segunda-feira, 27 de junho de 2016

Análise de Sonhos e Assimilação de Conteúdos Inconscientes, por Dane Rudhyar

Mais adiante, referir-nos-emos à relação existente entre a astrologia, do modo como está reformulada neste livro, e a atitude estética diante da vida. Veremos especialmente como esta atitude invalida todas as noções de "maus" aspectos e planetas "maléficos", ao menos na astrologia natal. Mas antes de mais nada, queremos concluir nosso breve estudo da psicologia analítica de Jung delineando o método que ele advoga para aprofundar o processo de individuação. Na verdade, esse delinear será mais um simples esboço, e  devemos remeter o leitor aos livros de Jung, especialmente Two Essays on Analytical Psychology, Modern Man in Search of a Soul e o comentário de O segredo da flor de ouro.

Poderíamos dizer que o primeiro passo no caminho da individuação é remover os. impedimentos que o obstruem. O processo de individuação não é nenhum desempenho misterioso ou santificado. E o viver pleno de uma vida não-castrada ética e socialmente. Como Jung diz: "A vida, ... se vivida com devoção completa, traz uma intuição do self, o ser individual". Infelizmente o viver com devoção completa é dificultado pela herança da humanidade, que se faz sentir através da influência do ambiente, da tradição e da educação. Elementos coletivos pressionam os brotos tenros da planta da personalidade, e assim o fluxo natural da vida é perturbado, impedido, e as próprias águas da alma são envenenadas. As tendências e energias reprimidas se acumulam no inconsciente pessoal, afetando o comportamento externo e a saúde fisiológica por caminhos subterrâneos. A análise psicológica, em seu primeiro estágio, precisa portanto liberar essas repressões, os desejos reprimidos precisam ser trazidos à consciência.

A análise dos sonhos nos ajuda a chegar a essas repressões e trazê-las à luz da consciência, tirando-lhes assim seu poder.

Os sonhos dão informações sobre os segredos da vida interior e revelam ao sonhador fatores escondidos de sua personalidade. Enquanto estes ficam inexplorados, perturbam sua vida na vigília e se fazem notar apenas sob forma de sintomas. Isto significa que não podemos tratar efetivamente o paciente apenas pelo lado da consciência, mas é preciso provocar uma mudança no inconsciente e através dele. Até onde vai o conhecimento atual, s6 existe um meio de se fazer isso: é preciso que haja uma assimilação profunda, consciente, dos conteúdos inconscientes. Com "assimilação" quero dizer interpenetração mútua de conteúdos conscientes e inconscientes e não — como é demasiado comum se pensar — uma valoração unilateral, interpretação e deformação de conteúdos inconscientes pela mente consciente. ...A relação entre consciente e inconsciente é compensatória. Este fato, facilmente verificável, permite uma regra para a interpretação de sonhos. Quando queremos interpretar um sonho, é sempre útil perguntar: que atitude consciente ele compensa? ... Cada sonho é uma fonte de informação e um meio de autorregulagem. ...(Sonhos) são nossos auxiliares mais eficazes na tarefa de construir a personalidade.

(Modern Man in Search of a Soul, pp. 18-20)

O sonho fala através de imagens e dá expressão a instintos que derivam dos níveis mais primitivos da natureza. A consciência se afasta com muita facilidade da lei da natureza, mas pode ser reencaminhada a uma harmonia com ela por meio da assimilação dos conteúdos inconscientes. Fomentando esse processo levamos o paciente à redescoberta da lei de seu próprio ser. ... Eu não poderia compor (num espaço tão pequeno) diante de seus olhos, pedra por pedra, o edifício que está por detrás de cada análise dos materiais do inconsciente e que encontra sua completação na restauração da personalidade total. O caminho de assimilações sucessivas vai muito além dos resultados de cura que concernem especificamente ao médico. Leva por fim àquela meta distante (que pode ter sido talvez o primeiro impulso para a vida), o trazer o ser humano total para a realidade — isto é, individuação.

(Modern Man in Search of a Soul, p. 30)

No entanto os sonhos não são as únicas projeções do inconsciente que podem ser assimiladas. Há um outro campo de atividade psicológica, que Jung denomina fantasia, e que tem suas raízes muito mais no inconsciente que no consciente. O domínio da fantasia criativa se estende do mais insignificativo sonhar acordado à mais significativa "inspiração" súbita do artista criativo, do cientista ou do filósofo. A fantasia criativa é a ponte entre sentimento e pensamento. "Não nasce de nenhum dos dois, pois é a mãe de ambos — melhor dizendo, ela é grávida da criança, aquela meta final que reconcilia os opostos. ...Que grande coisa já chegou a existir que não tenha sido primeiro fantasia?" (Tipos psicológicos)

A fantasia age, tal como os sonhos, através da projeção de símbolos. Podemos sonhar os níveis mais profundos do inconsciente através de um entendimento desses símbolos e assimilar a profunda sabedoria dos tempos, depositada naqueles níveis.

O inconsciente pode nos fornecer todo o auxílio e ajuda que a generosa natureza mantém guardados para o homem, numa abundância que flui continuamente. O inconsciente ... não só comanda todos os conteúdos psíquicos subliminares, tudo que foi esquecido e passado por alto, mas também a sabedoria e a experiência de séculos incontáveis, uma sabedoria que está depositada e repousa em potencial no cérebro humano. O inconsciente é continuamente ativo, criando combinações a partir de seus materiais que servem das necessidades do futuro. Cria combinações subliminares prospectivas tal como o consciente, mas estas são marcadamente superiores das combinações conscientes, tanto em refinamento quanto em extensão. Portanto o inconsciente pode ser um guia inigualável para o homem.

