sábado, 13 de maio de 2017

Breve História da Astrologia, por Helena Avelar e Luis Ribeiro

Apresentar uma história completa da Astrologia e do seu desenvolvimento ultrapassa largamente o âmbito deste manual. O que aqui apresentamos é uma versão muito resumida, que menciona os principais momentos, mas que deixa de lado muitas referências importantes. O objectivo é dar ao estudante uma noção geral da história deste conhecimento.

A Astrologia é uma das mais antigas formas de conhecimento. A sua origem perde-se nos tempos e remonta ao nascimento das civilizações humanas.

A observação e estudo dos movimentos dos astros surgem numa época em que a vida dos seres humanos estava intimamente ligada aos ciclos da Natureza. A percepção das estações do ano e das fases da Lua é decerto muito antiga, e a regularidade destes ciclos foi desde sempre um marco orientador para os seres humanos. A importância desta percepção é tal que desde logo lhe foi atribuído um valor simbólico e transcendente.

A vertente interpretativa, simbólica e metafísica destes conhecimentos constituiu as bases da Astrologia, enquanto o aspecto matemático veio mais tarde dar origem à Astronomia. Até ao século XVII estas duas vertentes do conhecimento foram indissociáveis.

A origem da Astrologia

Os vestígios mais antigos de observação astrológica/astronómica remontam à época pré-histórica, cerca de 15.000 a.C. No entanto, a Astrologia, tal como a entendemos hoje, só começou a desenvolver-se quando o Homem se sedentarizou, estando intimamente associada ao aparecimento da agricultura (Neolítico Médio, cerca do 6° milénio a.C.).

A necessidade de compreender os ciclos naturais tornou-se vital para as colheitas. Surgiu assim uma civilização baseada na adoração dos céus e dos astros, que construiu as estruturas megalíticas alinhadas com eixos astronómicos.

Período mesopotâmico

A Astrologia que conhecemos actualmente aparece por volta de 4.000 a.C., com o desenvolvimento das civilizações mesopotâmicas e egípcia, na zona do Crescente Fértil.

As observações mais arcaicas incluíam não apenas as estrelas e planetas mas também muitos outros factores "celestes", como os arco-íris, o voo dos pássaros ou as nuvens. Nesta altura, a Astrologia surge associada a outros métodos divinatórios e é expressa sob a forma de presságios. Os mapas astrológicos, tal como os conhecemos hoje, ainda não existiam.

Os planetas são os factores mais antigos em uso na Astrologia. As suas características e funções já estavam praticamente determinadas por esta altura, não diferindo muito das actuais. No entanto, as Casas e os aspectos não existiam, pelo que tanto os cálculos como as interpretações seguiam regras diferentes. Começam nesta altura a desenvolver-se os métodos de observação e cálculo astronómico. A sua evolução leva ao conceito de Zodíaco e com ele nasce a atribuição das regências dos signos aos planetas.

Um dos registos mais extensos desta época data do 2° milénio a.C. é denominado Enuma Anu Enlil, uma compilação de conhecimentos astrológicos e presságios.

Nesta fase, todo o panorama religioso é favorável ao desenvolvimento da Astrologia. Aliás, esta é praticada por sacerdotes, enfatizando o seu lado mágico, religioso e sagrado.

A Astrologia é sobretudo utilizada para o estudo e previsão de eventos colectivos. As previsões individuais são relativamente raras e, regra geral, feitas apenas para os reis ou outras figuras importantes.

O desenvolvimento astrológico atinge o seu auge durante a dominação persa (meados do século VI a.C.). Durante toda esta época aperfeiçoam-se os calendários e compilam-se registos sobre eclipses e outros fenómenos astronómicos. Também a arquitectura leva em conta os fenómenos celestes: os templos e palácios orientam-se por alinhamentos com as estrelas e as grandes construções só começam em momentos celestes considerados favoráveis.

Período grego ou helenístico

Por volta de 700 a.C., a expansão das rotas de comércio e o incremento do contacto entre os povos mediterrânicos leva à difusão do conhecimento filosófico e religioso.

