quinta-feira, 13 de julho de 2017

Dignidade Acidental, por Marcos Monteiro

No capítulo 14, vimos a relação entre os planetas e os signos em que estão: o que se chama de dignidade essencial.

Ela é chamada assim porque trata de como as qualidades essenciais dos planetas vai se manifestar: se eles estão de acordo com suas qualidades mais nobres ou não.

Isso está relacionado, por assim dizer, com a natureza da ação do planeta; mas não diz nada sobre a força dessa ação.

Um exemplo simples. Marte pode significar um soldado honrado (em Áries, seu domicílio) ou um encrenqueiro violento (em Câncer, sua queda).

Essa distinção não nos informa, no entanto, se Marte consegue cumprir sua missão. O soldado vai conseguir me defender? O encrenqueiro pode me machucar?

A força da ação nos é dada pelo que chamamos de dignidade acidental, e sua contraparte, a debilidade acidental.

A palavra “acidente”, aqui, é usada no sentido aristotélico, em oposição a “essência”, e não significa necessariamente nada ruim ou inesperado. São auxílios ou aflições que não fazem parte da essência do planeta, mas que nos dizem o quanto de força para agir (ou o quanto de dificuldades para agir) o planeta tem.

Existem muitas dignidades e debilidades acidentais, porque, pela natureza das coisas, os acidentes são variados. Vamos ver rapidamente as principais.


Posição nas casas

As casas angulares, por sua natureza, são mais reais que as outras regiões do céu: assim, quanto mais próximo de um ângulo, mais real é a influência do planeta, mais forte é a sua ação.

As casa seis, oito e doze, ao contrário, são restritivas. Os planetas nelas têm menos força de ação; eles estão afligidos nelas (doenças e adversidades, morte, prisão e vícios: os significados das casas não prometem muita ajuda).

As demais, de forma geral, são neutras.

Esse efeito diminui bastante com a distância da cúspide (se o planeta estiver no meio da casa dez, tem muito menos força que um planeta próximo do meio-céu) e com estar em signo diferente da cúspide (o limite entre os signos funciona como uma barreira, um cordão de isolamento).


Cazimi

Estar cazimi, ou no coração do Sol, é uma das dignidades acidentais mais fortes que existem: estando nas graças do rei, é possível fazer qualquer coisa - exceto, é claro, ser o rei. Então, é uma dignidade que promete quase qualquer coisa, menos a posição de domínio.

Por outro lado:


Combustão

É uma das piores aflições acidentais que existem. O planeta está queimado, destruído, oculto, aniquilado - adjetivos que normalmente não acompanham ações bem sucedidas. Estar Sob os Raios do Sol é uma aflição também, mas não tão ruim.


Oposição ao Sol

Oposição próxima com o Sol (menos de 8 graus de afastamento) é quase tão ruim quanto a combustão, sem haver um oásis comparável ao cazimi.


Estrelas fixas

A conjunção próxima com estrelas fixas benéficas (especialmente as mais fortes, como Spica ou Regulus, e que tenham natureza parecida com a do planeta) é uma dignidade acidental importante.

Da mesma forma, a conjunção com estrelas fixas maléficas, como Algol ou Antares, ou que signifiquem aflição grave dentro do contexto, é uma debilidade acidental grave.


Velocidade

Aqui não estamos falando da velocidade média, nem da velocidade normal, dos planetas.

A dignidade é estar mais rápido que o normal. A Lua é sempre mais rápida do que os outros planetas, mas isso não importa. No entanto, se ela estiver bastante mais rápida do que a sua própria velocidade normal, ela está acidentalmente dignificada.

A única exceção é Saturno. Estar mais rápido que o normal não é bom para o planeta da lentidão.

Estar muito mais lento que o normal é debilitante.

Estar estacionário - parado, com velocidade zero - é uma debilidade grave.

Estar retrógrado normalmente é considerado uma aflição grave; mas isso depende muito do contexto. Se o planeta significa um filho perdido, ele estar voltando é uma coisa boa.


Júbilo

Eu mencionei essa dignidade quando falei das casas.

Todo planeta tem seu júbilo em uma das casas. É uma casa na qual o planeta se sente bem, por assim dizer, porque as atividades da casa têm alguma semelhança com as atividades que o planeta significa.

O júbilo da Lua é a casa três; a do Sol, a nove. Vênus tem seu júbilo na cinco, Júpiter na onze. O júbilo de Marte é a casa seis, o de Saturno, a doze. Mercúrio tem seu júbilo na casa um.

Estar na casa contrária ao próprio júbilo é uma aflição.


Aspectos próximos

Aspectos próximos de planetas com muita dignidade essencial são benéficos; aspectos próximos de planetas debilitados são maléficos. Oposições, de forma geral, são maléficas.

Isso, como tudo em astrologia, depende do contexto: o que os planetas envolvidos significam, o que o próprio aspecto significa, etc.


