sábado, 9 de julho de 2016

O Desdobramento do Self Individual, por Dane Rudhyar



Do que está escrito acima ficará evidente para o estudante de astrologia que a roda de casas inerentemente deve ser interpretada em termos do vir-a-ser, mais do que do ser estático. E um padrão de tempo, um padrão de desdobramento, essencialmente registrando um processo. E este é o grande processo psicológico de individuação: o "grande trabalho" alquímico — a "construção do templo" bíblico. HOMEM — o Arquétipo universal ou "manu" — está crucificado na entidade fisiológica (o animal humano aperfeiçoado) e depois de três dias surge como o Cristo — o "indivíduo" humano aperfeiçoado.

O simbolismo destes "três dias" é suscetível de um número infinito de aplicações — tal como o é o simbolismo dos "sete dias" da criação. Estes se referem à construção da entidade fisiológica, e, num sentido mais amplo, à do Ser planetário (por isso a divisão em sete do Grande Ciclo Polar). Aqueles se referem à construção do "indivíduo" humano como um ser psicomental. Em termos astrológicos, podemos usar a roda de casas para esquematizar essa construção do indivíduo humano. Poderemos ver que cada "dia" na verdade é um ciclo de 28 anos. Assim, o processo inteiro teoricamente durará 84 anos — que é o ciclo de revolução de Urano ao redor do Sol, um fato significativo que assumirá um sentido ainda maior ao estudarmos agora o símbolo de Urano.

Os dois processos (fisiológico e psicomental, ou genérico e individual) estão numa relação próxima, e isto fica curiosamente evidente quando se estuda o número sete "cabalisticamente". Se somarmos todos os dígitos que existem até este número (processo de adição cabalística), obtemos o número 28, pois 1 + 2 + 3 + 4 + 5+ 6 + 7 = 28. Mas, se aplicarmos esse processo a todos os números até 7, teremos como soma total o número 84. Isto quer dizer que obteremos a seguinte configuração numérica:

 O significado da "adição cabalística" talvez possa ser intuído a partir da ilustração geométrica do processo, que tem um significado especial nesse caso.

Com essa figura composta de 28 círculos iguais e tangentes, fica claro que o número 28 revela, numa análise como esta, que se refere a três domínios de ser.

O domínio externo é marcado pelos 18 círculos externos; o do meio pelos nove círculos intermediários; e o domínio interno por um círculo central.


 
 O único número precedente que resulta numa figura simétrica centrada em um círculo é o 4 — cabalisticamente igual a 10. 0 número 10 refere-se ao cósmico, mas o 28 é o número do homem trino: homem como espírito, alma e corpo. Espírito é 1, Alma é 4, e corpo é 7. Portanto o número do indivíduo aperfeiçoado é 28. Mas o processo de individuação plenamente elaborado requer que cada fator (ou número) componente também esteja plenamente desenvolvido, e por isso sua duração é de 84 anos. Desenvolvendo apenas os números básicos (1, 4 e 7), temos um total de 39, isto é 1 + 10 + 28. Aos 39 anos de idade, o homem alcança uma condição de significado especial em seu desenvolvimento espiritual — sendo o quadragésimo ano também o ano-semente para a década de 40 a 50, que é a quinta década. O HOMEM também é simbolizado como uma estrela de cinco pontas. A quinta seção da estrela é a cabeça — o órgão do criativo. Durante a quinta década, o homem encontra seu trabalho de destino. Na verdade, neste sentido, "a vida começa aos quarenta".

 

Após esta breve excursão ao domínio do simbolismo numérico ou cabalístico, retomemos agora à análise astrológica do ciclo de 28 anos. Este ciclo, então, é um dos "dias" de que Jesus falou quando disse: "Destrua este templo e eu o reconstruirei em três dias". Cada dia representa não um ciclo literal de rotação da Terra ao redor de seu eixo, mas um ciclo de rotação do self individual do ser humano ao redor de seu eixo espiritual, seu "eu sou" real, à luz da Estrela Polar espiritual — a mônada ou "Pai nos Céus" cuidando de cada ser humano.

Este ciclo de 28 anos pode ser traçado na carta de nascimento. Em outras palavras, a carta de nascimento não deve ser usada apenas como um padrão de espaço revelando o projeto do self completado, mas também como sequência de tempo das operações da construção, podendo esta ser descoberta partindo-se do Ascendente, o início da construção, e seguindo ao longo da circunferência da carta em sentido anti-horário. Quando se chega ao Ascendente novamente, está completado o primeiro ciclo de 28 anos, e inicia-se o segundo, que terminará aos 56 anos; segue-se o terceiro ciclo, com término aos 84 anos, que marcam a completação teórica e simbólica do templo interior do homem. Este é o fim do processo de individuação.

