domingo, 15 de janeiro de 2017

Urano e Aquário através das Casas, por Howard Sasportas

Pouco se conta sobre Urano na mitologia. O primeiro deus no céu regeu o espaço ilimitado e recebeu a tarefa de inventar e dar nomes à Natureza. Urano realizou façanhas criativas tais como idealizar as asas das borboletas, cada uma estampada com sua própria e única individualidade. A presença de Urano no mapa indica que somos capazes de pensamentos e de ações novos e originais. Neste domínio, não é necessário conformar-se com padrões de comportamento tradicionais, convencionais.

Ele era casado com Gea, a Mãe Terra. Toda noite, o Céu se deitava sobre a Terra e como resultado disso concebiam filhos continuamente. O casal deu nascimento a uma raça de gigantes conhecidos como os Titãs, a alguns Ciclopes de um só olho e a uma hoste de monstros, cada um com cem braços e cinqüenta cabeças. Desgostoso à vista de seus rebentos, Urano recusou-se a permitir que eles existissem. Por essa razão, assim que eles nasciam, Urano os mandava de volta para o útero de Gea, para o centro da própria Terra. Astrologicamente, isso subentende que podemos conceber na casa de Urano o que acreditamos ser algumas idéias muito boas; mas quando trabalhadas e concretizadas, elas podem não sair tão bem. O que em teoria parecia maravilhoso pode ser um desapontamento quando posto em prática e, como o deus Urano, algumas vezes temos de queimar nossas idéias originais e tentar outra vez.

Obviamente, Gea, com o útero cheio dos filhos banidos, não achou nenhuma graça. De dentro de seu peito ela produziu um pouco de aço, forjou uma foice e implorou que seus filhos castrassem o pai com ela. O filho mais novo, Cronos (Saturno), já exibindo um bem desenvolvido sentido de responsabilidade, apresentou-se como voluntário para cumprir a tarefa. Um pouco do sangue do falo desmembrado de Urano jorrou de volta ao útero de Gea e daí nasceram as Fúrias. Quando o órgão foi lançado ao mar, emergiu com a espuma, e Afrodite (Vênus) nasceu.

Este mito sugere as complexidades que caracterizam a esfera de influência de Urano. Aquela parte de nós que é mais terrena ou saturnina — nossa reserva, nosso cuidado, nosso conservadorismo, o respeito pela tradição e o medo do desconhecido — pode literalmente "cortar fora" o impulso criativo de Urano. É possível que a inibição de Urano numa casa dê origem às Fúrias, cujos nomes podem ser traduzidos como "raiva invejosa", "retaliação" ou "nunca acabar".1 Ressentindo-se do estado de coisas nesta área da vida, nós muitas vezes culpamos os outros pela nossa infelicidade, gerando um resíduo amargo e envenenado que a psique tem de eliminar. Uma terrível massa de energia é necessária para segurar uma mudança quando ela se faz realmente necessária e, como resultado, podemos acabar exaustos, doentes ou alienados. Ou, talvez, corajosamente, empreendamos novas ações e exploremos outras maneiras provocadoras e independentes de ser nesta casa. Mesmo assim, podemos ainda evocar as Fúrias — desta vez soltas sobre nós pelos que se sentem desafiados, ultrapassados ou ameaçados pelo nosso comportamento. Tanto em nível pessoal como em nível coletivo, a casa de Urano é onde temos que nos separar do conformismo, experimentar novas tendências ou correntes de pensamentos e arriscar a romper conosco e com tudo o que se encontra à nossa volta em nome do progresso e da evolução.

Felizmente, Afrodite nasceu fora dessa disputa. Sua presença sugere que, enquanto respeitamos e trabalhamos dentro de alguns limites e do confinamento de Saturno, podemos esperar encontrar maneiras mais harmoniosas e criativas (Vênus) para levar a vida adiante. Em alguns casos, podemos não ser capazes de transpor totalmente as velhas estruturas, mas podemos nos empenhar para abrir espaço com essas novas idéias e interesses e, dessa maneira, conseguir mudar alguma forma de expressão. Este é o desafio que Urano apresenta na área do mapa em que mora.

Urano foi descoberto há relativamente pouco tempo, em 1781, durante o período das revoluções americana e francesa, e na véspera da Revolução Industrial. Em sincronia, este planeta é associado com ideais de verdade, justiça, liberdade, fraternidade e igualdade, bem como com qualquer tendência coletiva progressista que desafie o status quo. Urano quer que transcendamos os limites de nosso passado, de nosso ambiente, de nossa biologia e, se possível, de nosso destino: só porque nascemos numa família pobre, isso não quer dizer que tenhamos que ser caipiras. Em forma pura, sua visão é a de um grupo de indivíduos juntos, cada um expressando sua própria unidade e ainda assim sustentando um todo maior do qual cada um faz parte.

No entanto, Urano é propenso a certas distorções. Na casa, é onde temos necessidade de verdade e de liberdade, bem como um medo excessivo de sermos capturados ou aprisionados pelas nossas próprias criações. Se estamos muito inclinados a mudar apenas por mudar, então nada nesta área poderá se arraigar. Ou, se ficarmos nos equilibrando sobre a fina linha de separação entre a loucura, a excentricidade e o gênio, vamos persistentemente sentir a necessidade de sermos diferentes dos outros apenas para causar polêmica ou chamar a atenção sobre nós mesmos. A casa de Urano pode mostrar onde rapidamente desrespeitamos os limites da nossa "humanidade". Presumindo que somos capazes de transcender automaticamente as restrições de nosso corpo físico ou de nos elevar acima dos componentes instintivos da nossa natureza, cometemos o pecado de hubris e convidamos a punição a cair sobre nós. Com o mesmo refinamento que inspirou o sr. Frankenstein a construir o seu monstro, liberamos horrores no mundo em nome do avanço e do progresso. Ou quando ideais utópicos (como a Revolução Francesa) não levam em consideração as realidades da natureza humana, eles envolvem e amarram, às vezes estrangulando, quase todo mundo nesse processo.

Aquário na cúspide ou contido numa casa terá sabor semelhante a Urano ali. Haverá uma conexão entre a casa que contém Urano e qualquer casa que tenha Aquário.