sexta-feira, 30 de junho de 2017

O Sistema de Dignidades e Debilidades Essenciais, por Helena Avelar e Luís Ribeiro

Já vimos como os planetas expressam as suas naturezas e como essa expressão é "colorida" pelas características do signo em que se encontram. Vamos agora desenvolver esse conceito.

Quando colocados num mesmo signo, os planetas apresentam uma tonalidade comum, que lhes é conferida pelo próprio signo. Contudo, no mesmo signo, alguns planetas têm maior facilidade em expressar-se que outros. Tudo depende do nível de "conforto" que o planeta desfruta naquele posicionamento zodiacal.

Assim, existem áreas do Zodíaco em que a expressão de um planeta é naturalmente forte e estável, enquanto noutras o mesmo planeta apresenta dificuldades. Estas áreas são definidas pela própria ordem natural do Zodíaco e das esferas celestes.

Quando um planeta se encontra num segmento do Zodíaco no qual a sua natureza é reforçada diz-se que está dignificado; quando se encontra numa área em que a sua expressão é dificultada diz-se debilitado.

Estes estados de dignidade e debilidade são denominados essenciais, pois reforçam ou dificultam a manifestação da essência dos planetas.

Quando dignificado o planeta adquire mais status no horóscopo e torna-se, em maior ou menor medida, senhor das suas ações. Quando debilitado o planeta perde poder e fica condicionado pelos restantes planetas.

No sistema de dignidades essenciais existem cinco estados de dignidade e dois de debilidade, que estudaremos em seguida.


As Dignidades Maiores

As principais dignidades são o trono (ou regência) e a exaltação. Quando um planeta tem estes níveis de dignidade adquire poder e a sua expressão torna-se mais marcante. Em oposição a estas dignidades, existem as debilidades de exílio e queda. Se um planeta tiver este nível de debilidade a sua expressão torna-se fraca e irregular.

Pela sua importância e pelo poder que conferem ao planeta, estas dignidades (e as correspondentes debilidades) são designadas maiores, fundamentais ou completas.


O trono ou regência

A dignidade mais importante é de trono ou regência.

Cada signo tem um planeta regente, que atua como rei e senhor daquele "território".

O regente é a chave através da qual as características do signo se expressam. Assim, para além das qualidades primitivas, dos elementos, dos modos e gêneros, os signos são também caracterizados pelo seu planeta regente.

Como já vimos, os signos regidos por Saturno têm uma expressão estruturada e austera, devido à natureza do seu regente; os signos regidos por Júpiter partilham uma atitude entusiasta e fluida; os de Marte têm uma ação bélica e assertiva; o signo regido pelo Sol é irradiante; os de Vénus expressam-se de forma harmoniosa e suave; os de Mercúrio são multifacetados, e o signo da Lua tem uma expressão variável e flutuante.

Quando o planeta regente está no próprio signo que rege, diz-se que está dignificado. Tal como um rei no seu trono, expressa a sua natureza no seu melhor, de forma estável e produtiva. Por exemplo, se Vênus estiver posicionada num dos seus signos de regência, Touro ou Balança, a sua expressão será suave e agradável, seja no aspecto sensorial e prático da Terra (Touro) ou no aspecto social e comunicativo do Ar (Balança).

Importante: Nos textos antigos, o signo que o planeta rege é também denominado "a casa do planeta", estabelecendo uma equivalência entre os termos trono e casa. Nos autores clássicos são frequentes as referências à "casa da Lua", o signo de Caranguejo, ou à "casa de Saturno", o signo de Capricórnio ou de Aquário.

Para evitar a confusão entre as casas dos signos (no sentido de trono) e as Casas astrológicas, não utilizaremos esta terminologia nesta obra. Sempre que falarmos em Casas, referir-nos-emos às Casas astrológicas. O leitor deverá, contudo, estar ciente desta terminologia quando consultar os autores tradicionais.


Como se atribuem as regências

A atribuição de regências baseia-se na combinação de dois fatores distintos: as características sazonais de cada signo e a ordem dos planetas nas esferas celestes (ordem caldaica). Vejamos, então, como estes dois factores interagem.

