sexta-feira, 8 de julho de 2016

O Significado das Doze Casas, por Dane Rudhyar


Considerando agora a estrutura de doze partes das casas, devemos lembrar o que estava escrito no capítulo anterior quanto ao significado dos eixos horizontal e vertical da carta de nascimento — horizonte e meridiano. O que está abaixo do horizonte a Terra torna invisível. Seja o que for que esteja embaixo da Terra, precisa nos alcançar através da Terra. E o domínio subjetivo interior. O que está acima chega até nós através do ar. E o domínio externo, objetivo. Se há emanações, no primeiro caso elas nos alcançam por meio dos pés; no segundo, em grande parte por meio da cabeça (um fato importante do ponto de vista do ocultismo). Isto explica por que o signo zodiacal que simboliza a cabeça, Aries, trata do início da objetividade, enquanto Peixes, simbolizando os pés, se refere à consciência subjetiva interna.

Pode-se entender a origem do significado das casas de duas maneiras. Na primeira, a roda inteira é considerada uma estrutura estática operando toda de uma vez. Os dois eixos mencionados acima representam a estrutura de espaço, do espaço particular da entidade recém-nascida. Eles formam sua cruz de encarnação. Ele é Vida universal enquadrada em Espaço, e assim tomando forma como um ser particular. Dentro e por meio dessa estrutura, a. natureza humana coletiva opera de um modo particular que caracteriza o ser humano como um ser individual. Os dois eixos dividem a carta em quatro quadrantes, tradicionalmente chamados leste-norte, norte-oeste, oeste-sul, sul-leste. Estes elaboram respectivamente os significados do Ascendente, do Imum Coeli (nadir), Descendente e Meio-do-Céu; porque em astrologia cada divisão de espaço ou de tempo leva o significado de seu ponto de origem. Assim o quadrante leste-norte (três primeiras casas) leva o significado do ascendente, o quadrante sul-leste, o do Meio-do-Céu etc. Cada quadrante é dividido em três "casas" secundárias, pois cada operação da vida é basicamente tripla, incluindo ação, reação e o resultado de ambas (ou consciência ou desintegração ) — também, self, não-self, e a relação entre eles. A cruz do self particular do ser humano gera quatro modos básicos de ser, quatro operações fundamentais no processo de viver como um indivíduo. Estes podem ser descritos (usando a nomenclatura de C. G. Jung) como: intuição, sentimento, sensação, pensamento.

Mas o que se deveria fazer mais logicamente seria considerar as casas como o mostrador de um relógio, mera projeção no espaço de uma série de indicadores (ou numerais) registrando um movimento periódico que ocorre realmente no tempo. Neste caso, precisamos imaginar a linha do horizonte movendo-se em sentido anti-horário, como o ponteiro de um relógio. As cúspides da primeira e sétima casas representam a posição do horizonte como ele de fato é no momento da primeira respiração. A linha das cúspides da segunda e da oitava casas representa a posição do horizonte duas horas depois; a linha das cúspides da terceira e da nona casas, a posição do horizonte quatro horas depois. Cada casa representa um intervalo de duas horas. As cúspides das casas dão as posições sucessivas do Ascendente (a metade leste do horizonte) a cada duas horas, assim como se pode ver nos números de um relógio os pontos para os quais.,o ponteiro menor apontará sucessivamente num período de 12 horas. O "mostrador de casas" astrológico é um mostrador de 24 horas, com apenas um ponteiro.

Veremos o significado dessa concepção no presente trabalho quando chegarmos ao estudo do ciclo de 28 anos, do desdobramento do self individual. Por enquanto, será mais simples considerar as casas uma segmentação do espaço ao redor do recém-nascido em doze seções de trinta graus, geradas por dois eixos fundamentais, horizonte e meridiano. Neste caso a ênfase precisa ser colocada nesses dois eixos. As cúspides das casas intermediárias podem ser calculadas de diversas maneiras, mas com horizonte e meridiano temos dois fatores básicos do ser individual, dos quais derivam todos os outros elementos secundários. Os dois eixos representam então o que pode ser chamado quadratura do espaço — a cruz da existência individual.

O horizonte é a linha de percepção. Isto de acordo com a mais óbvia lógica de significado simbólico, pois ela diferencia os dois tipos mais fundamentais de consciência. Acima do horizonte está tudo que pode ser percebido pelos sentidos, abaixo do. horizonte fica o domínio desta consciência interior que Jung corretamente chama intuição. Intuição é a faculdade de consciência através da qual percebemos fatos internos. Sensação é consciência do não-self, consciência de outros. Como o Ascendente é o ponto-semente do hemisfério inferior, assume necessariamente o significado de consciência do self pura; o Descendente, sendo o ponto-semente do hemisfério superior, é o símbolo da consciência de outros. Assim, intuição e sensação são vistas como dois fatores complementares, relacionados respectivamente com o leste e o oeste.

