quarta-feira, 22 de junho de 2016

Astrologia e sua Aplicação à Psicologia, por Dane Rudhyar

Para nós, o grande valor das citações acima é o fato de serem provavelmente do maior psicólogo de nosso tempo. Se o Dr. Jung, cientista e psiquiatra praticante, depois aluno de Freud, e (malmente expoente de suas próprias descobertas e interpretações como fundador da escola de psicologia analítica de Zurique, descobriu o princípio de "sincronicidade" como resultado de sua prática psicológica, este fato é realmente significativo. Pois mostra que enquanto o causalismo e mecanicismo provaram ter valor inestimável no estudo dos fenômenos físicos, não conseguiram explicar muitos dos mais característicos dentre os fenômenos psicológicos. Por isso, de certo modo, está justificada a tese de Bergson. Valores espaciais referem-se à matéria, mas tudo que é psicológico precisa de valores baseados em tempo, para sua explicação — tempo real, que continua. Portanto o princípio da sincronicidade se ajusta ao quadro psicológico, pois representa uma avaliação-tempo. Baseia-se na capacidade plástica do momento. Assim, astrologia e psicologia se tornam intimamente ligadas. De fato, diz o Dr. Jung:

A astrologia é reconhecida pela psicologia, sem maiores restrições, porque representa a soma de todo conhecimento psicológico da Antiguidade. (op. cit., p. 143)

Por mais importante e inestimável que seja essa afirmação, precisamos dizer, no entanto, que ela implica uma concepção da natureza da astrologia que demonstramos ser incorreta, estritamente falando. A astrologia, mesmo do modo como nos foi legada tradicionalmente por Ptolomeu, não é a somatória da psicologia antiga. Primeiro, porque se refere a muitas coisas além da psicologia — de assuntos governamentais à meteorologia e à condição das safras. Segundo, porque, como vimos na primeira parte do capítulo anterior, a astrologia em sua essência não é para ser identificada com nenhuma ciência empírica ou experimental, mas na verdade é o princípio organizador dessas ciências que lidam com vida e significado em relação com "todos orgânicos", tal como a matemática é o princípio organizador de ciências que lidam com matéria inanimada e o campo das "partes".

É verdade que o corpo de conceitos, julgamentos e opiniões que nos foi legado por Ptolomeu e pelos astrólogos árabes pode dar-nos uma excelente ideia do que foi a psicologia da Antiguidade. Mas isto porque os livros sobre astrologia que temos são coleções de aplicações específicas dos princípios de simbolismo astrológico. São manuais que contam como aplicar a astrologia a vários assuntos — sendo psicologia e natureza humana os principais. Não são, direta e coerentemente, manuais de astrologia estrita. Precisamos insistir nesse ponto, por ser básico. Pela falta de entendimento disso, as ideias sobre o valor da astrologia de uma enorme maioria de pessoas vêm sendo consistentemente distorcidas.

Um manual de astrologia estrita deveria lidar com:

1) um estudo dos princípios do que chamamos lógica holística;

2) um estudo dos dados concretos e implicações simbólicas da astronomia geocêntrica, como também da heliocêntrica;

3) um estudo de todos os elementos usados pela astrologia, não em termos de qualquer aplicação específica, mas em termos da lógica inerente em suas definições e correlações mútuas;

4) uma pesquisa geral dos campos concretos (ou ciências empíricas) a que esses elementos simbólicos podem ser aplicados, e da técnica específica de aplicação, que precisará variar um pouco em cada um desses campos. Isto, obviamente, incluiria exemplos característicos de aplicação.

Em vez de incorporar um programa de estudos desse tipo, a astrologia tradicional se satisfaz descrevendo o modo como uma carta natal (ou horária, ou progredida) deve ser levantada, e tabulando os significados tradicionais associados a cada aspecto e posição, misturando quase irremediavelmente conceitos psicológicos, fisiológicos e puramente divinatórios. Da rationale dos elementos usados para julgamento (posições, aspectos etc.), normalmente muito pouco se diz. Somente nos últimos vinte anos, aproximadamente, é que os livros de astrologia começaram a tentar estudar o "porquê" dos símbolos astrológicos, e é apenas no caso dos cursos dados recentemente por Marc Edmund Jones que a astrologia tem sido ensinada como um vasto sistema de simbolização de todos os domínios da existência, em suas correlações triplas de forma, substância e atividade.

Este livro não é nenhuma tentativa de cobrir adequadamente os tipos de estudo acima mencionados. Sua proposta é pavimentar o caminho para um novo tipo de astrologia que seria filosoficamente sadia e cuja aplicação à psicologia moderna ajudaria as pessoas a viver vidas mais significativas, portanto mais espirituais.

A "saúde" filosófica se apoia na absoluta coerência de ideias e consistência no desenvolvimento e aplicação dos princípios e símbolos básicos utilizados. Quanto à "utilidade psicológica", isto naturalmente dependeria muito do tipo de materiais psicológicos que estivessem sendo correlacionados com os símbolos astrológicos. Como já foi dito, a maioria dos manuais de astrologia lida apenas com um tipo de psicologia do "senso comum", de caráter bastante superficial; outros, com uma psicologia influenciada por ideias teosóficas mais ou menos válidas, nem sempre filosoficamente coerentes e nem enraizadas na experiência do ocidental moderno. Nossa meta tem sido interpretar os símbolos astrológicos em termos de uma psicologia ocidental "atualizada", consistentemente apoiada, por assim dizer, numa filosofia que põe em relevo os mais recentes e mais vitais conceitos deste século.

Acima de tudo, damos ênfase a valores e utilizamos uma terminologia que são encontrados nos trabalhos de C. G. Jung porque estamos profundamente convencidos de sua validade inerente e também por se harmonizarem de modo tão notável com a estrutura geral do simbolismo astrológico. Portanto nossa primeira tarefa é apresentar ao leitor os princípios gerais da "psicologia analítica" de Jung, uma psicologia cujas raízes podem se encontrar na psicanálise de Freud, mas cujo tronco e florescimento vivem em estratos de existência quase tão distanciados do pensamento freudiano quanto a visão de um Lao-Tze ou de um Platão está distanciada da de um vivisseccionista de laboratório.

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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.