Como já referimos, o Zodíaco tem como base as quatro estações do ano.

Os signos de Caranguejo e Leão marcam o auge do Verão. Como correspondem às épocas mais luminosas, têm como regentes os luminares: o Sol e a Lua. O Sol — o luminar masculino e senhor do dia — rege Leão, um signo masculino e diurno, enquanto a Lua — o luminar feminino e senhora da noite — rege Caranguejo, um signo feminino e noturno.

Saturno — o planeta mais distante e escuro — rege os dois signos de Inverno, Capricórnio e Aquário. É-lhe atribuída a regência dos signos correspondentes à época do ano em que há menos luz e em que as condições de vida são mais difíceis. Por ser um símbolo de escassez, Saturno fica no esquema de regência oposto aos luminares, símbolos de abundância e vida.

Os restantes planetas são distribuídos pelos signos de acordo com a sua posição nas esferas celestes, ou seja, segundo a ordem caldaica.

Júpiter — planeta que se segue a Saturno na ordem das esferas — rege os dois signos adjacentes, Sagitário e Peixes. Marte rege os dois signos seguintes, Carneiro e Escorpião. Vênus rege Touro e Balança, e Mercúrio rege Gêmeos e Virgem.

Ao contrário do que geralmente se afirma, as regências não são atribuídas com base em afinidades entre planetas e signos.

Note-se que neste esquema Vênus e Mercúrio mantêm em relação aos luminares a mesma amplitude de afastamento que têm em relação ao Sol.

Como Mercúrio não se afasta do Sol mais que um signo, é-lhe atribuída a regência dos signos adjacentes aos dos luminares. Vénus rege os signos seguintes, pois o seu afastamento máximo do Sol não ultrapassa dois signos.

Tronos ou regências planetárias
Podemos então observar que o esquema de regências transporta para o Zodíaco a perfeição das esferas celestes.

A perfeita distribuição dos regentes planetários gera várias ordens de simetria e relação entre os planetas, que são essenciais para a compreensão das próprias fundações da Astrologia. Divide o Zodíaco em signos lunares (de Aquário a Caranguejo) e signos solares (de Leão a Capricórnio).

Signos solares e signos lunares
Também atribui a cada planeta uma regência diurna, num signo masculino, e uma regência noturna, num signo feminino. Assim, cada planeta tem uma expressão extrovertida (diurna, masculina) e uma expressão introvertida (noturna, feminina). Por exemplo, Vénus tem a sua regência noturna em Touro, signo feminino e noturno, e a sua regência diurna em Balança, um signo masculino e diurno.

Os luminares não apresentam esta duplicidade, pois são eles que definem o próprio conceito de dia e noite; além disso podem ser considerados um par.

Regentes diurnos e noturnos

Júbilo por signo

Nalgumas regências a natureza do planeta é temperada pela natureza do próprio signo; quando isto acontece, diz-se que o planeta está em júbilo.

Júpiter, em planeta masculino e diurno, tem o seu júbilo em Sagitário, signo igualmente masculino e diurno. Vênus, feminino e noturno, tem júbilo em Touro, que partilha a mesma natureza. Mercúrio, que é essencialmente Seco, tem júbilo no signo Frio e Seco de Virgem.

Esta ação moderadora tanto se manifesta por reforço (casos anteriores), como por contraposição (caso dos planetas maléficos).

Marte, que é noturno, torna-se mais construtivo em Escorpião, também noturno, mas cujas qualidades de Frio e Úmido temperam a natureza excessivamente Quente e Seca do planeta. Saturno, sendo diurno, fica mais equilibrado no signo diurno de Aquário, onde a sua natureza excessivamente Fria e Seca é temperada pelas qualidades Quente e Úmido do signo.

Nota: o júbilo por signo não deve ser confundido com o júbilo por Casa, que será abordado mais adiante.

Signos de júbilo dos planetas


Exílio ou detrimento

Quando o planeta está no signo oposto ao da sua regência diz-se que está em exílio ou detrimento. Este é o estado oposto ao trono. Nesta situação a expressão do planeta encontra-se debilitada. A sua atuação torna-se insegura e pouco direta. Como tem dificuldade em expressar-se, a sua natureza é enfraquecida e distorcida. Quando em exílio, as qualidades naturais dos planetas transformam-se nos defeitos correspondentes (que nada mais são afinal que uma deturpação das qualidades).

