sexta-feira, 3 de junho de 2011

Saturno através das casas, por Stephen Arroyo (3)

... continuação de Saturno através das casas, por Stephen Arroyo (1)
Saturno através das casas, por Stephen Arroyo (2)...


CASA VII - Tal como o trânsito de Saturno por qualquer outra casa, esta posição pode manifestar-se simultaneamente a diversos níveis. Alguns dos meus clientes começaram a fazer sociedades neste período que, regra geral, se consolidaram financeiramente quando Saturno entrou na VIII casa. Todas as relações são levadas mais a sério e a pessoa começa, muitas vezes, a assumir maior responsabilidade na manutenção de determinada relação. O ponto focal da atenção na maior parte dos casos parece ser, contudo, o das relações fundamentais pessoais ou o do casamento. Quando Saturno cruza o descendente e começa o seu semiciclo acima do horizonte, compreendemos as nossas necessidades de relação com os outros, as nossas limitações e os nossos deveres; este período assinala também a entrada do indivíduo numa fase mais florescente de participação pública e social. Se uma pessoa tem por garantida uma relação importante ou sente que determinada relação não está a satisfazer as suas necessidades, é esta a altura para enfrentar realisticamente a situação. (O trânsito de Saturno por Vénus natal é semelhante.) Saturno devolve-nos à realidade das áreas de vida indicadas pela sua posição e devemos tentar estabelecer uma perspectiva sólida bem definida das relações que têm um forte impacte em todo o nosso estilo de vida e na nossa identidade. (Repare-se que quando Saturno transita em conjunção com o descendente está, ao mesmo tempo, em oposição com o Ascendente.) Se se espera demasiado de uma relação ou do casamento, se se sente que ela é impraticável do modo que para nós é importante, é altura de enfrentar os factos com objectividade e isenção. Nesta fase, desenvolve-se, muitas vezes, uma certa frieza e reserva nas atitudes e no comportamento nas relações íntimas, e o nosso companheiro pode interrogar-se sobre os motivos que parecem levar-nos a abandonar o estilo habitual de relacionação. Se se puder explicar que estamos apenas a distanciar-nos um pouco do outro por algum tempo, a fim de adquirirmos uma perspectiva mais clara da relação e da medida em que queremos participar nela, o companheiro, pelo menos, não imaginará coisas piores do' que a situação real. Não há dúvida de que este período pode ser um teste para muitos casamentos e relações íntimas, mas o stress que arrasta consigo depende da qualidade e do nível de autenticidade que tenha caracterizado essas relações no passado.

Na minha experiência, em contraste com algumas afirmações astrológicas tradicionais, o divórcio não é mais comum neste período do que durante aquele em que Júpiter transita pela VII casa; parece, até, menos comum do que neste último período, visto que o trânsito de Júpiter assinala uma época em que uma pessoa procura florescer e expandir os limites das suas relações. Mas o trânsito de Saturno através da VII casa é um período de decisões e empenhamentos (ou reempenhamentos) no âmbito das relações e talvez que o mais importante nesta fase seja a capacidade que se adquire para ver mais objetivamente o nosso companheiro como uma pessoa totalmente diferente de nós, mais do que como apêndice ou apenas um objecto ao qual dirigimos as nossas projeções. Em resumo, se determinada relação for suficientemente saudável e flexível para que possamos sentir na íntegra a nossa identidade e relacionarmo-nos com os outros e com a sociedade em plena consciência, então ela é, decerto, praticável. Eis o que compreenderemos durante este período, embora essa compreensão possa surgir somente depois de alguns severos testes de qualidade da relação. De outro modo, devemos redefinir nesta fase a própria relação e a perspectiva que dela temos, e tomar decisões sobre a energia que devemos utilizar para a tornar praticável.

