segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

do amor, do prazer, da amizade e do casamento, por Claudio Fagundes



Peço aqui uma pausa sobre todas as conjecturas em termos de desejos e sentimentos. Uma pausa apenas, num mundo que não existe, nem vale a pena, sem desejos nem sentimentos. Os desejos nos levam adiante, nos conduzem além do racional usando de todas as nossas forças e fragilidades. O caminho da Sefiroth, que se denomina Os Amantes é o caminho da transformação.

O Roberto Freire costuma dizer que "sem tesão,não há solução". É esse o título de um de seus livros. Mas o que é tal tesão? É o tesão que sentimos, aquele desejo vazio, dos olhares que se cruzam em uma calçada da vida? Daqueles que se cruzam em uma reunião social? O tesão que sentimos por um ícone do desejo, uma artista de cinema, um paradigma todo certinho? Não, esse é um tesão sim, mas não é o tesão que leva à transformação. Seria esse tesão que faz nos mover, sair da inércia cotidiana? Não acho que não. A maioria desses pequenos tesões que sentimos ao percorrer do caminho diário são incapazes de nos fazer mover mesmo até eles. Eles são efêmeros e ali mesmo morrem.

Com a ajuda da Astrologia podemos entender um pouco mais sobre as diferentes variações do amor e do prazer... e entender um pouco mais sobre o casamento e relações semelhantes. O mundano na Astrologia (e tudo isso pertence ao mundano) é representado pelas Casas Terrestres. E nessas tais casas precisamos focar a Casa 5, a Casa 7, a Casa 8 e a Casa 11. No meu entender essas 4 casas terrestres descrevem os principais nuances de uma vida afetiva saudável e honesta.

A Casa 5 representa o prazer. O prazer puro que não transcende e nem transforma. É uma brincadeira de delícias. Aqui realizamos toda a diversão e o sexo é como um jogo de desafios de extrair de si e do outro, todas as delícias possíveis e todas loucuras de perder a cabeça e as responsabilidades. A Casa 5 é também a casa das crianças. Aqui transformamos o amor em um parque de diversões. Tudo é leve, tudo é puro, tudo é simplesmente prazer. A Casa 5 é o reino do egocentrismo dadivoso. Aqui ninguém se perde, nem perde o caminho de casa. É como sexo entre adolescentes.

Vamos pular para a Casa 8. A Casa 8 é densa. Se a Casa 5 representa a sexualidade superficial, a Casa 8 representará os domínios da sexualidade profunda. Se a Casa 5 é a fogueira, a Casa 8 será as águas putrefatas de um pântano. A Casa 8 envolve o nosso eu profundo, o nosso ser, e nos coloca a mercê de nós mesmos. Sim, o Outro, há o Outro. O Outro é aquele que não compreendemos, mas que nos leva a ações que jamais seríamos capazes de ter se não houvesse esse Outro catalisador de nosso ímpeto para a transformação. Sim, esse Outro que não compreendemos e nos cativa inexplicavelmente, capaz de nos fazer mover e até a mudar nossos hábitos e manias mais enraizadas, encardidas que nossa roupa suada. Esse tesão não é um tesão vulgar. Ninguém aposta a sua cabeça com o Diabo vulgarmente. Sim, porque estamos mergulhando naquilo que não compreendemos. E aí surgem os nosso instintos mais primários para nos empurrar nos levar e conduzir, sem qualquer racionalidade explicativa.

Na Casa 5 o amor é meramente prazer. É como um homem que procura tal prazer nos braços de uma prostituta. É como aquele que não tem coragem para tal e simplesmente se masturba. Falo de homens e mulheres. Porque o prazer comprado tem sua própria ética. Como os jogos tem suas regras, os bordéis formais e informais também o tem. E a regra aqui é manter-se no casual sem qualquer aprofundamento mais denso.

Na Casa 8 o prazer é o risco da morte. Aqui se destroem realidades. Aqui não sabemos lidar com os negócios mais simples da vida mundanas nos quais tudo tem um preço. E um preço reduzido a unidades monetárias. Não. Aqui o preço é a própria vida. Aqui o sujeito que entra, jamais será o mesmo depois. Algo de si morre pelo caminho, mas obviamente algo também nasce. Aqui aposta-se tudo e o que vem em troca não é mais comparável. Não se tem um sentido compensatório objetivo. Mas a Casa 8 é a casa da transformação, é o que nos tira da inércia. Sim aqui o tesão tem uma solução, ao contrário do prazer da Casa 5, aqui o tesão não é simplesmente matéria. Envolve o espírito, ou seja, o nosso próprio ser e seu porvir.

A Casa 5 e a Casa 8, entretanto, são domínios íntimos. Envolvem decisões personalíssimas e que não dão respostas, portanto, para terceiros. As respostas para terceiros são estabelecidas pela Casa 7 e pela Casa 11.

A Casa 7 é a casa que representa o casamento. O casamento não é propriamente um fruto da irresponsabilidade da Casa 5 ou da inclemência da Casa 8. É outra relação e que poderá, entretanto, ter relações de prazer e de transformação. A Casa 7 é a casa das associações. Aqui formalizamos uma relação como formal e através desta forma assumimos responsabilidades. A Casa 7 é uma formalização de uma sociedade. Para o mundo passamos a agir em conjunto. Aqui respondemos solidariamente pelas nossa ações no mundo e para esse organismo teórico que chamamos de sociedade. Como uma firma, o casamento é uma empresa. E nele há suas regras de gestão e atuação. No casamento o prazer se transforma (pelo menos teoricamente) em filhos. E os filhos são a outra interpretação que damos à Casa 5. Sublima-se, pois, o prazer para o prazer dos filhos.

A Casa 7 descreve uma posição de amor? Não obrigatoriamente, mas é melhor que sim. Porque só por amor podemos abrir mão de outros prazeres e possibilidades. A Casa 7 sozinha não é a garantia de absolutamente nada a não ser de um compromisso e obrigações formais. Isso em seu estrito sentido, mas nada na vida é estrito. Tudo trás em si uma infinidade de sentidos.

A Casa 11 representa a amizade. Enquanto a Casa 7 representa relações formais, a Casa 11 nos fala de relações das mais informais possíveis. O compromisso e a responsabilidade não são rígidos e em nome da amizade tudo se pode compreender e, provavelmente, até perdoar. Mas entretanto existem aqui elos informais talvez mais fortes que os formais regidos pela Casa 7.

A Casa 11, como a Casa 7, é um lugar de relações. A Casa 5 e a Casa 8 não são lugar de relações: são algo que podem existir dentro das relações. Ou não.

O amor profundo e o prazer superficial não tem nada a ver com as relações que estabelecemos. O prazer pode acontecer na Casa 7 ou na Casa 11, ou mesmo em nenhuma delas. Para quem não sabe, a Casa 3 rege outra forma de relação: as relações não escolhidas. O casamento e a amizade são relações escolhidas: nós escolhemos nosso cônjuge e nossos amigos. Na Casa 3 estão as relações não escolhidas: vizinhos e parentes próximos (primos, por exemplo). Nos interessa aqui aquilo que escolhemos.

Estamos aqui com uma questão moral e com uma questão ética. Uma questão essencialmente de escolha. A Casa 5 é fútil por natureza. A Casa 8 pode ser fundamental para a nossa própria coerência pessoal. Mas como elas funcionam quando não há mais nem prazer e nenhum ímpeto para a transformação?