terça-feira, 5 de julho de 2016

Qualidade, Estrutura e Substância, por Dane Rudhyar




Os elementos coletivos (sejam eles cósmicos ou humanos) representam sempre o polo de substância, como oposto ao indivíduo, que representa espírito. Como há elementos de todos os tipos e em todos os níveis de ser, a substância pode ser de vários tipos. Assim falamos de substância física e psicomental. Substância é o resultado do processo de coletivização (seja como desintegração ou criação). A substância resultante da desintegração é o húmus feito de folhas em decomposição, que fornecerá produtos químicos à nova vegetação da primavera. A substância que resulta da criação é, simbolicamente, da natureza da substância-semente.

Alice Bailey escreve em seu valiosíssimo livro, que tenta efetuar urna harmonização entre a psicologia oriental e a ocidental: "A palavra-chave substância, com sua sugestão de materialidade, é uma denominação falsa. No entanto é útil reduzir a palavra às suas origens latinas: sub, embaixo e stare, estar. Assim, substância é aquilo que está embaixo, ou subjaz". Substancia, em seu sentido filosófico, significa substratum. No dicionário, a palavra é definida como "Aquilo que está por debaixo de todas as manifestações exteriores, aquilo a que propriedades são inerentes". Em bases filosóficas de coerência lógica, precisamos postular uma "substancia psicomental" como um substrato das atividades psicomentais do espírito (ou, no ser humano, a "qualidade" individual, que é sua realidade espiritual). Cada domínio de manifestação do espírito precisa ter um tipo de substância correspondente, sendo espírito e matéria absolutamente correlatos. Substância psicomental pode ser considerada urna emanação e um produto refinado da substância física. Ou pode ser que aquela substância física seja a condensação de urna "matéria mental" universal.

Se uma argumentação como essa deve ser desconsiderada por ser "metafísica" e não baseada em experiência, então desconsideremos toda a nova física atômica. O éter, ou a curvatura do espaço, ou elétrons e fótons, são todos postulados como substrata de atividades registradas. As atividades são registradas, mas nenhum olho jamais verá o éter, ou o elétron, e muito menos o "espaço curvo". Há tanta evidência, de fato muito mais evidência, da existência de urna substancia "psicomental" quanto da existência de elétrons, que são apenas necessidades lógicas. Além disso, qualquer conceito de sobrevivência da consciência, ou imortalidade — conceito que Jung considera um pré-requisito normal para a saúde psicológica — requer obviamente uma substância psicomental. Pois uma vez que a substância física se foi, obviamente deve haver algum outro tipo para servir de substrato à consciência. Se isto é negado, então a negação é mera discussão sobre palavras e um apego arcaico da consciência à "imagem primordial" de urna substância tangível.

Entretanto, é preciso acrescentar que a questão quanto a se tal substância psicomental postulada pode ser realmente experimentada pelo homem, ou não, depende de ela ser susceptível, ou não, de desenvolver sentidos superfísicos, ou órgãos de percepção direta. Mesmo que ela não possa, existe uma coisa como "evidência inferencial".

Em oposição à substância, o que chamamos qualidade representa a identidade espiritual do todo vivente. Em nossa discussão da filosofia do tempo vimos que cada momento do tempo é criativo de um modo particular, que é, figurativamente, impresso sobre qualquer todo que atinja a condição de existência independente naquele momento. A qualidade do momento e a qualidade da totalidade do todo são idênticas. Essa qualidade, quando projetada fora do tempo, por assim dizer, é a mônada do todo específico considerado. É o Um-que-é-no-começo. Representa o polo individual.

Qualidade, ou mônada, pode referir-se a uma espécie ou a um único ser humano. Deveria ficar evidente, a partir do que foi dito previamente, que no nível .fisiológico, a qualidade é genérica, não pessoal. Em outras palavras, em termos fisiológicos, existe apenas uma mônada para o todo da humanidade, assim como existe apenas uma mônada para a espécie ou gênero do gato ou do cachorro. Individualidade reside na espécie ou subespécie e não num espécime em particular, um certo gato ou um certo cachorro. No entanto há um número infinito de graduações. Individualização, o tornar-se diferente da norma, tem algum lugar no nível fisiológico. Mas, e este é o ponto importante, apenas à medida que fornece uma base para (concepção substancial), ou é a expressão de (concepção espiritual) fatores psicomentais.

O que talvez fosse melhor dizer é que a individuação fisiológica é de uma ordem inferior à individuação psicomental. A primeira representa uma ênfase coletiva, a segunda, individual. Isto ficará claro se lembrarmos que o começo do ciclo da humanidade (na verdade, de qualquer ciclo) é um ato criativo liberando elementos coletivos que possuem apenas a potencialidade de individualidade. Para repetir o que já dissemos: do Ser-semente do fim do ciclo precedente emana criativamente uma forma (ou estrutura) prototípica no começo do ciclo humano. Esta forma, mais a energia da qual é dotada, é a exteriorização da qualidade ou Ideia, que, no Ser-semente, condicionou o ato criativo. Esta qualidade é a mônada do genus pomo: seu arquétipo-númeno. No ato criativo, ela é exteriorizada como energia e como estrutura. A estrutura permanece imutável, tal como o projeto durante a operação de construção. Mas a energia passa por um processo de diferenciação e transformação, isto equivale dizer: o dinheiro (energia social) reservado para a construção no início das operações vem a ser madeira, tijolos, encanamentos e o salário dos construtores.

