sábado, 18 de junho de 2016

Tempo Positivo e Negativo, por Dane Rudhyar

Essas coisas indubitavelmente são metafísicas demais, e no entanto tão tensamente práticas! Referem-se a uma das mudanças básicas que caracterizam nosso período de transição, uma mudança muito complexa já que às vezes parece estar dirigida a um caminho e em outras, justamente na direção oposta. Desde o século VI a.C., a humanidade tentou repolarizar-se de acordo com uma nova visão mental e abstrata. Seus melhores filósofos e cientistas salientaram o fator "forma". Forma que não deve ser confundida com "corpo", é meramente o resultado sintético de relacionamento puramente abstrato. No entanto, a forma, quando manifestada no ordenamento de elementos materiais num "corpo" (ou objeto), implica uma extensão no espaço. Portanto, o espaço, como um princípio cósmico, tem sido enfatizado fundamentalmente durante os últimos vinte e cinco séculos.

Por outro lado, o tempo real foi deixado para segundo plano. O tempo, para a humanidade arcaica, significava uma linha de modificações sucessivas pelas quais passavam os corpos materiais. O tempo era significativo à medida que parecia ser o causador da desintegração fatal de corpos e energias. Portanto o tempo era análogo ao destino. Saturno era o deus do destino e do carme — o regente implacável cujos decretos significavam interrupção e morte. Interrupção significa emoção, e nascimento também. Todas as grandes mudanças, todos os momentos em que o tempo parece atuar com poder e significado especiais, são causas de intensas emoções. Portanto os valores temporais aparecem, para o indivíduo "natural", como valores emocionais. O tempo (Saturno) opera — como veremos adiante — através de mudanças de sentimentos (Lua). As fases da Lua moldam a vida dos sentimentos do homem, como os ciclos solares afetam a atuação da força vital básica em todos os corpos vivos.

O tempo, desse modo associado com fases, carrega sempre consigo o significado de interrupção (conforme o simbolismo de Saturno), e assim, da trágica inabilidade de perpetuar a consciência, o amor, a juventude e todos os símbolos semelhantes da forma orgânica funcionando perfeitamente. Em outras palavras, o tempo, a princípio associado ao nascimento das coisas (Idade de Ouro) e à felicidade, parece ter estado por muitos séculos essencialmente ligado à ideia de morte e da fatalidade, de não se ser capaz de manter a própria identidade (o que significa manter uma forma definida). O tempo de Saturno tem sido considerado cada vez mais (especialmente no decorrer da era cristã) como o poder que se opõe à vida, um poder anti-holístico.

Isto em si é altamente significativo. Aquilo que na verdade gera os todos e dá nascimento a almas tem sido considerado quase exclusivamente como a causa de toda destruição! Obviamente, o tempo é tanto causa do nascimento quanto causa da morte. Mas porque "este mundo" foi considerado mau e ilusório, o nascimento não parecia ser um vento especialmente alegre — e, curiosamente, a morte foi ainda mais temida, o que na verdade seria um tanto ilógico, não fosse o fato de a morte ter sido ensinada como significando, em tantos casos, o nascimento do inferno! A filosofia oculta e tipos mais profundos de misticismo enfatizaram o ensinamento de que, enquanto o homem comum, identificando sua individualidade com seu corpo material, se defrontava com a extinção da consciência pessoal na morte, o adepto, tendo conseguido transferir sua consciência de ser do corpo para a forma abstrata (ou protótipo astral), não conhecia o fim da personalidade na morte. Seu corpo material desintegrar-se-ia sob a influência de Saturno, mas, tendo estabilizado seu ser numa forma abstrata, ele era capaz de enganar Saturno. Ele permanecia o mesmo self — menos um veículo material para expressão. A totalidade do todo permanecia, apesar de ter cessado o poder operacional do todo (em termos de atividade terrena).

Assim, a fatalidade da interrupção foi superada por meio do domínio da forma. O ser humano, ao construir sua "forma de imortalidade", ou desembaraçando-a dos elementos substanciais que lhe davam corpo, foi capaz de reter sua identidade a despeito de todas as mudanças, a despeito do tempo. Tendo construído sua própria estrutura espacial como uma fortaleza inexpugnável, ele pôde desafiar o tempo. Isto s6 pôde ser feito com o uso da mente. Vários níveis mentais resultariam em vários tipos de imortalidade. Um grande livro, lembrado através das eras, é um tipo de imortalidade pessoal para seu autor. O adepto, entretanto, era capaz de atingir um tipo mais integral de imortalidade, funcionando além da morte em seu "corpo crístico" ou "corpo de ressurreição" ou corpo nirmanakaya etc.