CASA VIII - Este período pode acentuar uma destas dimensões de vida ou todas elas: financeira, sexual-emocional, psicológica ou espiritual. Como a VIII casa está associada a Plutão e a Escorpião, este período é particularmente importante como tempo de acabar com velhos padrões de vida e embora abandonando algum intenso desejo ou ligação — de experimentar uma espécie de renascimento no final. A necessidade de disciplinar os desejos e de estruturar as ligações emocionais torna-se clara, quer através de circunstâncias que nos impelem a enfrentar certos factos pela pressão da frustração, quer pela compreensão íntima das ramificações últimas dos nossos desejos e do modo como usamos todas as formas de poder — financeiro, sexual, emocional, oculto e espiritual. Muitas pessoas sentem este período como um tempo de profundo sofrimento, cuja causa é difícil identificar. Algumas comparam-no a uma travessia do Inferno ou do Purgatório, na qual os seus desejos e ligações se refinam e a sua consciência das energias mais profundas da vida é despertada. Trata-se, em resumo, de um período para enfrentar os ultimatos da vida, as experiências medulares tantas vezes ignoradas e desprezadas. Muitos indivíduos parecem preocupar-se com as realidades essenciais da vida da alma, do Além e da morte. É um tempo para enfrentar o facto inexorável da morte com mais realismo — e a consciência da inevitabilidade da morte leva, muitas vezes, as pessoas a dedicarem-se à expressão das suas últimas vontades, fazendo testamentos e dispondo dos seus bens. Neste período, são também frequentes outras reorganizações financeiras, mas, regra geral, o indivíduo procura proteger-se e estabelecer um certo tipo de «segurança da alma» ao mais profundo nível possível.

Trata-se igualmente de uma fase em que se compreende a importância da vida sexual e das implicações do modo como as energias sexuais têm sido canalizadas. Em alguns casos, é um período de frustração sexual, forçando a pessoa a tornar-se mais reservada e disciplinada; noutros casos, o indivíduo agirá conscientemente, de modo a cortar com determinados escapes ou atividades sexuais anteriormente importantes, compreendendo o valor de conter a força sexual dentro de si próprio, a não ser que ela seja usada com um propósito construtivo e curativo. É também um tempo em que muitas pessoas se absorvem em estudos de ocultismo, práticas espirituais e em vários tipos de investigação. Parece-me que uma das chaves para este período pode obter-se entendendo que a VIII casa é a XII a contar da IX: por outras palavras, o trânsito de Saturno por esta casa traz à superfície os resultados dos nossos esforços para viver os nossos ideais e crenças. Isto manifesta-se então como transformação — quer agradável, quer dolorosa, por causa do sofrimento exigido para a redefinição dos ideais de vida.

CASA IX - O trânsito de Saturno pela IX casa é, em primeiro lugar, um período de assimilação das experiências de muitos anos e da sua relacionação com algum ideal, alguma filosofia ou algum regime de automelhoramentos significativos. É vulgar as pessoas encetarem um processo estruturado de obtenção de maiores conhecimentos, quer através de viagens, de frequência escolar, de assistência a conferências ou serviços religiosos, ou apenas mediante o estudo individual concentrado. Conheço casos em que a pessoa combinava mais do que uma destas possibilidades, por exemplo, frequentando uma escola num país estrangeiro. Basicamente, trata-se de um período para investigar e definir as nossas crenças últimas, tendência que nos pode levar a estudos filosóficos, religiosos ou metafísicos, ou a teorias jurídicas ou sociais. As nossas crenças precisam de ser definidas durante esta fase porque nos servirão depois como ideais para guiar a nossa vida e iluminar o nosso rumo.

Trata-se, em resumo, de um período em que a maior parte das pessoas sente uma forte ânsia de se aperfeiçoar. Para alguns, isto significa que deverão adequar a sua vida a um ideal mais elevado; para outros, que sentem a necessidade de viajar pelo mundo ou de estudar diversos temas, a fim de atingirem uma perspectiva mais ampla sobre a existência. Para outros, ainda, particularmente aqueles que tendem a aceitar noções socialmente definidas do que significa o aperfeiçoamento próprio, é um período em que começam ou, pelo menos, se empenham mais profundamente em determinado curso escolar. É uma fase excelente para a aplicação séria das energias mentais e é vulgar que durante ela as ambições relacionadas com a influência sobre os outros, através do ensino oral ou escrito, se consolidem de maneira definida. Deve notar-se também que a IX casa é a XII a contar da X; por isso, representa os resultados do modo como trabalhamos em ordem a realizar as nossas ambições, o que se manifesta como impaciência ou insatisfação, ou como a compreensão simples de que precisamos de trabalhar mais, agora, para exprimir o conhecimento que obtivemos de realizações passadas ou de atividades vocacionais. Este período constitui também uma preparação para a fase seguinte da X casa, no sentido em que as ambições que procuramos realizar dependerão, em grande parte, dos ideais a que agora aderirmos.