Em outras palavras, a ideia do edifício é o arquétipo. Ela condiciona as operações de construção — o ato criativo. Este envolve a exteriorização da "ideia do edifício" como projeto, e também a liberação de uma soma de dinheiro — energia — para pagar pela construção. Quando as operações de construção são completadas, o projeto tornou-se substancializado num corpo concreto. A energia transformou-se em trabalho e na reunião de materiais, mas quando o edifício (digamos, um prédio de apartamentos) é alugado, o dinheiro gasto em sua construção retornará à sua fonte, com um lucro (se tudo correr bem!), no final do ciclo do negócio.

Essa ilustração mostra que o "ato criativo" libera elementos coletivos (isto é, dinheiro — um valor estritamente coletivo), mas com a potencialidade de individualidade (a planta, como uma exteriorização da "ideia"). O prédio de apartamentos acabado terá uma certa quantidade de individualidade genérica. Terá uma certa qualidade, em termos da quantidade de dinheiro (energia) despendida, bem como de sua estrutura. Portanto atrairá uma certa classe de pessoas como ocupantes. Estes ocupantes, vivendo juntos e interagindo, constituirão (se nos for permitido forçar uma ideia) uma comunidade de interesses, pensamentos e comportamento — que poderia ser descrita como a entidade psicomental do prédio de apartamentos. Dentro da estrutura genérica do prédio desenvolver-se-á uma estrutura psicomental individual. Esta ultima obviamente será um tanto moldada pela primeira. Mas esta estrutura de prédio terá sido "criada" pelo arquiteto-proprietário com vistas a atrair, por meio de características especiais, uma certa classe de gente.

Se você acrescentasse que o arquiteto-proprietário pode ser um grupo cooperativo de pessoas construindo o prédio para viver nele, poderia ter um quadro mais completo da concepção espiritual. Aquele grupo cooperativo representa o Ser-semente do ciclo precedente. E sua própria energia-dinheiro que está sendo gasta no prédio em que, como um grupo, ele viverá e do qual retirará novos benefícios e um maior sentido de integração. Pode-se dizer que o prédio tenha sido construído durante o verão, quando o grupo cooperativo está em férias da cidade; ou talvez o grupo todo ainda viva numa outra cidade enquanto a casa na nova cidade está sendo construída. O fato é que, de qualquer maneira, o grupo não se muda para o prédio, como moradores, até que ele esteja completado — mesmo que algumas alterações menores e a decoração dos vários apartamentos aconteçam depois de tomarem posse.

A ilustração, obviamente, é apenas uma ilustração, que não deve ser encarada literalmente, mas ela poderá ajudar a focalizar (esperamos que não cristalizar) algumas das ideias abstratas anteriormente descritas. Podemos prosseguir com a ilustração considerando o comportamento do grupo cooperativo como moradores. A estrutura do prédio, isto é, o modo como os apartamentos estão desenhados, determina uma grande parte de suas atividades diárias, tais como ir da cama para o banheiro, do banheiro para a sala do café da manhã etc. Estas atividades são inconscientes: elas dependem da estrutura genérica do prédio. Elas são poderosas e fixas, determinadas por uma estrutura imutável, por "imagens primordiais", isto ë, pelo projeto original do prédio (o protótipo do genus pomo), que por sua vez foi condicionada pelos hábitos, consciência e riqueza anteriores do grupo cooperativo que projetou esta "ideia". Em outras palavras, são os resultados finais de um passado muito, muito remoto.

Por outro lado, o que as pessoas pensam nas escrivaninhas de seus escritórios e todas as atividades emocionais que ocorrem entre os moradores em seus respectivos apartamentos, ou quando se visitam uns aos outros, não estão muito ligados ou condicionados pela planta do prédio. Muitas coisas diferentes podem ser feitas na sala ou no escritório — de fazer amor, a servir chá e jogar bridge ou dar um recital. As atividades mais psicológicas e conscientes dos moradores são relativamente livres da estrutura do prédio, enquanto seus movimentos fisiológicos e quase inconscientes são mais regulados por ela.

Neste ponto a ilustração se torna bastante desajeitada, mas ainda poderá servir para algum propósito. O que ela tenta transmitir é a diferença entre estruturas permanentes, que são genéricas, no homem, e estruturas não-permanentes, que são mais pessoais. As primeiras se referem ao inconsciente; as últimas ao consciente. 0 genérico é o coletivo à medida que representa características e atributos que são propriedades comuns de muitos. Por outro lado, essas características genéricas podem ser localizadas não apenas nas experiências e reações comuns sob as mesmas condições geográficas e ambientais prolongadas (como Jung afirma, sendo um cientista moderno), mas, é preciso dizer, na concepção espiritual, ter sua origem no ato criativo de um "Indivíduo Maior", o "Deus-do-fim" do ciclo precedente.

Portanto, "inconsciente genérico" seria um termo melhor quando se referisse a elementos envolvendo estruturas comuns básicas, tais como "imagens primordiais". Por outro lado, o termo inconsciente coletivo significaria mais especificamente os resultados do processo de civilização no plano psicomental — a lenta estruturação de ideais da humanidade que, passo a passo, integram as almas ou mentes de todos os homens no Ser-semente do final do ciclo — no nível psicomental. "Genérico" refere-se mais aquilo que resulta de estruturas fisiológicas comuns a todas as pessoas, enquanto "coletivo" se aplica mais estritamente àqueles elementos psicomentais que estão sendo liberados por indivíduos criativos no curso da evolução humana e, depois de terem sido assimilados por muitas gerações, tornam-se a herança comum de toda a humanidade.


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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.