domingo, 26 de junho de 2016

Estética versus Ética, por Dane Rudhyar

Antes de destacarmos rapidamente as principais características da técnica usada por Jung para atingir a meta da individuação, parece importante estabelecer de imediato como o ideal de individuação, de "cooperação essencial de todos os fatores" dentro do ser humano total leva a uma revisão do nosso conceito tradicional de ética e moral. É claro que este é um assunto muito delicado, que dá margem a mal-entendidos graves, e por isso pedimos a nossos leitores para não tirar, a partir do que vamos dizer, conclusões que não seriam justificadas de nenhum modo.

Como veremos no início de nossa segunda parte, o próprio ato de viver implica duas direções básicas de operação funcional, que podem ser caracterizadas pelos termos consciência e experiência. Num certo sentido essa divisão não é diferente da de estímulo e resposta, mas está ligada a um significado muito• mais geral. Tomamos "consciência" de fatos internos bem como externos, do sujeito, ou eu interno, bem como do objeto ou mundo exterior. A consciência, seguindo um processo claro, leva a uma reação mais ou menos concreta, ou ao menos estruturada, na qual o ego e aquilo de que ele tomou consciência se interpenetram. O resultado dessa interpenetração é o que chamamos, no sentido filosófico do termo, uma experiência, isto é, "um momento vivido completamente".

Todo tipo de "vivência completa" implica algum julgamento sobre:

1) a coisa de que se tomou consciência; 2) a relação de si mesmo com aquela coisa ou qualidade. Mas o julgamento pode ser fundamentalmente de dois tipos. Num caso, ele se manifesta como um sentimento, e, noutro, como um pensamento. Jung descreve sentimento como segue:

O sentimento é, primeiramente, um processo que se dá entre o ego e um dado contendo, um processo que, além disso, dá ao conteúdo um valor definido no sentido de aceitação ou rejeição ("gostar" ou "não gostar"), mas ele também pode aparecer como que isolado, sob a forma de "humor", um tanto separado dos conteúdos momentâneos de consciência ou das sensações momentâneas. ...Mas, mesmo o humor ... significa uma valoração; no entanto, não uma valoração de um conteúdo consciente definido, individual, mas da situação consciente inteira no momento. ...Sentir também é um tipo de julgar, diferindo no entanto de um julgamento intelectual, já que o sentir não procura estabelecer uma conexão intelectual, mas se ocupa exclusivamente do estabelecimento de um critério subjetivo de aceitação ou de rejeição.

(Psychological Types, p. 544)

Sem nos aprofundarmos mais no assunto, ficará claro que todas as avaliações puramente morais ou éticas estão relacionadas com sentimentos; isto equivale a dizer que são julgamentos imediatos dos valores de um conteúdo da psique ou de uma situação. A imagem que veio à consciência ou a situação em que a pessoa se encontra com relação a outros objetos ou pessoas é "boa" ou "má". O ego a aceita ou rejeita de um modo direto imediato e com base num instinto profundamente enraizado ou numa atitude coletiva tradicional também profundamente enraizada.

A moral se constitui de um conjunto de julgamentos tradicionais que se referem a situações ou relacionamentos definidos mais ou menos claramente, alguns dos quais se baseiam no que aparece como instinto biológico, enquanto outros são o resultado de uma atitude perante a vida enfatizada consciente e deliberadamente por um código de valores religioso, social ou filosófico.

Os julgamentos de sentimentos e, mais especificamente, os julgamentos éticos quanto ao que é "bom" ou "mau" são valiosos por considerar o todo de uma situação e suas implicações sobre o organismo do experienciador como um todo. Não se perde tempo nem com análise intelectual, nem com "talvez". Por outro lado, excetuando aqueles julgamentos de sentimento que constituem verdadeiramente reações instintivas e lidam com necessidades biológicas, as avaliações éticas são determinadas por um "pré julgamento", com freqüência por um preconceito e por qualidades e limitações, sejam do ego consciente ou de alguma poderosa imagem racional no inconsciente. Em outras palavras, elas tomam as coisas como garantidas.

Enquanto a intuição verdadeira surge de uma adaptação imediata do todo do experimentador a uma situação — incluindo todas as suas implicações novas e nunca antes percebidas —, um julgamento de sentimento ético avalia cada nova situação em termos das estimativas tradicionais estabelecidas. Portanto, a moral periodicamente muda seus ditames, estes embora expressões de verdadeiras intuições coletivas quando "novos", logo perdem seu significado real, assim e à medida que se manifeste uma nova disposição de fatores básicos na natureza humana.

No entanto, o ponto principal que precisamos compreender é que todos os julgamentos éticos dividem a soma total das experiências em duas categorias: uma aceitável e outra que precisa ser rejeitada. Enquanto isso talvez seja uma necessidade para viver num mundo regido pela lei dos opostos e em que cada "todo vivo" encara a destruição a partir de fora e mesmo a partir de dentro, permanece o fato de que, ao viver quase exclusivamente baseado em padrões éticos ou julgamentos de sentimento, o homem deixe de experimentar metade de seus conteúdos vivenciais.