Um homem toma consciência de sua própria existência como um "eu" através de um processo interno que é intuição, enquanto sensação é o resultado de uma consciência de causas externas atribuídas a impressões dos sentidos. Uma verdadeira sensação não é uma mera impressão, mas o resultado da combinação de uma impressão dos sentidos e de nosso sentido particular de self Uma chapa fotográfica recebe impressões similares àquelas recebidas por nossa retina, mas as sensações visuais que correspondem a essas impressões contêm, além daquelas, nossa própria capacidade particular de reagir a estímulos. Portanto todas as sensações envolvem uma relação entre objeto e sujeito. Daí a sensação ser corretamente associada ao descendente, que, conforme a tradição, rege assuntos de relacionamentos, sociedades, casamento etc.

Através da intuição tomamos consciência daquilo que somos essencialmente. Com base nessa consciência — "eu sou isto e aquilo" — começamos a fazer julgamentos imediatos sobre aquelas mudanças que experimentamos em nossa psique. Sentimo-nos contra ou a favor dessas mudanças — espontaneamente, instintivamente. Surge assim um novo modo de operação: sentimento. De forma semelhante surge um novo processo a partir das sensações e suas correlações: pensamento. Pensamento é o resultado de sensação, tal como sentimento é resultado de intuição. O que era abstrato como consciência intuitiva se torna concreto como sentimento. O que era vago, fugidio, impermanente como sensação, torna-se estável e relativamente permanente como pensamento. Mais que isto, o que era mero assunto de consciência se torna uma experiência real, tendo forma e propósito — portanto significado. Sentimento envolve experiência, e experiência se manifesta ou como sentimento (se sua base é subjetiva) ou como pensamento (se sua base é objetiva). Experimentar não é meramente receber uma impressão ou ter consciência de algo. E sair de fora de si para ir dentro da coisa (ou do self) e estabelecer o seu significado, através do sentimento ou do pensamento.

Assim apreendemos o significado do eixo vertical, que diz respeito à experiência concreta. A consciência horizontal se evidencia nos pontos verticais como experiência concreta. O receptivo se torna ativo, o horizonte se torna meridiano. O eixo horizontal referindo-se à consciência é, para usar o termo de Jung, o eixo irracional, enquanto o eixo vertical se relaciona com operações racionais do self. Consciência, seja de si ou dos outros, não envolve nenhuma racionalização. E um fato direto da vida. Uma impressão não é racional por si. Ela somente é. Então começamos a racionalizá-la. Se ela for uma experiência interna, emitimos sobre ela um julgamento imediato, primeiramente através de sentimento. O sentimento não é racional da mesma maneira que o pensamento o é, mas ambos têm um valor como julgamentos, com base nos quais agimos subsequentemente como portadores de significados. Assim podemos chamá-los de racionais por causa da operação particular de consciência que eles implicam.

Entretanto, precisamos ressaltar que esses termos são usados de acordo com seu sentido estritamente psicológico, e não como são usados comumente na linguagem cotidiana.
Se então desejamos interpretar psicologicamente uma carta natal em que encontramos Escorpião no ascendente, Touro no descendente, Leão no Meio-do-Céu e Aquário no Imum Coeli, devemos começar a delinear nossas conclusões da seguinte maneira: a intuição opera numa base escorpiana. O nativo vai "se encontrar" naturalmente usando métodos que se harmonizem com as características de Escorpião. Estas características de Escorpião vão fornecer-lhe o melhor, por ser o mais natural, caminho em direção à consciência daquilo que ele realmente é. Através de sexo, através do uso e con- trole de energias vitais, através de uma liberação constante de energia, ele atingirá plena consciência de si. O mesmo tipo de raciocínio se aplicaria aos quatro ângulos.

