terça-feira, 1 de agosto de 2017

A Dinâmica dos Aspectos, por Helena Avelar e Luis Ribeiro

Os Aspectos em Movimento

Como já referimos, os aspectos formam uma teia de interações entre os planetas de um horóscopo. Já abordamos as dinâmicas mais simples, baseadas em movimentos de aplicação ou separação entre dois planetas. Neste capítulo abordaremos os padrões mais complexos: a interação por aspecto de vários planetas e a combinação dos aspectos com as dignidades essenciais.

Na prática, este tipo de interação é aplicado sobretudo à Astrologia I lorária e mais ocasionalmente à Mundana e à Natal.


A régua de 30°

Uma forma simples e prática de visualizar o movimento dos planetas é uso de um diagrama designado régua de 30°. Esta régua é uma forma alternativa de representar os planetas no Zodíaco, juntando-os todos num espaço único de 30°, sem levar em conta o signo onde se encontram (este é anotado junto de cada planeta, permitindo assim distinguir os vários aspectos).

Por exemplo, no horóscopo de D. Sebastião (abordado anteriormente) as posições na régua seriam a seguintes:

Exemplo da régua de 30°

A régua mostra a distância relativa entre os planetas, ajudando a calcular os aspectos e a observar os respectivos movimentos. Transforma qualquer aspecto numa espécie de “conjunção”, realçando os planetas que estejam em graus próximos. Os planetas que estão próximos na régua formarão em aspecto, desde que estejam posicionados em signos que se aspectem.

Por exemplo, Mercúrio e a Lua distam na régua cerca de 4° e estão em signos opostos (Aquário e Leão, respectivamente); formam assim uma oposição.


Por outro lado, a régua também mostra alguns planetas localizados em graus bastante próximos mas situados em signos que não se aspectam.

E o caso do par Sol-Vênus, situado a 10° de Aquário e a 10° de Capricórnio, respectivamente, e do par Marte-Saturno, situados respectivamente a 15° de Aquário e 14° de Peixes.


A régua também facilita a observação do movimento dos planetas, permitindo determinar se os aspectos são aplicativos ou separativos.

Por exemplo, ao observar a régua verificamos que o sextil Vênus-Saturno é aplicativo, porque Vénus, o planeta mais rápido, está a mover-se na direção de Saturno, o mais lento.

Por outro lado, Marte e Mercúrio estão a 7° de distância, no mesmo signo (Aquário), pelo que formam uma conjunção. Mercúrio, o mais rápido, dirige-se a Marte em movimento retrógrado, pelo que se trata de uma conjunção aplicativa.


Outra utilidade da régua é a de permitir detectar imediatamente os planetas vazios de curso.

Por exemplo, a Lua está nos graus finais de um signo (neste caso Leão) e não forma aspectos aplicativos até sair deste signo. Neste caso, o orbe da Lua ultrapassa os 30° da régua, pelo que há que voltar ao início (0º) para completar a extensão que falta. Sempre que isto acontece há que ter em conta que o signo muda; neste caso, o orbe da Lua estende-se até aos 8°37’ de Virgem. Como vemos na régua, o orbe da Lua parece tocar Júpiter. No entanto, este está em Balança, um signo contíguo a Virgem, pelo que não a aspecta.


A régua de 30° foi proposta pelo astrólogo inglês Derek Appleby (1937-1995).


Movimentos combinados

Quando se estudam assuntos específicos, selecionam-se determinados planetas, designados significadores, que representam a ação a ser estudada. Numa questão sobre carreira, por exemplo, os significadores seriam o planeta regente do Ascendente (a pessoa) e o regente do MC (a carreira).

Qualquer relação (ou falta dela) entre significadores descreve o desenvolvimento da ação e permite compreender com mais detalhe o “enredo”. Esta relação é geralmente representada por um aspecto. No entanto, o contato entre os significadores pode ser reforçado, impedido ou anulado por outros planetas. São estes os casos de que em seguida falaremos.

