quarta-feira, 6 de julho de 2016

Três Tipos de Astrologia, por Dane Rudhyar




O estudo anterior dos três tipos básicos de movimento planetário e de seus significados relativos em termos de simbolismo astrológico colocará ordem numa situação confusa, que perturba as mentes da maioria dos estudantes de astrologia. A razão para essa confusão é o fato de a astrologia estar num estágio de mudança, de ter sido feita uma tentativa generalizada de reformulá-la em termos de valores aceitáveis para a mente moderna, e de que não foi estabelecida, nessa tentativa, nenhuma linha de demarcação entre concepções normalmente conflitantes.

Cada fase da vida e cada tipo de conhecimento podem ser abordados a partir de, no mínimo, três direções básicas, enfatizando respectivamente a atitude individual, a coletiva e a criativa — sendo esta última por sua vez suscetível de uma interpretação dupla, no mínimo. Cada uma dessas atitudes, correspondendo a tipos humanos definidos (psicológica e fisiologicamente), sublinha sua própria concepção particular e esquece as outras ou nega sua validade. Especialmente quando entramos nos domínios de tais tipos não ortodoxos de conhecimento como a astrologia e, poderíamos dizer em geral, ocultismo ou filosofia esotérica, as concepções conflitantes parecem ainda mais irredutíveis porque há menos experiência comum e evidência comum para transformar ideias em fatos, hipóteses em leis. Por isso é particularmente necessário, se desejamos evitar o caos, recorrer a algum tipo de classificação de concepções que deixará espaço para todos e de algum modo relacionará os esforços individuais ou grupais em termos de um padrão todo-abrangente inerente à natureza das coisas estudadas.

A compreensão de quc a astrologia lida essencialmente com os movimentos dos corpos celestes nos ajudará a desenvolver uma classificação desse tipo. Se reconhecemos três tipos básicos de movimento planetário, então também podemos estender seus respectivos significados de modo que possamos ser capazes de caracterizar três abordagens básicas da astrologia relacionadas com esses movimentos. Um tipo de astrologia funcionará primeiramente em termos de movimento axial, e enfatizará o fator individual em uma pessoa (astrologia natal) ou em uma situação (astrologia horária). Um outro tipo enfatizará cada elemento relacionado com a revolução orbital, com o Sol e a eclíptica, e enfocará o fator coletivo no comportamento da pessoa e na influência determinante de seu comportamento. Um outro tipo — ainda muito pouco desenvolvido — será de caráter mais oculto e lidará com vastos fatores planetários, com a influência cósmica (espiritual e criativa) de estrelas e hierarquias divinas — ou ainda com símbolos ocultamente percebidos, revelando o significado criativo de cada fator astrológico.

Cada tipo deveria desenvolver normal e logicamente sua própria técnica de interpretação, seu procedimento na aplicação de princípios gerais a casos particulares, suas tábuas de dados, e naturalmente enfatizaria seus próprios fatores básicos, mesmo a ponto de praticamente não reconhecer significado nos fatos especiais que sejam estritamente produtos dos enfoques dos outros tipos. Não há nada absolutamente errado numa focalização como essa. Ainda assim, alguém deveria ter o necessário entendimento filosófico e uma visão ampla o suficiente para captar a situação total e formular, para benefício de todos, o significado correspondente dos diversos métodos, técnicas e ênfases ou exclusões teóricas.

Não podemos ter esperança de alcançar este resultado de modo completo e plenamente satisfatório, tal como não pudemos produzir um quadro adequado do crescimento e evolução da astrologia no passado em nossa pesquisa terrivelmente curta das bases históricas da astrologia (Cap. 1). Ao mesmo tempo, esperamos ser capazes de transmitir, agora, uma ideia esboçada mas abrangente das características mais fundamentais daqueles setores da astrologia de hoje que parecem coerentes, férteis e válidos.


1. Astrologia do indivíduo

Isto inclui especialmente a astrologia do ser humano individual (astrologia natal) e a astrologia da situação individual (astrologia horária).

De um certo modo, este é o tipo mais abrangente, ao menos em potencial. Como "astrologia horária", pode ser aplicada a qualquer tipo de situação, e como "astrologia natal", pode referir-se ao nascimento de qualquer entidade, atômica, humana ou cósmica. Mas o que queremos dizer mais especificamente com "astrologia do indivíduo" é um tipo de abordagem que enfatiza características individuais e sua interpretação individual. Ela enfatizará valores relacionados ao movimento axial da Terra.

