segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Civilização versus barbárie (por Puiggros)

Os gregos, os romanos e a maioria dos povos que, em determinado momento, detiveram o monopólio da civilização deram o nome de bárbaros a todos aqueles que não pertenciam a seu âmbito cultural.

Esse fato não era mais que o reflexo da tradicional e clássica dicotomia entre "homem" e "natureza". Ou, dito de modo mais específico, da dicotomia entre o "homem civilizado" e as "forças cegas da natureza". Vertendo tal coisa para uma concepção moderna, falamos de consciência e de subconsciência. Mas pouco importa a forma pela qual a designemos; o certo é que essa luta continua.

Desse ponto de vista, para o civilizado homem atual - como ocorrera anteriormente para o grego -, natureza e barbárie têm muito em comum, quando não são consideradas como sinônimos.

O ego tende a tornar consciente todo o inconsciente, procurando ordenar o caos; mas, para fazê-lo, deve inevitavelmente confrontar-se com esse caos.

A natureza - e nós também somos natureza - é a Deusa Mãe, a, obscura origem da vida; dela tudo nasce e nela tudo termina.

Enquanto geradora, ela traz em si os dois princípios básicos, o masculino e o feminino, através dos quais se expressa das mais variadas maneiras. Plutão representa a expressão masculina, o princípio fálico, da Grande Mãe. É o princípio ativo do caos ou barbárie. Ou pelo menos é a forma pela qual aparece em nossa visão "civilizada".

Quando Plutão age sobre nós - isto é, quando a parte ativa da natureza se manifesta em nós -, somos confrontados com o nosso lado bárbaro, não-civilizado, mas também com o princípio gerador de nossa natureza. Tal como nos aponta o mito, Plutão é um raptor que se apodera de uma parte de nós - da parte inocente ou virgem - e que nos leva ao submundo (ao inconsciente),, onde, depois de nos violar - isto é, fazer-nos perder nossa inocência -, nos obriga a comer a romã, o fruto da árvore do conhecimento, antes de nos devolver ao mundo exterior.

Em outras palavras, através de Plutão adquirimos conhecimento, -mas, para isso, devemos descer – como Dante em sua viagem aos infernos - ao inframundo (ao interior da Terra) para "ressuscitar" três dias depois.

A civilização é resultado da constante luta do homem para entender e controlar a natureza - e, por analogia, para entender e controlar a si mesmo -, e o aparente paradoxo está no fato de que, para poder continuar "civilizando-se", o homem precisa aprofundar-se cada vez mais no lado "bárbaro" de si mesmo.

O descobrimento de Plutão coincidiu com o auge da psicanálise e com o movimento surrealista, que procurava trazer à luz a parte inconsciente da psique. Nada é casual, como tampouco o é o fato de que esse planeta tenha sido descoberto no signo de Câncer, "a mãe do horóscopo", às águas onde tem origem a vida, assim como o fato de que, naquele momento, Plutão estivesse situado entre Castor e Pólux, que, em sua regência, distribuem' entre si o céu de cima e o inferno de baixo. O denso e o vazio interior

Na mitologia greto-romana, Plutão é conhecido como o Júpiter do inframundo; em outras palavras, a Plutão é outorgada a mesma categoria de Júpiter.

Em astrologia, Júpiter é o grande benéfico e, em função disso, supõe-se que Plutão deva ser o maior maléfico de todos;.no entanto, nenhum astro pode ser maléfico de modo absoluto, uma vez que essa característica de "absoluto" pertence exclusivamente ao criador. Contudo, para o homem situado simbolicamente na superfície da Terra, a meio caminho entre o céu e o inferno (o ponto de máxima densidade no centro da Terra) e partícipe de ambos, Plutão representa a outra face de Deus, o anjo da morte, o anjo decaído, com tudo aquilo que tal coisa possa simbolizar em nós mesmos. O reino da obscuridade se opõe ao da luz, o denso ao sutil, a matéria ao espírito, a morte à vida. Complementam-se mas não podem estar juntos; se um reina, o seu oposto não pode reinar, e cada elemento rege aquilo que lhe é análogo.

