de compreensão.

Isto soa muito simples, mas evidentemente pode ser muito difícil. O principiante "não saberá como começar". Olhará fixamente para o mapa numa perplexidade muda, e nada acontecerá. Ou então ele tabulará cada fator em que puder pensar e procurará, nos manuais, pelo significado de cada um dos fatores. E se ele tentar somar esses significados separados, ele encontrará — salvo casos excepcionais — uma situação desesperadoramente confusa, na qual muitos fatores negarão tantos outros. Estabelecer uma média mostrará ser de pouca utilidade, já que seres humanos não são tão convenientemente simples quanto este procedimento sugeriria.

Especialmente, seres humanos não são somas totais de fatores separados, mas um relacionamento orgânico de relações entre fatores. Devemos então começar pelos "fatores", ou pelas "relações entre fatores" ou mesmo pelo "relacionamento orgânico de relações"?

Cada intérprete potencial precisa decidir por si mesmo — de acordo com a natureza de seu próprio entendimento. Alguns partirão do todo para as partes, daí para as relações entre as partes, e tornarão a considerar o todo como um organismo de relações. Outros, tão sabiamente quanto os primeiros, analisarão partes, daí às relações entre partes, e resumirão polarizando os significados já determinados em algum centro de significado, ou "determinador focal".

No entanto, existe uma operação primária, até agora não mencionada, que na verdade é o fundamento — apesar de normalmente ser inconsciente — do processo de interpretação subsequente. Esta operação está implícita no primeiro olhar dirigido a uma carta astrológica, pois cada homem, olhando para uma carta a ser interpretada, terá ou deveria ter determinado, com clareza ou não, o que está procurando, como base para investigação posterior. Com esta afirmação um tanto obtusa, queremos salientar sua atitude, a priori, diante dos dados incluídos na carta, quaisquer que sejam. Alguns intérpretes terão decidido de antemão, inconscientemente senão deliberadamente, que estão procurando planetas bons e maus, benéficos e maléficos, bons e maus aspectos, signos e estrelas felizes e infelizes. Outros procurarão o quadro de um ser humano e um destino, e interpretarão este e aquele planeta ou signo como um gravurista lida com tonalidades de preto e branco, um pintor com claro-escuro.

Em outras palavras, são possíveis duas atitudes básicas diante da interpretação — e, além disso, muitas misturas secundárias dessas duas: as atitudes ética e estética. Já definimos em geral essas duas abordagens de uma avaliação e compreensão da vida em nosso capítulo "Astrologia e psicologia analítica". O que resta fazer é mostrar brevemente como a atitude estética opera precisamente no campo da interpretação de cartas. O mecanismo da atitude "ética" pouco precisa ser discutido, já que todo manual de astrologia pós-medieval, ou mesmo moderna, e a prática astrológica comum são exemplos suficientes do método ético e de suas avaliações dualistas: bom e mau. Mas a abordagem "estética" ainda é um mistério para uma esmagadora maioria de estudantes de astrologia.

A razão disso indubitavelmente é que até agora qualquer interpretação e avaliação da vida e de seus dois elementos básicos — tais como macho e fêmea, yang e yin chineses, luz e escuridão, positivo e negativo — foi estabelecida no nível fisiológico-natural de consciência. Em outras palavras, a atitude vital humana até agora esteve baseada em seus instintos e colorida pelos resultados de atividades instintivas. Luz e verão eram bons porque a vida era mais segura e mais fácil quando ambos tinham ascendência, mas escuridão e inverno eram maus porque a vida era mais insegura e difícil quando estes dominavam. De um modo semelhante, havia uma subavaliação ética da mulher e uma superavaliação do homem, pois um homem era mais capaz de trabalhar por sua vida na "selva", e a mulher carregava o peso de dificuldades fisiológicas.

Até recentemente, a humanidade esteve no estágio estritamente fzsiol6gico de seu desenvolvimento — como vimos no primeiro capítulo deste livro. Os Puranas hindus falam deste estágio como o do "poder da mão e do sexo". Uma caracterização das mais interessantes! "Poder da mão" refere-se a atividade muscular, e em seus termos o polo passivo-mulher é visto como inferior. Quanto ao "poder do sexo", tudo depende do modo como sexo é considerado. Como manifestação da força criativa e da vida, o sexo faz da mulher, como mãe, o positivo: portanto o matriarcado. Mas como modo de "atividade" (muscular e outras), faz do homem o positivo. O tipo de ambiente em que as tribos humanas viviam sem dúvida influía muito na determinação da atitude adotada. Como resultado, temos o conflito entre o sistema matriarcal e o patriarcal.

