sábado, 20 de agosto de 2016

Focalização Através das Regências da Carta, por Dane Rudhyar


Antes de concluirmos este capítulo, há mais um ponto que precisa ser mencionado, pois ocupa um, lugar importante na prática da astrologia medieval e moderna: a questão das regências planetárias.

O princípio de regência planetária baseia-se na ideia de que os modos básicos de atividade biológica e psicológica (planetas) têm diversos tipos de "afinidade" com os tipos básicos de substância vital (signos do zodíaco). Afinidades desse tipo foram determinadas na astrologia tradicional por razões nem sempre claras ou filosoficamente evidentes. Diz-se, então, que um planeta "rege" um, ou normalmente dois, signos zodiacais, que são considerados os "domicílios" do planeta. Diz-se que o planeta está "exaltado" num outro signo. A essas avaliações positivas são acrescentadas avaliações negativas. No signo oposto ao seu signo de regência, o planeta está em "exílio'; no signo oposto ao seu signo de exaltação, diz-se que o planeta está em "queda". As avaliações positivas são chamadas dignidades; avaliações negativas, debilidades. As acima mencionadas são as mais importantes dentre as dignidades e debilidades, são dignidades ou debilidades "essenciais". A estas, no entanto, se acrescenta uma série de debilidades ou dignidades "acidentais", como as que decorrem de o planeta estar numa casa angular e bem aspectado ou não afligido, de ele ter movimento rápido, estar aumentando em luz etc.

O valor destas qualificações é óbvio. Permite ao astrólogo atribuir valores quantitativos aos planetas e assim determinar sua importância e peso relativos numa certa situação ou na composição de uma determinada personalidade. Assim, um Saturno "fraco" não será capaz de neutralizar um Júpiter "forte", e em todos os aspectos entre esses planetas a qualidade jupiteriana terá peso maior. Surgirá portanto um tipo de perspectiva tridimensional a partir do reconhecimento deste fator quantitativo. Alguns planetas se destacarão como estrelas de primeira grandeza, outros passarão para segundo plano, como estrelas de grandeza menor. Assim também se torna possível um certo tipo de "determinação focal", como no caso de um planeta muito dignificado entre irmãos ou irmãs fracos.

A dificuldade surge na justificação filosófica ou "holística" das avaliações tradicionais. Por causa dessa dificuldade é que se inventam novos sistemas de "regência" com tanta freqüência, geralmente numa tentativa de remediar duas das evidentes fraquezas do sistema: o fato de Sol e Lua regerem apenas um signo cada um, enquanto os outros planetas, até Saturno inclusive, regerem dois signos cada um; e o outro fato: os planetas recém-descobertos (Urano, Netuno e Plutão) não regerem nehum signo definido, ou, se a regência de um signo lhes é atribuída (como Aquário a Urano e Peixes a Netuno), então dois dos antigos planetas ficam com a regência de apenas um signo. Mas a confusão parece pior do que é na realidade, e poderemos ser capazes de esclarecer muito da dificuldade aparente.

Primeiramente colocaremos o esquema tradicional de regências — acrescentando, logo de início, que os signos positivos (contados alternadamente a partir de Aries) são chamados de casas diurnas dos planetas, e os signos negativos de casas noturnas.


Isto demonstra de imediato que Sol e Lua são considerados uma unidade, em termos de regência. Eles sempre estiveram numa categoria especial, como as "luzes" — uma valoração que, como já dissemos várias vezes, é uma expressão da antiga astrologia geocêntrica interpretando fenômenos celestes do modo como são vistos, e não em termos de um conhecimento científico intelectual, como o que hoje constitui a astronomia heliocêntrica.