Viver eticamente é viver "segurança antes de tudo". E viver com base no medo. Na selva, o medo é uma coisa real, e é realmente a manifestação do instinto de preservação. Na maioria dos casos, a lei básica é correr ou morrer. A outra solução é trancar-se entre paredes que definem uma zona de segurança (o lar) e uma zona de perigo (fora de casa).

Agora, se lembramos o que foi dito num capítulo anterior, a humanidade está hoje, e tem estado por muitos séculos, num tipo de selva psicomental que a relativa segurança de nosso mundo físico civilizado não torna nem um pouco mais segura, exatamente o contrário. Em termos de idade mental, podemos dizer que a ênfase europeia em lógica intelectual e escolástica tinha por meta a construção de uma zona de segurança mental na selva do recém-descoberto domínio da ideação. Lógica e disciplina matemática nos ensinam como construir um lar intelectual confinado, no qual o poder de ideação pode funcionar com segurança. Fórmulas matemáticas constituem uma rede de segurança operacional. Enquanto você se mantém dentro dela, pode confiar nos resultados de suas ideias, mas, se sai, então sua imaginação caótica pode fazê-lo se perder.

Em termos psicológicos, o mesmo tem sido verdade. A ética e a filosofia europeia nos ensinaram a construir um lar forte, ou melhor, um castelo fortificado: o consciente. Este, por sua vez, sob o domínio de um senhor feudal: o ego. A mulher era escravizada pelo senhor feudal e os filhos mantidos em submissão. Os camponeses que trabalhavam ao redor do castelo (os conteúdos instintivos da psique) eram admitidos no castelo sob a supervisão estrita de uma guarda armada quando o inimigo ameaçava os portões, fortemente trancados. E claro, uma linda capela era construída dentro da fortaleza, onde se adorava um Deus autocrático, camuflado de Salvador compassivo. Todo o quadro da civilização feudal é um símbolo exato (como sempre) do que acontecia na psique humana.

Também a música, expressão direta da psique, como sempre é o caso, proporcionava um quadro simbólico desse mundo feudal, pois formalismo e tonalidade são esplêndidas ilustrações dessa dominação do princípio ético de exclusão. O todo da civilização cristã europeia baseia-se nesse princípio. Baseia-se em medo, psíquico e mental, e no ideal de "segurança antes de tudo", às vezes necessário mas sempre contraditório. Tal princípio dentro dos limites estritos de sua fortaleza, e, nesse sentido, a civilização europeia significa uma superfocalização, que esclareceu de modo amplo e penetrante o que admitira como válido e seguro. Portanto, seus frutos constituem um tesouro de grande preço.

Mas... oh! que terrível confusão se fez do que foi deixado fora dos muros! Que preço elevado a humanidade está pagando por um Descartes e um Bach! Quão ulcerados e decadentes ficaram os conteúdos do subconsciente — a soma total de nossas repressões, condenações morais e medos herdados! Cada enfoque significa limitação, e portanto exclusão de experiências e conteúdos psíquicos. E por isso é preciso pagar por ele. Quanto mais o subconsciente é excluído — quanto mais os julgamentos éticos controlam o comportamento exterior e interior —, tanto mais as futuras gerações (ou, numa vida individual, os anos depois dos 40) precisarão sofrer as consequências. Por outro lado, não focalizar, não construir um lar fortificado (ou consciente) pode significar uma vida de dispersão e fuga constante dos inimigos (dentro e fora), uma vida na qual nenhuma conquista sólida e duradoura é conseguida — exceto talvez a nossa própria liberdade de ser... que pode, afinal, ser a maior de todas as conquistas!

Mas não queremos aqui fazer nenhum julgamento de sentimento contra os julgamentos de sentimento ou valorações éticas! Ao contrário, pretendemos mostrar que há uma outra atitude, que, enquanto não nega a validade dos julgamentos de sentimento de raiz orgânica e de caráter instintivo-intuitivo, enfatiza um princípio diferente de conduta: o princípio da estética.
A estética (no sentido estritamente filosófico do tenho) é oposta à ética (também no sentido estrito da palavra), do mesmo modo que pensamento é oposto a sentimento. Jung define pensamento como:

a função psicológica que, de acordo com suas próprias leis, organiza aquilo que a ela se apresenta em conexões conceituais. ...O termo pensar deveria limitar-se d associação de representações por meio de um conceito, em que, em outras palavras, um ato de julgamento prevalece, seja esse ato o produto da intenção ou não.