Infelizmente, o tipo criativo de mente (ou seja, a mente considerada em relação com o processo de fazer todos) logo foi obscurecido pelo tremendo desenvolvimento do tipo lógico de mente, ou intelecto analítico. Através da análise, o espaço perdeu sua totalidade (ou seja, sua conexão com o poder holístico do tempo), e passou a ser mecanicista e estritamente causal. Tornou-se infinito, portanto sem significado. Foi concebido como estendendo-se infinitamente em todas as direções. A causalidade e o mecanicismo levaram à formulação das leis da termodinâmica e à ideia de entropia. O universo era visto como "declinando". Também aqui o tempo estava se tornando a fatalidade da interrupção — em vez do poder de dar origem a todos.

No entanto, ultimamente tem vindo à tona uma tendência a restabelecer a cosmologia em termos não diferentes dos antigos Dias e Noites de Brahma. O universo não está sendo apenas concebido como um todo, mas, em vez de ser visto como um todo em explosão, está adquirindo o poder de autorregeneração, períodos de contrações alternando com períodos de expansões (Sir James Jeans, op. cit., p. 138). Parece provável que uma nova compreensão da essência do tempo possa levar os cientistas a teorias mais aprofundadas e satisfatórias.

Entretanto para nós o ponto principal a ser compreendido é que há duas concepções fundamentais de tempo possíveis: o tempo negativo é o concebido como a fatalidade da cessação. O tempo positivo, ou tempo holista, é o poder de fazer todos. A primeira visão é subjetiva e emocional. Ela diz: "eu estou aqui, inteiro, vivo, consciente, e tudo isto vai terminar! Cada fase é um passo em direção à morte, e assim tudo é sofrimento e tudo em vão". Assim fala o indivíduo que viu a identidade individual como uma miragem. "Todas as entidades compostas degeneram", disse o Buda. Decorrendo disso, logicamente, que a única atitude sábia a se tomar é retirar a consciência de todos os compostos que mudam e habitar na "forma abstrata" pura, na totalidade pura além (ou dentro) de todos os todos. Este é o estado Nirvana.

A concepção positiva de tempo vê tempo como o eterno nascimento de todos que não morrem necessariamente, mas podem continuar combinando-se entre si, formando totalidades cada vez maiores ao longo do processo. Através da participação na consciência, o indivíduo pode tornar-se parte orgânica de um todo maior, e assim atingir a imortalidade dentro daquele todo, como agente funcional da totalidade do todo maior. Esse tipo de imortalidade difere em significado da imortalidade estritamente pessoal, porque não se baseia na superação do tempo, mas na identificação com o poder criativo de cada momento.

O homem deveria viver plenamente cada momento, e em primeiro lugar seu momento de nascimento fundamental e seu Destino inteiro. Como ele pára de resistir ao tempo, e, ao contrário, aceita a mensagem criativa de cada momento, cada momento é visto como um nascimento. E então, ao viver criativamente, vive num processo constante de fazer todos. Ele não está tentando escapar das limitações de nenhum momento fugindo para o espaço, mas preenche o espaço e a forma determinada pela potência de cada momento, e ao fazê-lo renova constantemente sua totalidade. Ele cria, com a mesma leveza e alegria, tanto nos momentos que definem sua totalidade, como a da juventude, quanto naqueles outros momentos que definem sua totalidade como a da maturidade, da velhice ou da morte. Todos esses tempos, em si, são igualmente oportunidades de fazer todos. A cada momento, o homem é um todo combinando com todos os outros todos dentro do Todo universal. Quando a estrutura-espaço conhecida como seu corpo não é mais capaz de definir uma nova série de fazer todos, a estrutura se decompõe em seus elementos, que se recombinam dentro do Todo para continuar a alegria de nascer de outro modo. Mas no momento exato em que a estrutura do corpo perde seu poder holista e sucumbe, neste mesmo momento, nascem miríades de estruturas no universo. Pode nascer uma estrela, e aquele que preencheu o tempo e identificou-se com suas ondas cíclicas é carregado até lá para o nascimento imediato, de acordo com a plenitude do poder de fazer todos que ele tenha desenvolvido em sua estrutura-espaço então terminada (por exemplo, espécie, raça, família e agrupamentos de todo tipo).

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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.