terça-feira, 27 de junho de 2017

A Recepção, por Clélia Romano

Chamamos recepção o que ocorre quando um planeta se aplica a outro planeta que rege o signo ou uma das dignidades essenciais onde o primeiro se encontra, isto é quando o planeta mais rápido que se aplica ao mais lento está na casa onde o mais lento tem sua regência ou exaltação ou duas de suas dignidades menores.

Por exemplo, digamos que a Lua em Câncer faz um sextil a Júpiter em Touro. Júpiter está no signo onde a Lua tem sua exaltação e a Lua está no signo onde Júpiter tem sua exaltação: neste caso há mútua recepção por exaltação.

A recepção fortalece os aspectos e os torna efetivos.

Quanto à quadratura e oposição a recepção tem a capacidade de afastar totalmente a malícia do aspecto, embora que especialmente na oposição o traço de contrariedade sempre permaneça.

Suponhamos que Marte esteja a 9° de Capricórnio e Saturno a 9° de Aries. Trata-se de urna quadratura e a mesma trará certa fricção, mas Saturno é o dono do signo em que Marte está. Em outras palavras Marte está na casa de Saturno. E o oposto também acontece.

Simbolicamente, o que ocorre nas relações sociais ocorre também entre os planetas: o dono da casa quando recebe um convidado dá o melhor a ele, e o convidado procura não abusar e portar-se com certa cerimônia.

No caso do exemplo, Saturno está na casa de Marte e Marte o recebe. Logo Marte dá o melhor de si a Saturno e este corresponde a Marte na mesma quantidade.

Esta recepção mútua é uma dinâmica muito importante, pois a quadratura transforma-se praticamente em uma amizade.

Os planetas podem se receber por domicílio, exaltação, triplicidade, termo e face.

Quando estão ocupando o lugar de queda ou detrimento de outro planeta dizemos que não há recepção alguma, mesmo que haja aspecto: um trígono e um sextil, embora aspectos de amizade não são de grande valia sem recepção.

Basta um só planeta receber o outro que algum tipo de acordo se estabelece, desde que o seja por domicílio ou exaltação ou então por duas dignidades menores. Por exemplo, se o Sol estivesse em Áries, Marte receberia o Sol, mas o Sol não receberia Marte em Capricórnio, pois Capricórnio não é um signo onde o Sol tenha alguma dignidade. Neste caso dizemos que há uma recepção simples.


Veremos novamente o mapa de exemplo:


Observem que o Sol e a Lua não fazem aspecto, mas há entre eles uma relação cordial, chamada pelos Árabes de generosidade, visto que a Lua está na casa do Sol e vice-versa. Ocorre que se um planeta não vê o outro (não faz aspecto), essa recepção não tem como ser operativa a menos que um terceiro planeta interferira e seja um elemento de ligação entre os dois ou que os primeiros planetas estejam conjuntos por antiscio.

Nesta carta, por signos completos, Júpiter faz aspecto com o Sol e a Lua, nomeadamente uma quadratura com o Sol e um sextil com a Lua. Júpiter está coletando a luz de ambos segundo o que será explicado mais adiante.

Continuando, Saturno e Júpiter fazem aspecto: há uma quadratura com forte recepção mútua por exaltação.

Observe o esquema a seguir:


Júpiter é o regente do Ascendente e está razoavelmente forte: em nossa tabela de almuten ele é o planeta mais forte da carta com 9 pontos.

Aprofundando a relação entre Júpiter e Saturno na presente figura vemos que Júpiter em Libra não faz aspecto com o Ascendente em Peixes, mas Saturno faz um trígono com o ASC e se encarrega de servir de intermediário entre ambos.

Ora, Júpiter rege a Casa 10, a profissão e está na Casa 8, o dinheiro e os recursos da parceria. Este nativo tende a trabalhar com recursos de parceiros, esposas, amantes, usando tais recursos para exercer a profissão. Como Júpiter e Saturno estão em recepção mútua, há a colaboração dos amigos para que o nativo se realize em suas motivações pessoais, visto que Júpiter rege o ASC e Saturno está conjunto ao ASC por antiscio e o aspecta por trígono. Saturno rege a Casa 11, o suporte profissional. No entanto, dada a debilidade de Saturno o que é construído não tem durabilidade.

