domingo, 22 de maio de 2016

A DÉCIMA PRIMEIRA CASA, por Howard Sasportas

No Paraíso de Indra, dizem que existe uma rede de pérolas, dispostas de tal maneira que, quando você olha para uma delas, vê todas as outras refletidas nela.
Um Sutra hindu

De ser esquecido por não ser ninguém, até conseguir ser reconhecido como alguém: este foi o caminho da 1ª à 10ª Casa. Mas agora que o ego foi firmemente estabelecido e devidamente conhecido, o que vai acontecer?

No plano mais profundo, a 11ª Casa (associada com o signo de Aquário e coregida por Saturno e Urano) representa a tentativa de ir além de nossa egoidentidade e tornar-nos algo maior do que já somos. O caminho certo para conseguir isso consiste numa identificação maior que o self - tal como um círculo de amigos, um grupo, uma crença ou uma ideologia.

De acordo com a Teoria Geral de Sistemas, nada pode ser compreendido isoladamente, mas sim como parte de um sistema. Os componentes do sistema e seus atributos são vistos como funções de um sistema completo. O comportamento e a expressão de cada parte influenciam e são influenciados por todas as outras.

Naquilo que é conhecida como uma sociedade de "alta sinergia" os objetivos do indivíduo estão em harmonia com as necessidades do sistema como um todo. Num sistema de "baixa sinergia" os indivíduos, ao realizarem suas próprias necessidades, não agem necessariamente pelo bem do todo.1 A maneira como funcionamos como parte de um sistema é mostrada pela 11ª Casa.

Obedecendo à sua dupla regência, o conceito de consciência grupai implícito na 11ª Casa, pode ser entendido de duas maneiras diferentes. Saturno procura maior segurança e um senso mais sólido de identificação pelo fato de pertencer a um grupo — o que os psicólogos rotulam de "identificação de pertença". Fazer parte de um certo grupo seja ele social, nacional, político ou religioso realça o sentido de quem somos e nos dá uma sensação de segurança em números. De certa maneira isto é uma façanha, uma vez que o resto do mundo é usado a serviço do aumento ou do reforço da identidade. A evidência disso é vista mais claramente naqueles demasiadamente preocupados em ter os amigos certos, ser notados nos lugares certos e alinhar seu self com as crenças certas. A face mais negativa deste Saturno subjacente na 1 1ª Casa manifesta-se quando um grupo é ameaçado por outro grupo — tal como negros se mudando para um bairro de brancos ou junguianos se mudando para uma vizinhança predominantemente freudiana.

O lado uraniano da 11ª Casa representa o tipo de consciência grupal que professores espiritualistas, místicos e visionários de diferentes culturas e tempos, repetidamente defenderam. Em vez do típico paradigma "eu aqui dentro" versus o "você aí fora" ou automodelo, eles falam da unidade do indivíduo com tudo o que é vivo; somos parte de um todo maior inter-relacionado com o resto da criação.

Espelhando a percepção mística da unidade de toda a vida, recentes pesquisas científicas demonstram a rede de relacionamentos interligando tudo que há no universo. Por exemplo, David Bohm, um físico britânico, lançou a teoria segundo a qual o universo deve ser entendido como um "simples todo individido no qual partes separadas e independentes não têm qualidade fundamental". Uma análise profunda dos paralelos existentes entre a física moderna e o misticismo oriental é encontrada em O tao da física, de Fritjof Capra, um eminente pesquisador de alta energia física. Alguns paralelos que ele relata são tão surpreendentes que é quase impossível determinar se certos relatos sobre a natureza da vida foram elaborados por cientistas modernos ou místicos orientais.

Uma recente teoria proposta por um psicólogo britânico, Rupert Sheldrake, é particularmente relevante para a 11ª Casa. Sheldrake sugere a possibilidade de invisíveis campos organizadores que regulam a vida de um sistema. Em 1920, William McDougall da Universidade de Harvard estava estudando a rapidez com que os ratos aprendiam a escapar de um labirinto cheio de água. Nessa mesma época, outros pesquisadores na Escócia e na Austrália que vinham repetindo estas experiências acharam que sua primeira geração de ratos reproduzidos de outra linhagem que as de McDougall conseguiram o feito com o mesmo grau de habilidade que os de McDougall, de última geração. A perícia foi de algum modo "transmitida" para outros ratos em outras partes do mundo. Estas ocorrências levaram Sheldrake à teoria de que, se um membro de uma espécie biológica aprende um novo comportamento, o campo organizador invisível (campo morfogenético) para tal espécie, muda. Os ratos que conseguiram o feito tornaram possível a outros ratos, a muitas milhas de distância, fazer o mesmo. Em algum nível profundo estamos todos ligados uns aos outros. A teoria de Sheldrake foi primorosamente resumida pelo padre jesuíta Pierre Teilhard de Chardin, nascido com Mercúrio, Júpiter e Saturno na 11ª Casa. "Quando uma verdade aparece pela primeira vez, seja numa única mente, sempre acaba se impondo à totalidade da consciência humana."

