terça-feira, 21 de junho de 2016

O Princípio de Sincronicidade, por Dane Rudhyar

Num discurso feito em Munique a 10 de maio de 1930, em memória do grande expoente da sabedoria chinesa e iniciado na psicologia da yoga chinesa, Richard Wilhelm, C. G. Jung fez as seguintes afirmações significativas:

Para mim a maior das realizações de Wilhelm é a tradução do Yi King e os comentários sobre ele. 
...Esse trabalho incorpora, como talvez nenhum outro, o espirito da cultura, chinesa. As melhores mentes da China colaboraram e contribuíram para ele ao longo de milhares de anos. A despeito de sua idade fabulosa, ele nunca envelheceu, mas vive e ainda opera, ao menos para aqueles que entendem seu significado....Qualquer um que, como eu, tenha tido a sorte de experimentar, numa troca espiritual com Wilhelm, o poder divinatório do Yi King, não pode permanecer ignorante durante muito tempo do fato de termos tocado aqui um ponto de Arquimedes, a partir do qual nossa atitude mental do Ocidente pode ser abalada em suas fundações.

...A função na qual se baseia o uso do Yi King, se assim posso me expressar, visivelmente está em franca contradição com nossa Weltanschauung ocidental, cientificamente causal. Em outras palavras, ela é estritamente não-científica, na verdo4e um tabu, e por isso totalmente fora do alcance de nosso julgamento científico e incompreensível para ele.

Há alguns anos, o presidente da Sociedade Antropológica Britânica perguntou-me como eu explicaria o fato de um povo tão altamente intelectualizado como o chinês não ter produzido nenhuma ciência. Respondi que isso deveria ser realmente uma "ilusão de ótica" porque os chineses tiveram uma ciência cujo "trabalho padrão" era o Yi King, mas que o princípio dessa ciência, como tantas outras coisas na China, era totalmente diferente do nosso princípio científico.A ciência do Yi King não está baseada no princípio da causalidade, mas num principio (até agora sem nome, pois ainda não foi encontrado entre nós) que experimentalmente chamei princípio de sincronicidade. Minha ocupação com a psicologia dos processos inconscientes há muito tempo me exigiu procurar um outro princípio de explicação, porque o princípio de causalidade me parecia inadequado para explicar certos fenômenos notáveis da psicologia do inconsciente. Assim, descobri que existem certos paralelismos psíquicos que não podem ser relacionados uns com os outros causalmente, mas precisam ser associados por meio de uma outra sequência de eventos. Essa associação me pareceu estar essencialmente fundamentada no fato da relativa simultaneidade, daí a expressão sincronicidade. Na verdade, parece assim como se o tempo, longe de ser uma abstração, fosse um continuum concreto que contivesse qualidades ou condições básicas manifestando-se simultaneamente em vários lugares, de um modo inexplicável, por paralelismos causais, como por exemplo, nos casos do surgimento coincidente de pensamentos, símbolos ou condições psíquicas idênticos. Um outro exemplo seria a simultaneidade dos períodos de estilo chinês e europeu, fato ressaltado por Wilhelm.


Esta é a própria expressão das ideias básicas que formulamos em nosso capítulo precedente. Tempo como um "continuum concreto" é o que Bergson chama duração real. O fato de ele conter "qualidades ou condições básicas" que se exteriorizam em ideias, culturas e condições psíquicas (individuais ou coletivas) é prova do poder generativo do momento. Cada momento é um todo que gera todos concretos. Além disso, cada momento deve ser considerado o ciclo-unidade, unidade de tempo — tal como o quantum ou o fóton é a unidade de liberação de energia. A energia é liberada por fótons. O significado, ou a identidade, é liberado por momentos. O tempo é o útero de almas, tal como a "Luz" (no sentido mais genérico da palavra) é o útero de todas as energias físicas. Como diria o ocultista hindu, Daivi prakriti (isto é, a Luz do Logos) é a fonte de todas as energias (ou shakti). Todas as energias terrestres podem ser descobertas em sua fonte de origem, o Sol, cujas radiações totais são descritas genericamente pelo termo Luz.

Temos assim, num certo sentido, o dualismo de Luz e Tempo, de fótons e momentos. Estes dois elementos, aos quais deveríamos acrescentar Espaço, são o fundamento da astrologia, que pode basear-se na ênfase em qualquer um deles. Luz e Tempo são simbolizados pela fotosfera do Sol (Vulcano?) e Saturno, que, como já vimos, equilibram um ao outro em cada lado da Terra no sistema solar. Sem entrar em longas discussões metafísicas, podemos no entanto afirmar aqui que Luz é a emanação da totalidade do todo (teoricamente, de qualquer todo perfeitamente integrado — daí a "luz" emanada, se a tradição estiver correta, pelo próprio ser de grandes santos e místicos). Por outro lado, Tempo é a qualidade significativa de qualquer todo, isto é, as características que definem o todo.