Algumas destas interações são originadas por mudanças de direção no movimento planetário, enquanto outras surgem do desenvolvimento natural do conceito de aplicação e separação, no qual é incluído um terceiro planeta.

Neste tipo de estudo, o mais importante é ter a noção do movimento dos planetas envolvidos (velocidade relativa e direção); além disso, há que ter sempre presente que um aspecto tem três fases: a aplicação, a perfeição (o momento em que é exato) e a separação. Estes conceitos são vitais para a compreensão deste capítulo.

As dinâmicas de aspecto dizem respeito ao movimento do mapa, pelo que a exatidão (perfeição) do aspecto é da máxima importância. Só se considera o aspecto formado (perfeito) quando se torna exato.

Importante: para este tipo de estudo apenas se considera o último aspecto que o planeta formou e o próximo que vai formar. Estes são os aspectos relevantes; os outros não são levados em consideração, mesmo que o planeta ainda esteja dentro de orbe.

Por exemplo, na figura abaixo, Mercúrio, situado a 16° de Aquário, forma um sextil a Marte a 17° de Carneiro e outro a Vênus a 12° de Sagitário; forma ainda uma quadratura a Júpiter a 18° de Touro e uma oposição a Saturno a 14° Leão. Todos os aspectos estão dento de orbe. Contudo, na perspectiva da dinâmica de aspectos, apenas dois são levados em consideração: o último que formou (aspecto separativo) e o próximo que formará (aspecto aplicativo) - neste caso a oposição separativa a Saturno e o sextil aplicativo a Marte. A dinâmica de aspectos não leva em consideração o sextil a Vênus (que ocorreu antes da oposição a Saturno) nem a quadratura a Júpiter, que só se aperfeiçoará depois do sextil a Marte.

Sequência de aspectos

Translação de luz

A translação ocorre quando o planeta A, mais rápido, se separa do planeta B e se aplica ao planeta C. Neste caso diz-se que A transmite (ou translada) a luz de B para C. Por outras palavras, A faz a ligação entre os outros dois, funcionando como um “estafeta” que transporta as características de B para C.

Em termos práticos, a translação de luz tem dois efeitos:

1. Estabelece uma ligação que de outra forma não existiria, quando o planeta rápido une dois planetas que não se aspectam.

Por exemplo, Marte a 12° de Sagitário e Júpiter a 20° de Touro são os significadores. Não formam aspecto, pois estão em signos inconjuntos (distanciados 150°). No entanto, Vênus, que se encontra a 15º de Aquário, separa-se de um sextil a Marte e aplica-se por quadratura a Júpiter. Neste caso Vênus une os dois planetas transferindo a luz (e a natureza) de Marte para Júpiter.

Translação de luz

2. Reforça uma ligação, quando o planeta rápido une dois mais lentos que estão a separar-se.

Por exemplo, Marte a 10° de Caranguejo e Mercúrio a 15° de Touro são os significadores. Mercúrio separa-se de um sextil a Marte, o que indica que o aspecto já se completou e está a dissolver-se. No entanto, a Lua a 12° de Capricórnio, vem reforçar a ligação entre os dois, porque se separa de uma oposição a Marte e aplica-se a um trígono a Mercúrio; neste caso a Lua transfere a luz de Marte para Mercúrio, reativando a ligação entre os planetas.

Translação de luz

Imaginemos um exemplo de Astrologia Horária em que é colocada a questão “Será que vou conseguir o emprego?”

O horóscopo da pergunta tem a 18º Sagitário como Ascendente e 7º de Balança no MC. Neste caso o significador da pessoa que faz a pergunta é Júpiter (regente do Ascendente), posicionado a 10° de Sagitário. O significador do emprego é Vênus (regente do MC), localizado a 15° de Touro.