A Astrologia capta o interesse da civilização grega, que dará grande impulso ao seu desenvolvimento, transformando-a num estudo organizado e com estatuto escolástico.

Figuras muito importantes, como Pitágoras (571 a.C. — 497 a.C.), vão trazer do Médio Oriente todo um manancial de conhecimento que será apurado ao longo de séculos. Surgem nesta altura as teorias geométricas e as grandes bases filosóficas que sustentam a Astrologia Ocidental. Grandes pensadores gregos, como Platão (428 a.C. — 347 a.C.) e Aristóteles (384 a.C. — 322 a.C.) vão desenvolver a Astronomia e a Astrologia com a criação de modelos físicos e metafísicos do Universo.

Datam de cerca de 200 a.C. os primeiros registos de cálculo do Ascendente, inovação que permite o cálculo preciso das casas astrológicas. Esta crescente precisão matemática leva à implementação de novos conceitos. Desenvolve-se nesta altura o mapa astrológico com todas as suas componentes. Em paralelo, a Astrologia Natal desenvolve-se e os horóscopos individuais tornam-se gradualmente mais frequentes.

Nos primeiros séculos da Era Cristã surgem novos pensadores e astrólogos de relevo. Escrevem-se muitos tratados e manuais. Destes estudiosos destaca-se Claudius Ptolomeu (c.100 — c.178), que compilou grande parte do conhecimento astrológico da época na sua obra Tetrabiblos. Este livro vai tornar-se mais tarde uma das grandes bases da Astrologia Medieval (árabe e europeia).

Com a lenta desagregação do Império Romano e a adopção do Cristianismo como religião oficial (em 313, por édito do imperador Constantino) a prática da Astrologia sofre um primeiro declínio. A religião cristã gera uma forte corrente de antipaganismo e a Astrologia passa a ser menos tolerada. A hostilidade por parte da religião cristã em relação à Astrologia (e a outras disciplinas como a Matemática, a Filosofia e a Medicina) reduz grandemente o seu ensino. O processo é agravado pelas convulsões sociais e políticas que varreram o Império Romano durante os 100 anos seguintes, culminando com a sua queda, em meados do século VI d.C. A Europa entra na denominada "Idade das Trevas".

Período medieval

A partir de 632 d.C. os árabes vão tornar-se uma das grandes potências do mundo, ocupando todo o Médio Oriente, Norte de Africa e Sul da Europa (Península Ibérica).

Dotados de enorme interesse pelo conhecimento, os árabes procuraram reunir o conhecimento grego, babilónico e persa, preservando e desenvolvendo a Arquitectura, a Medicina, a Filosofia e também a Astrologia/Astronomia. E graças aos autores deste período que muito do conhecimento da Astrologia Ocidental é preservado. Por volta 700 d.C. começam a surgir no mundo árabe grandes pensadores, cujas obras de Astrologia vão influenciar e modelar o pensamento astrológico ocidental. A Península Ibérica (em especial o Al-Andalus) é nesta altura um dos grandes centros escolásticos do mundo.

Os astrólogos árabes vão dar continuidade à Astrologia Grega, aprofundando a sua precisão matemática e incrementando alguns ramos, nomeadamente a Astrologia Horária.

Com a reconquista cristã e as Cruzadas, no século XI, inicia-se uma fase de troca de conhecimento que vai permitir o desenvolvimento e a renovação da Astrologia no mundo cristão. .A. medida que muitas obras árabes e gregas vão sendo traduzidas, o conhecimento da Tradição Ocidental ganha novo valor.

Nesta época, os astrólogos alcançam um papel importante na sociedade, actuando como conselheiros junto dos reis e nobres. No entanto, os atritos com a Igreja continuam, fazendo com que a prática da Astrologia seja sempre uma profissão de risco. A Astrologia é principalmente usada como método de diagnóstico para problemas médicos, se bem que também assuma um papel importante no aconselhamento político.