A "astrologia horária" é o tipo de prática astrológica em que o astrólogo julga os elementos de uma situação particular, seu provável desenvolvimento no futuro próximo, e assim é capaz de aconselhar seu cliente quanto ao que seja a melhor solução de qualquer problema envolvendo a situação em questão. Significa levantar um mapa para o momento em que a situação é levada ao astrólogo. A carta é interpretada primeiramente à luz das "casas" (produtos da rotação axial da Terra), de suas regências planetárias e em grande parte de acordo com uma técnica individual. 0 fator da interpretação individual é de suprema importância. Para sua validade, a astrologia horária depende inteiramente da "equação pessoal" do astrólogo. É o tipo mais estritamente individualista de astrologia — mesmo obedecendo regras um tanto rígidas de interpretação.

A "astrologia natal", no sentido mais estrito do termo, refere-se a momentos individuais de nascimento. Exige como pré-requisito unia precisão absoluta no conhecimento do momento da "primeira respiração" — o momento em que o ser humano atinge a condição de existência individual ou ao menos independente. Essa precisão absoluta é necessária para estabelecer-se, sem margem de dúvida, o quadro de casas — a própria estrutura do self individual e destino único do nativo. Naturalmente é verdade que fatores coletivos, derivados da posição do Sol, planetas, signos zodiacais etc., são utilizados, mas mesmo esses estão especificamente relacionados coro o desenvolvimento de uma situação individual: a vida do nativo. A par disso, a astrologia natal pressupõe em grande medida uni conhecimento do meio ambiente coletivo e da natureza do indivíduo estudado (assim como a astrologia horária pressupõe uma "questão" que estabeleça a situação geral a ser considerada). Pois, sem tal conhecimento, o astrólogo não tem nenhum meio de dizer se a carta natal se refere a um homem ou a um animal, a uma criatura dos guetos ou a um aristocrata altamente aculturado. Portanto, sem um conhecimento geral da espécie, raça e classe do nativo, a astrologia natal só pode ser muito vaga e não preenche sua função, que é liberar e ampliar o significado de um destino individual e de uma personalidade única — ampliando assim sua individualidade e qualidade única.

Uma verdadeira astrologia natal desse tipo, portanto, está essencialmente baseada em entendimento psicológico. Lida com interpretação 'subjetiva de fatos objetivos. E um sistema de interpretação de vida criativo e simbolismo criativo aplicado a uma personalidade individual. Teoricamente, sublinha fatores derivados da rotação da Terra ao redor do eixo polar, tal como estuda um ser humano como um complexo de atributos e tendências centrados mais ou menos adequadamente em um eixo individual, o "eu sou" ou ego, a espinha e sistema cérebro-espinhal deste ser humano.


2. Astrologia do coletivo

Em termos gerais, esta é a "astrologia terrena" ou "natural", o tipo de astrologia que era associada com a origem do desenvolvimento e cultura humanos. Ela deu origem a um calendário agrícola baseado num estudo das modificações da força vital— especialmente das influências do Sol e da Lua. Mais tarde veio a ser o símbolo da lei ética e espiritual. Como astrologia "natural", refere-se a mudanças em estações, climas, tempo, como astrologia "mundana", lida com o surgimento e queda de reinados e nações, e com a determinação de vastas influências que moldam o temperamento de grupos e coletividades.

Dois pontos se destacam numa avaliação de um tipo de astrologia como esse: 1) lida com influências reais, com raios e correntes magnéticas que se diz emanarem do Sol, das estrelas e dos planetas e produzir modificações em todos os seres terrestres. Estas mudanças são primeiramente fisiológicas, mas reagem imediatamente na psique — especialmente sobre as emoções; 2) portanto sua abordagem é essencialmente objetiva, o que a torna acessível a tratamento "científico". Isto quer dizer, é em grande parte experimental. Desenvolve-se por meio de julgamentos estatísticos e pode ser comprovada por testes objetivos de um certo tipo e através de medições. Seu modo de operação não é essencialmente diferente do das ciências que lidam com forças telúricas, terremotos, tempo e todas as mudanças de condição mais ou menos cíclicas que afetam todas as espécies biológicas da Terra. Lida com os humores coletivos de homens e nações, assim como outras ciências tratam do crescimento secular de árvores, rochas e continentes. Trata de coletividades humanas ou mudanças psicológicas humanas no coletivo.