Translação de luz

Como os significadores não se contactam por aspecto, diríamos, numa primeira abordagem, que o emprego não será obtido. Contudo, os movimentos da Lua neste horóscopo indicam o contrário. Posicionada a 12° de Peixes, a Lua une os dois planetas por translação de luz: separa-se de uma quadratura a Júpiter e aplica-se a um sextil a Vênus. Podemos então dar uma resposta positiva: o indivíduo obterá o emprego, muito possivelmente através de um intermediário (Lua) que estabelece a ligação entre a pessoa (Júpiter) e o emprego (Vênus).

Caso esta configuração surgisse numa natividade, indicaria uma tendência do indivíduo (Júpiter) a alcançar os seus objetivos (Vénus) com o auxílio de intermediários (Lua). Neste caso, trata-se de uma tendência que teria de ser ponderada com o resto do mapa.


Coleção de luz

A coleção ocorre quando dois planetas que não se aspectam se aplicam a um terceiro, mais lento. Neste caso diz-se que o planeta mais lento colecta a luz dos outros dois, reunindo as suas qualidades e agindo como elemento unificador. Pode representar uma situação ou uma pessoa que funciona como intermediária e possibilita a ação (o tipo de ação é representado pelos outros dois planetas).

Por exemplo, Sol a 7º de Balança e Lua a 10° de Peixes, são os significadores. Estão em signos inconjuntos, pelo que não se aspectam. Contudo, ambos formam aspectos aplicativos a Marte que está a 12° de Gêmeos (o Sol forma um trígono e a Lua uma quadratura). Como Marte é o planeta mais lento, diz-se que Marte coleta a luz dos outros dois, ligando-os.

Coleção de luz

Por exemplo, em Astrologia Horária é colocada a questão “Poderei recuperar o colar que perdi?” (ver figura abaixo). Neste mapa o Ascendente está a 11° de Virgem. O significador da pessoa que pergunta é Mercúrio (regente do Ascendente), que está a 18° de Escorpião. O objeto perdido é representado pelo regente da Casa II, significadora das posses, que está a 11° de Balança. O regente, Vênus, está a 21° de Balança.

Coleção de luz


Entre Mercúrio (a pessoa) e Vênus (o colar) não há aspectos, o que indica uma resposta negativa. No entanto, ambos os planetas estão a aplicar-se a Marte, que está a 25° de Capricórnio (Mercúrio por sextil e Vênus por quadratura). Podemos então concluir que Marte reúne (coleta) a luz dos dois planetas, servindo de intermediário à sua reunião. Neste caso Marte pode representar uma pessoa amiga que encontra o objecto perdido (Vénus) e o guarda até que o proprietário (Mercúrio) o vá recuperar.


Proibição de luz

A proibição ocorre quando o terceiro planeta interfere na formação do aspecto dos outros dois, impedindo a sua concretização.

Há proibição quando:

- O planeta A aplica-se a B mas, antes de alcançá-lo, faz primeiro um aspecto ao planeta C; neste caso, C impede A de comunicar com B.

Por exemplo, Mercúrio a 5º de Leão e Júpiter a 10° de Balança são os significadores. Mercúrio aplica-se por sextil a Júpiter, mas antes de completar o aspecto, forma uma quadratura com Marte que está a 7º de Escorpião. Neste caso Marte proíbe que os significadores se encontrem, impedindo a ação.

Proibição de luz

- O planeta A aplica-se a B mas antes de alcançá-lo é aspectado por C.

Por exemplo, Marte a 15º de Leão e Saturno a 20º de Touro são os significadores. Marte aplica-se por quadratura a Saturno, mas antes de completar o aspecto Vênus, que está a 12º de Sagitário, aspecta-o por trígono. Neste caso, Vênus, o mais rápido dos três, proíbe a ação prometida pela quadratura de Marte e Saturno.



- O planeta A aplica-se a B mas, antes de alcançá-lo, C aspecta B.

