segunda-feira, 23 de maio de 2016

O DESCENDENTE E A SÉTIMA CASA, por Howard Sasportas



Impulsionados pela força do amor os fragmentos do mundo buscam-se uns
aos outros de modo que o mundo possa existir.
Pierre Teilhard de Chardin

A 6ª Casa é a última do que é conhecido como "as casas pessoais", e representa o aprimoramento da personalidade individual através do trabalho, de serviços, de humildade e de atenção à vida de todo dia e ao corpo físico. Usando um microscópio para a vida, a 6ª Casa analisa e categoriza-a em diversas partes, dando a cada parte seu lugar certo e sua propriedade. Agora, sabemos exatamente como diferimos dos outros e de tudo o mais. Mas, no fim da 6ª Casa crescemos separados dos outros conforme a vida nos permite, e temos uma nova lição para aprender: que nada existe isoladamente. Quando chegamos ao Descendente, o ponto mais ocidental do mapa, fazemos um ângulo agudo e nos encontramos de novo no ponto em que começamos. Este vai ser o trabalho da 7ª à 12ª casa: reconduzir-nos mais uma vez ao sentido perdido de nossa unidade com toda a vida.

O Descendente é a cúspide da 7ª Casa e o ponto oposto ao Ascendente. Tradicionalmente, o Ascendente é considerado o "ponto de autoconsciência" e o Descendente é considerado o "ponto de consciência dos outros". Ele descreve nossos relacionamentos e as qualidades (junto com os planetas da 1ª Casa) que procuramos em nosso companheiro. Michael Meyer em O manual para a astrologia humanística também escreve que o Descendente (e a 7ª Casa) indica que espécie de atividades darão ao indivíduo as experiências "de que ele precisa para entender o significado dos outros".

Do mesmo modo, a 1ª Casa é tradicionalmente conhecida como "a casa do self. A 1ª Casa, a mais afastada da 1ª, é rotulada como "a casa do não-self." Ela é também conhecida como "a casa do casamento" e curiosamente como "a casa dos inimigos declarados". Entende-se aqui por casamento qualquer relacionamento baseado em compromisso mútuo, contraído legalmente ou não. Na 1ª Casa duas pessoas se unem com um propósito — para melhorar a qualidade de suas vidas formando uma família o que tende a lhes propiciar maior segurança e estabilidade e aliviando-os da solidão e do isolamento.

A maioria dos livros de astrologia ensina que os planetas e os signos na 7ª Casa descrevem o parceiro de casamento ou "alguém muito significativo". Isto é verdade até certo ponto. Os posicionamentos da 7ª Casa muitas vezes indicam o tipo de parceiro(s) pelos quais somos atraídos. Por exemplo, um homem com a Lua na 7ª Casa pode estar procurando uma parceira que reflita as qualidades da Lua: alguém que seja receptivo, complacente e que cuide dele. Uma mulher com Marte na 1ª será atraída por um parceiro que reflita as qualidades de Marte: alguém dogmático, direto e forte. Ela talvez esteja procurando alguém que tome decisões por ela e lhe diga o que deve fazer.

Se mais de um planeta ou signo se encontram na 7ª Casa (no caso de uma casa interceptada), a saída pode ser muito confusa, pois estamos procurando vários tipos de atributos num parceiro. Por exemplo, uma mulher com Urano e Saturno na 1ª Casa estará procurando alguém que lhe ofereça estabilidade e segurança (Saturno) e também ao mesmo tempo precisa de alguém imprevisível, excitante e terrivelmente individualista (Urano). Essas duas posturas raramente se encontram numa mesma pessoa. Ela pode primeiro casar com um saturnino, ficar muito revoltada e chateada, encontrar um uraniano e pedir divórcio. Por outro lado, ela pode ficar casada com o saturnino e ter um caso com o uraniano. Caso ela tenha casado primeiro com um uraniano e se divorciado dele por causa de seu caráter instável e excêntrico, suspira aliviada quando se estabelece em segurança com um saturnino.

Ou, então, no caso de ela ser psicologicamente um pouco mais madura, poderá casar-se com um saturnino e encontrar meios que não ameacem seu relacionamento, que satisfaçam sua necessidade de Urano ou, mesmo, que ajudem a desenvolvê-lo mais dentro de si mesma. Por fim, ela pode também casar-se com um uraniano e prover a segurança saturnina por seu próprio esforço dentro de sua relação.

Além de descrever a natureza do parceiro, os signos e os planetas na 7ª Casa sugerem as condições do relacionamento: os arquétipos constelados pela própria união. Saturno nesta posição poderia indicar uma união baseada em deveres e obrigações. Marte na 1ª é mais propenso ao "amor à primeira vista", correr para o casamento, batalhas tempestuosas, reuniões apaixonadas e mais batalhas. Arthur Rimbaud, o poeta francês ferido por seu amante Verlaine, tinha o explosivo Plutão e Urano na 1ª Casa. Rex Harrison, com seis casamentos nas costas, nasceu com o abundante Júpiter nesta posição.

Conforme já mencionamos, um planeta ou signo numa determinada casa sugere a predisposição para encontrar este princípio arquetípico tendo como base o arco de vida em questão. Posicionamentos na 1ª Casa é aquilo que esperamos encontrar em relacionamentos íntimos, e, por esta razão, indica os atributos que mais notamos na outra pessoa. Invariavelmente, algo no mapa de nosso parceiro vai combinar com planetas e signos em nossa 7ª Casa e, na maioria das vezes, o mapa do parceiro reflete misteriosamente a nossa 7ª Casa. Por exemplo, uma mulher que tem Marte, Saturno e Plutão na 1ª Casa pode muito bem encontrar um marido que tenha Marte, Saturno e Plutão na 1ª, ou algo como um Sol em Áries (refletindo seu Marte na 1ª Casa), uma Lua em Escorpião (refletindo seu Plutão na 7ª Casa) e três planetas em Capricórnio (refletindo seu Saturno na 7ª Casa).