Em A conspiração aquariana, Marilyn Ferguson escreve: "Você não pode entender uma célula, um rato, uma estrutura cerebral, uma família ou uma cultura se os isolar de seu contexto." Da mesma maneira, Carl Rogers, um dos fundadores da psicologia humanística observou que quanto mais fundo o indivíduo mergulha em sua própria identidade, mais ele descobre toda a raça humana. Nossa identidade tem uma associação maior do que o "ego encapsulado em pele" é capaz de admitir.

Visto sob este ângulo, o desenvolvimento da consciência grupai como é visto na 11ª Casa não serve unicamente ao propósito de engrandecer ou reforçar a identidade do Ego. Antes, o conhecimento de sermos parte de algo maior nos dá condições de transcender os limites e as fronteiras de nossa separação individual e de nos sentirmos como uma célula num corpo maior de humanidade. Desta percepção nasce um sentido de irmandade para com os coabitantes do planeta muito além dos obrigatórios laços de família, nação ou igreja.

Sintropia — a tendência da energia vital de se dirigir para uma maior associação, comunicação, cooperação e conhecimento — é o princípio básico através do qual a 11ª Casa opera. Tendo-nos reconhecido como indivíduos separados e distintos, há uma chamada para uma nova ligação com tudo aquilo de que nos diferenciamos anteriormente.

Do mesmo modo que a natureza se organiza em células vivas, da mesma forma que células vivas se reúnem em organismos multicelulares, pode acontecer que em algum estágio seres humanos se integrem em algum tipo de superorganismo global. Mesmo no nível saturnino, a interdependência e a interconexão devida no planeta está se tornando cada vez mais óbvia. A tecnologia de comunicações aumentou dramaticamente a velocidade da interação global, e o conceito de Marshall McLuhan do mundo como uma "aldeia global" está perto de se tornar verdadeiro. Corporações e conglomerados multinacionais reúnem inexplicavelmente as economias do mundo. O colapso do sistema monetário de um país teria um efeito desastroso sobre muitos outros. O isolacionismo e o nacionalismo praticamente não são mais viáveis. Em outro plano, pequenos grupos, redes, sistemas de movimentos e de sustentação vêm proliferando em todo o mundo aglutinando pessoas para promover causas comuns. Enfim, quase da mesma maneira como o nosso corpo se modifica e se desenvolve, o grande corpo da humanidade também está crescendo e evoluindo. A maneira pela qual poderíamos participar e servir à evolução e ao progresso deste self coletivo é mostrada pelos posicionamentos na 11ª Casa.

Na 5ª Casa, nossa energia é usada para nos distinguir dos outros e para aumentar o sentido do nosso valor e qualidades individuais. Na 11ª Casa, nossa energia pode ser investida em promover e realizar a identidade, propósito e causa de qualquer grupo a que pertençamos, quer isto seja entendido como sendo toda a raça humana ou um particular segmento dela. Na 5ª Casa fazemos o que queremos em causa própria. Na 11ª Casa podemos escolher, abandonar ou conciliar algumas de nossas preciosas vontades pessoais, inclinações e idiossincrasias em consideração ao que o grupo decida que é melhor.

Consciência social é a palavra-chave para a 11ª Casa. Uma sociedade (10ª Casa) estrutura-se segundo certas leis e princípios (9ª Casa). Leis e sociedade facilmente se cristalizam e se dilatam, e invariavelmente certos elementos da sociedade são favorecidos pelo sistema enquanto outros são oprimidos. Grupos que se sentem negligenciados ou traídos pelas leis existentes podem encontrar uma expressão através de certas reformas associadas com a 11ª Casa. Muitas vezes aqueles que têm fortes posicionamentos nesta casa trabalham através de grupos humanitários ou políticos para implementar mudanças sociais necessárias. No entanto, também é bastante comum encontrar outros com ênfase na 11ª Casa badalando de um compromisso social para outro. Nesta semana, Ascot, as quadras de Wimbledon na seguinte, e depois um dia em Henley, antes de ir à ópera em Glyndebourne.

Em alguns casos, os posicionamentos na 11ª Casa podem significar o tipo de grupos em cuja direção gravitamos. Por exemplo, Netuno poderia estar interessado em sociedades musicais, em grupos psíquicos ou espiritualistas. Urano faria o mesmo com grupos de astrologia, e Marte com o clube local de futebol. No entanto, além de apenas descrever o tipo de grupo, é mais provável que os signos e os planetas na 11ª Casa simbolizem a maneira de nos comportar e interagir em situações de grupo. O Sol ou Leão nesta posição pode ter de ser o líder tendo como base uma boa proporção de seu valor e de sua identidade do envolvimento com o grupo. Mercúrio ou Gêmeos nesta casa pode aparecer como a secretária do grupo ou como um de seus mais esclarecidos porta-vozes. Alguém tem de fazer o chá, e a Lua ou Câncer nesta posição pode ficar feliz em providenciar não só este serviço como também em colocar sua casa à disposição como local de encontro. Ademais, a 11ª Casa dá o sentido de quão bem nos sentimos em situações de grupo. Vênus ou Libra conseguem isso facilmente e fazem muitos novos amigos quando entram num grupo. Saturno ou Capricórnio é bem capaz de se afastar do grupo e se sentir sem graça e estúpido misturando-se com os outros. Oscar Wilde, que atingiu grande sucesso nos meios artístico e social de Londres, tinha a Lua em Leão na 11ª Casa. Paul Joseph Goebbels, o oficial encarregado da divulgação do partido nazista que controlava as comunicações públicas e a mídia, tinha Plutão conjunção Netuno em Gêmeos nesta casa.