O objetivo da Astrologia Harmônica é levar homens à realização plena de toda sua natureza e todo o seu ser; plenitude, correlação, integração — e portanto sublimação. O que é necessário então é tornar a pessoa, cuja carta está sendo analisada, capaz de fazer aquelas coisas que teria feito em pura espontaneidade se seu instinto não tivesse sido frustrado pela família e pela sociedade. O signo (e grau) do zodíaco nos quatro ângulos indica, portanto, o caminho natural para a realização da atividade simbolizada, o melhor modo de funcionar intuitivamente ou através de sentimentos ou pensamentos, conforme o caso. Representa aquilo que realmente é — mas em muitos casos aquilo que foi obliterado pelo viver social e intelectual; indica, portanto, como chegar, sob as características superficiais e adquiridas, às qualidades básicas que realmente são as nossas próprias.

Os signos do zodíaco nos fornecem um conjunto de doze substâncias vitais características, ou qualidades de ser, ou atitudes ante a vida, como queiramos considerá-las. Onde elas aparecem na estrutura do self de uma pessoa em particular, mostram as qualidades que devem ser atribuídas congenitamente às várias faculdades e modos de atividade da pessoa. Para usar o termo oriental, elas indicam o dharma dessa pessoa. O dharma do fogo é queimar, do tigre, ser feroz, de um homem nascido com natureza artística, criar etc. Ler os ângulos de uma carta portanto significa ler o dharma total do nativo.

Isto será suplementado por uma interpretação dos signos nas cúspides das outras casas. As casas "sucedentes" (segunda, quinta, oitava e declina primeira) significa a reação à ação expressa nas casas "angulares" (primeira, quarta, sétima e décima). Isto pode referir-se a uma reação positiva ou negativa. Se a reação é positiva, o que está significado na casa "angular" se torna consolidado e focalizado por meio de limitações e contrastes. Se a primeira casa significa consciência de self, essa consciência se consolida pelas limitações impostas sobre ela pela herança do passado (fisiológica e psíquica), ou, num estágio posterior, por posses de todo tipo. Mas se a reação é negativa, então essa herança ou essas posses entorpecem a consciência de si mesmo, pesam sobre a intuição do eu "espiritual" com toda a inércia do materialismo.

Do mesmo modo, a quinta casa pode ou consolidar as experiências e sentimentos representados pela quarta casa, como por exemplo o lar (quarta casa), ou, então, seus conteúdos podem significar a perda dos assuntos da quarta casa, como o prazer e a especulação podem levar à perda do lar. Prazer em demasia e auto-afirmação tola entorpecem os sentimentos, mas o ensino e a expressão artística intensificam e focalizam esses sentimentos forçando-os a enfrentar os materiais envolvidos (crianças ou material estético — quinta casa), e dar-lhes forma. A mesma linha de pensamento se aplica à interpretação da oitava casa (consolidação ou perda do poder de relacionamento) e a décima primeira casa (consolidação ou perda de vida profissional e pública; amigos ou esperanças quiméricas, que tiram a pessoa da realidade).

Com as casas "cadentes", encaramos ou o resultado da perda implícita nas casas sucedentes ou a elaboração e expressão do modo psicológico de funcionamento (angular) depois de focalizado (sucedente). Assim a terceira casa simboliza assuntos que lidam com os resultados de uma herança psicofisiológica integrada. A substância de nosso corpo se toma de fato nossa através do sistema nervoso relacionando o self abstrato às células herdadas racialmente. Essas influências atávicas da segunda casa se manifestam na terceira como irmãos e irmãs, ou melhor, como nosso modo de relacionarmo-nos com eles. Todos os tipos possíveis de associações íntimas (em nosso próprio corpo, ou nosso círculo familiar, ou a área alcançada em viagens curtas) estão caracterizadas aqui. Por outro lado, se a segunda casa significou a perda do self na própria natureza atávica (ou em posses adquiridas, nos ciclos posteriores de vida), então a terceira significa neuroses, ciúmes familiares, inveja e talvez insanidade.

Na sexta casa, colhemos de outros como serviço as consequências de uma quinta casa construtiva, ou então a doença e a obrigação de servir a outros são a consequência de nosso desperdício e autoindulgência em assuntos de autoexpressão, educação do lar etc. Na nona casa, a perda de sensações ou do poder de relacionamento (morte, falência etc.) nos forçam a fazer uma "longa viagem" além das fronteiras .., de nosso país ou deste plano de existência. Mas se a casa de relacionamentos e casamentos provou ser positiva, o novo poder que adquirimos com a consolidação das oportunidades surgidas a partir dos contatos humanos nos permite estender nossas atividades, seja através de viagens físicas ou da expansão mental da consciência. No descendente encontramos o índice de nosso poder de sensação. Sensações focalizadas e consolidadas por meio do poder que flui para cima através da espinha (Escorpião-Kundalini) se transformam, afinal, em pensamentos abstratos e sintonia religiosa com ideias universais (Sagitário — nona casa).