Assim, a seriedade e cautela de Saturno transformam-se em melancolia e avareza; a generosidade e otimismo de Júpiter tornam-se esbanjamento e descuido; a ousadia e assertividade de Marte manifestam-se como covardia e agressividade; a natural autoridade do Sol torna-se arrogante; a sensualidade e sociabilidade de Vênus pendem para a luxúria e a leviandade; a curiosidade e engenho de Mercúrio expressam-se como intriga e trapaça; a adaptabilidade da Lua resvala para a inércia e preguiça.

Se o planeta em exílio representar um objecto, sugere algo em mau estado, pouco valioso e possivelmente estragado.

Alguns autores utilizam para esta debilidade as designações de desterro ou inveja.

Exílios dos planetas


Exaltação

Os regentes de cada signo podem ter em alguns casos um planeta segundo-em-comando, que com eles partilha as funções de governação do "reino". A este segundo estado de dignidade é dado o nome de exaltação. O termo exaltação vem do latim exalto e significa pôr ao alto, elevar, honrar. Podemos comparar a exaltação ao cargo de primeiro-ministro: é um dignitário com muitas honras e poder, mas cuja atuação continua a depender da aprovação do rei.

Um planeta exaltado encontra-se num estado de grande força. Podemos até considerar que expressa a sua natureza com uma intensidade maior do que no estado de trono. No entanto, a expressão de um planeta exaltado é mais inconstante, passando por altos e baixos.

Cada planeta tem a sua exaltação apenas num signo.

Exaltações dos planetas

Numa interpretação astrológica considera-se que um planeta exaltado indica simultaneamente valor e exuberância. Se o planeta representar um indivíduo, sugere alguém respeitado e bem-intencionado mas com tendência ao exagero e até à arrogância. Um objecto representado por um planeta exaltado estará em bom estado, mas poderá parecer mais valioso do que na realidade é.

Alguns autores utilizam para esta dignidade a designação de honra.


Queda

À exaltação corresponde uma debilidade denominada queda, que ocorre no signo oposto.

Tal como na situação de exílio, um planeta em queda tem dificuldade em expressar a sua natureza. Na queda essa dificuldade é caracterizada por instabilidade na expressão. O planeta torna-se "trapalhão", a sua ação é desadequada, fora de contexto.

Alguns autores utilizam para esta debilidade as designações de depressão ou vergonha.

Quedas dos planetas

Como se atribuem as exaltações e quedas dos planetas

Mais uma vez, a explicação das posições de exaltação tem como base um pensamento "agrícola", baseado na dinâmica da natureza. A exaltação está ligada ao nível de fertilidade do planeta e à sua afinidade com uma determinada estação do ano.

O Sol tem exaltação no Carneiro, pois quando entra neste signo inicia-se a Primavera, os dias tornam-se maiores e o calor aumenta. Além disso, a sua natureza Quente e Seca é idêntica à de Carneiro e à de Marte, seu regente. A sua queda dá-se em Balança, signo que marca a diminuição de luz e a entrada do Outono.

A Lua exalta-se no Touro, signo feminino e primaveril, adjacente ao Carneiro, signo de exaltação do Sol. Qual rainha dos céus, fica posicionada ao lado do seu rei. Além disso, se o Sol estivesse em Carneiro, a Lua ao sair dos seus raios seria visível pela primeira vez em Touro. Escorpião, oposto a Touro, é o signo da sua queda.

Saturno tem a sua exaltação em Balança, signo oposto à exaltação do Sol, mantendo assim em relação ao astro-rei a mesma posição que tem nas regências. A Balança marca o início do Outono, estação em que o frio começa a aumentar e os dias a diminuir; torna-se assim o signo ideal para a exaltação do planeta mais Frio, Saturno. Pela mesma ordem de ideias, a sua queda é em Carneiro, o primeiro signo da Primavera.

Júpiter, planeta da fertilidade e abundância, tem a sua exaltação em Caranguejo, signo do Verão e do amadurecimento das colheitas. A sua queda dá-se em Capricórnio.