CASA X — O trânsito de Saturno pelo Meio do Céu e a sua entrada na X casa trarão, regra geral, para o primeiro plano, uma séria preocupação com as ambições, as esperanças de atingir algo ha carreira, o papel na sociedade e a autoridade que se possui, e a estrutura do trabalho específico através do qual tentamos atingir os nossos objetivos. Por vezes, pode ser sentido como um período de frustração nessas áreas de vida ou como um período de ansiedade, quando estamos sobrecarregados com deveres que nos desagradam, nomeadamente no caso em que a carreira ou estrutura vocacional que construímos é demasiado opressiva ou não é suficientemente realista para satisfazer a nossa verdadeira natureza. Contrariamente àquilo que algumas tradições astrológicas nos levariam a crer, esta fase não indica necessariamente que as nossas ambições vão ser contrariadas; mostra apenas que é tempo de trabalharmos mais na definição do seu alcance e significado. Na verdade, algumas pessoas experimentam uma culminação muito positiva dos seus objetivos de carreira neste período,- com reconhecimento social e realização consideráveis. Isto, contudo, não me parece acontecer — digo-o pela experiência que tenho — com tão grande regularidade como as teorias de Lewi indiciam, embora seja comum. É também um período para obter uma perspectiva isenta daquilo que realmente fizemos, diferente da nossa reputação (que é, muitas vezes incorreta) ou daquilo que pensamos que fizemos. Se virmos a X casa como a XII a contar da XI, podemos ainda deduzir que esta fase mostra os resultados (XII casa) nas nossas associações, objetivos e sentido individual (XI casa). Se a carreira ou estrutura vocacional parece frustrante nesta fase, isso provém, geralmente, do facto de não termos incorporado nela suficientemente os nossos objetivos e os nossos ideais pessoais socialmente válidos. Mas podemos começar a fazer isso quando Saturno entrar na XI casa.

CASA XI - O significado da XI casa raramente é esclarecido na maior parte dos textos astrológicos e as palavras-chave dadas para esta casa são, com frequência, vagas e confusas. Parece-me, antes do mais, que esta casa simboliza o nosso sentido individual, isto é, o modo como vemos a nossa função na sociedade e como nos queremos desenvolver no futuro a um nível pessoal. Esta casa é provavelmente aquela que está mais virada para o futuro, e as pessoas que têm nela o Sol ou outros planetas importantes tendem a preocupar-se muito com o futuro, quer quanto ao que desejam tornar-se, quer quanto ao modo como a sociedade se desenvolve e àquilo a que irá chegar.

Por isso, o trânsito de Saturno por esta casa indica um período em que compreendemos o que fizemos, o que não fizemos e aquilo que devemos fazer, especialmente em relação aos outros ou à sociedade como um todo. É uma fase para descobrir o que estamos a dar aos outros, agora que dispomos de um lugar na sociedade (X casa). É um período em que é importante pensar nos nossos objetivos; não tanto em objetivos de carreira, mas nos objetivos pessoais, aquilo que queremos ser, que papel sentimos que nos é mais adequado na comunidade dos seres humanos. É um período para definir os nossos desejos e esperanças íntimos, o sentido do que desejamos para nós próprios em relação com as necessidades dos outros. É, por isso, um tempo de assumirmos mais responsabilidade no modo como nos relacionamos com as outras pessoas, preocupação esta que leva a uma atitude mais sóbria, não só para com as amizades e associações individuais, como também para com os compromissos tomados com grupos de pessoas. Em alguns casos, podemos ter necessidade de acabar com várias amizades ou associações; mas, noutros, descobriremos uma ânsia de assumir nelas mais responsabilidade. Por exemplo, uma senhora dedicou-se a organizar (Saturno) excursões para grupos de celibatários quando Saturno transitava pela sua XI casa. Como pode ver-se pela associação desta casa com o signo de Aquário, é um período para oferecer aos outros aquilo que aprendemos durante o trânsito de Saturno pelas dez casas anteriores.