Como já foi mencionado, as manifestações mais claras dessa astrologia podem ser vistas no trabalho de T. O. McGrath, em seus estudos dos ciclos de negócios em correspondência com ciclos de manchas solares (11 anos e 2 meses), com os ciclos dos nodos lunares (18 anos e meio) e com outros dois ciclos de respectivamente 40 meses e 56 anos. Ele não chama seu trabalho de astrologia, porque lida com a posição heliocêntrica dos planetas — que são vistos em grande parte como gatilhos liberando atividades solares e porque em geral a abordagem é puramente estatística e concreta. Sol, estrelas e planetas são ímãs imensos, seus movimentos liberam forças elétricas. O sistema solar como um todo e as cercanias de cada planeta em particular são vistos como imensos campos magnéticos interagindo uns sobre os outros. A ciência toda é "eletrodinâmica cósmica".

Edward Johndro, um engenheiro de rádio, talvez tenha sido o primeiro a desenvolver essa abordagem até um ponto de grande complexidade. Ele não abandona totalmente o campo da astrologia natal. Mas, mesmo tratando de natividades individuais, visivelmente ressalta quase exclusivamente o jogo de fatores coletivos e concretos no indivíduo. Por exemplo: a localização geográfica — o lugar de residência de uma pessoa — recebe uma importância suprema: o homem é visto quase completamente como produto de um meio ambiente, mera unidade num vasto sistema de relacionamentos planetários e celestes, um exemplo particular do gênero pomo sapiens. Um outro cabalista e astrólogo, Paul Counsil, está seguindo a mesma linha de abordagem, e uma série de outros trabalhadores nesse campo o estão desenvolvendo permanentemente.

Eles no entanto se especializam em problemas terrenos: na determinação de terremotos, nas "cartas natais" de cidades e nações e em todos os assuntos que afetam coletividades humanas. Em geral eles se orgulham muito de serem "científicos" ou "matemáticos" — apesar de, na verdade, não serem. "matemáticos" no sentido mais profundo do termo, mas sim expositores de um sistema ampliado de eletrodinâmica, que considera a atração e repulsão de planetas uns sobre os outros como bem reais e concretas, mesmo quando formuladas em termos de forças elétricas e não como gravitação newtoniana. Eles não lidam com "símbolos" — como o tipo mais recente de física atômica está habituado — mas com "forças vitais" emanando de estrelas e do Sol.

Num tipo de astrologia como esse, o Sol em geral ocupa uma posição das mais proeminentes como fonte de força vital do sistema todo. Na maioria dos casos a abordagem é, logicamente, heliocêntrica. Estudam-se, primeiramente, emanações solares, e os planetas atuam em grande parte como refletores ou estimulantes de descargas solares. Na antiga astrologia ptolomaica, o Sol era visto como o ponto focal do zodíaco, uma faixa do céu estendendo-se 23° em cada lado da eclíptica. Dentro de seus limites, todos os planetas pareciam mover-se. Projetado no globo terrestre, era o cinturão equatorial — também o domínio do Sol. Assim, enquanto a "astrologia do indivíduo' se refere mais especificamente ao eixo polar, a "astrologia do coletivo" lida em primeiro lugar com forças equatoriais. No homem, estas forças são aquelas que atuam por meio do sistema grande simpático e, especialmente, o plexo solar (e outros centros). Na yoga hindu, estes centros são os "lótus" ou chakras. Mas devem ser diferenciados dois sistemas: o que lida com estes "lótus", que são focos de existência e consciência coletiva; e o sistema que lida com centros na espinha. Um terceiro sistema de "centros" manifestamente também pode ser encontrado na cabeça — dando-nos novamente nossos três termos básicos: coletivo, individual e criativo.