Todos os campos de relacionamento humano, da vida familiar às organizações sociais tribal e nacional, foram permeados pelo tipo mais ou menos consciente de avaliação fisiológica. Além disso, tudo o que parecia válido para a grande maioria dos seres humanos era o esforço para perpetuar a todo custo o organismo fisiológico numa condição de relativa saúde fisiológica e felicidade psicológica. Assim, tudo que tendia a abalar — mesmo que temporariamente — a saúde e a felicidade (mais prosperidade) foi avaliado como mau, enquanto tudo que consolidava ou promovia a saúde, a felicidade e a prosperidade foi considerado bom. Tudo que fizesse surgir uma sensação de pressão ou peso, ou quaisquer distúrbios da normalidade feliz do lar, da religião e do comportamento tradicional foi rotulado de mau. Por isso Saturno e Marte são maléficos. Quadraturas são maus aspectos. Oposições e as dúvidas que geram (como estímulos necessários para subsequentes esforços de compreensão) também são maus aspectos. Mas o Júpiter expansivo e a Vênus construtora de lares são benéficos, e trígonos que trazem novas perspectivas e novos planos são bons aspectos.

Mas à medida que a consciência humana começa a se estabelecer no nível psicomental e a conceber sua relação com um Todo maior, cujo poder ela pode focalizar deliberadamente como o fundamento para a atividade suprapessoal mas consciente, a questão da manutenção do organismo físico, o problema da saúde, felicidade, prosperidade e o medo instintivo daquilo que pudesse quebrar o conforto dos relacionamentos consanguíneos e das tradições da Terra, tudo isso assume valores diferentes. Num estágio de transição, a avaliação "bom-mau" parece ser fortemente enfatizada por um tempo, apesar de haver uma transferência do foco de discriminação — como podemos ver na ética cristã, mas ainda mais tarde a vida começa a ser realmente considerada "além do bem e do mal" — e mesmo além da felicidade. Começa a ser vista à luz do artista criativo, que sabe muito bem que "pretos" são tão necessários e significativos quanto "brancos" num desenho preto e branco, que sem ambos não poderia existir nenhuma forma e portanto nenhum significado. Nasce então a atitude estética diante da vida — a atitude da "totalidade operativa", a meta da "liberação de poder através de forma significativa". Para uma atitude assim não há nem "bom" nem "mau", mas apenas graus de realização concreta de significados através de formas que transmitem tal significado de modo mais ou menos puro e preciso. Cada vida é uma obra de arte, que, ou transmite com sucesso o significado que a trouxe à existência, ou se transforma num conglomerado disforme, inexpressivo, não-convincente, trivial, desbotado, de esforços incompletos, que não levaram a lugar algum — ou ainda como uma folha quase em branco sugerindo apenas vagamente formas vulgares, totalmente não-individuais e desprovidas de significado.

As afirmações seguintes — de um modo um tanto negativo — podem servir como postulados da atitude estética diante da interpretação astrológica:

A. Não há nenhum planeta mau. Cada planeta tem uma função definida. Cada função é necessária para a conquista da totalidade orgânica. Eliminação tem tanto valor quanto assimilação. O furúnculo que livra o sistema de venenos tem tanto valor quanto a carne que arredonda os ângulos dos ossos.

B. Não há nenhum aspecto mau. A involução é tão necessária quanto a evolução. A destruição das formas que se tornaram conchas mortas e a liberação do poder que elas detinham é de tanto valor quanto a construção de novas formas. As tensões têm tanto valor quanto facilidades, e são mais criativas.

C. Cada signo zodiacal é tão bom para se nascer quanto qualquer outro. Não existe um mês melhor ou dia melhor para nascer. A única coisa que interessa é completar a função vital ou a "qualidade" revelada pelo signo ou símbolo do grau.

D. Nenhuma carta de nascimento é melhor que qualquer outra. Uma é sempre melhor para algum determinado propósito. Mas, como todos os propósitos são igualmente válidos e necessários na economia do Todo maior, a carta de cada homem é melhor para os propósitos de sua vida que a de qualquer outro.

Se existe algum "mal", ele reside na identificação absoluta da consciência e do "eu" com apenas uma fase particular da totalidade, em vez de com a totalidade do ser. Portanto o mal é a superênfase, ou melhor, é o fato do "eu" ficar escravizado a essa superênfase e influenciado por ela. Neste sentido, qualquer planeta é maléfico quando chega a um destaque que nega a operação compensatória de seu oposto polar. Qualquer elemento de uma carta, quando visto dominando totalmente e atraindo para si quase toda a energia do campo de consciência, torna-se "mau". Mais cedo ou mais tarde, seu domínio precisa ser quebrado, se o homem quiser alcançar totalidade.