Por exemplo, Marte a 15° de Carneiro e Júpiter a 25° de Leão são os significadores. Marte aplica-se por trígono a Júpiter, mas antes de alcançá-lo Mercúrio, a 14° de Escorpião, completa uma quadratura a Júpiter. Neste caso Mercúrio, mais rápido, proíbe a ligação dos significadores.



A proibição dá origem a muitas variantes, a que alguns autores conterem designações específicas. A ideia que o estudante deve reter é que na proibição o terceiro planeta impede, de uma forma ou de outra, a realização do aspecto exato entre os outros dois.

Um exemplo simples de proibição de luz pode ser observado numa questão de Astrologia Horária sobre relacionamentos.

Vejamos o mapa da pergunta “Será que ela vai namorar comigo?” O Ascendente da pergunta está situado a 5º de Aquário. Neste caso, o significador da pessoa que faz a pergunta é Saturno (regente do Ascendente), posicionado a 15° de Leão. O significador da rapariga em questão é o Sol (regente do Descendente), localizado a 5º de Carneiro.



O Sol (ela) parece aplicar-se por trígono a Saturno (ele), sugerindo que vai haver namoro. No entanto, uma observação mais atenta revela que o Sol não chega a completar o aspecto com Saturno, porque primeiro faz um trígono a Marte, que está a 9º de Sagitário. Podemos então dizer que ela (Sol) iniciará um relacionamento com a pessoa representada por Marte, e não chegará a namorar com quem faz a pergunta (Saturno).


Frustração de luz

A frustração é uma variante da proibição. Ocorre quando A se aplica a B mas, antes do aspecto se completar, B faz um aspecto a C. Diz-se então que A é frustrado na sua ação.

Por exemplo, Mercúrio a 15° de Gêmeos e Marte a 22° de Aquário são os significadores. Neste caso Mercúrio aplica-se por trígono a Marte mas antes de completar o aspecto, Marte aperfeiçoa uma conjunção com Saturno que está a 25º de Aquário. Diz-se então que a ligação Mercúrio-Marte foi frustrada.



Refranação ou enfreação de luz

A refranação ocorre quando dois planetas se aplicam, mas antes de completar o aspecto, o mais rápido muda de direção, impedindo que o aspecto se complete.

Por exemplo, Mercúrio a 14° de Virgem e Saturno a 18° de Caranguejo. Mercúrio aplica-se por sextil a Saturno, mas antes de alcançá-lo entra em movimento retrógrado a 16° de Virgem. Neste caso o aspecto não chega a completar-se, o que significa que a ação retrocede e não se concretiza.

Refranação de luz

A refranação pode ser considerada uma espécie de proibição que envolve apenas dois planetas e cujo fator impeditivo é a mudança de direção de um deles.

Como exemplo de refranação podemos apresentar outra pergunta de Astrologia Horária. Imaginemos a questão “Haverá uma reconciliação?” colocada por alguém que se separou recentemente.

Neste caso temos o Ascendente a 18° de Carneiro. O significador da pessoa que coloca a pergunta neste caso é Marte (regente do Ascendente), localizado a 10° de Escorpião. O parceiro é aqui representado por Vênus retrógrado (regente do Descendente) a 14° de Escorpião. No seu movimento retrógrado Vênus aplica-se à conjunção com Marte, o que sugere um reencontro do casal. Contudo, ao estudarmos o movimento dos planetas observamos que Vénus retoma o movimento direto a 13° de Escorpião, antes de completar a conjunção com Marte. Como é mais rápido, Vênus começa a distanciar-se logo que fica direto. Marte, mais lento, não chega a alcançá-lo.

Podemos então concluir que a reconciliação não chega a acontecer. O parceiro parece interessado em voltar (retrógrado) mas muda subitamente de ideias e afasta-se.


As interações planetárias que apresentamos são as principais; existem outras nomenclaturas e outras dos casos mencionados, mas o mais importante é a compreensão do movimento, que num horóscopo é sempre um espelho da ação.