Cada todo como um todo teoricamente irradia Luz (algum grau ou tipo de luz, não necessariamente, é claro, aquilo que usualmente chamamos luz e que é a radiação daquele todo cósmico: o Sol). Cada todo como um todo representa ou simboliza uma qualidade, que é a manifestação de um determinado momento no Tempo. Tempo gera unidades, e cada todo, como já vimos, precisa ser definido, limitado. Portanto é uma unidade específica. Luz é a manifestação da totalidade dessas unidades. O fóton é descrito pela fórmula hv, na qual a letra v representa a particularidade da unidade (a velocidade particular ou freqüência ou "tom fundamental" do todo), e h simboliza a universalidade (o fato universal de totalidade exteriorizada como Luz, "totalidade operativa").

Poderíamos dizer que qualquer ciclo, como um quantum de duração, também é definível pela fórmula hv, na qual h representa a potência universal de Tempo (ou seja, o Poder Criativo universal, ou Deus), e v o valor unitário da duração do ciclo. Assim como não há liberação de energia exceto por quanta inteiros, não há progresso em identidade ou totalidade a não ser através de ciclos inteiros. A identidade progride de ciclo em ciclo, e somente através da perfeita completação desses ciclos (durem estes um minuto ou um éon). Aquele que não completa o menor dos momentos nunca pode realizar o ciclo maior — uma doutrina implícita na última parte dos aforismos de Patanjali sobre a yoga.

Isto é a filosofia tanto holística quanto astrológica, pois a astrologia não tem nenhum valor real a não ser que nos capacite a viver o momento, ou qualquer ciclo que estejamos passando, mais completa e significativamente. Viver plenamente cada momento é encontrar Luz em cada momento, e ser iluminado por essa Luz. Escuridão é sempre o resultado de não-plenitude. Os momentos ou ciclos não-completados projetam sua sombra sobre os momentos futuros: isto é carmes — ou o que chamamos antes tempo negativo, tempo não-iluminado.

A identidade progride pela completação dos momentos, e cada momento ou ciclo nos apresenta uma nova qualidade a ser completada. Assim, cada nascimento para o todo universal é uma questão de completação. O todo encontra em cada nascimento uma qualidade, um novo dharma (em terminologia hindu) a ser completado. Não é apenas que "tudo o que nasce ou é feito neste momento do tempo tem as qualidades deste momento de tempo" (Jung, op. cit., p. 143), mas que cada momento cria para cada todo o dever de completar a qualidade daquele momento. Este princípio tem um significado que apresenta uma proposta bem como uma explicação. E isto lhe dá um valor psicológico ainda maior. Como veremos adiante, a função da astrologia não é contar-nos o que acontecerá, ou melhor, o que poderá acontecer, mas sim o significado que existe em cada momento ou ciclo vivido ou por viver. Ela revela a qualidade de momentos específicos e de ciclos mais abrangentes enraizados naqueles momentos.

Evidentemente, isto foi bem compreendido por C. G. Jung, que disse no mesmo discurso memorial:

A astrologia seria um exemplo em grande escala de sincronismo, se tivesse a seu dispor descobertas cuidadosamente testadas. ...A medida que existem deduções astrológicas realmente corretas, elas não se devem aos efeitos de constelações, mas a nossos caracteres de tempo hipotéticos. Em outras palavras, seja o que for que nasça ou seja feito neste momento, tem as qualidades deste momento do tempo.

Esta também é a fórmula fundamental para o uso do Yi King. Como se sabe, descobre-se o hexagrama que caracteriza o momento através de um método de manipulação de hastes de milefólio, ou moedas, um método que depende do mais puro acaso. Tal como é o momento, caem as varetas rúnicas...

O tipo de pensamento construído sobre o princípio de sincronicidade, que atinge seu ponto alto no Yi King, é a mais pura expressão do pensamento chinês em geral. Para nós, esse pensamento esteve ausente da filosofia desde o tempo de Heráclito, e s6 aparece como um eco fraco em Leibnitz.

Entretanto, no tempo que decorreu entre eles, não foi extinto mas continuou a viver no crepúsculo da especulação astrológica e permanece até hoje nesse nível.


____________________________________________________Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.