Plutão rege o mais denso de nós, desde a matéria menos refinada, os desejos não transmutados, até as idéias menos elevadas; ele rege tudo o que nos impele para baixo, tudo o que nos "vincula" à Terra. Para o homem - a alma em encarnação -, representa a matéria que oculta, que encarcera o espírito. Plutão não pode criar, já que este é um atributo do Sol, o doador de vida; sua forma de "criação" consiste em destruir, mas só pode agir sobre aquilo que rege, sobre o que lhe é análogo. Assim, em sua destruição do denso, provoca a metamorfose necessária, que separa o espírito da matéria e que conduz ao desenvolvimento dos múltiplos estados do ser.

Se fôssemos espíritos muito puros, o planeta não teria efeito sobre nós; mas ninguém o é. O fato de encarnarmos, de termos um -corpo físico, nos situa sob a influência de Plutão. A diferença fundamenta-se no fato de que, para os homens puros, Plutão constitui uma ajuda para a libertação dos vínculos com a matéria. Em contrapartida, para os poucos evoluídos, representa um cárcere no qual o espírito se consome e se embrutece.

Para quem o sabe ver, Plutão evidencia o denso, aquilo que deve ser transformado; mas o que deve ser revisado?

Dizemos que Plutão mostra o que está oculto; no entanto, por estar oculta, uma coisa não é necessariamente má e, por conseguinte, sujeita à revisão. Por outro lado, é evidente que o oculto, aquilo que ciumentamente guardamos em segredo, está influindo totalmente em nossa aparência exterior. A fachada, a mascara, está perfeitamente de acordo com o que se deseja ocultar. Existe, portanto, uma relação direta entre o externo e o interno, o público e o privado, e não é possível modificar um sem que o outro seja alterado.

Deve ser modificado aquilo que se encontra em desacordo com o propósito interno real, transcendendo as circunstâncias temporais e ambientais; para isso, é imprescindível que tal propósito esteja claro na mente e, caso se esteja atento, é possível descobrir na atuação "externa" tudo o que deve ser revisado. Pode-se ter consciência das áreas em que o propósito é fraco ou nas quais a atuação não mantém correspondência com a finalidade. É sempre melhor que a ação de Plutão nos encontre orientados para a direção correta; dessa maneira, esta ação se transforma numa ajuda poderosa.

O ser humano, como entidade completa que é, deveria conhecer todas e cada uma das partes que o compõem; embora se trate de uma tarefa difícil, nem por isso deixa de ser imprescindível para que ele' conheça seu propósito. Entendendo sua realidade atual, o homem pode deduzir o que foi e os passos ou etapas a serem seguidos; em outras palavras, pode dar uma resposta à clássica questão: Quem sou, de onde venho e para onde vou? Cito tal coisa porque, caso não se investigue o "quem sou?" e caso seja mantida uma zona "vazia" na complexa totalidade do ser, é muito difícil que Plutão possa mostrar a composição e as qualidades dessas zonas ignoradas.

Plutão, em seu aspecto mais abstrato e em sua pureza mais genuína, é uma lei e, ainda que se procure desconhecer seus preceitos, suprimindo da mente consciente as formas circunstanciais pelas quais essa lei se manifesta, não e possível evitar, de modo algum, seus poderosos efeitos.

Plutão evidenciará esse "vazio" interior e, não dispondo de canais adequados para aproximar-se, em forma e quantidade precisa, de cada necessidade, buscará por si próprio seus meios de expressão, arrebatando, em sua passagem, qualquer obstáculo que encontre.

Essa força tem uma qualidade regeneradora, mas, se todos os seus canais forem fechados, desviar-se-á pela linha de menor resistência, composta pelos hábitos; estes últimos não poderão resistir a esse imenso caudal e, dessa forma, o homem se verá inevitavelmente superado pela caricatura que fez de si mesmo, afastando-se cada vez mais da imensa e rica realidade que, de modo latente, o constitui.