Planetas Auxiliados e Cercados

Em determinadas situações, os aspectos têm um impacto direto na capacidade de expressão do planeta, ampliando-a grandemente ou, pelo contrário, impedindo-a. Isto acontece quando combinamos aspectos fluidos com planetas benéficos e aspectos tensos com planetas maléficos. Existem dois casos extremos neste tipo de combinação: o auxílio e o cerco.


Auxílio

Quando um planeta se separa de um dos benéficos e se aplica ao outro, diz-se que está auxiliado. Neste caso apenas se consideram os aspectos de conjunção, trígono e sextil (a conjunção é a mais forte).

Como o próprio nome indica, o auxílio representa uma situação em que o planeta (e aquilo que significa no mapa) tem apoio externo. A situação de auxílio sugere uma situação positiva e com possibilidades de sucesso.

Por exemplo, Mercúrio está a 14° de Leão, Vênus a 12° do mesmo signo e Júpiter a 16° de Sagitário. Mercúrio separa-se de uma conjunção de Vênus e aplica-se por trígono a Júpiter, estando portanto auxiliado pelos benéficos. Tudo o que Mercúrio significar naquele horóscopo (um indivíduo, ação ou evento) está rodeado de boas condições.

Auxílio


Cerco

E o oposto do auxílio. Um planeta está cercado (ou sitiado) quando se separa de um dos maléficos e se aplica ao outro. Neste caso apenas se consideram os aspectos de conjunção, quadratura ou oposição (mais uma vez, a conjunção é a mais forte).

Tal como uma cidade sitiada, o planeta enfrenta uma situação difícil, da qual terá dificuldade em escapar. E a proverbial situação de “estar entre a espada (Marte) e a parede (Saturno)”. O planeta, e tudo o que significa no mapa, estão em mau estado e rodeados de situações adversas.

Por exemplo, Mercúrio a 20° de Sagitário, Marte a 18° de Virgem e Saturno a 25° de Peixes. Neste caso Mercúrio separa-se de uma quadratura de Saturno e aplica-se, também por quadratura, a Marte. Tudo o que Mercúrio significar naquele mapa está em sérias dificuldades.

Cerco
Alguns autores consideram como única exceção a esta regra o caso do Sol, que devido ao seu poder não pode estar cercado, pelo menos por conjunção. Neste caso, é o Sol que “consome” os planetas que lhe estão conjuntos, ofuscando a sua ação.


Exemplos práticos

No horóscopo do poeta e escritor Edgar Allan Poe, encontramos uma situação de auxílio. A Lua, posicionada a 9°49’, separa-se da conjunção a Vênus, a 9°07’ e aplica-se à conjunção a Júpiter, a 16°52’; todos os planetas estão em Peixes, junto à cúspide da Casa V.

Como a Lua está na cúspide da Casa V e rege a Casa IX, é de supor que este “auxílio” vá beneficiar as questões ligadas aos divertimentos e prazeres (Casa V), bem como os estudos, publicações e viagens (Casa IX). No entanto, é de notar que a Lua e Vênus fazem quadratura a Saturno, o que sugere também algumas dificuldades nestas áreas.

Os benefícios deverão portanto ser marcados por revezes, impasses e perdas. Com efeito, a vida de Poe foi sempre juncada de dificuldades e o sucesso literário só chegou depois da sua morte. Como Saturno está posicionado na Casa I (o indivíduo), estas contrariedades podem ter origem nas próprias ações de Poe (o que é corroborado pelo posicionamento de Marte, regente do Ascendente, muito debilitado na Casa XII). Muitos dos seus problemas estão relacionados com a propensão á bebida, que chegaria a levá-lo à morte.


O mapa dc Jim Morrison, vocalista do grupo The Doors, apresenta uma condição de cerco. O Sol, a 15°42’ de Sagitário, separa-se de uma oposição de Marte (a 11°40’ de Gêmeos) e aplica-se a uma de Saturno (a 23°45’ de Gêmeos).