Marte tem a sua exaltação em Capricórnio onde o seu calor extremo fica temperado pela frieza do Inverno. A sua queda ocorre em Caranguejo.

Vénus, planeta feminino e Úmido, exalta-se em Peixes, signo de umidade, que prepara a fertilidade da Primavera. A sua queda dá-se em Virgem, signo em que marca a passagem para o Outono e o domínio do Seco.

Mercúrio, de natureza Seca, tem exaltação em Virgem, signo Frio e Seco (do qual também é regente), e queda em Peixes, signo Frio e Úmido.


Os graus de exaltação

Os autores da tradição assinalam também graus específicos para a exaltação dos planetas. Assim, o Sol teria a sua exaltação no grau 19 de Carneiro, a Lua no grau 3 de Touro, Júpiter no grau 15 de Caranguejo, Mercúrio no grau 15 de Virgem, Saturno no grau 21 de Balança, Marte no grau 28 de Capricórnio e Vénus no grau 27 de Peixes. A queda ocorre no mesmo grau do signo oposto.

Em termos práticos, a exaltação é considerada em toda a extensão do signo. Estes graus parecem indicar apenas os pontos de maior força. Alguns investigadores pensam tratar-se de posicionamentos simbólicos ou o que resta de um sistema de posicionamentos astronômicos de grande importância para os antigos.


Dignidades Secundárias

O trono, a exaltação, o exílio e a queda são as dignidades e debilidades fundamentais (também chamadas "completas") do sistema astrológico. É possível fazer a interpretação básica de um horóscopo contando apenas com estes quatro fatores de pesagem.

No entanto, o sistema de debilidades é mais complexo. Para além da regência e exaltação existem ainda mais três níveis de dignidade: a triplicidade, o termo e a face. Estas dignidades adicionais para além de terem aplicações técnicas específicas permitem uma melhor avaliação do potencial de expressão de cada planeta nos vários graus do Zodíaco. Utilizando o sistema completo podemos compreender como, em determinados horóscopos, planetas aparentemente debilitados conseguem ter uma expressão mais coerente com a sua natureza.

Refira-se ainda que, ao contrário do trono e da exaltação, as triplicidades, termos e faces não têm uma debilidade complementar. Por esse motivo são também designadas por dignidades incompletas.


Triplicidades

As triplicidades são dignidades atribuídas de acordo com o elemento de cada signo. A cada elemento são atribuídos três planetas: um chamado diurno, outro noturno e ainda um terceiro, chamado participante ou comum. Estes três planetas são comuns aos signos do mesmo elemento.

O elemento Fogo tem como triplicidade diurna o Sol; a sua triplicidade noturna é Júpiter e Saturno é a triplicidade participante.

O Ar tem Saturno como triplicidade diurna, Mercúrio como triplicidade noturna e Júpiter como participante.

No elemento Terra a triplicidade diurna é Vênus, a noturna a Lua e o participante é Marte.

A Água tem também Vênus como triplicidade diurna, mas Marte é a triplicidade noturna e a Lua é participante.

Como se pode constatar, a atribuição das triplicidades a cada elemento segue a facção dos planetas: aos elementos diurnos são atribuídos planetas diurnos, e aos noturnos planetas noturnos.

Tabela das triplicidades
Na prática, um planeta em triplicidade está literalmente "em família" pois encontra-se num elemento da sua facção. Não está no seu reino (como na regência), nem é primeiro-ministro (como na exaltação), mas faz parte da "família real" e goza, portanto, de algum poder. Também se considera que um planeta em triplicidade está "entre amigos".

Alguns autores afirmam que num mapa diurno a triplicidade diurna será mais forte, e que a noturna terá maior impacto num mapa noturno. A triplicidade participante terá sempre uma força moderada. De qualquer modo, um planeta posicionado num signo em que possua triplicidade está em estado de dignidade, independentemente do mapa ser noturno ou diurno.

