sábado, 25 de junho de 2016

Individuação, por Dane Rudhyar

Para entender o significado completo deste termo, é necessário primeiro compreender a situação criada, filosófica e praticamente, pela divisão junguiana da psique em dois domínios positivos: consciente e inconsciente. O inconsciente de Freud não oferecia nenhum problema especial, exceto o de livrar-se dele. Era uma sombra negativa, quase patológica, dissipada ao menos teoricamente pela luz da consciência ampliada e normalizada. Mas o inconsciente coletivo de Jung não é para ser dissipado, e sim para ser assimilado. É o mar de onde emerge o ego consciente, um mar que pode afogar esse ego mas que, por outro lado, uma vez funcionando dentro da estrutura de um ser orgânico consciente e completo, um self, se transforma em seu sangue — um sangue que é água do mar individualizada.

É óbvio que isto é um símbolo. Mas contém alguma verdade quanto à natureza do relacionamento do consciente com o grande inconsciente. Este último deve ser integrado ao primeiro, e esse processo de integração, que reúne as duas polaridades da psique, é uma constante assimilação de conteúdos inconscientes pelo consciente. Através dele, que também é o processo de "casamento" psicológico no ser individual, o ego — o centro do consciente — cresce como que para além de si mesmo e torna-se o self plenamente integrado — o centro da totalidade do ser humano plenamente desenvolvido. Esta consumação (que num certo sentido nunca é foral, pois é possível conceber ou postular a existência de esferas dentro de esferas de inconsciente coletivo) é individuação: o "tornar inteiro", ou "tornar perfeito" dos sistemas de desenvolvimento espiritual mais antigos.— mas com uma diferença devido ao novo nível mental atingido pela humanidade.

Jung é cuidadoso ao distinguir entre o ideal de individualismo (especialmente o "individualismo rude"!) e o de individuação. Ele escreve:

Individuação significa tornar-se um ser único, distinto e, d medida que o conceito de individualidade abarca esta qualidade intima, última e incomparável do nosso ser, ela também inclui a ideia de nos tornarmos o nosso verdadeiro self. Portanto individuação também poderia ser traduzida por "atingir o estado de ser si mesmo" ou "realização de si". ...O individualismo é uma tentativa propositada de ressaltar e fazer notar alguma peculiaridade ostensiva em oposição a considerações e obrigações coletivas. Mas individuação significa precisamente uma realização melhor e mais plena dos planos coletivos da humanidade, uma vez que a consideração adequada da peculiaridade do indivíduo é mais conducente a uma melhor realização social do que quando essa peculiaridade é negligenciada ou reprimida. Pois a qualidade única de um indivíduo não deve ser entendida meramente como uma qualidade estranha ou singularidade de sua substância ou componentes, mas sim como uma combinação peculiar de elementos, ou como uma diferenciação gradual de funções e capacidades que, em si, são universais. ...A individuação s6 pode significar um processo psicológico evolutivo que realiza a disposição de dado indivíduo. Em outras palavras, é um processo pelo qual o homem pode criar a partir de si mesmo aquele ser definido, único, que ele no fundo sente ser. Ao fazer isso, ele não se torna "autocentrado" no sentido comum da palavra, está apenas realizando a particularidade de sua natureza, coisa muitíssimo diferente do egoísmo do individualismo.

À medida que o indivíduo humano, como unidade viva, é composto de fatores universais, esta unidade é totalmente coletiva, e portanto não se opõe d coletividade em nenhum sentido. ...A individuação tem por meta uma cooperação essencial de todos os fatores.

(Two Essays on Analytical Psychology)

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Extraído do livro Astrologia da Personalidade, de Dane Rudhyar.