(Two Essays on Analytical Psychology, pp. 118-19)

O uso do que é chamado "material-fantasia" é uma das características mais significativas da técnica de Jung. Ele escreve: "Precisamos ser capazes de deixar as coisas acontecerem na psique. ...A consciência fica eternamente interferindo, ajudando, corrigindo e negando, e nunca deixando em paz o crescimento simples do processo psíquico'. Precisamos "relaxar a câimbra do consciente". Uma nova atitude deve ser criada,

uma atitude que aceita o irracional e o inacreditável, simplesmente porque é o que está acontecendo. Esta atitude seria um veneno para uma pessoa que já tenha sido oprimida por coisas que simplesmente acontecem, mas é de enorme valor para alguém que, com uma crítica exclusivamente consciente, escolhe, dentre as coisas que acontecem, apenas aquelas apropriadas d sua consciência, e assim gradualmente é afastado do fluxo da vida para uma represa estagnada.

(Comentário sobre O segredo da flor de ouro, p. 91)

O "Comentário" sobre O segredo da flor de ouro fornece muita informação quanto ao significado dessa fantasia criativa e à maneira pela qual se pode limpar o caminho que leva à condição de integração e individuação. Mostra, além disso, como o método moderno se ajusta a algumas das mais antigas concepções da sabedoria chinesa, quando estas são vistas como referentes a processos psicológicos — à integração e ao nascimento de uma personalidade superior, cuja consciência desapegada do mundo, que ela contém sem estar presa a ele, se tornou visão pura.

A razão filosófica que há no interior das concepções de Jung é o da reconciliação dos opostos — um tema antigo e universal, que as civilizações chinesa e ariana-hindu apresentavam, cada mina de modo um tanto diferente, cada uma enfatizando um dos opostos. A formulação chinesa é particularmente clara, e há pouca dúvida de que, numa formulação renovada, ela terá uma ascendência cada vez maior na nova era. Graças a Richard Wilhelm, Jung teve contato íntimo com essa filosofia chinesa e com o I Ching, o grande livro, na China antiga, que mostrava simbolicamente uma síntese maravilhosa de todas as atividades da vida, abarcando todo o conhecimento e todas as modalidades de ação numa imensa fórmula, a fórmula da mutação.

A aplicação do princípio que está por detrás da fórmula, com referência à psicologia e ao processo de individuação, é admirável, e, num sentido profundo, constitui o pano de fundo das concepções e das técnicas de Jung — consciente ou inconscientemente, para ele. Apresentada como está em O segredo da flor de ouro, encontramos a seguinte figura metafísica:

Tao, o individido, Grande Um, dá origem a dois princípios opostos de realidade, Escuridão e Luz, yin e yang. A princípio, estes são entendidos apenas como forças da natureza, separados do homem. Depois, as polaridades sexuais e outras se derivam deles. De yin vem ming, vida; de yang, hsing ou essência.

Tao é "aquilo que existe por si mesmo", portanto um paralelo do "Auto-Existente" (Svayambhuva) do budismo hindu. Mas também é o Grande Integrador e o Processo de Integração. O ideograma chinês para Tao é composto de dois caracteres, um que significa "cabeça" e outro "indo". Wilhelm traduz Tao como "significado", mas ele tem sido geralmente traduzido como "o Caminho". Ao menos num certo sentido, ele é o Caminho, ou melhor, o Processo, na cabeça. Relacionando "Cabeça" com consciência, Jung chega ao significado: caminho consciente. Tao é a síntese de ming, vida e hsing, essência. Essência e vida, originalmente um no Tao, são separadas na concepção da criança. Reuni-las é a meta do desenvolvimento psicológico. Assim o Tao se transforma no "método ou caminho consciente de unir o que está separado", isto é, essência (que é intercambiável com consciência) e vida. A consciência separada da vida se refere à condição que Jung descreve como "o desvio ou descaracterização da consciência".

Também "a questão de tornar conscientes os opostos significa reunião com as leis da vida representadas no inconsciente". Viver conscientemente é fazer surgir o Tao. Fazer isso plenamente é integrar a consciência (essência) e as energias do inconsciente coletivo (vida). Isto vem como resultado de um "processo psíquico de desenvolvimento, que se expressa em símbolos". O grande símbolo da individuação é a mandala, isto é, um círculo mágico contendo uma cruz ou alguma outra formação basicamente quádrupla.

Um símbolo desse tipo é a zodíaco e a quadratura típica de uma carta astrológica (os quatro ângulos). Toda a astrologia natal é a aplicação prática desta "divisão quádrupla do círculo' — o Caminho consciente: Tao T-A-O quádruplo dá os doze signos ou casas da astrologia (3 x 4 = 12). Toda carta natal é a mandala de uma vida individual. É o mapa do processo de individuação desse indivíduo em particular. Segui-lo com entendimento é seguir o "caminho consciente", o caminho da "totalidade operativa", isto é, o caminho de realização ativa da totalidade de ser que é self.

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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.