Agora podemos repetir a mesma tabela, mas desta vez atribuindo aos três planetas recentemente descobertos a regência de signo que pareceu apropriada à maioria dos astrólogos contemporâneos:


É fácil ver que o que está acontecendo é que, seguindo o exemplo do par Sol—Lua, cada um dos planetas tradicionais está recebendo um "par" ao qual é delegada a regência de uma das duas "casas" que originalmente eram seu domínio. Disto se deduz um novo tipo de parceria planetária. Num capítulo precedente, estudamos o entrelaçamento tradicional de Saturno e Lua, Júpiter e Mercúrio, Marte e Vênus. Modificamos esse arranjo de modo que a Terra coerentemente fosse o centro ou eixo dos pares formados entre planetas "interiores" e "exteriores": Marte—Vênus, Júpiter—Mercúrio, Saturno—fotosfera solar; e os três "planetas do inconsciente" — Coração do Sol. Neste último esquema, deduzido a partir da estrutura do sistema solar conhecida pela astronomia moderna, a Lua — como satélite da Terra — torna-se o fator de ligação entre os planetas intraorbitais e extraorbitais.

E agora vemos um outro tipo de acoplamento surgindo a partir do quadro B. Porque Sol e Lua eram respectivamente a "luz do dia" e a "luz da noite", o Sol logicamente rege um signo positivo (diurno) e a Lua um signo negativo (noturno). Disso pode-se derivar uma explicação geral do emergente processo de polarização de todas as regências planetárias.

Reconsideremos o quadro A e imaginemos que a Lua não seja incluída e que o Sol tenha suas casas diurna e noturna (Leão e Câncer), como todos os outros planetas. Teremos então a série de planetas em sua ordem real, começando com o Sol e terminando com Saturno (não contando, é claro, nossa Terra). Se, por outro lado, correlacionarmos essa série com a série de signos zodiacais começando por Leão, teremos um arranjo muito bem organizado, no qual os planetas recentemente descobertos se encaixam bem — exceto que Plutão regeria Aries e não Escorpião:


Acreditamos que um arranjo como esse é do maior significado, mas apenas em termos do Homem—Indivíduo, ou de consciência. Os primeiros seis termos de ambas as séries referem-se ao consciente. Começando por Leão no caminho para a individualização com grande espontaneidade solar, o Homem chega em Capricórnio à individualização plena e concreta com um "eu sou" — num sentido pessoal ou planetário. Então ele começa a assimilar o além, os conteúdos do inconsciente coletivo — e este é o caminho para a individuação. Através de Urano, elementos universais fluem para dentro de cada ego; através de Netuno, as paredes do ego se tornam translúcidas para o além (ou, muito desafortunadamente, dissolvem-se por completo); através de Plutão, dá-se um novo início: a Ordem universal nasce no núcleo do particular transfigurado. A Lua, no fim dessa série incompleta, obviamente representa aquele princípio de relacionamento universal que marca o fim do caminho de individuação, tal como Saturno representou o princípio de relacionamento numa forma estabelecida que marca o fim do caminho para a individualização. Obviamente, a Lua é, na verdade, apenas o aspecto negativo desse princípio de relacionamento universal. Ela simboliza apenas a maternidade fisiológica e a integração de agentes vitais elementais; enquanto o que quer que seja venha a tomar seu lugar no final da série que começa com Aquário deveria representar a Maternidade espiritual e a integração de forças Vitais universais e Ideias no nível psicomental ou espiritual — portanto talvez a Galáxia (Via Láctea).

Olhando para o quadro B de um outro ângulo (e agora invertendo os lugares de Marte e Plutão), também podemos dizer que Saturno está para Urano, Netuno para Júpiter, Marte para Plutão, tal como a Lua está para o Sol. Colocada deste modo, a situação também é bastante clara e significativa. Urano é a respiração do "eu sou" criativo, do qual o ego meramente consciente é apenas um tipo de reflexo noturno, tal como a Lua reflete de um modo pálido o fogo integrador do Sol. De maneira semelhante, Plutão representa inícios cósmicos de um modo tal que Marte e seus impulsos, limitados por condicionamento fisiológico, refletem apenas fracamente e de um modo pessoal. Quanto ao par Júpiter—Netuno, pode-se ver que a função de dissolução da forma, simbolizada por Netuno, precisa ser considerada como o polo negativo (ou noturno) da função jupiteriana de expansão dos conteúdos vitais da forma.