No novo tipo de "astrologia do coletivo", o problema é mais complexo. O Sol é ainda mais o centro focal do estudo, mas evidentemente é preciso usar um zodíaco planetário e um zodíaco solar para tornar as coisas lógicas e coerentes — definindo respectivamente o campo magnético da Terra envolvendo a Terra e o do Sol abrangendo o sistema solar inteiro. Mesmo assim, a astrologia ptolomaica ainda domina a astrologia comum dos nossos dias, e é óbvio que deva ser assim, por causa de considerações práticas bem como por causa do nível em que ainda vive a maioria dos seres humanos — num nível fisiológico, equatorial e coletivo. Primeiro, com o intuito de interpretação astrológica rápida e profissionalmente barata, é claro que não se pode oferecer nada além de "leituras do signo solar": leituras do plexo solar, emocional-vital, equatorial, que lidam com doze tipos básicos de instintos raciais e focalizações coletivas de energia. Depois, poucas pessoas conhecem seu momento exato de nascimento, o que torna impossível uma leitura precisa em termos de fatores de rotação (casas, ascendente, nodos etc.). Logo, o fator estritamente individual continua em dúvida; com muita freqüência é mera potencialidade, e só pode ser visto em termos de "padrões de circunstâncias predestinadas". Astrologia coletiva-equatorial é aquela adequada a pessoas que vivem uma vida puramente coletiva.

Vida coletiva, em nossa era de desintegração racial e cultural,, geralmente significa vida caótica, agitada, comandada pelo ritmo louco do comportamento urbano. Mas em velhos tempos significava crescimento harmonioso da Terra, um crescimento não muito diferente do de plantas e árvores. O grande homem era a flor e o fruto de sua tribo ou raça, uma expressão coletiva levada ao ponto da perfeição estrutural. Ele era um homem perfeito à medida que manifestava perfeitamente as qualidades de sua coletividade racial. Quando fazia isso, era visto como a evidência consciente de uma co- letividade superior — a coletividade de ancestrais aperfeiçoados num sentido, uma vasta hierarquia celestial, num sentido ainda mais remoto (mas também "ancestral"). Um homem assim se tornava um Mediador entre céu e Terra. O que nos leva a um terceiro tipo de abordagem da astrologia.


3. Astrologia oculta

A astrologia oculta não deveria ser considerada totalmente separada dos dois tipos anteriores, tal como não se pode jamais considerar o criativo separado do individual e do coletivo. Vimos que o giro dos polos é determinado por uma combinação de fatores: principalmente a rotação do planeta ao redor de seu eixo e a atração gravitacional do Sol (e da Lua) sobre o cinturão equatorial proeminente (cuja proeminência é outra vez um resultado da rotação axial e das forças centrífugas que esta gera). De modo semelhante, a abordagem oculta da astrologia — ou de qualquer coisa, nessa questão! — é determinada pela qualidade da abordagem do indivíduo e pelo nível de instintos coletivos (vitalidade herdada) que o indivíduo evidencia.

Em tempos remotos, a consciência humana estava centrada essencialmente no nível fisiológico. A inteligência era então instinto orgânico tornado consciente, depois progressivamente abstraído de condições particulares e imbuído de significado universal. Este processo era o que de fato se queria dizer com "Iniciação". Como resultado da iniciação, o ser humano era capaz de projetar seus instintos conscientes e universalizados sobre a esfera celeste — o Corpo de Deus (Macrocosmo e Macroprosopus na cabala). Mas ele também era capaz de receber o Corpo de Deus em seu próprio organismo terreno. Em outras palavras, o universal se tornava particular, à medida que o particular se havia tornado universal. E acreditava-se que o reverso também fosse verdade, porque o universal — Deus e a Hierarquia Celeste de Construtores — se havia projetado sobre a Terra; a partir desta Terra, foi evoluindo uma criatura feita à semelhança do mundo celeste arquetípico e de suas hierarquias — à própria semelhança de Deus; um microcosmo, entretanto, em potencialidade, não em atualidade — até que, por seguir o já mencionado processo de iniciação, a "semelhança com Deus" potencial fosse energizada pela vontade criativa do "eu sou" latente em cada pessoa, e aparecesse como fato espiritual — assim chamado corpo crístico.

