quinta-feira, 7 de julho de 2016

Elementos Básicos em "Astrologia Harmônica", por Dane Rudhyar




Após termos discutido o fundamento "lógico" do simbolismo astrológico e isolado as três grandes concepções da interpretação astrológica, os três tipos básicos de astrologia, devemos agora estudar este simbolismo astrológico em relação à "astrologia do indivíduo". Mais particularmente, devemos mostrar como os elementos da astrologia universalmente aceitos — tais como casas, signos zodiacais e planetas — devem ser interpretados num tipo de astrologia que salienta valores psicológicos. Muitas vezes chamamos este tipo de astrologia de Astrologia Harmônica, porque fornece uma base para a harmonização e integração da psique humana. Ela considera a carta de nascimento o acorde vital do ser individual e do destino que simboliza, também, poderíamos dizer, como o verdadeiro nome desse ser individual. Ela percebe que os seres humanos, em sua maioria, estão vivendo apenas em partes de si mesmos, vivendo vidas fragmentárias, incompletas e tristemente vazias. A totalidade do que essencialmente são, como indivíduos completos, está ali — potencial, arquetípica, mas expressa ou manifestada apenas em pedaços. Essa totalidade é o verdadeiro Acorde de seu self individual, mas apenas algumas poucas notas do acorde soam às vezes; algumas jamais chegam a vibrar, e não há intensidade ou plenitude em seu desempenho de vida total.

Auxiliar o homem a realizar a totalidade de seu ser e representar o papel total de seu destino — este é o propósito da astrologia harmônica. A carta natal é a chave para a totalidade de um indivíduo e de sua manifestação exterior — seu destino. É a partitura da sinfonia que um homem vivo é. O padrão arquetípico, a fórmula simbólica, a assinatura do ser total. É o projeto do edifício, que é seu self individual perfeito — e contém também o cronograma, de acordo com o qual as várias fases da operação de construção se processarão numa sequência ordenada — o que chamamos destino do homem.

A astrologia não é o simples estudo de um sistema de simbolismo interessante, nem é essencialmente uma predição de futuro para satisfazer a curiosidade pessoal. É um estudo prático com um propósito muito bem definido — mesmo que normalmente não entendido. Um propósito vital. Ela é, ao menos potencialmente, o fundamento de uma nova técnica de viver, de um novo princípio de conduta (ou, poderíamos dizer, uma nova yoga) — já mais ou menos implícita na técnica de psicologia analítica (a técnica de Jung) e mencionada num capítulo anterior, em que estudamos o dualismo de ideais caracterizado pelos termos ético e estético.

Quando então tomamos uma atitude como essa em relação à astrologia, precisamos nos restringir em grande parte ao domínio dos valores psicológicos. É verdade que não podemos de fato separar a psique do corpo. A .fisiologia e a psicologia estão intimamente correlacionadas. Os antigos conheciam este fato, mas elaboraram a correlação em termos de corpos sutis (na maioria, vital e astral). A ciência moderna está tendendo a aceitar a ideia de "campo magnético" e "emanações elétricas", que — quando totalmente elaborada — provavelmente ocupará exatamente a mesma função — uma função de correlação — como aquilo que deu valor aos conceitos arcaicos ou "ocultos".

Agora, no entanto, e considerando a dificuldade prática na aplicação da astrologia à fisiologia e à medicina, parece mais prudente ressaltar a interpretação astrológica no nível psicológico, indicando meramente a possibilidade de correlações físico-orgânicas quando estas parecerem particularmente óbvias e de influência importante no desenvolvimento psicológico.

Portanto, consideramos o ser humano por meio de sua carta de nascimento em grande parte como uma entidade psicológica. Ele é um ser específico, único. Não há outro ser exatamente igual a ele. Mas também percebemos que este ser único é um composto de elementos encontrados não apenas nele, mas numa multidão de .outros seres — especialmente aqueles que constituem coletivamente seu meio ambiente de espaço-tempo — isto é, suas cercanias e seus ancestrais. Este ser único é um acorde particular, ou combinação, de elementos coletivos. Portanto o que é individual é o padrão estrutural no qual os elementos coletivos estão mais ou menos bem organizados. É a forma do self. A substância, por outro lado, é de natureza coletiva. O corpo humano é feito de moléculas que são partes do imenso depósito dessa Terra. Do mesmo modo, a psique humana pode ser vista como composta de elementos psíquicos — poderíamos chamá-los psícons? — partes do vasto depósito formado pelo inconsciente coletivo da humanidade como um todo ou de grupos definidos dentro da humanidade (raças, tribos, nações, famílias, igrejas etc).