O Sol está posicionado na Casa X e rege a VII, pelo que serão estas as áreas afetadas pelo cerco. Como efeito, a fama e sucesso (Casa X) alcançadas por Morrison foram marcadas pela polêmica; algumas das suas atuações musicais foram mesmo interrompidas pelas autoridades c a sua conduta em palco valeu-lhe uma condenação por atentado ao pudor. Também os seus relacionamentos pessoais (Casa VII) foram muito conturbados.

Como se sabe, Jim Morrison alcançou enorme sucesso, tal como era prometido pelo Sol (e outras configurações explicadas mais adiante), mas este foi sempre marcado por conflitos e inimizades.

Como se pode verificar, os casos de auxílio e de cerco devem ser sem pré-integrados no contexto do mapa. Só assim se poderá compreender a sua atuação específica num dado horóscopo, bem como o seu "peso" na vida do indivíduo.


Recepção

Ao pôr em ligação dois planetas, os aspectos também possibilitam a partilha de dignidade e poder entre eles. Da combinação de aspectos com dignidades essenciais surge o conceito de recepção.

A recepção

Recordemos que um planeta com dignidade num determinado grau ou signo do Zodíaco é o dispositor de qualquer planeta (ou outro elemento do horóscopo) que aí esteja posicionado. O termo é geralmente aplicado ao regente do signo, mas a disposição pode também ocorrer por exaltação, triplicidade, termo ou face.

A recepção é um prolongamento deste conceito de disposição e ocorre quando o planeta A faz um aspecto ao planeta B, estando A posicionado num signo onde B tem alguma dignidade. Diz-se que B recebe A e que lhe envia a sua disposição, natureza e virtude, ou seja, transmite-lhe a sua dignidade, fortalecendo-o.

Por exemplo, tomemos Marte a 10° de Peixes e Júpiter a 15° de Touro. Marte faz um sextil a Júpiter e encontra-se num signo regido por este. Neste caso, Marte está em recepção (ou é recebido) por Júpiter. Noutro caso, tomemos a Lua a 5º Carneiro em trígono ao Sol a 15° de Sagitário. Neste caso a Lua é recebida pelo Sol, no signo da sua exaltação, Carneiro.

Podemos comparar o planeta que recebe a um anfitrião que dá as boas-vindas (recebe) os que entram em sua casa.

A recepção diz-se perfeita quando o planeta A se encontra no signo do trono ou exaltação do planeta B; nesse caso temos uma interação forte entre os dois planetas. Quando a recepção envolve as dignidades menores (triplicidade, termo ou face) é considerada fraca ou imperfeita. Para muitos autores, a recepção por dignidades menores apenas é considerada quando o planeta “recebido” se encontra num grau que acumule simultaneamente duas dignidades menores do outro planeta (geralmente triplicidade e termo).

Por exemplo, Marte a 15° de Virgem em aspecto a Vênus a 12° de Gémeos. Como no grau 15 de Virgem Vênus acumula duas dignidades menores (triplicidade e termo), considera-se que está em recepção com Marte.

Quando os dois planetas em aspecto estão nas dignidades um do outro (A na dignidade de B, e B na de A), diz-se que existe uma recepção mútua. A relação entre os planetas torna-se mais intensa.

Por exemplo, Mercúrio em Capricórnio formando um trígono com Saturno em Virgem; Mercúrio está na regência de Saturno e este na de Mercúrio.

As recepções mútuas podem também ser mistas, quando o planeta A está no signo de regência de B e este no signo de exaltação de A.

Por exemplo, Mercúrio em Peixes em quadratura a Vênus em Gêmeos; neste caso temos uma recepção mútua mista, pois Mercúrio é recebido por exaltação por Vênus, enquanto Vénus é recebido por trono por Mercúrio.

Na prática, podemos encarar a recepção como um sinal de “boa vontade” do planeta regente para auxiliar o planeta visitante, ficando este mais fortalecido nas suas ações. Neste sentido, a recepção reafirma os aspectos mais fáceis (trígono e sextil) e ameniza as situações de conflito (quadratura e oposição).