Explicar totalmente esse duplo processo requereria todo um volume, que na verdade teria muito pouco significado até que o processo em si tivesse sido experimentado, mas a coisa mais importante a captar é que implica: 1) uma focalização estrutural como um protótipo latente no corpo terreno do homem: 2) uma expansão de consciência, de ego particular para uma consciência universal orgânica. Estes dois processos podem ser chamados involução e evolução. Involução aqui significa a construção de um protótipo "astral" pelas hierarquias celestes no homem terreno como forma potencial de divindade humana. Por outro lado, a evolução refere-se à expansão e à universalização da consciência humana pelos esforços de seu próprio "eu sou" individual até que este "eu sou", tendo assimilado o poder de todas as "virtudes" ou raios divinos, se torne auto-identificado com Deus, se torne avatar de Deus.

Astrologia oculta (quando devidamente entendida!) esclarece muito daquilo que é confuso e intrincado nesses dois processos. O processo involutivo refere-se ao domínio equatorial e ao zodíaco; o processo evolutivo, ao eixo polar e seus movimentos. Até agora, praticamente não houve, em lugar algum, menção direta aos fatores astrológicos envolvidos nesse processo evolutivo oculto. Tudo que se mencionou foi a mudança do nível instintivo da humanidade coincidindo com a entrada do Sol, pela precessão dos equinócios, em constelações zodiacais. No entanto isto é apenas metade da história, mais uma consequência do que uma causa. Permitam-nos repetir mais uma vez que a causa da precessão dos equinócios é o giro do eixo polar.

O zodíaco, no sistema ptolomaico, é um cinturão de fogo criativo circundando a Terra, sendo esse fogo localizado sobre nosso planeta através do disco do Sol — sendo o Sol a lente através da qual o Todo zodiacal focaliza sua energia de doze tipos sobre a Terra. As hierarquias zodiacais são hierarquias de construtores — Cosmocriadores, como são chamados. Juntos, eles constituem o Poder Formativo Cósmico (Mahat, em sânscrito). Na música, eles são representados pelo ciclo de 12 quintas, que rege a sequência de "tonalidades", o ciclo de 12 lyus, que constitui a base da música chinesa. Eles são a série de Grandes Ancestrais, os Patriarcas da Bíblia e da cosmogonia hindu, os Doze Portais da "Cidade Sagrada" no "corpo crístico" do homem etc. Eles se referem ao sistema grande simpático e seus "lótus" (duas hierarquias para cada "lótus", bem como dois signos zodiacais regidos por cada planeta — o Sol e a Lua sendo simbolicamente considerados planetas). Mais particularmente eles se referem ao plexo solar e ao diafragma: o cinturão equatorial, em que se centralizam as paixões "tropicais", acima (coração) e abaixo (sexo). No zodíaco e através dele, a substância terrena se torna Homem. Mas ao longo do caminho do eixo polar, a "árvore" do "eu sou", o Homem se polariza por sua vez nos sete grandes raios do Logos ou Deus. Ele se identifica com os sete raios e os sete avatares do Cristo cósmico (ou Vishnu) — e torna-se o oitavo — Krishna, o Cristo Humano, o Deus Vivo, Ishvara-no-corpo.

Assim, enquanto em simbologia cósmica as hierarquias zodiacais são os construtores dos corpos ou veículos humanos (representados alegoricamente na Bíblia pelo "Tabernáculo na Selva" e o "templo de Salomão"), as Estrelas da Mansão Eterna (polo norte) simbolizam os professores espirituais e avatares, que, um por um, de acordo com o princípio da Transmutação de raios, despertam e dão energia ao "eu sou" do Homem. São eles que personificam as grandes energias ocultas do Dragão da Sabedoria (a constelação Dragão), cuja cabeça aponta para Vega, cuja cauda separa a Ursa Maior da Ursa Menor, e cujo corpo se curva ao redor do polo da eclíptica — o Grande Vazio. Este é o "Palácio Central" da cosmogonia chinesa, Tien-ki, cuja cor é púrpura.