No entanto, pode ser que o templo nunca seja completado, e em quase todos os casos, hoje em dia, ele não é completado Mas, mesmo assim, realizada ou não, a curva de desdobramento está lá como potencialidade. Junto com os projetos, o Grande Arquiteto (o Deus que mora na Estrela Polar, de acordo com os chineses) dá aos seres humanos o cronograma de atividades. A estrutura de espaço deve ser completada em um certo tempo, e as operações de construção devem proceder numa ordem definida; primeiro esta parte do projeto, depois aquela, depois a próxima etc. O alicerce, o primeiro andar e o segundo andar, incluindo a grande cúpula cobrindo tudo. Portanto, três períodos: do nascimento físico aos 28 anos de idade; então, daquilo que deveria ser o nascimento psicomental (28) aos 56; finalmente deste terceiro nascimento potencial ou nascimento espiritual até o fim (84).

Isto por sua vez corresponde à antiga tradição de que a natureza humana é tripla: corpo, alma, espirito. Além disso, os três grandes ciclos de 28 anos formam a verdadeira base da antiga ideia de primeiro nascimento, segundo nascimento e terceiro nascimento. Mas o brahmanismo popular acelerou a ocasião do segundo nascimento por questões práticas facilmente compreensíveis. Durante os primeiros 28 anos, o homem aperfeiçoa (sempre teoricamente) seu corpo fisiopsicológico, ou melhor seu self racial. Ele realiza. sua linhagem e o passado de sua família e raça. Então ele emerge como um self individual recém-nascido. Tendo discriminado, selecionado, rejeitado e escolhido o alicerce para sua própria individualidade, dentre aquilo que o passado da humanidade lhe ofereceu, ele constrói sobre esse alicerce do passado (pois todo templo precisa ter um alicerce) a estrutura de seu self individual.

Por fim, se essa estrutura chega a ser completada, aos 56 anos ele atinge o ponto em que o Espírito universal nasce dentro dele — o terceiro nascimento ou nascimento espiritual. Isto é simbolizado pela construção da cúpula do templo — uma réplica da abóbada celeste, por si um símbolo do self Universal, ou Deus. Quando isto também é concluído, o homem passa para outras esferas, conscientemente e sem perder a identidade pessoal, se ele construiu para si um "veiculo de imortalidade". O primeiro ciclo potencialmente cuida da completação do corpo de terra; o segundo ciclo, do corpo de som; o terceiro, do corpo de luz. Do útero físico da mãe nasce um organismo de carne e ossos. No segundo nascimento soa um Tom, o Ishwara ou Logos, a Voz do Deus interno. No terceiro nascimento, a Luz se derrama sobre o self consagrado — como Wagner o simboliza na consagração do Graal, no último ato de Parsifal.

Cada ciclo representa uma revolução completa de todo o "padrão do estado de ser self', isto é, do eixo da carta natal. Esta revolução simbólica se dá no tempo de tal modo que a cada sete anos um braço da cruz alcança a posição que o seguinte ocupou originalmente. Em outras palavras, aos sete anos o Ascendente chega à posição que o Imum Coeli ocupava no nascimento, e este à posição do Descendente natal etc. Aos catorze o Ascendente chega à posição natal do Descendente; aos 21, ao Meio-do-Céu. Aos 28, ele atinge novamente sua posição natal, e começa um segundo ciclo do mesmo modo.

Teoricamente é toda a cruz axial que gira em 28 anos. Por razões práticas, a. revolução do Ascendente geralmente é a mais valiosa para estudo. Pois o Ascendente simboliza a própria essência do self, a atitude e o caminho do homem dirigidos a si mesmo. Ele representa aquele ponto de vista particular da vida, aquela qualidade particular de vida que o homem deverá representar como uma identidade individual. É o padrão de valores de um homem como um self individual Portanto é o próprio centro de toda a consciência. Quando ele é visto em revolução ao longo do ciclo de 28 anos, obtém-se um gráfico dos mais valiosos do desdobramento sequencial da atitude central ou original do homem ante a vida.

É possível conseguir da mesma maneira muita informação de valor quanto às transformações sucessivas dos três outros pontos básicos de consciência. A mudança na atitude do homem com relação aos outros, ao mundo exterior em geral, será demonstrada pela revolução do Descendente. Sua atitude fundamental de pensar e sentir pode ser deduzida do movimento simbólico do eixo vertical da carta natal. Indicações muito valiosas serão encontradas em cada um desses casos, desde que não se espere obter precisão exata em termos de ocorrências de eventos. Em toda esta discussão, não estamos lidando com o mapeamento de ocorrências externas de vida, mas sim com mutações nas operações internas do self individual, isto é, com mudanças de pontos de vista psicológicos e de atitudes internas diante da vida como um todo, subjetivas e objetivas. Estas podem estar ligadas a eventos externos, mas, mesmo nesse caso, o que importa é a direção das mudanças subjetivas mais que alguma data exata em que elas pudessem ser "fixadas" O tipo de abordagem conveniente para uma análise desses ciclos de desdobramento é puramente psicológico.