As recepções também indicam predisposições e motivações por detrás da ação. Um planeta que é recebido por regência confere ao seu dispositor uma grande importância (da mesma forma que um visitante presta homenagem ao seu anfitrião). Se a recepção ocorrer por exaltação, pode representar um empolgamento por parte do planeta recebido. O mesmo acontece em relação às dignidades menores, mas em muito menor escala.

As debilidades podem também ser incluídas nesta interpretação, embora o seu impacto seja menos notório e facilmente anulado por outras configurações. Representam uma espécie de “má vontade” entre os planetas.

Por exemplo, o Sol em Caranguejo formando um sextil a Saturno em Virgem; neste caso o Sol aspecta Saturno a partir do signo do seu exílio (Caranguejo), pelo que Saturno não o valoriza.

Como exemplo prático consideremos novamente a pergunta de Astrologia Horária “Será que ela vai namorar comigo?”. O Ascendente da pergunta está situado a 5º de Aquário. Como já vimos, o significador da pessoa que faz a pergunta é Saturno (regente do Ascendente), posicionado a 15° de Leão. O significador da rapariga em questão é o Sol (regente do Descendente), localizado a 5º de Carneiro.


Concluímos anteriormente que o relacionamento não ocorreria, pois ela (Sol) preferia namorar com outro rapaz (Marte) e não com o que fez a pergunta (Saturno). Vejamos agora, através do estudo das recepções, as motivações subjacentes a cada uma destas personagens.

O significador do rapaz que pergunta é Saturno, que por estar em Leão é dispositado pelo Sol, significador da rapariga. Isto indica que ele tem um grande interesse nela e que, de certa forma, está sob o seu domínio (Saturno está no signo de regência do Sol: ele está no “reino” dela). Infelizmente para ele, o significador dela (Sol) está em Carneiro, signo da queda de Saturno. Isto significa que ela não o valoriza como pretendente (está no signo onde Saturno tem queda) e que o único sentimento que tem por ele é o de amizade (pois, apesar de tudo, Saturno tem triplicidade em Carneiro).

Os sentimentos mais fortes estão reservados ao outro rapaz, representado por Marte. Como o Sol (ela) está em Carneiro, signo regido por Marte, podemos dizer que ela o valoriza muito e que ele tem um certo poder sobre ela (ela está no “reino” dele).

Vejamos agora como se interpretam estas situações num mapa natal.

No horóscopo de D. Sebastião, observamos dois exemplos de recepção.

Na quadratura Vênus-Júpiter temos um exemplo de recepção simples: Júpiter em Balança é recebido por Vênus, senhora do signo, posicionada em Capricórnio. Esta recepção reforça a intensidade do aspecto, porque dá substância à associação dos ideais e das ambições. Note-se que Júpiter, regente do MC (ambição) é recebido por Vênus, regente da Casa IX (ideais).

O segundo exemplo surge no sextil entre Vênus e Saturno. Neste caso, temos uma recepção mútua (mista): Vênus está no trono de Saturno (Capricórnio) e este está na exaltação de Vénus (Peixes). O rigor emocional indicado pelo aspecto é reforçado e intensificado pela recepção mútua. No contexto do mapa, este sextil representa a relação de D. Sebastião com os seus aliados. A recepção mútua mostra-nos que esses aliados lhe atribuíam grande força e poder (Saturno disposita Vênus) e que por sua vez o rei correspondia a estas expectativas com grande entusiasmo (Vénus disposita Saturno por exaltação).



Vemos assim que a recepção pode ocorrer em dois níveis de força: recepção mútua, a mais forte, onde a interação entre os dois planetas é grandemente intensificada e a recepção simples, que confere substância a um aspecto (se o aspecto envolvido for aplicativo confere ainda mais eficácia à recepção).