A amizade enquadra-se perfeitamente no ideal da 11ª Casa de nos tornarmos maiores do que realmente somos. As pessoas se unem através da amizade, as fronteiras pessoais se ampliam e tanto as necessidades como os recursos dos outros acabam entrelaçados com os nossos. Apresentamos aos nossos amigos novas ideias e interesses, do mesmo modo que somos envolvidos por aquilo que eles têm para compartilhar conosco.

Os planetas e os signos na 11ª Casa muitas vezes descrevem os tipos de amigos pelos quais somos atraídos. Por exemplo, um homem com Marte nesta casa pode ser atraído por pessoas que tenham óbvias qualidades marcianas, tais como dinamismo, iniciativa e capacidade de comando. No entanto, os posicionamentos na 11ª Casa também podem mostrar qualidades que não possuímos, que projetamos para fora e que encontramos externamente através de amigos. Se o homem com Marte na 11ª Casa não desenvolveu seu lado marciano e lhe falta um certo empurrão tipo "Levanta-te e anda", seus amigos lhe oferecerão esta energia, estimulando-o e levando-o à ação. Ele pode, inclusive, possuir uma incomum habilidade para evocar tais qualidades nos seus colegas de trabalho mais próximos que, em outras situações e com outras pessoas seriam normalmente mais calmos e tranquilos.

A 11ª Casa também sugere a maneira como fazemos amigos. Marte pode correr impulsivamente para uma amizade, enquanto Saturno é mais sem jeito, tímido ou cauteloso a esse respeito. Como nos portamos e que energias despertamos nas amizades também é mostrado pelos posicionamentos aqui. Vênus pode fazer amigos facilmente mas prefere deixar as coisas acontecerem (ela também pode esperar que os amigos "apareçam" com ideais um pouco mais elevados). Plutão sugere associações intensas e complicadas que nos transformam significativamente ou nas quais apareçam situações de traição, intriga e deslealdade.

Na 11ª Casa existe o desejo de transcender ou de ir além de símbolos existentes e de modelos de nós mesmos. Ansiamos por um self mais ideal ou por uma sociedade mais utópica. Por esse motivo, esta parte do mapa foi rotulada como a casa das esperanças, das metas, dos desejos e dos objetivos. O desejo de sermos algo maior do que somos tem de ser acompanhado pela capacidade de considerar novas e diferentes possibilidades. Mais do que qualquer outra espécie, o grande cérebro humano e o desenvolvido córtex cerebral dota os seres humanos com a capacidade de imaginar um amplo leque de alternativas, opções e saídas. A maneira como encaramos as possibilidades e avançamos para realizar tais esperanças e desejos é mostrada pelos posicionamentos na 11ª Casa. Por exemplo, Saturno nesta posição, pode ter dificuldade em formar imagens positivas do futuro ou ter de enfrentar obstáculos, atrasos ou obstruções no meio do caminho para finalmente alcançar suas metas e seus objetivos. Marte estabelece uma meta e a persegue, enquanto Netuno pode se confundir sobre o que realmente quer, ou apenas fantasiar e sonhar acordado com desejos imaginários. Neste contexto, vale lembrar que quanto mais claramente podemos imaginar a possibilidade, mais perto ficamos de concretizá-la. O estímulo de visões positivas do futuro ajuda no processo de caminharmos numa direção mais positiva.

A evolução impele a níveis cada vez maiores de complexidade, organização e associação. Na 1ª Casa de Ar (a 3ª), através da linguagem recebemos a habilidade de distinguir a pessoa do objeto. Nossa mente desabrocha quando nos relacionamos com os outros em nosso ambiente próximo. Na 2ª Casa de Ar (a 1ª) crescemos através do contato íntimo de nosso próprio conhecimento com o conhecimento de outra pessoa. Pessoa e objeto diferenciados na 3ª se encontram frente a frente na 7ª.

Na última casa de Ar (a llã), nossas mentes individuais estão ligadas, não só com as mentes dos que nos são caros, mas com todas as outras mentes. Os planetas da 11ª Casa sensibilizam uma pessoa para as ideias e os pensamentos que circulam no nível da mente grupai. Não é um fenômeno incomum para uma pessoa em San Francisco, outra em Londres e outra no Japão terem flashes de uma nova e mesma ideia brilhante, independentemente uma da outra, dentro de um pequeno espaço de tempo. Na 11ª Casa descobrimos nosso parentesco, não só com nossa família, nossos amigos, nosso país ou aqueles a quem amamos, mas com toda a raça humana.