sábado, 27 de maio de 2017

A Parte da Base e a questão do livre-arbítrio vs. destino, por Gilson Nunes

Não há consenso sobre o tema “destino X livre-arbítrio” na comunidade astrológica. Os que seguem a linha tradicional se inclinam para uma perspectiva determinista da vida: acreditam que a vida de um indivíduo já está traçada a partir do seu nascimento. O mapa astral representaria, com certa limitação, o destino do indivíduo. Já os praticantes da astrologia moderna não raramente acreditam que muito da vida está sob poder de escolha do nativo.

Este artigo tenta demonstrar, com o respaldo de algumas das partes árabes, que a astrologia tradicional já embarcava essa dicotomia entre livre-arbítrio e destino em seu seio. E mais do que isso, aceitava a presença simultânea de ambos.

As partes árabes que utilizaremos neste artigo são a Parte da Fortuna, a Parte do Espírito e a Parte da Base. Quanto a esta última, será proposta uma interpretação, visto que, na tradição, há pouca referência sobre o significado dela.

A Parte da Fortuna

A Parte da Fortuna (ASC + Lua – Sol; alguns autores invertem a fórmula, outros não) trata, dentre outras coisas, do corpo e da saúde, e de coisas que acontecem independentemente de nossa vontade. Por exemplo, não escolhemos sofrer um acidente — um infortúnio em relação ao nosso corpo. Ninguém gosta de se machucar, mas “acontece”.

Segundo Guido Bonatti, a Parte da Fortuna “[...] significada a vida, o corpo também, e sua alma; força e fortuna e substância, e sucesso. Também riqueza e da pobreza; até mesmo ouro e prata; a severidade e facilidade de coisas compradas no mercado (se é fácil ou difícil comprar coisas); mesmo louvor e boa reputação, a honra e grandeza, bom e mau, o que está presente e o que há de ser, [seja] oculto ou manifesto. E tem uma significação sobre cada assunto; no entanto, ela beneficia mais os ricos e os grandes homens que aos outros. Mas, para cada homem, também funciona de acordo com sua condição” (Bonatti on Lots; tradução livre).

A Parte do Espírito

A Parte do Espírito (ASC + Sol – Lua; alguns autores invertem a fórmula, outros não) mostra os anseios de nosso espírito, nossa vontade, as nossas aspirações. Trata, por exemplo, do nosso trabalho: o desejo de utilizar nossa vida para fazer algo útil, o anseio por um propósito.

Segundo Paulus Alexandrinus, a Parte do Espírito “acontece de ser senhor da alma, do temperamento, consciência, e todo poder; e às vezes também colabora na determinação sobre o que se faz” (Introduction to Astrology, apud Curtis Manwaring, in Signification and Philosophy of the Lots / Arabic Parts, disponível em http://www.astrology-x-files.com/x-...; tradução livre).

Fortuna X Espírito

Mas por que a Parte da Fortuna diz respeito a coisas que nos acontecem, enquanto a Parte do Espírito trata de coisas que queremos fazer?

Primeiramente, precisamos entender que estas partes são calculadas em função do Sol e da Lua. A chave para a compreensão está no fato de que o Sol, enquanto principal astro diurno, trata de coisas espirituais; já a Lua, enquanto principal astro da seita noturna, diz respeito a coisas materiais.

Essa distinção entre espiritual vs. material encontra sua origem na doutrina das seitas. Os astros da seita diurna (Sol, Júpiter e Saturno), quando posicionados nas casas de seus respectivos júbilos, se encontram no céu (hemisfério superior) do mapa. Já os planetas da seita noturna (Lua, Vênus e Marte), quando colocados nas casas em que se rejubilam, acabam na parte terrena (hemisfério inferior) do mapa, como ilustra a imagem a seguir. Tal como no conceito cristão, a parte celeste do mapa, e todos os astros nela posicionados, dirão respeito ao espírito; a parte terrena e os astros nela posicionados, representam coisas materiais e concretas. Mercúrio, com seu júbilo no ascendente, faz a comunicação entre céu e terra.




