sexta-feira, 24 de junho de 2016

Consciente e Inconsciente, por Dane Rudhyar

De acordo com Freud, todos os processos mentais (exceto a recepção de estímulos externos) derivam da correlação de forças que originalmente são da natureza dos instintos, isto quer dizer, que têm origem orgânica. No entanto, existe na mente uma força que pode excluir da consciência e de qualquer influência sobre a ação todas as tendências que, por algum motivo, não lhe sejam aceitáveis. Essas tendências são "reprimidas". Elas ficam abaixo do limite da consciência e se tornam conteúdos inconscientes. Esses impulsos instintivos reprimidos, no entanto, não perdem seu poder; atuam indiretamente, causando distúrbios psicológicos e fisiológicos.

Jung admite a existência desses conteúdos reprimidos, que em sua soma total constituem o que ele chama inconsciente pessoal, mas também fala de um inconsciente coletivo, que tem origem e significado completamente diferentes:

Tal como o corpo humano mostra uma anatomia comum acima de todas as diferenças raciais, assim também a psique possui um substrato comum. Chamei-o inconsciente coletivo. Como uma herança humana comum, ele transcende todas as diferenças de cultura e consciência e não consiste meramente de conteúdos capazes de se tornarem conscientes, mas de disposições latentes para reações idênticas. Daí o fato de o inconsciente coletivo ser simplesmente a expressão psíquica da identidade da estrutura cerebral, independente de todas as diferenças raciais. Por meio dele, pode-se explicar a analogia, que chega a ponto de ser uma identidade, entre vários temas de mitos e símbolos, e a possibilidade de entendimento humano em geral. As várias linhas de desenvolvimento psíquico começam de um tronco comum, cujas raízes se estendem ao passado.

Tomado de modo puramente psicológico, isto significa que temos instintos comuns de ideação (imaginação) e de ação. Toda imaginação e ação conscientes cresceram a partir desses protótipos inconscientes e continuam ligados a eles.


(Comentário sobre O segredo da flor de ouro, p. 83)

A relação entre consciente e inconsciente é descrita adiante nas seguintes afirmações:

Sem nenhuma dúvida, a consciência é derivada do inconsciente. Isto é algo de que nos lembramos muito pouco, e por isto estamos sempre tentando identificar a psique com consciência, ou ao menos tentando representar o inconsciente como um derivativo, ou como um efeito do consciente (como por exemplo na teoria freudiana da repressão).
(Comentário sobre O segredo da flor de ouro, p. 119)

O inconsciente tem conteúdos peculiares de si mesmo que, crescendo lentamente a partir das profundezas, ao final chegam à consciência.
(Modern Man in Search of a Soul, p. 37)

Tais conteúdos, que surgem das profundezas do inconsciente coletivo, geralmente recebem o nome de arquétipos ou imagens primordiais. Também se diz que os "instintos são arquétipos" e que "os conteúdos do inconsciente coletivo não são meros resíduos arcaicos de modos especificamente humanos de funcionamento, mas também os resíduos de funções da ancestralidade animal da humanidade". Eles...

podem ser encontrados em todas as mentes. As imagens primordiais são as mais profundas, mais antigas e mais universais dos pensamentos da humanidade. Elas são ao mesmo tempo sentimentos e pensamentos, e têm de fato uma existência individual, independente, parecida com a das "almas parciais", que facilmente podemos discernir em todos aqueles sistemas filosóficos ou gnósticos que se baseiam na percepção do inconsciente como a fonte do conhecimento, como por exemplo, a Geisteswissenschaft antroposófica de Steiner. A concepção de anjos, arcanjos, "principados e poderes" em São Paulo, dos arcontes e reinos de luz nos gnósticos, das hierarquias divinas em Dionísio, o Areopagita, todas vêm da percepção da independência relativa dos arquétipos do inconsciente coletivo.
(Two Essays on Analytical Psychology, p. 68)

Não devemos tentar discutir aqui as afirmações passíveis de questionamento contidas na última parte dessa citação, já que nosso propósito por ora é apenas apresentar alguns dos conceitos básicos da psicologia analítica, aos quais faremos referências frequentes no restante deste livro. No entanto, como o problema da existência "real" de "deuses" e "seres ocultos" é de grande interesse da maioria dos estudantes de astrologia, voltaremos a mencioná-lo no capítulo "Individual, coletivo, criativo e os processos cíclicos", e tentaremos demonstrar a relação existente entre as "imagens primordiais" de Jung e pelo menos certas classes de seres cósmicos mencionados por algumas religiões e pelo ocultismo.

O ponto principal a ser considerado é que, enquanto Freud dá um caráter puramente secundário e negativo ao inconsciente, Jung o vê como um fator positivo e primordial, na verdade, como a verdadeira matriz, fora da qual o consciente cresce por diferenciação. Ele reconhece, entretanto, a existência de um "inconsciente pessoal", resultado de inibições e perversões que ocorrem durante o processo de diferenciação do consciente. Este "inconsciente pessoal" é quase idêntico ao "inconsciente" de Freud. Mas, apesar de ser um fator básico em sua terapia, Jung deixa para o "inconsciente coletivo" o lugar de maior importância em sua filosofia e atitude diante da vida em geral.

Com Freud e Adler, a psicologia é quase inteiramente uma questão de cura. O primeiro ressalta a cura de distúrbios psíquicos, que são quase estritamente considerados doenças, e, após terem sido hipoteticamente removidas suas causas, deixa-se, mais ou menos, que a "natureza" tome conta da situação. Adler, por outro lado, lida mais especificamente com a questão do reajustamento às condições sociais e aos valores coletivos do indivíduo que, por alguma razão, foi incapaz de fazer um ajuste social correto na juventude ou depois dela. Ele parte do indivíduo e de sua inabilidade como um indivíduo de funcionar na coletividade, enquanto Freud tenta remover das partes submersas da psique individual os resultados das mentiras e as perversões impostas sobre o indivíduo pelo coletivo (hábitos familiares e raciais, tendências hereditárias, influências ambientais etc.).

Jung tenta não apenas sintetizar as duas abordagens em sua prática terapêutica, mas avançar. Ele tende a se tornar um "curador de almas" de uma maneira que lembra os professores espirituais e os gurus orientais — talvez especialmente os professores da escola zen do Japão. Dissemos apenas "que lembra", pois obviamente a técnica de Jung é bem diferente da dos antigos "professores espirituais". Ainda assim, a questão é que ele sustenta definitivamente um ideal de consumação humana perante seus clientes e perante a humanidade em geral. Seu trabalho é intencionado e integrador. Ele procura o ser humano completo. Ele vê, não exatamente um "super-homem", mas um "homem-total". E tenta levá-lo em direção à realização de sua visão — em direção à meta que chama individuação.

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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.