domingo, 19 de fevereiro de 2017

Plutão na 12ª Casa, por Howard Sasportas

Com Plutão na 12ª Casa há uma necessidade premente de trazer o que é fraco, oculto ou não revelado na psique para uma análise mais clara. Como com Plutão na 8ª Casa, algumas pessoas podem ter tanto medo de serem sobrepujadas pela natureza ou pela intensidade de seus mais profundos desejos e complexos que exercem um rígido controle sobre eles. No entanto, muitas vezes não apenas impulsos "neuróticos" são suprimidos mas também desejos saudáveis e positivos. O psicólogo Abraham Maslow mostrou que muitas pessoas não evitam aquilo que julgam negativo dentro delas, mas também bloqueiam o que é "divino" e louvável. Ele chama a isso de "complexo de Jonas": o medo de nossa própria grandeza. Por experiência própria, certos indivíduos com Plutão na 12ã Casa defendem-se não só contra os assim chamados desejos "baixos" ou carnais, mas também dos impulsos positivos tais como desejos de desenvolver "melhores" possibilidades mais completamente ou de realizar melhor suas potencialidades inatas. Para parafrasear Maslow, eles têm medo de tornar-se aquilo que vislumbram em seus momentos de maior perfeição. Por quê?

Laconicamente, a resposta é ansiedade da morte. Qualquer mudança torna-os muito ansiosos, pois ela significa a dissolução daquilo que já sabem que são. O crescimento requer inevitavelmente a quebra de padrões existentes ou o abandono de tudo o que nos é familiar, e em algum nível profundo eles comparam esse tipo de mudanças à própria morte. Uma parte deles anseia desesperadamente por crescimento e desenvolvimento, enquanto a outra parte fica de plantão para proteger o que eles inconscientemente acreditam que esteja tentando matá-los. Até que se situem e façam as pazes com o profundo pavor existencial de não-ser, eles ficarão dirigindo seu medo para qualquer coisa que pareça tentar mudá-los. Até que saibam que têm medo de morrer, não podem viver de forma plena.

Roberto Assagioli, o fundador da Psicossíntese, uma abordagem transpessoal do desenvolvimento humano, nasceu com Plutão em Gêmeos na 12ª Casa. Acreditando que Freud concentrou-se demais apenas nos "alicerces" do ser humano, Assagioli planejou seu próprio sistema psicológico, que considera todos os andares da construção. Um princípio básico da Psicossíntese reflete o significado de um Plutão de 12ª Casa: que todos os elementos da psique — tanto o claro como o escuro — podem ser conscientemente reconhecidos, experimentados, aceitos e integrados ao conhecimento. Através da análise de sonhos, de introspecção, de terapias e de vários exercícios e técnicas, quem tem Plutão na 12ª Casa pode soltar a energia fechada em complexos inconscientes e redirecioná-la para o fortalecimento e a construção da personalidade como um todo, incluindo suas faculdades "mais elevadas" tanto intuitivas quanto emocionais. Contanto que possam derrubar e lidar com sua ansiedade em relação à morte, as pessoas com Plutão na 12ª Casa estão muito bem equipadas para procurar o que está fraco, bloqueado, escondido, ou aquilo que está faltando na psique. Na verdade, não existe local mais apropriado para exercitarem a natureza investigativa inata de Plutão do que a casa dos "inimigos secretos" e as "atividades por baixo do pano". E antes de ficar esperando que raivosas ou negligenciadas partes de suas próprias psiques saiam atrás delas, são muito aconselhadas a sair à caça delas primeiro.

Na 12ª Casa, a energia destrutiva associada a Plutão pode ser usada para remover o que é obsoleto em detrimento de um novo crescimento. Ou sua energia destrutiva pode ser deslocada de uma forma inadequada e solta traiçoeiramente, voltando-a perigosamente contra si mesmos. A dificuldade dos que têm Plutão na 12ª Casa, no entanto, é que eles não estão simplesmente lidando com seu inconsciente pessoal, mas com o inconsciente coletivo.