Vimos no último capítulo que as casas da carta natal, e todos os elementos originários da rotação axial da Terra se referem ao fator individual no homem — à estrutura de seu self individual. Por outro lado os signos do zodíaco e todos os elementos originados da revolução orbital da Terra se referem ao fator coletivo, à substância de seu ser. Devemos acrescentar agora que os planetas se referem às energias que são geradas pela relação constantemente mutante entre os fatores coletivos e individuais.

O zodíaco é o domínio do Sol e de seus planetas. É o símbolo geral de relacionamentos vitais, que podem ser expressados como gravitação. Gravitação é o símbolo de relacionamento, de atrações e repulsões entre membros de um grupo. É um fator que simbolicamente pertence à categoria "equatorial". Pois, como já vimos, os termos equatorial, orbital, solar referem-se ao mesmo fator básico: o coletivo. Assim o zodíaco é verdadeiramente a base e uma expressão dos vários movimentos orbitais dos planetas. E um modo conveniente de padronizar e registrar os inter-relacionamentos complexos entre planetas e Sol e planetas e planetas.

Assim, em termos de suas posições zodiacais, planetas são pontos focais de energias coletivas. Por outro lado, em termos de suas posições nas casas (isto é, com referência ao horizonte e ao meridiano), representam centros de atividades na estrutura individual de todo o ser (e seu destino). Assim, como podem ser interpretados com relação a dois grupos básicos de referência (signos e casas), eles representam os centros de forças e de atividade cujo caráter, intensidade e modo de operação são determinados pelo equilíbrio constantemente mutante entre individual e coletivo, isto é, a personalidade.

Por exemplo, Júpiter em Aries refere-se a um certo tipo de energização e ativação do tipo de substancia orgânica e função orgânica representadas pelo signo zodiacal Aries. Júpiter na sétima casa refere-se ao fato de que tudo aquilo que na consciência e no destino do indivíduo é simbolizado pela sétima casa será afetado por um tipo de atividade jupiteriana. Como a sétima casa se refere a relacionamentos e sensações, estas operarão de acordo com um ritmo jupiteriano expansivo, e o nativo terá associados e parceiros que irão expandir suas ideias e sua esfera de ação.

Aquilo que hoje chamamos personalidade é uma síntese de padrões de comportamento. É a soma total de todos os movimentos externos e emoções do ser humano: o ritmo total de suas atividades-vida — do modo como ele caminha e torce os lábios ao seu comportamento no campo de batalha ou num palco de concerto. E um complexo de atividades. Sem atividade não poderia haver "personalidade". E comportamento da personalidade obviamente é uma mistura de influências herdadas e ambientais operando dentro de uma estrutura abstrata do estado de ser self — o fator individual. De modo semelhante, os planetas são caracterizados, quanto à sua natureza, por suas posições zodiacais, e operam de modos específicos, de acordo com suas posições na estrutura das casas. A soma total dos planetas incluindo o Sol e a Lua — o padrão planetário, como o chamamos — representa portanto a personalidade como um todo.

O leitor provavelmente irá inferir do que foi dito acima que portanto o padrão planetário representa nosso terceiro termo básico: o criativo. Ele de fato o é, mas apenas potencialmente. Ele representa atividade, antes de mais nada. Mas atividade não precisa ter o significado de criatividade. Todo mundo é ativo, mas quantos são criativos? Criatividade é a atividade significativa de una personalidade relativamente individuada. O elemento significado existe para ser salientado, e, como veremos agora, este elemento será revelado pelos símbolos dos graus, que são energizados e trazidos à tona pela atividade dos planetas ali localizados. Entretanto o planeta não precisa, e muitas vezes não o faz, revelar o significado simbólico do grau, no caso de o tipo de atividade representado pelo planeta não ser criativo. A personalidade humana nem sequer alcançou o ponto de individuação relativa, e o indivíduo ainda não tem o poder de dar significado criativo à sua vida e ao seu destino.

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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.