Sabendo disso, agora podemos tratar dos significados por trás das Partes da Fortuna e do Espírito. Segundo Curtis Manwaring, “simbolicamente, o ato de nascer é como se partir do Sol para a Lua; em outras palavras, o espírito [Sol] se expressa em forma material [Lua]. Portanto, a Parte de Fortuna representa o corpo físico e coisas materiais com as quais um indivíduo está equipado neste mundo, tais como dinheiro e posses. Mas quando se parte da Lua ao Sol, é como que a matéria sendo utilizada para um propósito. Isso é a chamada Parte do Espírito, e dá sinais úteis para determinar o que se faz com o que se tem, quer se trate de profissão ou hobby. Trazendo isso para a realidade, essas duas partes são muito semelhantes aos papéis que os pais desempenham, uma vez que o Sol representa o pai e a Lua a mãe [...]. Historicamente, você segue os passos de seu pai na carreira (Sol — espírito, ação e reputação), mas sua mãe cuida de suas necessidades materiais (Fortuna — saúde e prosperidade)” (Signification and Philosophy of the Lots / Arabic Parts, disponível em http://www.astrology-x-files.com/x-; tradução livre).

A Parte da Base

Primeiramente, a Parte da Base é dada pela seguinte fórmula: ASC + Fortuna – Espírito. A fórmula inverte, tendo de ser respeitada a necessidade desta parte cair no hemisfério sul do mapa (trataremos disso mais a frente).

O significado desta parte é pouco claro nas obras astrológicas. No entanto, sua fórmula nos dá a dica de que ela trata de uma relação entre a Parte da Fortuna e a Parte do Espírito. Uma relação, portanto, entre o material e o espiritual. O que nos remete ao conceito aristolélico entre substância e essência.

As coisas são entes concretos, compostos por essência e substância. Dessa relação entre essência e substância, nasce uma terceira entidade. Ou seja, temos o ente, a forma do ente, e a matéria do ente. Por exemplo, no caso do homem teríamos a essência do homem (1) dando forma a certa quantidade de matéria (2), e a forma assumida seria a do corpo de um homem (3).

Estendendo esse conceito, agora, à Parte da Base, temos que a Parte do Espírito trataria dos anseios e vontades do homem, enquanto que a Parte da Fortuna indicaria o corpo e os recursos disponíveis para concretizar essa vontade. O entrelaçamento entre as aspirações do nativo (Espírito) com o uso dos recursos disponíveis a ele (Fortuna), seria significado pela Parte da Base. Agora, porque há necessidade de que esta parte caia no hemisfério sul do mapa? Simples: se há uma integração entre corpo e espírito, essa integração é no mundo físico, terreno, e não no espiritual, no além — no céu. Ou como diria um espiritualista, estamos encarnados — o espírito está num corpo físico.

Implicações

Sabemos da existência de uma parte que diz respeito a coisas que nos acontecem independente da nossa vontade, ao corpo e aos nossos recursos materiais (Fortuna), de uma parte que representa nossas vontades, aspirações e desejos de realização (Espírito), e de uma parte que trata da integração entre estas duas coisas, ou seja, sobre o quão bem uso meus recursos e meu corpo na concretização da minha vontade e das minhas aspirações (Base). O que podemos deduzir a partir destas três partes?

Acredito que podemos intuir o seguinte: por vezes o nativo terá seus desejos e aspirações (espírito) potencializados ou frustrados pela própria fortuna. Às vezes acontecerá o inverso: porque o nativo se dispõe ou se nega a fazer aquilo que tem de fazer, a sua prosperidade ou saúde (fortuna) decai. Acredito que isso ilustra, em parte, o diálogo entre destino e livre-arbítrio, que se entrelaçam no tecer da vida. E é justamente desse diálogo entre destino e livre-arbítrio que trata a Parte da Base.

Portanto, é possível dizer que há, sim, coisas que nos acontecem independentemente do que se quer, enquanto existem também coisas que dependem, em maior ou menor grau, daquilo que se decide fazer.

Todos esses três aspectos condicionam a vida do nativo e, de acordo com a posição de cada uma destas partes, de seus respectivos dispositores e dos aspectos que fazem (além de planetas que façam aspecto ao ASC), podemos mensurar se há uma prevalência das aspirações, desejos e por isso, do livre-arbítrio (Espírito) sobre o destino e as coisas que ocorrem com o fluxo da vida (Fortuna), ou o contrário (se os acontecimentos da vida têm mais força que a vontade do nativo), e por fim, a Parte da Base parece tratar do quão bem o nativo utiliza seus recursos e os vários acontecimentos da vida em seu favor





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