A Renascença

Os séculos XV e XVI trazem consigo uma importante mudança de mentalidades: o Renascimento. Há um crescimento da noção individual e começa-se a percepcionar o mundo de forma diferente. A ciência e as artes ganham um novo ânimo e a Astrologia sofre algumas transformações. Questionam-se as técnicas clássicas e ajustam-se alguns dos princípios fundamentais. O crescente descontentamento político em relação aos árabes (representados pelo Império Otomano) e o ressurgir dos ideais gregos leva à adopção da obra de Ptolomeu como a principal fonte da Tradição Ocidental. Acontece que Ptolomeu não menciona vários factores tradicionais e apresenta uma Astrologia muito divergente dos restantes autores da sua época. Assim, muitos elementos tradicionais são tidos como "invenções arábicas" e progressivamente descartados do sistema astrológico. Esta modificação vai criar uma clivagem entre os autores medievais e os renascentistas, gerando alguma instabilidade na prática astrológica.

Nesta época o antagonismo entre a Astrologia e a Igreja Cristã atinge o seu auge. A Igreja condena os juízos astrológicos (a chamada Astrologia Judiciária) devido às suas implicações políticas e ao poder que confere aos astrólogos. Não obstante, os próprios religiosos tinham muitas vezes conhecimentos de Astrologia. A prática astrológica "oficial" nos reinos cristãos fica limitada às questões menos polémicas, nomeadamente a Medicina e a previsão meteorológica. Nos países protestantes a Astrologia é mais tolerada, tornando-se notório o seu florescimento no Norte da Europa a partir do século XV.

O declínio da Astrologia

No fim do século XVI, o desenvolvimento da "Idade da Razão" e a chamada "abordagem científica" provocam uma crise irremediável na Astrologia. O "pensamento científico" da época cataloga a Astrologia como uma superstição e considera-a obsoleta.

A separação final entre a Astrologia e a Astronomia dá-se em 1650. A prática astrológica ainda atinge alguma projecção no século XVII, mas entra rapidamente em declínio, tendo praticamente desaparecido no início do século XVIII. Em 1770 deixa de ser ensinada na Universidade de Salamanca e afasta-se definitivamente do meio académico.

No contexto da época, o desaparecimento do suporte "académico" foi o desabar da única defesa que impedia a prática astrológica de cair na superstição e na mediocridade.

Na tentativa de manter viva a prática astrológica, alguns astrólogos procuraram ajustar o conhecimento simbólico e metafísico da Astrologia à visão mecanicista do racionalismo científico, mas os seus esforços trouxeram mais problemas que benefícios. Na esperança de obter aceitação da mentalidade vigente, simplificam demasiado o sistema, empobrecendo-o em qualidade e em funcionalidade. A tentativa de explicar a Astrologia "cientificamente" levou à deturpação dos seus princípios fundamentais.

A Astrologia torna-se uma brincadeira popular, beirando o passatempo fútil, e é cada vez mais ridicularizada nos almanaques do final do século XVIII. Sem suporte nem prática adequados, a milenar tradição astrológica cai no esquecimento.

O ressurgimento

Na segunda metade do século XIX ocorre um revivalismo da espiritualidade no Ocidente. Muitos conceitos e ramos de conhecimento esotérico começam a ser estudados e recuperados. Entre estes encontra-se a Astrologia.

Os autores desta época pretenderam ser não só restauradores, mas também reformadores da tradição astrológica. Não obstante as boas intenções, o seu trabalho deixou algo a desejar, pois tentou reconstruir a Astrologia a partir de um modelo incompleto e desprovido de conhecimentos profundos da Tradição. Foi sobre esta base frágil e deficitária que se desenvolveu a Astrologia contemporânea. Centra-se quase unicamente na Astrologia Natal e desvaloriza a vertente preditiva; além disso, carece de estrutura filosófica e apresenta uma simplificação empobrecedora das técnicas interpretativas.

Esta situação deficitária gerou vários problemas. Por um lado, permitiu que as opiniões pessoais (mesmo as mais fúteis e desinformadas) assumissem tons de autoridade; em consequência desta proliferação, a Astrologia desmultiplicou-se em incontáveis correntes e abordagens, muitas delas desprovidas de conteúdo. Por outro lado, levou alguns praticantes sérios a dedicar-se a outras áreas do conhecimento, na tentativa de colmatar as falhas da sua prática astrológica, gerando ainda mais confusão.