Seja como for, a interpretação acima — ainda que provavelmente não aceitável para todos — fornece ao menos um quadro coerente que vale a pena estudar em todas as suas implicações. Outros estudantes de astrologia poderão preferir a posição de Marc Jones, recusando-se a atribuir qualquer regência a Urano, Netuno ou a quaisquer planetas transaturninos que sejam descobertos, porque a própria ideia de regência não é coerente com os significados de tais planetas. Regência é o símbolo de relacionamento orgânico entre a atividade e a substância organizada envolvida em tal atividade, e ali onde os planetas se referem ao transorgânico (aquilo que está além dos limites de qualquer todo orgânico), não pode haver questão de regência. No entanto a resposta para isto é que há um organismo suprafisiológico em formação em indivíduos que atingiram um certo ponto de seu desenvolvimento e que os planetas transaturninos são transorgânicos apenas à medida que se refiram ao organismo fisiológico, mas são os próprios agentes formativos que estão construindo, em todos os homens sintonizados com sua natureza criativa-positiva, um organismo psicomental.

Enquanto esses tipos de "regência de carta" podem de fato revelar muito significado, preferiríamos ressaltar o tipo de "determinação focal" discutida no capítulo "A forma e o padrão dos aspectos planetários" — isto é, um tipo de determinação que escolhe alguns traços-grupo da carta como um todo, e considera esse traço como o ponto focal de interpretação. Por exemplo: na carta de Mussolini, diríamos que o fato de todos os planetas estarem contidos no trigono entre Urano e Netuno e de todos eles, exceto Urano, estarem localizados no quadrante sul-oeste, constituem a "determinação focal" significativa. Estes fatos centralizam os múltiplos significados dos muitos elementos astrológicos em torno de um significado primordial, e disso surge um tipo de perspectiva de interpretação que nos parece mais válida ou mais reveladora — ao menos na visão de nossa abordagem da astrologia — que aquela que resultaria da atribuição de valores quantitativos de força ou debilidade a cada planeta separadamente.

Conclusão

Com este rápido estudo de alguns dos princípios mais importantes sobre os quais se pode constituir uma técnica de interpretação astrológica, precisamos concluir esta parte dedicada a uma reformulação e reinterpretação dos elementos fundamentais do simbolismo astrológico. Astrologia, definida como uma álgebra da vida, é absolutamente versátil em sua manifestação e múltipla na grande diversidade de suas abordagens a fases específicas de interpretação. Razão pela qual sentimos muito fortemente o quanto a reformulação apresentada nos capítulos desta segunda seção foi incompleta. Mesmo assim, estamos certos de ter estabelecido fundamentos numa base coerente tanto de entendimento simbólico-lógico quanto psicológico, e poderemos ter, num futuro não muito distante, condições de fazer um estudo mais extensivo e relacionado com mais exemplos práticos de alguns dos fatores astrológicos cujo significado delineamos aqui.

Mas aqui, mais uma vez, podemos acrescentar — como repetição final — que em sua essência a astrologia não está presa a nenhuma aplicação específica ou campo específico de aplicação; que suas verdades não são empíricas em seu caráter e nem dependem, para seu sucesso, de um ou outro campo de vida. É concebível que os físicos descubram que sua abordagem do problema da determinação da natureza do átomo ou de galáxias distantes esteja totalmente errada e que suas experiências tenham sido planejadas de modo a desconsiderar o principal fator de comportamento intra-atômico ou cósmico. Mas uma descoberta como esta não invalidaria de nenhum modo a álgebra dos conjuntos ou quaisquer dos símbolos matemáticos usados para estabelecer as interpretações atuais, e poderiam ser utilizados para constituir novas teorias. O número dez continua um símbolo válido, mesmo se dez maçãs por ele agrupadas numa relação numérica acabarem sendo pêssegos. Considere do mesmo modo uma quadratura entre Júpiter e Saturno; hoje podemos dizer que ela se refere a "provas e tribulações espirituais", mas essa afirmação só tem validade em termos daquilo que chamamos provas e tribulações no nosso entendimento da psicologia humana. Modifique esta psicologia e o significado da quadratura mudará.