Uma análise desse tipo também serve para verificar e interpretar matematicamente as descobertas gerais da psicologia com relação ao desenvolvimento progressivo da psique humana e de suas funções ou modos de atividade. Ela também certifica a antiga ideia "oculta" da divisão da vida humana em ciclos de sete anos, cada um dos quais marcando o desdobramento de um aspecto particular do caráter e dos meios de autoexpressão do indivíduo. Os primeiros sete anos veem o desdobramento da capacidade de autoconsciência, ou intuição — como é entendida por C. G. Jung. A criança pequena vê tudo em termos da personalidade. É difícil para ela diferenciar objetivo e subjetivo, inanimado e animado, porque vive de modo tão completo num mundo subjetivo. Ainda não sucumbiu à "heresia da separatividade", que cria uma fenda entre sujeito e objeto (ou outros sujeitos), entre mim e você. Assim o místico, que procura atingir a unidade completa com o Todo, é compelido a tornar-se de novo "como uma criancinha" — um estágio que está relacionado teoricamente com o período após o terceiro nascimento, entre 56 e 63 anos. Estes primeiros sete anos também correspondem à infância da humanidade, quando o ser humano via em cada objeto uma entidade psíquica ou "espírito", quando a parede entre o invisível (subjetivo) e o visível (objetivo) era praticamente não-existente. Num sentido geral, essa fase representa o tipo de abordagem da vida, chamado animismo.

Dos sete aos catorze anos de idade, amadurecem os sentimentos. Precisamos tornar a repetir que "sentimentos" aqui querem dizer julgamentos diretos, feitos sobre experiências com base no desdobramento anterior da consciência do self. O self abstrato, intuitivamente apreendido, por volta dos sete anos se torna uma alma concreta, ou ego. Este ego possibilita à criança ter experiências fortemente subjetivas. É a idade da autoexpressão criativa, como dirá todo educador progressista (o período de quinta casa, por volta dos nove e dez anos de idade). Frequentemente o resultado disto é doença, a crise da puberdade, no mínimo (período de sexta casa).

Aos catorze anos começam os verdadeiros contatos com o mundo exterior. O mundo objetivo torna-se definidamente separado do subjetivo. Isto significa desenvolvimento sexual: enfrentar o outro sexo, o inimigo e o companheiro. Isto significa medo, não saber como "se encaixar", não se sentir seguro num mundo que nos confronta perigosamente e ao qual é preciso de algum modo — mas como? — se harmonizar. Aos vinte e um, a mente, que vinha amadurecendo fora do jogo (ou drama) do relacionamento objetivo, se consolida por meio da vida pública, da experiência externa com base na responsabilidade social. O homem se emancipa.

Então a mente precisa experimentar-se e encontrar seus próprios ideais, seus próprios amigos. Este é o estágio da décima primeira casa. No ponto médio deste ciclo de sete anos, isto é, aos 24 anos e meio (ao menos teoricamente), o homem enfrenta uma grande crise de discriminação entre vários tipos de ideais e companheiros. Ele precisa "fazer a cabeça" quanto ao que virá a ser. Em geral isto determina a natureza e o caráter do "segundo nascimento" aos vinte e oito anos, no entanto não sem antes passar por um período de reajustamento, talvez a custo de profundo sofrimento, o estágio da décima segunda casa (por volta dos 26 e 27 anos).

O que este segundo nascimento virá a ser depende dos resultados de todo o ciclo anterior de 28 anos. O novo ciclo trará, como o anterior, uma diferenciação e desenvolvimento progressivo das quatro faculdades básicas do self e suas subdivisões, mas agora no nível de um estado de ser verdadeiramente individual — se é que este nível pode ser alcançado, o que naturalmente depende do que aconteceu durante o primeiro ciclo (o do estado de ser racial). O estado de ser racial, individual, universal — três ciclos, uma certeza e duas potencialidades. Se o nível de estado de ser individual não é alcançado, ao menos como semente, aos vinte e oito anos, então o ser humano meramente se conforma ao padrão racial de consciência, e prossegue vivendo como um entre milhares incontáveis. Ele é uma das milhares de sementes que caem no chão mas não criam raízes.