Examinando a situação de Júpiter, vemos que ele recebe um sextil de Vênus e da Lua. Em relação à Vênus é um sextil poderoso, pois há recepção mútua, mista: Vênus recebe Júpiter por domicílio e Júpiter recebe Vênus por triplicidade e face. Já com a Lua, Júpiter a recebe por triplicidade e face, mas a Lua não recebe Júpiter.

Vênus não é mais peregrina, pois é recebida por Júpiter que lhe confere sua própria disposição. Nem a Lua o é, pois Júpiter a recebe por triplicidade e face. A recepção agrega valor a um planeta, mas tão somente se o planeta que confere a dignidade tem algo a contribuir, isto é não esteja debilitado.

Vênus e Lua estão conjuntas e representam universalmente figuras femininas: Vênus, a sensualidade e Lua, a proteção.

Vênus rege a Casa 8 e a Casa 3 : o dinheiro da parceria e as comunicações. A Lua rege a Casa 5, os filhos, o divertimento e o sexo.

Ora, a profissão (Júpiter) e o nativo (também regido por Júpiter) estão poderosamente ligados à comunicação, sexo, divertimento, dinheiro dos outros e mulheres.

Tudo isso está extraordinariamente beneficiado por causa da recepção, uma vez que Vênus e Lua estão cadentes e sem dignidade essencial por si mesmas, mas recebem qualidade e força de Júpiter, que está em sua triplicidade e em casa proveitosa, sucedente.

Efetivamente, a profissão que o nativo desempenhou durante seu "prime" e que o tornou rico por uma fase da vida relacionava-se a emprestar dinheiro de uma grande organização financeira a terceiros. Ele atuava comercialmente e era encarregado da propaganda e marketing (comunicação) e do setor de relações públicas e vendas. Havia muita mistura de divertimento e mulheres no meio em que trabalhava, mulheres essas representadas pela Casa 6, isto é secretárias pessoais e das empresas com as quais tinha contato.

Isto durou por certo tempo de sua vida, visto que Saturno em mal estado zodiacal e regente da Parte da Fortuna, entrava na configuração com Júpiter.

Resumindo, quando um planeta está em aspecto com o regente do seu signo por uma das grandes dignidades ou por duas dignidades menores tais como triplicidade, termo ou face, o governante da dignidade eleva este planeta.

Percebe-se que delinear uma carta é um trabalho de paciência e calma: é como tecer urna veste a partir de um fio.

É impossível ao astrólogo Tradicional olhar uma carta e sair com as respostas na mesma hora. A carta é o desenho de uma vida ou de um fato, conta uma história que pode ter dezenas, centenas ou milhares de anos.

Astrólogos são leitores de sinais, e precisam se devotar à esfinge que a figura representa sem pressa ou ansiedade, ler a carta, colocando um passo após o outro.

Não se impressione quem ficar inicialmente perdido e incapaz de dizer algo. Este é um bom sinal: mostra que a pessoa está se tornando um astrólogo Tradicional. Desconfie de respostas fáceis. Por vezes elas ocorrem, mas são o resultado de anos de experiência.

A linguagem dos planetas e suas relações, corno vimos, são simbólicas e os símbolos têm a característica de ser a condensação de múltiplos significados.

Precisamos verificar as recepções, os dispositores de cada planeta e em que casa e signo estão posicionados, se estão fracos ou fortes, benéficos ou maléficos, em casas proveitosas ou fracas, até que se comece a formar um padrão.

O resultado é que se estuda muito para dizer pouco. Mas o que é dito, costuma ser o essencial, significativo e por vezes até impressionante.


Quem seguir o fio verá.



Clélia Romano, in Fundamentos da Astrologia Tradicional, Edição do Autor, 2011.

O livro pode ser adquirido aqui: http://www.astrologiahumana.com/