Um modelo médico contemporâneo teoriza que bactérias e viroses nocivas estão sempre presentes no sistema físico, mas que a pessoa saudável ou forte tem capacidade para se defender delas. Da mesma maneira, a tensão existe em toda a sociedade, mas algumas pessoas têm mais habilidade que outras para prevenir-se, evitando que entrem em seus sistemas. Quem tem Plutão na 12ª Casa é mais sensível ao que é sombrio, destrutivo ou irresistível na atmosfera do que outra, digamos, que tenha uma Vênus bem-aspectada na 12ª Casa. Enquanto uma Vênus ali pode achar que "há romance no ar", o que um Plutão sente neste posicionamento? Alguns deles podem ser inconscientemente "tomados" por aquilo que outras pessoas reprimiram — impulsos sexuais, ódio, hostilidade etc. Não é nada incomum uma criança com este posicionamento, por exemplo, fazer o papel de bode expiatório da família ou de "o paciente identificado". Quando há muita tensão no lar, ela é que fica doente ou põe fogo na escola. Começar uma conflagração serve a dois propósitos: dá uma expressão concreta às emoções que ela sente ao seu redor e serve também para afastar os pais de seus problemas interpessoais. Quem tem Plutão na 12ª Casa pode dar mais sentido às suas ações e a seu comportamento quando vê aquilo que faz e sente em relação a um esquema mais amplo.

A 12ª Casa representa uma integridade maior com o todo do qual saímos e para o qual nascemos; Plutão ali precisa contentar-se com os mais desagradáveis aspectos de sua herança: a sombra coletiva, aquela que a sociedade como um todo acha feia e inaceitável. Eles são chamados para tomar conhecimento, para integrar e, se possível, transmutar a raiva, o ódio e o instinto de destruição acumulado durante séculos. Neste sentido, estão encarregados do lixo da sociedade. Ou põem para fora a sombra coletiva, soltando com isso a energia acumulada, ou guardam tudo dentro de si e encontram alguma maneira de transformá-la e de redirecioná-la de uma forma criativa. Dois exemplos devem esclarecer bem o que isso significa. Albert Speer, o nazista que serviu no Ministério da Guerra, cuidando da produção de armas para Hitler, nasceu com Plutão na 12ª Casa, regente de Escorpião na 5ª, a casa da auto-expressão. Era ele quem fornecia as armas, no sentido quase literal, armas através das quais o ódio e a agressão coletivas podiam se expandir. Compare-se este papel com o do Papa João Paulo II, com Plutão em Câncer na 12ª Casa também regente da 5ª Casa, cuja missão é desfazer a hostilidade do mundo, invocando uma paz maior, boa vontade e amor cristão.

Algumas pessoas com Plutão na 12ª Casa podem trabalhar para transformar instituições arcaicas, ou fazem campanhas para modificar leis que não funcionam mais como deveriam. Muitas vezes, de modo misterioso ou obscuro, elas facilitam mudanças no nível coletivo. Num questionário organizado por Marilyn Ferguson, autora de The Aquarian Conspiracy ["A conspiração aquariana"] havia a pergunta de quem tinha influenciado mais a sua vida. Encabeçando a lista, estava Pierre Teilhard de Chardin, com cinco planetas, inclusive Plutão, na sua 12ª Casa (Assagioli também estava mencionado em 7º lugar).

Periódicos afastamentos podem ser necessários, a fim de ordenar complexos emocionais causados pelas interações sociais. Eles podem ser significativamene afetados por brigas com instituições, tais como o confinamento em hospitais ou prisões. Assagioli (Plutão em Gêmeos na 12ª Casa) foi posto na prisão nos anos 30 porque sua crença humanitária e filosófica ameaçava o governo fascista da Itália na época. Ao ser solto, contou aos amigos que esse havia sido um dos períodos mais benéficos e criativos de sua vida. O escritor americano O. Henry passou três anos na cadeia escrevendo alguns contos dos mais apreciados na América; ele tinha Plutão na 12ª Casa.

Como sugerem esses exemplos, Plutão aqui propicia a capacidade de transformar uma crise em algo produtivo e prático, ou fazer o melhor da mais limitadora ou restritiva das circunstâncias. Assagioli escreveu que muitas vezes é durante as crises que a pessoa descobre a vontade (Plutão), despertando para o conhecimento de que ela é um "sujeito vivo, um agente, dotado do poder de escolha".8 Mesmo que quem tenha Plutão na 12ª Casa não possa mudar uma situação infeliz, ele ainda pode escolher que atitude tomar diante dela. Ele tem a capacidade de aprender com os erros e os revezes e de entender a necessidade de terminar um ciclo ou fase da existência para que outro possa começar. A este respeito, um Plutão de 12ª Casa lembra um dos ditos de Nietzsche: "O que não me mata, torna-me mais forte." Mesmo o sofrimento e a dor podem fazer sentido, se tornam a pessoa mais íntegra.

Escorpião na cúspide ou contido na 12ª é semelhante a Plutão ali.