segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Como Plutão te Desnuda (por Puiggros)

Plutão representa o limite, "o círculo intransponível" de nossa consciência atual. É o último círculo conhecido, o rio circular que as almas dos mortos atravessam antes de chegar ao "outro mundo".

Diante da morte, como é bem-conhecido, todos devem apresentar-se desnudos; ninguém leva nada para o outro lado.

A possibilidade plutoniana de morrer em determinada situação, de acabar com um estado definido e passar a outro novo, assim como a opção de dar um passo adiante; supõe que, dê modo prévio - e isso constitui a ação de Plutão -, a pessoa se tenha despojado de todas as suas vestes, de seus critérios e escalas de valores. Para enfrentar com êxito uma situação nova, Plutão destrói, aniquila, desintegra tudo aquilo que não é útil.

Plutão desnuda, deixando-nos no vazio mais absoluto. Para poder "transcender" o cotidiano conhecido, temos de pagar um preço: o de nossos pontos de referência habituais, daquilo em que nos apoiamos e que constitui a razão de ser com a qual nos identificamos. Seja por sua ação externa ou por aquela que provocamos a partir de instâncias mais interiorizadas e desconhecidas, Plutão nos leva a destruir o que amamos, aquilo que foi fundamento e causa de nossa conduta. Todo esse processo gera dor, muita dor, e, ainda que, eufemisticamente, falemos sempre em transformação, trata-se, na realidade, de morte e renascimento. Morremos desnudos e nascemos desnudos e tão inevitável é um como o outro.

É inelutável o fato de que Plutão cause dor ao desintegrar uma situação, estado ou parte da personalidade (senão toda a personalidade). O que sofre variações - e isso depende de como Plutão se situa no tema, bem como de aspectos colaterais - é a compreensão de que essa dor é parte imprescindível de um processo de crescimento, de um destino - e Plutão está muito vinculado ao destino - que nós próprios, pelo menos em parte, construímos para nós todos os dias com nossas ações. A compreensão (e aprender acarreta dificuldades) da mecânica da evolução, a aceitação de que as grandes leis estão acima das pequenas e de que o processo geral evolutivo não deve deter-se diante dos processos individuais - e também de que, algumas .vezes, a personalidade com a qual nos identificamos constitui um obstáculo ao nosso verdadeiro crescimento - minoram essa dor e nos tornam aptos a sobreviver ao tremendo poder com que nos defronta a progressão ou o trânsito de Plutão sobre os pontos sensíveis do tema.