No exemplo acima referido a recepção entre Vênus e Saturno não só é forte por ser mútua, mas também por se tratar de um aspecto aplicativo. A recepção entre Vénus e Júpiter é comparativamente menos notória, pois o aspecto é separativo.

Alguns autores consideram que a recepção pode ocorrer sem a existência de um aspecto entre os planetas, mas nesse caso a recepção é muito fraca. Existe uma “expectativa” entre os planetas (representada pela disposição) mas esta não se manifesta através de uma ação (cuja natureza seria descrita pelo aspecto). Podemos dizer que há uma motivação latente entre os planetas, mas falta uma ação para a objetivar.

Por exemplo, uma Lua a 2º de Sagitário dispositada por um Júpiter a 16° de Balança está colorida pelas expectativas e pela natureza otimista de Júpiter. No entanto, como não há aspecto entre os dois astros, essa expectativa não se expressa numa ação específica, permanecendo apenas como uma tonalidade de fundo nas qualidades da Lua.

Neste caso o termo correto deve ser disposição e não recepção. Ao longo da obra vamos usar o termo recepção apenas quando há um aspecto entre os planetas; na ausência de aspecto, usaremos a designação de disposição (alguns autores consideram que a recepção mútua tem força suficiente para “funcionar” por si mesma, ainda que não exista um aspecto entre os dois planetas).

No horóscopo de D. Sebastião, a conjunção Mercúrio-Sol-Marte em Aquário é dispositada por Saturno, que está em Peixes. Neste caso não há recepção, porque não há aspecto entre a conjunção e Saturno. No entanto, mesmo sem recepção, a disposição não deixa de ter os seus efeitos, indicando-nos uma motivação subjacente às ações dos planetas dispositados. Assim, a impetuosidade e a expansão representadas pela conjunção Mercúrio-Sol-Marte num signo de Ar (Aquário) têm subjacente uma certa retração emocional, devida à posição do dispositor, Saturno, num signo de Água (Peixes). Note-se que, embora importante, esta característica nem sempre é perceptível nas ações do indivíduo.


Alguns conceitos adicionais

Associados à recepção surgem outros conceitos de menor importância, que vamos abordar em seguida. A sua utilidade é apenas relevante em estudos muito específicos do horóscopo, pelo que devem ser encarados como indicadores secundários que reforçam ou diminuem a força do aspecto e planetas envolvidos.


Pulsação ou emissão de força

A pulsação ocorre quando um planeta se encontra numa das suas dignidades maiores (trono ou exaltação) e faz aspecto a outro. Neste caso, envia (ou pulsa) a sua força a esse planeta.

Por exemplo: Lua a 13º Touro, exaltada, em trígono a Mercúrio a 10° de Capricórnio. A Lua emite (pulsa) a sua força para Mercúrio que está peregrino, auxiliando-o.

Na prática, este conceito diz-nos que um planeta, quando numa das suas dignidades, não só está forte como também está em condições de transmitir o seu poder aos planetas que toca, ou seja, um planeta dignificado pode reforçar e auxiliar outro planeta que aspecte.


Reflexo ou retorno de virtude

Quando um planeta é recebido por outro, mas está combusto, retrógrado ou cadente, não pode receber a força e virtude do seu dispositor e devolve-a.

Por exemplo, Vênus retrógrado a 8° de Carneiro na Casa VI em trígono a Marte a 10° de Leão na Casa X. Marte recebe Vênus e envia-lhe a sua natureza e virtude, mas como Vênus está retrógrado e em casa cadente, devolve-lhe o que este lhe enviou.

A ideia que este conceito transmite é que um planeta muito debilitado num horóscopo não lucra grandemente com a recepção. Isto indica que a recepção pode dar um reforço ao que existe, mas não tem força suficiente para retirar a debilidade a um planeta.



Helena Avelar e Luis Ribeiro, in Tratado das Esferas. Editora Pergaminho. Cascais, Portugal, 2007.

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