CASA XII - Como afirmei no princípio deste capítulo, o trânsito de Saturno por esta casa, juntamente com o seu trânsito pela I, coincide com uma importante fase de transição na vida de toda a gente. A fase de Saturno na XII casa é um período em que defrontamos resultados de todos os pensamentos, ações, desejos e atividades que foram nossos durante o último ciclo saturnino através das outras casas. O modo pelo qual nos temos exprimido no mundo (1 casa) levou-nos inevitavelmente ao confronto com este particular tipo de karma. Se é este o primeiro trânsito de Saturno pela XII casa durante esta vida, então a fase da vida que termina com este período pode ser uma que começou numa vida passada. Mas, em qualquer caso, trata-se do fim de um velho ciclo; e, por isso, muitas vezes nos sentimos descontentes, confusos, desorientados, presos num quadro emocional e mental, à medida que as velhas estruturas começam a desmoronar-se. Por outras palavras, as ambições, valores, prioridades e crenças que em tempos deram significado e direção à nossa vida, começam a dissolver-se quando Saturno entra nesta casa; e a sensação de estarmos perdidos, de não termos base sólida em que assentemos os pés, é geralmente muito forte durante o primeiro ano desta fase, até que se consolidem novos valores e novas atitudes, mais apurados, perante a vida. Trata-se, assim, de um período para a definição dos ideais e da orientação espiritual última, e muitas pessoas ocupam-no experimentando novas perspectivas, depois de se terem libertado de velhas ligações que agora se demonstram como vazias e inertes. Trata-se, em resumo, de um período de trabalho na clarificação das dimensões transcendentes e subtis da vida que, embora sejam difíceis de exprimir, constituem a mais oculta fonte de força que nos ajuda a combater pelo desenvolvimento no meio das batalhas e dos obstáculos da vida.

A XII casa tem sido denominada casa do isolamento porque, neste período, é bastante comum um certo tipo de isolamento físico. Mas o mais comum é a pessoa, pelo menos durante a primeira metade do período, sentir-se numa prisão emocional, isolada do mundo exterior que parece distante e irreal. É um período em que nos devemos voltar para nós próprios, a fim de despertar fontes interiores de energia emocional e espiritual; e, muitas vezes, parece que se não optarmos conscientemente neste sentido surgem circunstâncias que nos levam a experimentar uma certa forma de isolamento pessoal e não nos deixarão outra escolha senão a de refletir sobre as nossas vidas de uma perspectiva distante. Mas, na maior parte dos casos que conheço, a pessoa anseia pelo isolamento, por se afastar das preocupações do mundo exterior, quer isso tome a forma da fuga para o mosteiro ou de uma simples retirada das muitas associações e atividades que dantes tinham sentido. É um período excelente para o estudo de temas espirituais, místicos ou ocultos, e muitas pessoas sentem-se também particularmente atraídas para a expressão musical, poética ou visionária, visto que aquilo que sentem não pode exprimir-se em termos lógicos ou racionais, mas somente através de imagens, vibrações e intuições. Verifica-se também, com frequência, um impulso para atividades humanitárias ou eminentemente sociais, como meio de descobrir um sentido para a vida.


Os problemas de saúde, não raros neste período, são, regra geral, de ordem psicossomática, queixas difíceis de diagnosticar que só uma terapia psicológica/espiritual resolverá. A energia física é, muitas vezes, baixa, devido ao desgaste emocional proveniente da desagregação de toda a antiga estrutura da personalidade. O velho dissolve-se, a fim de deixar espaço para o nascimento de uma nova orientação de vida, de uma nova estrutura de vida. Contudo, o mais desorientador neste período é o facto de se caracterizar pela espera, pelo sonho, pela exploração interior, tempo durante o qual o indivíduo não tem limites firmes nem uma base sólida a que se fixe. Uma pessoa espera e prepara o nascimento da nova estrutura, mas não começará a construí-la enquanto Saturno não tiver cruzado o Ascendente para entrar na I casa. No entanto, se uma pessoa extrair força interior da compreensão de que um novo EU se está a criar, a libertar-se de inúmeros estorvos, então, quando Saturno atravessa a XII casa e se aproxima do Ascendente, podemo-nos tornar cada vez mais inspirados, cada vez mais felizes.