Conjunção com os Nodos

De forma geral, uma conjunção com o Nodo Norte é extremamente benéfica: é como se o planeta subisse num banquinho.

A conjunção com o Nodo Sul, ao contrário, é uma restrição grave: é como se o planeta tivesse caído num buraco.

Outros aspectos não são importantes; não há como fazer um aspecto a um dos nodos sem fazer aspecto ao outro.


Oriental e ocidental

Estes termos têm mais de um significado possível. O significado normalmente associado à dignidade e debilidade acidental tem a ver com a posição em relação ao Sol.

Estar oriental é estar antes do Sol em movimento primário: ou seja, nascer antes do Sol. Estar ocidental, ao contrário, é estar depois do Sol no movimento primário.

O significado deriva da visibilidade. Planetas orientais nascem antes do Sol; ou seja, são visíveis no céu escuro. Planetas ocidentais nascem quando o Sol já nasceu, então não são visíveis.

Para saber se o planeta está ocidental ou oriental, imagine que o Sol esteja no ascendente. Qualquer planeta “acima do horizonte” está oriental; qualquer planeta no outro hemisfério está ocidental.

De forma geral, estar oriental pode ser considerado uma dignidade acidental: o planeta é mais óbvio, mais manifesto no mundo, enquanto estar ocidental é estar mais escondido, mais oculto.


Halb e Hayz

Os termos têm origem árabe.

Os signos e os planetas se dividem em planetas diurnos e noturnos.

Quando um planeta diurno está acima do horizonte (nas casas VII, VIII, IX, X, XI e XII) de dia ou abaixo do horizonte (nas casas I, II, III, IV V e VI) de noite, ele está em halb. Um planeta noturno está em halb quando está abaixo do horizonte de dia e acima do horizonte de noite.

Um planeta em hayz está em halb e, além disso, está num signo do próprio gênero (ou seja, um planeta masculino num signo masculino, um feminino num feminino).

Os conceitos são bastante simples, mas é sempre bom lembrar que Marte, apesar de noturno, é masculino, e que Mercúrio é diurno quando oriental, noturno quando ocidental, e que é masculino ou feminino dependendo dos planetas que estão em conjunção ou aspecto com ele ou do planeta que o rege.


As dignidades e debilidades da Lua

Por sua posição de destaque, e por ser o único dos astros cuja forma visível varia, a Lua tem algumas dignidades e debilidades especiais.

A primeira tem a ver com a quantidade de luz. Quando mais cheia a Lua estiver, mais ela é visível.

Então, estar aumentando em luz é uma dignidade para a Lua, enquanto estar diminuindo em luz é uma debilidade. Sim, isso quer dizer que para a Lua, estar ocidental é uma dignidade - isso também vale para Vênus e Mercúrio, segundo alguns autores, mas por outros motivos.

Há uma faixa do Zodíaco (entre 15° de Libra e 15° de Escorpião), chamada Via Combusta, no qual a Lua também está debilitada.

Os motivos para a existência dessa faixa são controversos e a discussão foge ao propósito deste livro. Ela parece afetar somente a Lua.


Lua Fora de Curso

Este conceito atrai confusão de todos os lados, desde o seu nome até a sua importância.

O “Lua Fora de Curso” vem de “Void of Course Moon”, que é uma tradução ao inglês da expressão em latim “Luna Vacua Cursa”, que quer dizer “Lua em caminho vazio”, ou “Lua com percurso vazio”.

Isso quer dizer: a Lua não tem nenhum planeta no caminho dela. Ela termina o seu percurso por um signo sem fazer conjunção ou aspecto.

A Lua, pela sua posição de intermediária entre o céu e a terra, pode significar o fluxo geral dos acontecimentos. Desta forma, ela não fazer nada é um sinal de que nada vai acontecer, de que as coisas permanecem como estão.

Repetindo: é um sinal, de importância variável de acordo com a situação. Não é um veredicto. O cosmos não pára até que a Lua mude de signo. As pessoas que nascem quando a Lua está fora de curso crescem e se desenvolvem como o resto do mundo.

Como a ideia é a Lua ficar sem fazer nada, não faz sentido dizer que ela está fora de curso nos últimos graus de um signo, porque ela está prestes a fazer algo: mudar de signo.




Marcos Monteiro, Introdução à Astrologia Ocidental, Edição do Autor, 2013.

O livro pode ser adquirido aqui:
https://www.amazon.com.br/gp/product/B00SKNUZIQ/ref=s9u_simh_gw_i1?ie=UTF8&pd_rd_i=B00SKNUZIQ&pd_rd_r=A2XN3S8N61PC6N801MY0&pd_rd_w=X9bTN&pd_rd_wg=z7T8V&pf_rd_m=A1ZZFT5FULY4LN&pf_rd_s=&pf_rd_r=G6KVWQTGRY7KDNE92MPP&pf_rd_t=36701&pf_rd_p=a400fac2-f1d8-4385-8890-1dcda8c10b5e&pf_rd_i=desktop