Isto não significa que um jovem de vinte e oito anos se tomará um indivíduo real, mas que então ele inicia o estágio do verdadeiro desenvolvimento individual. Antes, ele realizou o passado (de sua raça, e de seu próprio self, se a reencarnação é aceita) Agora ele está construindo o presente. Após os cinquenta e seis, ele amadurecerá e se transformará nas sementes do futuro (de sua raça e de seu próprio self) ... se ele puder. A idade de trinta e cinco anos vê o Ascendente na posição do Imum Coeli Num nível superior, isto corresponde (quando o segundo nascimento é bem-sucedido) ao que aconteceu aos sete anos. Dos trinta e sete anos aos quarenta aproximadamente, volta o estágio de autoexpressão (estágio da quinta casa) neste nível psicomental. Nascem novas ideias, começam novos caminhos, o verdadeiro trabalho individual do Destino se esclarece. Ele se manifestará objetivamente por volta dos quarenta e dois anos, quando o homem volta a enfrentar o mundo exterior e seu trabalho. Este é, de novo, um ponto de mutação: um novo tipo de equilíbrio é exigido, que muitas vezes é difícil de conseguir. O psicanalista recruta a maioria de seus pacientes dentre os que estão neste período da vida, porque então é imperiosa uma reorientação mental e psicológica definida. E a "mudança de vida", a segunda puberdade — uma fase extremamente interessante, ao menos para o psicólogo!

Vêm então os 49 anos, que frequentemente são uma fase de grande atividade social. O homem se torna um poder na sociedade humana, com base em qualquer que seja a realização pessoal que ele possa produzir. O terceiro ciclo começa aos 56 anos. É o tempo de o homem encarar o Espírito — e talvez ser transfigurado pelo Espírito — ou por seu Trabalho. O homem se orienta em direção à morte ou à imortalidade. Morte se ele foi malsucedido. Imortalidade, se bem-sucedido. Em quê? Na construção de seu próprio veículo de imortalidade. O que significa uma ou mais de três coisas!

1) sucesso na constituição de uma família e ter-se tornado um "ancestral" que sua posteridade perpetuará física e fisiologicamente. Por exemplo: o descendente direto de Confúcio, por descendência masculina, vive hoje, um jovem — após cerca de oitenta gerações, se não estivermos enganados. Isto é imortalidade fisiopsicológica;

2) sucesso na constituição de um trabalho, que será lembrado geração após geração. Este é o caso de todos os grandes gênios em religião, arte, literatura, ciência, política;

3) sucesso na constituição de um "corpo espiritual" em que o self possa continuar a funcionar conscientemente após a morte. Isto é imortalidade espiritual.

Aos 63 anos, vemos a culminação combinada dos ciclos de sete e nove anos. Ao menos num certo sentido, espírito e matéria, ou individual e coletivo (sete e nove) podem então se harmonizar plenamente. Aos sete, trinta e cinco e sessenta e três anos o ego consciente é revolvido em suas profundezas por uma nova vida. Aos setenta, começa a "terceira puberdade", com a entrada no novo relacionamento — o que muitas vezes significa morte. E assim a tradição fala da vida humana como durando em geral "três vintenas mais dez". Isto significa que é aos setenta que começa o último estágio, quando o homem se relaciona a uma nova vida. Geralmente o corpo não consegue suportar o desgaste deste novo tipo de relacionamento, e isto significa morte. Mas se o organismo (fisiológico e psicológico) pode repolarizar-se de acordo com um novo ritmo de contatos de vida, então o mundo interior real pode abrir-se, e o homem aprende a familiarizar-se com o ritmo do "outro mundo", com entidades e energias do "além", seja o que for que se entenda exatamente por este termo. Ele se transforma no velho Sábio em quem o coletivo atua de um modo novo, trazendo para a Terra visões de um mundo de significado puro e sereno. Se isto acontece, ocorre ainda mais uma mudança de magnetismo aos 77 anos (7 vezes 11) — porque 11 é o número do Sol e da circulação da energia solar através do sistema solar. Então, aos oitenta e quatro, ocorre um "quarto nascimento", que leva o homem todo a um novo domínio de significado e destino: o que significa desintegração da personalidade ou imortalidade (relativa).

Este o ciclo do destino individual — como é arquetipicamente. Cada personalidade tece seus padrões particulares nesta trama, muitas vezes omitindo exteriormente as grandes linhas estruturais. Mas quanto mais significativo o destino, mais fiel ao ciclo essencial como foi delineado aqui; da mesma maneira, quanto mais significativo o indivíduo, mais fiel é à forma arquetípica do Homem numa certa era planetária. Este é o grande paradoxo. A personalidade supremamente individuada revela do modo mais perfeito em seus traços de caráter, consciência e destino, a forma do Homem genérico. O mais individual se torna o mais universal, exatamente por ser o mais individual. Isto é porque ele se toma uma manifestação absoluta do criativo. Ele se toma um "Herói solar" — um exemplar ou avatar, cujos feitos e cuja personalidade são universalmente significativos.


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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.