O que caracteriza o pensamento é o fato de ele ser uma associação de fatores. Em outras palavras, ele estabelece "conexões conceituais" ou em geral relações bem definidas. E o clímax do processo de consciência de relação. Traz à luz a forma inerente (estrutura ou configuração) de coisas e situações. O julgamento de pensamento não é quanto à coisa ser "boa" ou "má" em si, mas sim quanto a se sua forma de apresentação estabelece um conjunto válido de relações ou não. Ele não diz "esta coisa é má" — significando sempre "para mim". Ele revela se a disposição de fatores na situação estabelecida pela relação é: primeiro, coerente; segundo, significativa. Tendo analisado essa disposição de fatores, ele tem ainda a capacidade de julgar se se enfatizar ou restringir alguns desses fatores pode se estabelecer uma nova configuração, mais coerente e significativa.

Pensar é estabelecer ou analisar conexões que, em sua configuração total, constituem uma forma. A forma é coerente e significativa, ou não é. Neste processo, encontramos o fundamento da estética. O julgamento estético é oposto ao julgamento ético à medida que não exclui nenhum grupo de elementos, mas, no máximo, subordina alguns a outros de maior significado. Diz-se que o processo estético é seletivo. Mas seleção não significa condenação do que não foi selecionado. Se uni pintor delineia apenas os contornos de um corpo com seu pincel, isto não quer dizer que ele condene os elementos de carne etc., dentro desse contorno. Ele não faz um julgamento ético contra eles. Transforma-os em valores implícitos. Seleciona certos fatores e dá ênfase a certos elementos ou fases da configuração total apresentada pela experiência de vida (por exemplo, pela cena que seus olhos veem). Mas essa ênfase precisa ser produzida de modo a dar a sugestão de todos os elementos que obviamente não foram representados. Numa verdadeira grande obra de arte, todos os elementos de uma situação de vida estão representados, mas alguns são representados pela presença real, outros permanecem implícitos na configuração total.

Isto, traduzido em termos de vida diária, pode ser ilustrado pelo seguinte exemplo. Um homem determina por julgamento ético ou julgamento de sentimento que experiências sexuais são "más" e, atuando a partir do julgamento, se castra (como Origens, por exemplo). Este é um caso extremo, pois envolve uma ação física violenta, mas, de forma menos acentuada, todo ascetismo autocompulsivo é do mesmo tipo. Por outro lado, podemos pensar numa pessoa espiritual que tenha normalmente ultrapassado o desejo da experiência sexual. A força sexual está ativa nele, mas transformada. Ela está "implícita", mas não representada de fato. Não há julgamento ético contra ela, contudo, na configuração estética do todo de seu ser, o sexo é sugerido sem ser enfatizado nem mesmo representado concretamente, enquanto num homem automutilado o sexo está sempre presente mas de uma forma negativa, ou seja, como uma sombra positiva — portanto como "mal".

Os julgamentos éticos criam o mal; os estéticos produzem destaques, relevos, contrastes, luz e sombra, representação real ou implícita, clímaces e sugestões. Equilibram opostos e nunca condenam, absolutamente. Harmonizam, nunca descartam. Lidam com relações totais que podem avaliar na totalidade de seus elementos. Nenhum elemento pode ser descartado sem prejudicar a relação. De fato, nenhum elemento em qualquer relação pode jamais ser descartado. Podemos apenas transformá-lo, por um aparente descarte, em uma força met. Mas, para aquele que atua de acordo com o verdadeiro princípio da estética, não há nenhum "mal" nem há nenhum "bem". Existe apenas forma ou relação entre todos os elementos numa totalidade que inclui luz e sombra, alto e baixo, destaque e mera sugestão — todos igualmente significativos, mas cada um com significado próprio, um significado que pode ser marcado ou com sinal de mais ou de menos. Em estética, o único mal é a falta de significado, mas ele não reside na coisa ou na situação. Pois todas as coisas e todas as situações, sendo expressões do momento de sua manifestação, são inerentemente significativas. A falta de significado deve-se apenas à inabilidade de o homem perceber o significado. Assim, não existe nenhum mal, exceto a ignorância.

O resultado é que o homem pode ser educado para perceber significados. A compulsão ética, baseada em medo, leva ao mal. A educação estética, baseada na percepção de relação coerente e significativa, destrói a fantasia escura que é o mal. Faz da vida toda uma atividade estética — uma atividade criativa. Destrói — ou deveria destruir — todas as avaliações baseadas em julgamentos passados e na compulsão da tradição, já que esses são impedimentos ao viver pleno da totalidade e do momento. A totalidade do momento é a Alma do momento. E a Alma do momento é a sua Alma e a minha, sempre nova, sempre jovem, sempre enraizada no significado, sempre enraizada na "qualidade" que é nossa, o grande tema que a "vida" desenvolve fazendo-o integrar e transfigurar em significado individual a realização de nosso próprio horizonte sempre mais distante.

Educar o homem desse modo é a tarefa da nova psicologia e da nova astrologia delineada neste livro.

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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.