E, finalmente, a astrologia não oferece interpretações tão claras e objetivas quanto a física moderna. O ideal da ciência moderna é anonimato e objetividade — isto é, a total supressão do elemento individual. Isto, no entanto, não significa que a ciência moderna não nos dê "interpretação", pois as assim ,chamadas "leis científicas" são, afinal, interpretações generalizadas de processos e acúmulos de fatos. Mas, essas interpretações generalizadas — obtidas através de simbolização matemática — não são consideradas realmente válidas enquanto existir alguma exceção conhecida, e até que seja possível uma segurança relativamente absoluta de que os processos futuros sempre funcionarão, nos termos das leis, para todos os casos a que se apliquem.

Como resultado, a ciência moderna fica obrigada a ignorar a individualidade de qualquer entidade viva. Ela reduz qualquer entidade a seu tipo genérico e ignora ou nega o fator individual e seu caráter único. E o que é que é único em qualquer totalidade viva? A principio, no processo evolutivo que vai da ameba ao homem, é apenas um detalhe infinitesimal de disposição orgânica. Então, à medida que a evolução prossegue em seu curso em direção à diferenciação maior, o pequeno detalhe individual da superestrutura é ampliado até que um sistema orgânico se torne adequadamente desenvolvido para a diferenciação individual. A superestrutura individualizadora não só se funde com a estrutura genérica, mas a influencia cada vez mais.

Então encontramos no homem, dentro de sua estrutura orgânica total, uma subestrutura genérica (o sistema grande simpático) e uma superestrutura individual (o sistema cérebro-espinhal), e se vê que esta domina cada vez mais a anterior. Dizemos então que "mente domina matéria", que significa, em grande parte, que o individual rege o genérico ou coletivo, especialmente quando nos referimos à "mente" como "Mente Universal", que simplesmente é a totalidade operacional do "Indivíduo Maior" emergindo lentamente a partir do processo evolutivo planetário como uma "Pessoa Maior", — o Deus do fim do ciclo planetário.

A astrologia, como a entendemos, complementa a ciência moderna à medida que lida essencialmente com a superestrutura individual mais que com a subestrutura genérico-coletiva. Através do estudo do "primeiro momento" do ciclo de vida, ela atinge o ser individual e a forma individual, e por fazer isso ela é também capaz de desvendar o mistério do significado, que é um fator puramente individual. O que ela é capaz de apreender do processo vital de vir-a-ser é, principalmente, em termos de períodos estruturais de destino, mais que em termos de eventos concretos estabelecidos. Mais do que isso, a astrologia pode conhecer realmente apenas o modo como esse processo do vir-a-ser se apresenta para o ser individual. Ela não conhece eventos em si, tanto quanto crises na curva de um destino individual. Em outras palavras, através desse conhecimento da forma, ela revela o indivíduo ao individuando e leva o individuando a uma percepção do significado individual da individuação como processo.

É isto o que significa "interpretação da vida". E a percepção da forma individual e do significado individual por uma personalidade em evolução ou individuação. Esta personalidade é um composto, um agregado de fatores e elementos. À medida que estes se harmonizam por essa "interpretação da vida" revelando sua forma e significado individuais em potencial, emerge a Pessoa Viva completada e integrada. Permitam-nos repetir, mais uma vez, que é o surgimento dessa Pessoa Viva que constitui a meta da astrologia — ou ao menos daquela astrologia que chamamos de Astrologia Harmônica.

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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.