sábado, 5 de fevereiro de 2011

das perdas e do renascimento, por Claudio Fagundes



Não existe nada mais determinante em astrologia do que um trânsito de Plutão. Talvez seja o único evento que não conseguimos, nem conseguiremos nos safar. Plutão representa o nosso contato com o que desconhecemos, o nosso inferno particular, a nossa falência, o nosso luto mais profundo, tudo aquilo que nos abala mais profundamente. E que nada podemos fazer. Plutão pode significar perda do amor que a gente mais quer, do amigo que mais amamos, pode significar a perda do filho. Nunca traz a nossa morte, mas nos mata um pouco, devagar, como um câncer que se propaga, devastando a nossa vida vagarosamente.

Essas perdas não significam, obrigatoriamente, a morte de alguém. Pode ser pior que a morte. Pode ser a dor de perder uma pessoa que a gente ama; perder para a vida. Perder uma amiga, ou um amigo, para a incompreensão, para o silêncio, para o "não quero mais saber". Sem que haja lógica, nem razão, a pessoa cessa de nos querer.

Plutão representa o ilógico, o inexplicável, o inevitável, o inexorável. Perder um amigo com ele em vida, significa a desilusão da pior espécie. É mais inexplicável que a perda de um amante, porque o desejo é uma chama que se consome e é natural que se desvaneça e se apague e daí nada mais natural que o adeus. Mas a perda de um amigo, com ele em vida, de uma amizade profunda, é uma dor terrível. Nada se pode fazer!

Nem sempre se pode creditar a Plutão uma determinada perda. Saturno é dado a contribuir para perdas mais factíveis. Essas perdas que são terríveis, mas que passam porque têm que passar. A perda do pai, ou da mãe, mesmo fora de hora, é uma perda lógica. A perda de um filho, em contrapartida, é ilógica. è natural que os pais morram antes dos seus filhos e não o contrário. A perda dos pais é coisa de Saturno, porque Saturno é lógico. A perda do filho é coisa de Plutão. Só para entender melhor. Mas, como disse, a perda nem sempre é a morte: pode ser o afastamento, a distância, o alheamento... De qualquer forma é sempre uma dor imensa: incontável.

Há perdas que nem se percebe que perdeu. Só se percebe quando já aconteceu, tempos depois. Há perdas que, entretanto, percebe-se desde o início e se observa como um navio se afastando lentamente em direção ao horizonte. Quando é Plutão, o navio, a gente sabe que não existe a possibilidade de volta. É a nau de Caronte que nos deixa no inferno.

Quem luta contra Plutão, perde! Perde e se arrasa, pois conhecerá a derrota de todas as suas energias. Uma falência múltipla. Mas não morrerá: ficará inválido na dor. Viverá a dor até a última gota de amargura.

Assim, só existe uma maneira de neutralizar Plutão em nossa vida. Mais que neutralizar é uma verdadeira alquimia: podemos tornar Plutão positivo! Como se trata de uma força universal, pois Plutão representa o nossa porta para o universo, há uma maneira de transformar a possibilidade de perda em um impulso vital para a transformação do mal para o bem. E essa alquimia passa por uma interação com Plutão: utilizar o impulso para uma transformação pessoal.

Mas como entender Plutão se ele é inexplicável, ilógico, inexorável? Não, ele não é de todo. Ele é inexplicável pela nossa lógica cartesiana. A astrologia de Plutão é uma leitura de linguagem oculta. Para interagir com tal linguagem é preciso desapego de si, é preciso consciência de si. Significa que o mundano de Plutão não é um exercício agradável para o ego. Se vamos com o ego, as feridas serão profundas.

Ao falar com Plutão, dispa-se! Revele a nudez de toda arrogância e de todo desejo material. Tome impulso e deixe-se levar sem perda de consciência de si, nunca! Caronte levar-lhe-á em sua barca em direção do Paraíso. Ali você renascerá!