Isto não invalida a "focalização". Mas focalizar a totalidade da energia de alguém para a completação de um indivíduo — e, ainda mais, de um propósito suprapessoal — é uma coisa, e identificar o "eu" pessoal com uma única parte da totalidade do ser, de forma que todas as outras partes sejam frustradas em seu desenvolvimento, é outra. Só esta última pode ser chamada má, se alguém insistir em utilizar essa qualificação tão infeliz! E mesmo essa "maldade" pode facilmente ser uma questão puramente temporária, que termina demonstrando ser uma fase valiosa de um desenvolvimento que se processa através de contrastes agudos. Por isso precisamos ser cuidadosos para não transferir a avaliação ética de bom e mau para novo nível, chamando o todo de bom e as partes de más. Onde existe ao menos um certo mal relativo não é na parte ser uma parte, mas na totalidade do todo abdicar para uma parte que afirma ser ou dominar o todo. Neste sentido, o mal é tornar-se aquilo que não se é, e o bem realizar aquilo que se ê. A lei da vida, a boa lei, é a lei do atendimento ao dharma, isto é, da completação daquilo que se é inerente e arquetipicamente.

E assim somos levados, em pensamento, de volta ao grande livro hindu, o Bhagavad Gita, que diz em seu terceiro capítulo:

Por isso execute você aquilo que precisa fazer, em todos os tempos sem pensar no evento, pois o homem que faz aquilo que deve fazer, sem apego ao resultado, obtém o Supremo ... É melhor cumprir seu próprio dever (dharma), mesmo que seja desprovido de excelência, do que cumprir bem o dever de outro. É melhor morrer no cumprimento do próprio dever, o dever do outro é cheio de perigos.

Tornar-se aquilo que se é, tornar-se a plenitude daquilo que se é, em outras palavras, viver o todo — mesmo que esta totalidade deva ser subsequentemente focalizada numa única tarefa, para cujo atendimento cada elemento do ser contribui por transferência deliberada e substituição psíquica — tal o ideal atemporal e universal do indivíduo. Significa a correlação perfeita de todos os valores dentro da personalidade, em seu caminho em direção à individuação. Significa a correlação perfeita dos fatores individuais e coletivos no criativo, em operação incessante. O coletivo provê os elementos substanciais, o individual provê a forma de organização, ou estrutura — que é a exteriorização da "qualidade" monádica, que por sua vez é a identidade espiritual do criativo. E desse acorde sempre-ativo e sempre-sonante de ser e de vir-a-ser — do vir-a-ser operando no e através do ser, do ser substancializado e operacionalizado no e através do vir-a-ser — emerge a totalidade criativa do todo orgânico.

A astrologia ilustra, exemplifica, provê aplicações para todas estas correlações. Mas ela também precisa ser compreendida inteira. Também precisa ser integrada em e através de uma abordagem estética que, só ela, pode revelar a totalidade de significado. Já vimos como esta correlação de ser e vira-ser pode ser percebida na e através da interação de carta de nascimento, progressões, direções e trânsitos. Aqui podemos mais uma vez apontar o engano, evidente em muito da prática astrológica atual, de se considerar carta de nascimento e progressões separadas umas das outras. Um aspecto entre planetas progredidos significa pouco, a não ser que se relacione com a carta de nascimento, seus planetas radicais e as casas em que o aspecto opera. Aspectos cotidianos são ainda menos significativos, 'a não ser que sejam vistos propriamente como "trânsitos" — isto é, relacionados com a carta de nascimento. Por toda parte, o gênio da astrologia será encontrado em correlações, agrupamentos, no equilíbrio de luzes contra sombras, de pretos contra brancos, de agentes formativos contra agentes destrutivos — aceitando todos eles como funções da totalidade orgânica do todo, sem discriminar nenhum — mas, não esqueçamos, aceitando cada elemento do ser como válido apenas quando tal aspecto está em seu lugar certo no momento certo.

Talvez uma analogia musical possa ajudar a evidenciar o que queremos dizer. Falamos da carta de nascimento como o "acorde do ser individual", e, ao menos por implicação e junto com nossa análise de tempo previamente estudada, como a partitura da sinfonia na qual ser e vir-a-ser se inter-relacionam com o propósito de uma totalidade cada vez mais plena e mais manifesta: O que o astrólogo deveria descobrir é a "tonalidade" do acorde e da sinfonia. É desta tonalidade que falamos, pouco antes, como "o relacionamento orgânico de relações entre partes". Só aquele que é capaz de descobrir esta totalidade individual de uma personalidade e de um destino pode ser chamado de verdadeiro astrólogo. Pois só assim ele pode provar que tem o poder de "percepção holística", que lhe revela a totalidade de qualquer todo.

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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.