Ainda neste tópico de raios, que os esoteristas têm tratado tão mal, podemos nos permitir citar A doutrina secreta, em que o ensinamento, aparentemente surgiu pela primeira vez em sua forma teosófica moderna:

A estrela sob a qual nasce uma Entidade humana, diz o ensinamento oculto, será para sempre sua estrela, através de todo o ciclo de suas encarnações em un Manvantara. Mas esta não é sua estrela astrológica. Esta se ocupa e está ligada com a personalidade, a primeira, com a INDIVIDUALIDADE. O "Anjo" daquela Estrela, ou o Dhy-ani-Buddha, será ou o "anjo" guia ou simplesmente presidente, por assim dizer, de cada novo renascimento da manada, que é parte de sua própria essência, mesmo que seu veículo, homem, possa permanecer para sempre ignorante desse fato. Cada adepto tem seu Dhyani-Buddha, sua "alma gêmea" mais velha, e eles a conhecem, chamando-a "Alma Pai" e "Fogo Pai" . É s6 na riltima e Suprema Iniciação, no entanto, que eles a apreendem quando colocados frente d frente com a "Imagem"' . brilhante ... Há sete grupos principais desses Dhayan Chohans, grupos que serão encontrados e reconhecidos em todas as religiões, pois são os SETE Raios primordiais. ... Daí os sete planetas principais, as "esferas" dos sete espíritos residentes, sob cada um dos quais nasce um dos (sete) grupos humanos que é por ele guiado e influenciado.

A doutrina secreta, vol. I, p. 572, P á ed.

Os sete "Rishis da Ursa Maior" muitas vezes também são correlacionados com os sete raios cósmicos e com os sete planetas "sagrados", mas de nada vale que a constelação da Ursa Maior esteja fora do circulo descrito pelo polo norte. A simbologia destas constelações ao redor e parcialmente dentro desse circulo é por si um assunto de estudo fascinante. De todas, Dragão presumivelmente é a mais sagrada e misteriosa. O corpo do Dragão corta o circulo do giro polar por volta do lugar em que o polo norte estava em 3102 a.C. — o começo do grande ciclo de Kali Yuga na cosmogonia hindu. Talvez este deva ser considerado, quando não o começo do ciclo polar inteiro, ao menos uma de suas principais divisões.

Em A Treatise on Cosmic Fire, escrito por Alice Bailey, há uma grande parte dedicada à abordagem oculta da astrologia. Mas o assunto não é estudado como um todo, e somente algumas insinuações enigmáticas são feitas a respeito de constelações e estrelas como a Ursa Maior, Sírio, as Plêiades etc. Esperamos que o que foi dito acima possa esclarecer um pouco o campo do simbolismo até agora praticamente intocado.

Ainda é preciso acrescentar mais uma coisa. Para o ocultista, essas constelações e estrelas, aparentemente, não são símbolos, mas manifestações de seres cósmicos, que influenciam nosso planeta e a humanidade. Portanto neste aspecto a astrologia oculta está ligada à astrologia terrena e vitalista — que lidam com força vital, raios solares e cósmicos e coisas assim. Ao mesmo tempo, The Treatise on Cosmic Fire se baseia inteiramente na lei de correspondências — tal como todos os trabalhos ocultos, incluindo a cabala e A doutrina secreta. Mas usar a lei de correspondências é um outro modo de usar simbolismo! Se existe uma "correspondência" entre macrocosmo e microcosmo, entre o cabelo do homem e o cabelo do Grande Homem dos Céus (como na cabala) — então um ou o outro dos objetos "correspondentes" pode ser considerado "símbolo" do outro, ou ambos podem ser ditos igualmente símbolos de uma realidade puramente subjetiva, informulável. Portanto a "astrologia oculta" é, na verdade, e especialmente para todos os estudantes filosoficamente inclinados, um sistema de simbolismo cósmico ligando as naturezas polar e equatorial no ser humano a zonas correspondentes nos céus ao redor da Terra.

Outro tipo de astrologia oculta, simbólico de um modo dramático ou ativo, é aquele que produziu a série de quadros simbólicos, um para cada grau do zodíaco. Discutiremos esta fase da astrologia extensamente num capítulo posterior. Aqui, basta dizer que ela segue as pegadas do I Ching e de todo o esoterismo chinês e tibetano, e, antes deles, daquilo que muitas vezes é chamado Revelação Primordial da Humanidade. Já abordamos este assunto no capítulo a respeito do "processo cíclico", quando falamos de imagens e arquétipos primordiais. Todas essas são manifestações do Criativo cósmico — tal como o é a astrologia oculta. Pois o Céu inteiro em si é uma das primeiras e mais potentes Imagens Primordiais. E ele pode ser considerado como a Criação do Indivíduo Uno, que alguns chamam de Grande Arquiteto do Universo. e outros adoram como Deus.

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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.