O mecanismo de projeção psicológica tem de ser mencionado novamente com relação ao Descendente e à 7ª Casa. Em Relating Liz Greene sugere que o Descendente e os planetas de 7ª Casa representam qualidades que "pertencem ao indivíduo mas são inconscientes" e que tentamos vivenciar "através de um companheiro ou através dos tipos de experiências que o relacionamento nos traz".

Vamos ver o que ela quer dizer com isso.

O Descendente — o ponto mais ocidental de nosso mapa — desaparece de vista quando nascemos.  Neste sentido, ele descreve aquilo que está escondido dentro de nós, aquilo que sentimos não nos pertencer porque não podemos ou não queremos vê-lo em nós mesmos. Diametralmente opostos ao Ascendente e à 1ª Casa, o Descendente e a 1ª Casa revelam qualidades em nós mesmos que temos a maior dificuldade em "possuir", ser responsável por e aceitar. No entanto, como Jung mostrou bem, "quando uma situação interior não é tornada consciente ela acontece exteriormente, como destino". Se somos inconscientes de algo em nós mesmos, "o mundo tem de agir à força sobre o conflito e rompê-lo em duas partes opostas". Explicando melhor, aquilo que não percebemos dentro de nós mesmos, invariavelmente atraímos para nós através dos outros. Tradicionalmente, o Descendente e a 7ª Casa são descritos como aquelas qualidades que procuramos num parceiro, mas, em nível mais profundo, eles representam aquelas qualidades ocultas em nós que precisamos conscientemente integrar ao nosso conhecimento para nos tornarmos inteiros. Liz Greene chama a isso de "o companheiro interior". Se suprimirmos esses atributos em nós mesmos porque os achamos desagradáveis ou inaceitáveis, então não será surpresa o fato de não gostarmos deles quando eles nos forem refletidos de volta através de outra pessoa. Eis aí a conotação da 7ª Casa como sendo da alçada dos inimigos declarados.

No entanto, nós também tendemos a inibir ou a "repudiar" características potencialmente positivas, e estes podem ser atributos que nos agradam e excitam quando os encontramos nos outros. Apaixonamo-nos por pessoas que exibem abertamente tais características, pois elas nos fazem sentir mais completos.

Colocamos essas qualidades em nossas vidas, casando-nos com elas. Idealizando, o parceiro pode servir como uma espécie de modelo para essas energias que eventualmente nos permitirão integrá-las conscientemente de volta à nossa própria natureza. Muitas vezes ficamos até confiantes demais no outro para nos suprir com elas. Nos polarizamos com nosso parceiro e ficamos só meia pessoa.

E preciso esclarecer que projeção não é algo puramente patológico. Uma imagem projetada é um esconderijo em potencial dentro do self. Quando existe a necessidade de que essa imagem seja conhecida, o primeiro passo é percebê-la em outra pessoa. Aí, então, esperamos compreender que ela tem algo a ver conosco e, conscientemente, a tomamos para nós. Por exemplo, uma mulher com Marte na 7ª Casa pode não estar em contato com seu próprio poder e dogmatismo; por isso procura essas qualidades num homem. Encontra um parceiro com um Marte forte, dominante e autocentrado, e que lhe dá ordens. Através dele, ela consegue trazer o Marte para a sua vida. No entanto, quando ela não aguenta mais o parceiro deste jeito, é possível que se julgue na condição de poder dar ordens também; assim, começa a dar ordens a ele, a tomar atitudes por conta própria. Desta maneira, descobre Marte em sua própria natureza.

Uma vez que tenhamos reintegrado, até certo ponto, as qualidades da 7ª Casa em nossa própria identidade, podemos expor amplamente estes princípios à sociedade. Por isso, uma pessoa com Marte na 7ª Casa tende a ser alguém que estimula os outros à ação. Alguém com Saturno nesta posição poderia funcionar como professor ou mentor de outros. Muitas pessoas dedicadas a ajudar ao próximo têm forte ênfase na 7ª Casa. Elas requerem uma renovação quase contínua de fluxo entre elas e os outros. E mais aconselhável encarar uma 7ª Casa lotada desta maneira, aliviando, uma parceria com uma só pessoa, do enorme peso que muitos planetas têm nesta posição.

As seis divisões abaixo do horizonte também aparecem na 7ª Casa. Hábitos sociais se manifestam como efeito contrário ao excesso de individualidade, assegurando um pouco de lealdade e de justiça no comportamento dos membros da sociedade. Estas leis tendem a ser transgredidas, exigindo então a intervenção de uma força exterior para restabelecer o equilíbrio. A forma pela qual passamos por casos desse tipo aparece indicada pelos posicionamentos da 7ª Casa.

A 7ª Casa, naturalmente associada com Libra e Vênus, é o campo no qual aprendemos a cooperar com os outros. Isso cria um dilema com a 1ª Casa: quanto eu coopero (7ª Casa) versus quanto eu me afirmo por mim (1ª Casa)? Por um lado, há o perigo de se dar e se misturar demais, sacrificando-se a própria identidade. Por outro, poderíamos estar pedindo que os outros se adaptem em demasia a nós privando-os de suas próprias individualidades. O problema foi expresso pelo Rabbi Hillel: "Se eu não sou por mim, quem vai ser? E, se eu sou só por mim, o que sou eu? A 7ª Casa nos incumbe da tarefa de encontrar outra pessoa e de equilibrar os dois extremos da balança.