segunda-feira, 10 de julho de 2017

Urano, Netuno, Plutão, por Marcos Monteiro

Preciso tratar dos três “planetas transaturninos”. Esta é a hora.

Desde que foram descobertos, estes corpos atraíram a atenção dos astrólogos. Eles receberam significados bastante variados; cada um recebeu um dos signos para reger; foram recebidos com entusiasmo e acolhidos na grande família astrológica.

Há alguns problemas nisso.

Em primeiro lugar, acho que consegui demonstrar no começo do livro que as coisas concretas têm sete facetas. Qualquer coisa inserida no modelo não pode entrar no conjunto dos sete.

Isso ocorre também com as significações. Eles não podem retirar significado dos planetas existentes, porque os significados não são, num certo sentido, deles.

Da mesma forma, não faz sentido nenhum mudar a regência dos signos, que obedece a regras independentes da astronomia e possuiu uma simetria bastante que é quebrada, ao se inserirem novos regentes, sem melhorar em nada a precisão do modelo.

Isso é importante: considerá-los como planetas astrológicos não traz ganho nenhum. E é incoerente com os princípios astrológicos de base: planetas são os corpos que parecem se mover no sentido contrário ao do céu visível, não interessando se astronomicamente são planetas, satélites da Terra (Lua) ou estrelas (Sol).

E, aqui, chegamos a outro ponto importante: eles não são visíveis. Então, essas significações todas são, no mínimo, exageradas.

Na China, Na Índia, no Japão, na Babilônia antiga, e provavelmente em qualquer outra astrologia, Marte está associado à guerra, conflito, rupturas, enquanto Vênus está relacionada a união e amor, por causa das suas aparências.

Marte rege Escorpião porque corporifica as qualidades relacionadas a Escorpião; Plutão virou o “regente moderno” de Escorpião numa votação num congresso.

Isso não quer dizer que eles não tenham papel nenhum na astrologia. O problema maior é decidir o que eles significam; mas, desde que não os tratemos como planetas, nem, com toda a certeza, não os empurremos para reger signo nenhum, eles podem ser assimilados.

O modo mais coerente de entendê-los é como estrelas fixas especiais. Pontos que só são importantes em aspectos próximos (apenas conjunções e oposições parecem ser importantes).

Não vejo sentido algum em não utilizá-los porque “não eram conhecidos à época do astrólogo X, ou no período Y”. Outras coisas que não eram conhecidas há alguns séculos eram computadores pessoais e a Nova Zelândia. Como ninguém se opõe ao uso do computador, ou à existência de astrólogos na Nova Zelândia, também não faz muito sentido ignorá-los.

Eles também são parte do Cosmos, também foram feitos pela mesma mão que fez o Céu.

O ponto mais delicado é determinar o que eles simbolizam. Muitas das associações feitas são baseadas em descobertas, ou eventos, que ocorreram perto da sua descoberta. Isso traduz mais o que o astrólogo quer que o corpo signifique do que o que ele significa na verdade.

Outras significações derivam dos mitos relacionados aos seus nomes, o que faz sentido: essas nomeações, embora inconscientes, não são inteiramente ao acaso. Mas é sempre bom lembrar que Urano já foi George e Herschel, então não é possível levar essas associações totalmente ao pé da letra.

Alguns significados (Urano, conflito, eletricidade; Netuno, confusão, excesso de água, terremotos; Plutão, mal oculto) parecem estar consistentemente ligados a eles.

Um modo de tentar derivar algumas das significações deles é analisar seu movimento, o equivalente mais próximo de “aparência sensível” que eles têm. Urano está visível em algumas épocas do ano, embora seja sempre fraco. Então, ele “liga e desliga”; está ligado ao divórcio, à separação e também à informática (eletricidade, corrente alternada, e linguagem digital - binário, sim ou não, um ou zero).

Netuno parece estar ligado ao engano, à auto-ilusão, às drogas, à embriaguez, à “cegueira voluntária”, e ao tempo ruim. O aspecto que pode estar ligado a isso é ele estar sempre quase visível, sempre um pouco além da visão humana; além disso, enquanto Urano dá a volta ao redor do Sol em 84 anos, Netuno completa seu ciclo em 168, pouco tempo acima do máximo da vida humana. É como se ele estivesse quase ao nosso alcance.

Plutão parece estar relacionado, normalmente, ao mal, às coisas ruins de forma geral, mas principalmente ao auto-sabotamento, ao mal autoinflingido. Sua volta ao redor do Sol dura 248, muito mais do que a vida humana mais longeva; ele está muito afastado, muito escondido - algo sempre oculto e longe de nós não parece, a princípio, coisa boa.

A influência dos três parece sempre ser mais ou menos maléfica.

E os outros corpos?

Quando se desce mais na “cadeia alimentar astrológica”, a coisa fica ainda mais complicada. Planetas novos, planetas anões, asteroides, pontos fictícios, a imaginação não tem limites. Não há como arranjar significações novas para todas essas coisas, baseando-se somente nos nomes que lhe deram.

De forma geral, mesmo esses corpos menos importantes não são ruins ou proibidos, se respeitarem o modelo astrológico. Na verdade, o problema é que, se Urano, Netuno e Plutão já não são necessários (eles colorem uma análise, dão maior precisão a algumas coisas, mas nunca são indispensáveis), essas outras coisas se aproximam cada vez mais da inutilidade completa e podem chegar a atrapalhar, pelo excesso de informação sem importância.