Os regentes das triplicidades são geralmente considerados em sequência, recebendo a denominação de primeira, segunda e terceira triplicidade. Esta sequência depende se o mapa é diurno ou noturno (recordamos que nos mapas diurnos o Sol está acima do horizonte, estando abaixo deste nos noturnos). Nos diurnos, dá-se precedência à triplicidade diurna, seguida da noturna e da participante; nos noturnos, a precedência vai para a triplicidade noturna, seguindo-se a diurna e a participante.

Sequência diurna:

Triplicidades: sequência diurna
Sequência noturna:

Triplicidades: sequência noturna

Em técnicas muito particulares de interpretação, as triplicidades indicam sequências temporais. É nestes casos que as sequências diurnas e noturnas se tornam mais relevantes, pois a ordem dos planetas é determinante.


Variações na atribuição das triplicidades

O conjunto de triplicidades que apresentamos neste livro é o mais comum e aceite entre os autores tradicionais. Tem atualmente a designação de "Triplicidades de Dorotheus", não porque este autor as tenha criado, mas por ser a fonte mais antiga que as referencia.

Na Renascença deu-se uma grande reformulação da teoria astrológica, tendo por base os ensinamentos ptolemaicos. Em consequência, as triplicidades "de Dorotheus" foram gradualmente substituídas por versões baseadas no texto de Ptolomeu. Este autor altera os planetas participantes em Fogo, substituindo Saturno por Marte, e em Terra, substituindo Marte por Saturno. Ptolomeu altera também as triplicidades da Água, atribuindo a sequência: Vénus, Lua, Marte.

Uma das variantes mais divulgadas atualmente é da escola inglesa, da qual são representantes conhecidos autores como William Lilly. Esta linha usa apenas as triplicidades diurnas nos mapas diurnos e as noturnas nos mapas noturnos. As sequências são iguais às de Dorotheus, mas o planeta participante é abandonado. A única excepção ocorre no elemento Água, em que Marte (regente noturno da Água para Dorotheus) é considerado simultaneamente regente de triplicidades diurna e noturna.



Termos

Os termos são divisões dos signos em cinco partes desiguais. A cada parte (ou termo) é atribuída a regência de um dos cinco planetas tradicionais: Júpiter, Vénus, Mercúrio, Marte e Saturno. A Lua e o Sol não regem termos.

A maior peculiaridade dos termos é a sua irregularidade. Cada divisão incorpora partes desiguais do mesmo signo e cada signo é dividido de forma diferente; além disso, também a sequência dos regentes difere de signo para signo, ou seja, não há dois signos iguais no que diz respeito aos termos. Por exemplo, no signo de Carneiro a primeira divisão tem 6°; a segunda, 6°; a terceira, 8°; e a quarta e a quinta, 5°. No signo seguinte, Touro, as divisões têm respectivamente, 8°, 6°, 8°, 5° e 3°.

Também a sequência de planetas é completamente diferente nestes dois signos. No Carneiro o primeiro termo é de Júpiter, o segundo de Vénus, o terceiro de Mercúrio, o quarto de Marte e o último de Saturno. Quanto ao Touro, a sequência dos regentes dos termos é a seguinte: Vénus, Júpiter, Mercúrio, Saturno e Marte.

A razão destas atribuições perdeu-se no tempo. Os autores mais antigos, nomeadamente Ptolomeu, sugerem que a distribuição dos planetas depende do nível de dignidade que cada um tem no signo, dando prioridade ora à regência, ora à exaltação, ora à triplicidade. Marte e Saturno, por serem maléficos, tendem a reger os dois últimos termos, enquanto os benéficos, Júpiter e Vênus, são preferencialmente colocados nos termos iniciais.

Os termos mais utilizado pelos autores são os "termos egípcios". São estes os que adotamos ao longo do livro e que utilizamos na nossa prática astrológica. Esta sequência aparece nos autores mais antigos e mantém-se coerente ao longo dos milênios.

Tabela dos termos egípcios
Podemos comparar o termo de um planeta ao seu "feudo" dentro do signo. Um planeta no seu próprio termo está no seu território privado, mesmo que o signo onde se encontra não lhe seja particularmente favorável. Pode, portanto, agir de acordo com as suas próprias regras (literalmente, "nos seus termos").

