sexta-feira, 21 de julho de 2017

As Estrelas Fixas, por Clélia Romano

As estrelas fixas tiveram grande importância desde muito antes de Ptolomeu.

Elas e as constelações onde estavam eram usadas para medir fenômenos importantes para a agricultura e anunciavam as mudanças de estações. Foram associadas a mitos que repousam como arquétipos importantes na mente da humanidade.

Masha'allah no século VIII em seu 'Book Aristotilis' dá muita importância às estrelas fixas, citando várias delas e seus efeitos quando conjuntas a planetas, mas especialmente se estiverem conjuntas ao MC e ASC ou junto aos luminares. Ele chega a citar o efeito de configurações de estrelas com planetas debilitados ou em boas condições celestes.

Abu Ali, autor do século IX diz que as estrelas fixas são importantes se estiverem num ângulo como o ASC ou o MC ou sobre os luminares.

O melhor efeito se dá quando os luminares estão em ângulos ou em suas dignidades e sobre eles há uma estrela.

Al Biruni cita por sua vez as estrelas que causam cegueira.

Ibn Ezra afirma que elas são importantes quando conjuntas aos ângulos ou aos luminares.

Bonatti em sua '9ª Consideração' diz que a estrela pode ser um poderoso ajudante oculto. Dá às estrelas fixas um orbe máximo de 1º.

Bonatti e Ibn Ezra são da opinião que as estrelas não dão sustentação ao que criam: daí que o nativo pode subir e em seguida sofrer grandes quedas, usufruir para perder em seguida.

Com o recrudescimento do interesse em astrologia Tradicional, o surgimento da internet que favoreceu a comunicação entre astrólogos no mundo todo e os modernos programas para cálculos astronômicos, as estrelas estão voltando a ser pesquisadas intensamente. Mas há opiniões muito discordantes sobre quando ou como usá-las.

Para dar uma ideia, este capítulo foi escrito e totalmente refeito cerca de dez vezes. Minhas conclusões foram de zero a oitenta.

A razão disso é que o tema é complexo e especialmente difícil para a astrologia tropical, uma vez que as estrelas fazem parte da Oitava Esfera, isto é, as constelações que ficaram distanciadas de nosso referencial ocidental que abandonou a astrologia sideral pela tropical.

Além disso, pessoalmente não aprendi a usar estrelas na delineação porque Robert Zoller não me pareceu dar grande ênfase a elas, embora propondo-se a estudá-las futuramente.

Como a questão era dar algum material de referência ao leitor em matéria de estrelas fixas encontrei-me, parafraseando Dante Alighieri, “numa selva escura”.

Comecei a estudar o assunto e logo tive imensas dúvidas sobre os critérios a serem usados para considerar uma estrela como influente na carta. Alguns autores julgam necessário que a estrela seja visível no local de nascimento do nativo ou para onde é levantada a carta. Outros chegam a dar até 7º de orbe dependendo da magnitude da estrela, como se lê em Vivian Robson. Além disso, às estrelas eram dadas naturezas contraditórias: de onde viriam suas naturezas, afinal? Da cor da estrela? Da constelação e sentido do signo? Do mito?

Comparei idéias e discuti com colegas por um bom tempo em fóruns que considero respeitáveis até que cheguei a uma posição.

Tal posição manteve-se até que recebi a notícia que Diana K. Rosenberg, que pesquisa estrelas há 30 anos, irá lançar seu livro sobre estrelas fixas proximamente.

Pois verifiquei que esta senhora fez um trabalho de pesquisa espantoso e seu livro é aguardado com ansiedade. Robert Hand a considera a maior autoridade em matéria de estrelas.

Diz ela que uma estrela não é boa/má, certa/errada, benéfica/ maléfica, mas que ambas polaridades se manifestam durante a vida.

Discorda ela veementemente na questão do uso de parans e de visibilidade que é a 'pièce de resistance' da teoria de Bemadette Braddy autora que defende pontos bastante intrigantes para dizer o mínimo.

Diana Rosenberg é a favor de usar estrelas ainda que não sejam visíveis no hemisfério para onde a carta foi montada. Ela usa inclusive estrelas fora da eclíptica e diz que elas tem influência na carta, o que em minha opinião já é um pouco exagerado.

Utiliza mais de 2000 estrelas catalogadas e faz interessantes observações sobre a relação da posição da estrela na cabeça, corpo ou membros do desenho de uma constelação para considerações de problemas médicos atingindo membros do nativo que tenha planetas pessoais junto à estrela.

E uma autora impressionante, mas pelo que li resta-me recomendar prudência e estudo ulterior para a utilização de estrelas fixas.

Leve o leitor em consideração que:

1. Como a orbe é pequena a natividade deve ser retificada pois os ângulos tem importância ímpar.

2. A posição das estrelas que Viviam Robson fornece é defasada e para corrigi-las é preciso munir-se de calculadora científica e ter um livro mais recente confiável com a posição delas. O livro de Diana Rosenberg dará a posição para o ano 2000.

3. Se o leitor tiver a posição da estrela para o ano 2000, por exemplo, deverá “precessionar“ o planeta que lhe parecer conjunto à estrela, para que obtenha um cálculo preciso da posição dele para o ano 2000.

De tudo que li parece que o significado das estrelas deve ser buscado principalmente no mito subjacente a cada uma delas.

Abaixo segue a carta de Juscelino Kubitscheck de Oliveira, o presidente brasileiro que moveu a capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília, com extrema coragem e determinação. Se este homem não tivesse estrelas importantes na carta, ninguém mais o teria, por isso escolhi sua carta.


De fato, ele tinha duas estrelas fixas de comando e em conjunção com o MC: Arcturus a 0º25’ da conjunção exata e Spica a 0º02’, também conjunta ao MC.

Ora, Arcturus em uma latitude de 30N47. Ela não é visível a 18S15, o local tio nascimento do nativo, logo muitos não usariam Arcturus, por dizei que a astrologia se baseia em visibilidade. Quanto a Spica ela está a 2S02, logo é visível em nosso hemisfério e não apresenta controvérsias.

Tanto faz sentido a ideia de Diane Rosenberg que uma estrela tem significação para a carta mesmo que seja visível em outro hemisfério que, quanto mais lemos a respeito do sentido da estrela Arcturus mais vemos que ela deve pertencer a um ser humano eminente. De acordo com E. W. Bullinger (The Witness of the Stars), um intérprete bíblico das constelações, os antigos egípcios chamavam a constelação onde está Arcturus, Bootes, Smat, que significa aquele que rege e governa e também Bau, que significa “o que vem”.

Os árabes conheciam Arcturus como Al Simakl Ramih al (Esta palavra Simak é de uma raiz que significa "erguer-se alto", e era empregada pelos árabes quando eles queriam indicar qualquer objeto proeminente nos céus, conjuntamente com outra Simak, Spica na constelação de Virgem.)

Ficam aqui, portanto algumas observações, distantes de serem a última palavra sobre o assunto. Portanto Arcturus tinha uma importância crucial na obra do presidente brasileiro.



Clélia Romano, in Fundamentos da Astrologia Tradicional, Edição do Autor, 2011.

O livro pode ser adquirido aqui: http://www.astrologiahumana.com/