A décima segunda casa significa negativamente o desaparecimento de nossos ideais sociais e de nossas esperanças — autoquestionamento quanto ao significado da vida. A prisão de nossos sonhos e ilusões nos confina até que emergimos com uma nova visão, ou somos forçados a voltar não iluminados a um novo ciclo de prisão. Ou então significa o capítulo foral de um período bem vivido e a transição para um novo nascimento num nível superior de consciência de si cujas bases terão sido nosso trabalho altruísta para a sociedade e nossos amigos, trabalho inspirado em ideais nobres e magnânimos.

Para dar ao que foi dito acima um aspecto mais esquemático, o diagrama que se segue pode ser útil para o estudante, estabelecendo um paralelo entre os significados tradicional e o psicológico-filosófico das casas.



Um quadro dos significados das casas como este, no entanto, não exaure as possibilidades de significado. Na verdade, essas possibilidades são infinitas, tal como as possibilidades de aplicação de qualquer fórmula algébrica são praticamente infinitas. Todo aquele que de fato entender o significado de pôr num quadro as doze operações básicas do self perceberá rapidamente que novos conjuntos de significados surgirão a cada vez que considerar um nível novo de expressão do self. A roda de casas é uma fórmula universal . Onde quer que se apliquem as oposições polares de self e não-self, consciência e experiência, abstrato e concreto — a roda de casas pode ser usada com muita eficácia para fornecer um padrão de ordem à evidente confusão de fenômenos, sejam quais forem. Onde quer que um conjunto qualquer de elementos substanciais possa ser considerado uma entidade orgânica, como um circuito relativamente fechado de energias vitais, a roda de casas e sua diferenciação em quatro e em doze pontos de vista se aplicam. Isto é assim porque o fato de as energias vitais se moverem num circuito fechado (ação metabólica) torna a coletividade de células vitalizadas por essas energias um organismo. Até certo ponto, todo organismo é uma entidade individual. À medida que é uma entidade individual surgirá nele um certo tipo de consciência (de self e de outros selves) e um certo tipo de experiência concreta (subjetiva — como sentimento ou instinto; objetiva — como conjuntos adquiridos de sensações, ou pensamentos).


É verdade que em todos os reinos inferiores ao homem há pouca consciência de self, se é que há alguma,' e muito pouco sentido de um ego particular formado como uma base para autoexpressão individual. Em outras palavras, o domínio subjetivo, abaixo do horizonte, da consciência de si não está desenvolvido na entidade individual separada. Mas podemos estar dispostos a dizer que tal domínio está desenvolvido na espécie vegetal ou animal como um todo — constituindo aquilo que Bergson chama "Gênio da Espécie".

Apenas no homem, até onde sabemos, cada espécime da espécie humana é, ao menos potencialmente, um indivíduo completo. O "caráter da espécie", isto é, a realidade arquetípica do HOMEM (que o hindu chama de "Manu"), pode tornar-se o centro da personalidade quando esta se encontra devidamente "individuada". Quando isso acontece, ela se torna o Cristo vivo, o Deus interno. Em outras palavras, o homem deixa de ser uma criatura da superfície da Terra — um animal. Começa a viver tanto acima quanto abaixo do horizonte, objetiva e subjetivamente. Seu próprio centro se identifica com o centro da Terra. Ele assim se transforma num ser planetário — um microcosmo.

O hemisfério inferior da carta de nascimento, portanto, se refere à formação e expressão potencial do Deus interno. Ali, no ponto nadir (o "Sol da meia-noite" da maçonaria), o ego consciente do homem nasce na manjedoura dos "sentimentos". Então, depois de ter sido regenerado pelas provas existentes em todas as relações humanas e na vida social, este ego finalmente se torna mais e mais abrangente. O centro do ser coletivo, que é simbolizado pelo zênite e pelo ponto do meio-dia, é assimilado pelo ego individual! Isto por sua vez fornece alimento para uma consciência mais profunda de self e dos outros. Por fim, os quatro "ângulos" da carta se integram no centro da carta — ou, num outro sentido, numa terceira dimensão, como o ápice de uma pirâmide construída sobre estes quatro "ângulos". O ponto de integração — ou individuação — é o que Jung chama de self (Si).

Na simbologia rosa-cruz, o self é a Rosa que floresce no centro da cruz. Também é o fogo que surge do centro do redemoinho da suástica. Ele é o ápice da pirâmide egípcia — que era uma câmara de iniciação.