O termo tem também algum efeito sobre a qualidade de expressão dos planetas. Por exemplo, um planeta num termo de Saturno terá uma expressão mais ponderada e reservada, enquanto um planeta num termo de Júpiter terá uma expressão mais jovial.

Alguns autores utilizam para esta dignidade as designações de limites, fronteiras ou fins.


Variações na atribuição dos termos

Existem outras variantes dos termos que também vale a pena referenciar. A mais importante é a tabela dos termos ptolemaicos. Esta versão dos termos é sugerida e adotada por Ptolomeu na sua obra Tetrabiblos. É também mencionada nas fontes medievais, mas o seu uso parece ter sido muito pontual. Durante a Renascença a obra de Ptolomeu começou a impor-se como fonte e a sua tabela popularizou-se. No entanto, foram apresentadas várias versões dos termos de Ptolomeu, com variações significativas (muitas das quais são meros erros de cópia). Na atualidade estão em uso duas versões destas tabelas, que podem ser consultadas no Anexo 3 — Dignidades Menores, Graus Zodiacais e Tabelas Adicionais.

Ptolomeu referencia ainda uma terceira tabela, que denomina de Termos Caldeus, mas que não está representada em mais nenhuma obra da época. Não são conhecidos exemplos da sua utilização.


Faces

As faces ou decanatos são divisões regulares de 10° cada; como um signo tem 30°, há três faces em cada signo.

A cada face é atribuído um planeta regente, segundo a ordem caldaica. À primeira face de Carneiro atribui-se a regência de Marte, o planeta regente de Carneiro; seguem-se, ainda neste signo, as faces do Sol e a de Vénus. O planeta seguinte na ordem caldaica, Mercúrio, é atribuído à primeira face de Touro; seguindo-se a Lua e Saturno. Júpiter, o planeta seguinte na sequência, é atribuído à primeira face de Gémeos, seguindo-se Marte e o Sol. A ordem caldaica mantém-se ao longo de todo o Zodíaco.

As faces

As faces são dignidades relativamente mais fracas, pois apenas reforçam ligeiramente a natureza do planeta. Para além de fazer parte do sistema de pesagem de dignidades e debilidades essenciais (como veremos adiante), são aplicadas em sistemas interpretativos específicos, nos quais servem para particularizar "diferenças comportamentais" dentro dos signos. Nesta perspectiva são utilizadas na interpretação detalhada do Ascendente e do Sol.


Variações na atribuição das faces

No que diz respeito à tradição astrológica ocidental, não se conhecem variações na atribuição dos planetas às faces. Contudo, está atualmente muito divulgada no Ocidente uma variante baseada no sistema astrológico hindu de decanatos, que é muito diferente das faces ocidentais.

No sistema hindu, a distribuição dos planetas tem por base os elementos e as regências dos signos. O primeiro decanato de um signo é atribuído ao regente do próprio signo, o segundo ao regente do signo seguinte do mesmo elemento e o terceiro ao regente do outro signo do mesmo elemento.

Por exemplo, para o signo de Capricórnio, o primeiro decanato corresponde a Saturno (regente do próprio Capricórnio), o segundo a Vênus  (regente de Touro, o signo de Terra seguinte) e o terceiro a Mercúrio (regente de Virgem, o restante signo de Terra).

Apesar de interessante, este sistema faz parte de outra tradição e não deve ser misturado com o sistema da tradição ocidental. A sua inserção na Astrologia ocidental é consequência da grande moda de "importações orientais" do final do século XIX e foi feita por autores que desconheciam as regras fundamentais da Astrologia.

Por vezes são referenciados na literatura astrológica outros sistemas de decanatos, baseados em misturas ou derivações do tradicional e do hindu, mas cuja validade e origem é questionável, pelo que não serão abordados na obra.


Existem outros tipos de dignidade que surgem de divisões ainda menores do Zodíaco ou da atribuição de qualidades a determinados graus. Como estas dignidades não têm uma aplicação tão generalizada, não as discutiremos neste capítulo. Alguns destes sistemas serão referidos no Anexo 3 — Dignidades Menores, Graus Zodiacais e Tabelas Adicionais.



Helena Avelar e Luis Ribeiro, in Tratado das Esferas. Editora Pergaminho. Cascais, Portugal, 2007.

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