O panorama actual

Já no século XX, com o surgimento da Psicologia e o crescente interesse no desenvolvimento pessoal nascem a Astrologia Psicológica e a Astrologia Humanista, centrada exclusivamente no ser humano.

Este "casamento" da Astrologia com a Psicologia e as Ciências Sociais leva ao surgimento de movimentos ideológicos que apelam para o seu uso como "ferramenta de autoconhecimento". Adapta-se então a linguagem psicológica à Astrologia e surge o conceito de "Astrologia como auxiliar do aconselhamento psicológico", mais centrada numa espécie de psicanálise simplificada baseada em símbolos astrológicos, do que na interpretação astrológica em si.

Esta perspectiva vai influenciar todas as linhas de desenvolvimento da Astrologia no século XX. A Astrologia Natal, que estuda o horóscopo individual, torna-se a forma mais praticada, relegando os outros ramos, como a Mundana e a Horária, para uma quase inexistência.

Em paralelo, separa-se a Astrologia do embaraçoso legado da previsão, de forma que a capacidade preditiva, núcleo essencial da Astrologia, se torna um tema tabu sendo substituída por "previsões" generalistas.

Como facilmente se compreende, o aumento da popularidade da Astrologia leva ao aparecimento de versões simplificadas. O "signo solar" e os "horóscopos de revista" são tristes consequências da mediocrização a que a Astrologia está sujeita.

Nas décadas de 60 e 70 floresce uma cultura pró-espiritual, consequência da "importação" de filosofias orientais para a Europa e Américas. E nesta fase que se popularizam temas como reencarnação, karma, meditação, etc.

Na Astrologia, este influxo de novas ideias traduz-se em abordagens "kármicas", espirituais e esotéricas de qualidade muito variável — estudos mais sérios ou simples colagem de crenças pessoais ao sistema astrológico. Entretanto, as bases espirituais e metafísicas da Astrologia continuam ignoradas pela maioria dos praticantes.

Em termos técnicos, o século XX trouxe à Astrologia a facilidade de cálculo provida pelos computadores. Embora esta facilidade seja uma bênção para o praticante sério da arte, também acarreta alguns inconvenientes, pois permite que pessoas sem quaisquer conhecimentos de Astrologia calculem mapas astrais. Confunde-se assim capacidade de cálculo com capacidade de interpretação, esquecendo que o computador é um mero instrumento e que não habilita ninguém a fazer interpretações astrológicas.

Actualmente também se testemunha o aparecimento de inúmeras técnicas astrológicas, muitas delas meras derivações matemáticas com pouco (ou mesmo nenhum) uso prático. Transmite-se a ideia que "o novo é bom", sendo inventadas novas "técnicas" e "abordagens" todos os anos. Observa-se, para além da inclusão dos planetas trans-saturninos (Urano, Neptuno e Plutão), o uso indiscriminado de inúmeros asteróides e planetóides, levando a interpretações e simbolismos cada vez mais intrincados e desnecessários.

Como resposta à subjectividade com que a Astrologia moderna se depara, na década de 90 surgiu um movimento de tendência mais clássica e tradicionalista, que é estimulado pela tradução e publicação de livros antigos. A comparação entre a prática tradicional milenar e a actual traz consigo a compreensão de quão incompleta (e mesmo errada) está a Astrologia moderna. Este redescobrir da Tradição provoca um ressurgimento dos esquecidos ramos de Astrologia Horária e Mundana.

Actualmente a Astrologia inicia um lento retorno às origens, de onde se espera que volte a emergir como um corpo de conhecimento novamente coeso, sólido e funcional. Cabe aos estudantes e praticantes actuais dar continuidade a este processo de restauração e dignificação da Astrologia.


Helena Avelar e Luis Ribeiro, in Tratado das Esferas - um guia prático da tradição astrológica. Editora Pergaminho. Cascais, Portugal, 2007, pp. 22-8.